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Moda com legado e identidade: Maria Gambina rejeita as massas, Hugo Costa aposta na Vinted e Susana Bettencourt anuncia pausa

Enquanto os mais jovens tentam as fábricas e focam no mercado internacional, Maria Gambina, Hugo Costa e Susana Bettencourt vão do digital ao ensino para se manterem pequenos e sustentáveis.

Sâmia Fiates
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Inês Lacerda
photography

No final do desfile no M-Odu, no Porto, no último dia do Portugal Fashion, já com todas as manequins na passerelle, Susana Bettencourt entra séria, a caminhar por entre as suas criações. Para diante das câmaras, agradece com uma reverência, e sai. Já quase a deixar o espaço, leva a mão à boca — quando passa pelo fumo da porta de acesso à sala, recebe o aconchego de uma das modelos que a seguem. No ar, a emoção de uma despedida (ou um até já).

Equinócio é uma “celebração às fases de mudança”, assume Susana Bettencourt, que ao Observador explica logo que esta é a sua última coleção antes do “início de uma pausa a nível de desfiles e coleções”. “Vou continuar a marca sempre com o meu made to order, tentar perceber melhor as clientes e o seu feedback, tentar melhorar os meus processos. Mas, acima de tudo, quero continuar a lutar por aquilo que é o meu sonho, porque eu quero que a Susana Bettencourt seja mais do que uma marca; ela é uma escola. Gostava de dar o passo seguinte para uma escola-fábrica-atelier, mesmo com uma estrutura bem pensada e com apoio financeiro”, diz a criadora. “Tenho uma professora dentro de mim e ela acaba por ser, às vezes, mais forte do que a designer.”

O perfil da designer, conhecida pelo trabalho artesanal com malhas, já se reflete no trabalho até aqui. Nos bastidores, um grupo de jovens sentadas em círculo entre as peças do desfile penduradas nos charriots, tricota. “Tenho sete ou oito pessoas a trabalhar comigo, todas estagiárias neste momento. Aprenderam tudo nos últimos seis meses”, conta Susana Bettencourt, que ainda integra ao desfile acessórios e flores feitos em crochê pelas utentes do Lar e Centro Social de Vila Boa de Quires, tal como fez no ano passado. “É o nosso projeto social. Gostava que ele se transformasse maior com a fábrica atelier, poder haver mesmo um espaço em que trazemos as senhoras, elas podem passar a tarde e lanchar connosco. Gostava muito de conseguir fazer este espaço social e de aprendizagem”, assume a criadora de moda, que vê no ensino um caminho de complemento à indústria para fazer crescer o setor da moda nacional. “Estive em Itália, na feira dos fios. Os negócios italianos têm uma coisa: os filhos, quando agarram, agarram todos e fazem crescer a fábrica dos pais. Acho que nós estamos a perder o nosso legado português têxtil. Estamos numa viragem muito importante. Se Portugal, o Governo e as entidades responsáveis tomarem bem o passo, a indústria não vai ficar igual. Estamos com problemas em costureiras, remalhadeiras, não estamos a conseguir ter trabalhadores, e eu acho que isto só vai sobreviver quando mudar na totalidade“, aponta Susana Bettencourt, que vê no luxo uma solução para o setor. “Para haver gamas altas é preciso passar conhecimento e este trabalho manual que está a ser esquecido. Se deixarmos de ensinar, vamos ficar com um grave problema nas nossas fábricas. Nós não conseguimos concorrer com a China, nem com o Bangladesh, nem com a Tunísia.”

Para colocar o plano em marcha, já começou a abordar fabricantes de máquinas para a produção de malhas. “É a parte mais cara. Estou a falar com a Mandarin, com a Shima. Vamos ver”, assume. “Tenho noção que sou a pessoa certa para dar estas aulas e para conseguir montar este projeto. Agora preciso do resto dos parceiros”, diz, afirmando que pretende se dedicar à escola-fábrica atelier a seguir ao doutoramento em Design de Moda pela Universidade do Minho em parceria com a Universidade da Beira Interior. A pausa coincide também com um momento incerto a nível de vendas. “Estamos num clima de medo, guerra, em que há uma recessão grande e isso afeta muito a moda e a classe média, que acaba por ser quem nós temos como público. Mesmo quem nos compra está a comprar menos. Isso faz grande diferença. Depois os negócios com outros países estão mais difíceis, mais receosos. Eles querem segurar as encomendas até à última, só pagam mesmo em cima da hora. Eu, com o tipo de trabalho que faço, já não consigo fazer em cima da hora. Portanto, o negócio da venda está completamente diferente e difícil”, assume. Mesmo assim, não quer deixar o calendário da plataforma Portugal Fashion, que com o novo modelo pode ser o espaço certo para as propostas de Susana Bettencourt. “Tenho muitas ideias para o Portugal Fashion. Gostava de ter as nossas máquinas de malhas e se calhar podemos fazer coisas para as clientes in-local, gostava de fazer workshops que pudessem passar isso tudo.”

