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Negócio fechado

Moreira da Silva também pagou pelo bilhete de entrada, é a linguagem que o denuncia. Como denuncia Guterres, ao contrário do que ele pensa. É por isso que o seu silêncio não surpreende

João Tiago Proença
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O direito romano consagrou a forma do contraditório na fórmula: que seja ouvida a outra parte (audiatur et altera pars). Deu-se mesmo mais um passo e afirmou-se que era necessário ouvir o representante do mal, o diabo, etiam diabolus audiatur. Se o próprio príncipe das trevas deve ser escutado, o passo lógico impõe-se: é preciso dar a palavra ao Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres. E que diz ele? Nada.

Em 12 de Maio de 2026 foi publicado o relatório independente e exaustivo sobre a violência sexual praticada pelo Hamas no ataque de 7 de Outubro de 2023. As conclusões não deixam margens para dúvidas quando ao carácter deliberado, sistemático da selvajaria. Sempre compungidamente preocupado com a paz no mundo e em especial, muito em especial, no Médio Oriente, António Guterres refugia-se num silêncio de chumbo. Desde de 12 de Maio até 30 de Junho, o Secretário-Geral das Nações Unidas pronunciou-se em 109 ocasiões. Não há nelas uma palavra de condenação, uma expressão de repúdio ou um leve sussurro de compaixão pelas vítimas. Nem sequer há uma breve referência ao relatório, que, por mera tramitação burocrática, reconhecesse a sua existência. Nada. Numa agenda que se advinha febril, não faltou, porém, tempo para uma declaração do Secretário-Geral a assinalar o Dia Mundial do Ioga.

Não se trata de um acaso. As prioridades de António Guterres são claras. Já há muito tempo que o anti-semitismo das Nações Unidas – quanto a isso, basta lembrar a Resolução 3379 de 10 de Novembro de 1975 que equiparava o sionismo ao racismo – se rendeu à eficácia do silêncio e da comunicação indirecta. O primeiro controla a agenda noticiosa, impondo as ausências pretendidas; a segunda manipula pela sugestão, recorrendo a todas as formas insidiosas de informação – das falsas equivalências à adjectivação, passando em larga medida pela descontextualização, dados sonegados, etc. Naturalmente, põe-se a questão de saber se António Guterres é um anti-semita convicto, indignado, capaz de explodir em violências várias, ou se é um anti-semita frio, cerebral, que tem como finalidade última da sua acção a destruição do Estado de Israel ou enforcar o último judeu com as tripas do último rabino. Provavelmente, nem uma coisa nem outra. António Guterres terá talvez absorvido algum anti-semitismo cristão na sua infância e juventude. Talvez, mas nunca um anti-semitismo virulento pelo qual conduzisse a sua vida. As Nações Unidas, o hortus conclusus do antiocidentalismo, cobram bilhete de entrada para os seus lugares de topo. O preço é alto: decidir sistematicamente contra o ocidente e, em especial, contra Israel, para tantos em tantas paragens a súmula do ocidente; o bilhete, claro está, inclui também a omertà. Quem não estiver disposto a pagar não entra. Quem fechar o negócio pode subir. Não se trata de anti-semitismo pessoal, a esse nível trata-se antes de carreirismo. Claro que quando se fizer a pergunta: cui bono? a resposta já será outra. À primeira vista, poder-se-ia pensar que o carreirismo é inofensivo em comparação com o ódio visceral, arraigado, ancestral ao judeu. Pelo contrário, o ódio reconhece o outro, negativamente mas reconhece, não vive sem ele; o carreirismo obsequeia todos os senhores, sem escrúpulos específicos – para ele tudo é matéria indiferente. E é por isso que presta tão bons serviços ao anti-semitismo e ao antiocidentalismo: a sua acção é avaliada exclusivamente de um ponto de vista técnico e neutro. Os fins nunca entram na equação. Por uma boa razão, o único fim do carreirista é o seu ego, que dissolve numa estrutura exterior, objectiva; desresponsabilizando-se em absoluto, vê-se como a cog in the machine.

O caso insigne foi o de Eichmann, a propósito de quem Hannah Arendt cunhou o conceito de banalidade do mal. No mesmo texto, Eichmann em Jerusalém – Uma reportagem sobre a banalidade do mal, Arendt chama a atenção para a relação de Eichamann com a linguagem. A despersonalização consuma-se quando os meios de expressão abolem a interioridade. O chavão, a palavra de ordem, a frase feita são os meios a que Eichmann deita mão para se despersonalizar e, dessa forma, subtrair-se ao juízo de outrem e também ao seu próprio juízo. A linguagem estereotipada é o opiáceo da consciência. E, no entanto, o estereótipo não apresenta uma faceta meramente objectiva, funcional. Há nele uma vertente subjectiva. Tal como no caso de Eichmann, há na linguagem dos altos funcionários das Nações Unidas uma euforia associada ao lugar-comum, mas sobretudo, ao estilo empolado, pocho, postiça e programaticamente lamechas da sua linguagem. No caso de Guterres exibe-se infalivelmente, seja qual for o assunto. No tema das alterações climáticas, o Secretário-Geral porfia no tremendismo. E no caso de Israel também. Quanto maior a mentira, mais a linguagem é falsa, de uma parolice poética a toda a prova. Que se trata de uma lógica da instituição, pode-se ver noutro exemplo.

Tome-se o caso de Jorge Moreira da Silva, um ratoneiro político que segue o exército de Guterres para arrebanhar o que puder do saque por vil preço. Entrevistado num podcast O que fazer quando tudo arde? de 27 de Abril – era uma questão de tempo até surgir a frase bombástica, o estilo de poetastro, o catastrofismo irrealista imposto pela selectividade anti-semita – o actual subsecretário-geral das Nações Unidas e director da agência da ONU UNOPS,  não hesita: «Vamos ser todos julgados pelo que fizemos ou não fizemos em Gaza. Gaza é um conflito que não tem paralelo.» À imagem e semelhança de Guterres e da ONU, Moreira da Silva consegue debitar mentiras e alarvidades uma atrás das outras. Sobretudo e sempre em hipérboles morais. Ninguém será julgado pelos outros conflitos? Não tem paralelo, como assim? Em comparação com o número de mortos da guerra da Rússia contra a Ucrânia? Em comparação com o número de mortos do genocídio no Ruanda? Por aí fora e por aí adiante ao longo da história. Moreira da Silva também pagou pelo bilhete de entrada, é a linguagem que o denuncia. Como denuncia Guterres, ao contrário do que ele pensa. É por isso que o seu silêncio não surpreende – é um silêncio que já tinha sido dito em todas as palavras que disse.