Hugo Costa foca-se em se manter “pequeno e sustentável”, e quer outlet na Vinted

Nos dedos, Hugo Costa carrega os vestígios do seu próprio processo de criação — no caso o tingimento 100% manual. “Adoro a cena de mergulhar completamente no processo de fazer as coisas: o tingimento e a estamparia manual. Ou seja, é tudo na mão; sai o que sai, às vezes não sai tudo, mas faz parte”, diz o designer ao Observador, no segundo dia de desfiles. Com Undercover faz uma leitura do seu processo de cura da coleção Luto que apresentou em 2025, depois da pausa do Portugal Fashion, e de uma breve pausa pessoal, que assumiu na altura, para olhar para a sua saúde mental. “Falamos da saúde mental de uma forma tão abstrata; só falamos da depressão. Não falamos da psicoterapia, da necessidade que nós temos de combinar a psicologia com a psiquiatria para, às vezes, conseguirmos o equilíbrio. Menosprezamos que muitas vezes é só uma razão química que faz com que tu tenhas um desequilíbrio emocional. No meu caso específico, era um défice de atenção e hiperatividade que não estava diagnosticado e que me potenciava desequilíbrios emocionais, mas há outras pessoas que têm outro tipo de problemas de saúde mental que não são identificados e que nem têm a capacidade de entender. Eu tive a sorte de ter encontrado profissionais brutais e ter tido, se calhar, a abertura para os procurar após alguns anos de resistência”, conta o criador, que no último ano sente ter encontrado um caminho de cura, que se reflete na coleção. “No processo acabas por descobrir que gostas de outras coisas, que encontras beleza em coisas que se calhar não encontravas anteriormente. A coleção acaba por ser uma reflexão exatamente nesses pontos, nas camadas que nós temos ocultas”, diz o designer.

Produz todas as peças no próprio atelier, com quatro pessoas, além de duas costureiras exteriores que ajudam. “Tenho uma costureira que trabalha comigo desde 2007, a dona Madalena, e uma costureira que só faz camisaria, que é a Carla. As surpresas, às vezes, fazem parte da experiência. Nós planeamos as coisas e elas vêm bem diferentes. Quando a surpresa é boa, fica; quando a surpresa é má, repete-se. É o que tem que se fazer. Eu gosto do processo pequeno, não tenho ambição de massificação. Acho que as pessoas estão a voltar a valorizar o processo individualizado. É aqui que eu me sinto confortável e encontro satisfação em trabalhar”. E para o futuro, quer manter assim: pequeno e sustentável. “O nosso processo em si já é sustentável porque trabalhamos muito com deadstock, mas queremos tornar-nos financeiramente sustentáveis e justos. Falamos muito da sustentabilidade ecológica, mas também temos que falar da parte social. Nós já não vendemos peças, vendemos experiências às pessoas. Quando vestem uma peça nossa, vestem-se de forma diferente.”

Hugo Costa apresentou coleções por vários anos em Paris, mas desde 2019 que não integra o calendário internacional — apesar do Portugal Fashion ter levado alguns designers a Paris, Milão e Copenhaga no início do ano. “Este ano não participei, mas sempre me interessou, já estive na semana de Paris e saí muito por consequência de termos passado por um Covid e por uma altura em que tivemos que tomar decisões diferentes. Claro que o internacional interessa, mas eu acho que as coisas têm um tempo. Estamos num processo de construção para, se calhar, voltarmos a atingir esses objetivos”, diz, ressaltando que a pandemia coincidiu com a fase em que enfrentou as questões de saúde mental. “É normal que, quando uma estrutura tão curta depende de uma pessoa só e essa pessoa não está bem, não haja os resultados que já tivemos noutros tempos.” Mas agora, o designer tem um plano. “Sem abrir muito o jogo, nós vamos dedicar-nos 100% ao digital; não estamos muito interessados nesta fase em trabalhar com retalho. Estamos a redesenhar o nosso site para uma experiência mais próxima e mais eficiente, tanto de comunicação como da experiência de compra em si. O nosso caminho vai ser integralmente este e, acima de tudo, fazer as coisas que queremos, como queremos, da forma que queremos”, diz.

Parte deste processo envolve, para já, anunciar peças de amostras e arquivo na Vinted. “Está a ser super giro. Como suspendemos o site, quisemos criar contactos. Usámos a plataforma para vender peças de sample antigas, para escoarmos stocks de amostras. As pessoas interagem, chegas a um público de outros sítios que nem estávamos à espera, cria-se uma dinâmica muito interessante. Elas adoram negociar, portanto acaba por ser muito engraçado. Estamos a ponderar ter um outlet constante integrado na Vinted em vez de estar no nosso site.” Aponta ainda para a possibilidade de no futuro levar ao Portugal Fashion “experiências completamente digitais”. Mas as coleções sazonais, diz querer continuar: “Pessoalmente, sinto falta daquela adrenalina de acabar uma e começar outra”.

Maria Gambina quer abrandar e rejeita as massas

Maria Gambina não partilha da mesma adrenalina. “Há dois anos que decidi não fazer coleções com seis meses de antecedência, porque não faz sentido para a minha marca”, diz logo, um discurso que repete há já algum tempo, parte do que parece ter ficado resolvido acerca do negócio, depois da pausa de seis anos que a criadora fez em 2013. Justifica que planear as peças do desfile é “um esforço monetário muito grande” e que faz mais sentido estar a mostrar aquilo que já está na sua loja, o único lugar onde vende. Mesmo assim, não abandona o Portugal Fashion, que considera uma boa plataforma de divulgação. Nesta edição, aproveitou o cenário da Costa Nova, em Ílhavo, para uma sessão de fotos, e exibiu dois looks durante um almoço para a imprensa internacional, quando deu a conhecer a coleção de verão, inspirada nas obras de três jovens músicos brasileiros.

“São da nova geração da música brasileira: a Ana Frango Elétrico, o Zé Ibarra e o Pedro Mizutani. Em cada um deles há uma música que eu exploro. A Ana Frango Elétrico é a Insiste em Mim, em que ela fala: “Me planta em seu jardim, seu murchar, me regue, insiste em mim”. Por isso é que tenho uns coletes que são inspirados nas bolsas de jardinagem, onde se podem colocar as flores e passeá-las. Tem essa parte principalmente da letra, “Me regue, insiste em mim”, que eu acho um poema muito bonito. Portanto são cores muito suaves: amarelo claro, branco, cor laranja, o azul clarinho, peças muito femininas”, explica.

Sobre as peças que buscam referências na obra de Zé Ibarra, diz que viu uma entrevista em que o músico conta ter vivido um episódio de ghosting. “Eu nem sequer sabia o que é que era, mas fui pesquisar. Ghosting é quando tens alguém na tua vida que desaparece de repente. Entretanto ele fala como construiu essa música na dualidade, isto é, de repente parece que já esqueceu que está tudo bem e depois volta outra vez aquele pensamento como um feitiço no ar. São peças que têm dois lados; tanto se pode usar a frente nas costas com as costas na frente. Têm padrões diferentes, que demonstram exatamente esse ‘um dia estás bem, no outro dia já estás com aquele fantasma’. O facto de ter peças com umas volumetrias que quase que parecem hipnóticas porque brinco muito com as riscas. O facto de ter umas saias que fecham através de elástico, como se fossem umas cortinas e são bastante volumosas, que significa o tal aperto que ele sente, mas depois quando abrem têm uma coisa muito mais leve por baixo.”

Há ainda uma terceira parte da coleção, dedicada ao trabalho de Pedro Mizutani. “É uma música que ele tem, Chorar à Beira do Mar, que é uma música muito bonita e, como em todos os verões sempre acho que faz parte da minha marca trabalhar as riscas, resolvi pegar nas riscas, mas em peças de praia, mas mais sofisticadas, porque a melodia também assim o exigia”.

Há 33 anos na moda, Maria Gambina não é muito otimista sobre o futuro do setor em Portugal, mas o brilho nos olhos muda ao falar do próprio trabalho. “Estou sempre na loja, por isso quando as pessoas vão lá, sou eu que as atendo, explico a coleção, as peças, os materiais. Muitas vezes vão ao atelier, à parte de cima. Eu gosto; acho que ao fim destes anos todos eu encontrei realmente o espaço que eu queria estar, que não é uma coisa de massas, é quase como se fosse um local especial”. Em 2025 já dizia que queria abrandar, e continua a assumir que quer diminuir o ritmo. Para já, mantém a marca própria lado a lado com os concursos para a produção de fardas, que lhe complementam o sustento, e a trabalhar para as clientes fiéis ou recentes, de gerações cada vez mais novas. “A minha roupa é muito jovem”, sustenta a designer, que numa altura em que tantos olham para os mercados internacionais e a produção em larga escala, segue num caminho quase que na contramão da indústria.

O Observador instalou-se no Porto à convite do Portugal Fashion.