“Se estão a contar com os operários brancos católicos para fazer o socialismo, tal não acontecerá” — declarou o líder da extrema esquerda francesa, Jean-Luc Mélenchon, numa sessão dum think tank do seu partido, a França Insubmissa. Num país que, como acontece em França, vive na obsessão do racismo, da discriminação e do machismo esta frase tinha vários ingredientes para ser criminalizada: porquê operários e não operárias? Porquê brancos? Porquê católicos e não muçulmanos?… Mas quando em Abril deste ano Mélenchon fez estas declarações — “Si vous comptez sur les ouvriers blancs catholiques pour faire le socialisme en France, ça n’aura pas lieu.” (em francês soa melhor) — elas já não eram uma opinião de que se possa discordar mas sim a constatação da táctica de Mélenchon para se tornar no próximo presidente francês: a grande substituição do eleitorado através da imigração e sobretudo do incentivo do ressentimento entre os descendentes de alguns grupos de imigrantes. E o “alguns” aqui é determinante. Mas já lá iremos, ao “alguns”, pois outros protagonistas foram surgindo pelo caminho na demanda de novos eleitores.
As causas das minorias, das ultra-minorias e das minorias das minorias em que essa esquerda se envolveu durante anos e que a levou, para perplexidade de muitos dos seus, do mais ou menos consensual casamento homossexual ao estrambolismo dos LGBTQQICAPF2K+, fazem notícias, agitam polémicas e provocam aquele efeito desgastante em que as ideias mais impopulares acabam por se impor através da erosão constante do quotidiano. Mas como o próprio nome indica trata-se de minorias e de causas ultra-minoritárias. Dão likes, dinheiro para estudos e protagonismo a alguns activistas mas não dão votos. Antes pelo contrário, algumas dessas causas, como as dos trans e da identidade de género, acabaram a provocar uma tal rejeição que terão feito perder mais votos do que ganhar aos partidos que as patrocinaram.
Para conquistar o poder, como pretende Melenchon, ou manter-se nele, como é o caso de Pedro Sanchez, são necessários muitos mais eleitores que aqueles que se embrulham nas bandeiras arco-íris. E é aí que entra a imigração como a possibilidade da revolução no sentido marxista do termo e dos imigrantes como os sucessores dos operários que a esquerda acreditou que fariam o socialismo. Ou como protagonistas duma tentativa de golpada eleitoral, como acontece em Espanha, onde Sanchez está literalmente a criar um outro eleitorado. Primeiro através de um processo de regularização de imigrantes que já vai em 1 milhão e 750 mil pedidos de regularização e depois com um acesso imediato ao direito de voto, através da chamada Lei dos Netos que confere a cidadania espanhola aos filhos e netos de todos aqueles que saíram de Espanha entre entre 18 de Julho de 1936 e 28 de Dezembro de 1978. Admite-se que a Lei dos Netos acrescentará mais 1,3 milhões de eleitores aos censos já nas eleições que terão lugar no próximo ano. E acredita Sanchez muitos votarão nele.
Durantes décadas e décadas os países europeus receberam imigrantes e não tiveram problemas de imigração. Hoje mesmo não existem problemas com a maioria dos imigrantes que chegam à Europa. Mas essa massa que chega porque se identifica com os valores dos países para que está a imigrar, que quer viver melhor e que respeita as regras dos países para onde imigra, essa massa não interessa à esquerda. Ou pelo menos a uma parte da esquerda. Não são esses que levarão ao poder homens como Mélenchon. Os muçulmanos, sobretudo os fundamentalistas e os africanos, muçulmanos ou não, filhos do falhanço dessas descolonizações que a esquerda europeia promoveu ao ritmo de canções supostamente libertadoras que diziam “África para os africanos”, são os novos eleitorados para uma esquerda que há décadas se confronta com a falta de crescimento do seu eleitorado mas que fez da sua presença nas estruturas do Estado, nomeadamente na justiça e na educação, uma forma de impor o seu domínio político-cultural, independentemente dos votos que consegue. Este corroer das instituições por dentro leva a situações ridículas como aquelas protagonizadas por Hamza F. ou “La Douane”, um adolescente de 14 anos que se entretém ameaçar os banhistas e comerciantes no canal Saint Martin em Paris sem que alguém o consiga controlar (no meio do debate que as incivilidades dos adolescentes têm causado, alguém lembra que o mesmo estado que não consegue controlar o canal Saint Martin se propõe controlar o estreito de Ormuz!) ou, no outro extremo, a situação grotesca vivida no Reino Unido com a impossibilidade legal de deportar para o seu país natal, o Paquistão, Shabir Ahmed, condenado por violação. Shabir Ahmed que chegou ao Reino Unido nos anos 60 foi um dos membros dos gangs de violação de Rochdale que abusaram, torturam e violaram meninas e raparigas brancas, oriundas de meios desfavorecidos ou institucionalizadas. Condenado em 2012, Shabir Ahmed foi agora posto em liberdade e para indignação das suas vítimas não pode ser deportado para o Paquistão como esperavam e lhes tinha sido prometido, porque a legislação britânica sobre imigração não permite expulsar do país qualquer cidadão da Commonwealth que tenha chegado ao Reino Unido antes de 1973 e tenha estado pelo menos cinco anos no país.
Não, Sanchez não está enganado. Melenchon não é louco. E Starmer que ignorou os gangs de violação paquistaneses até que o escândalo lhe rebentou nas mãos não é um idiota. Trata-se de pura táctica: o voto daqueles que desprezam os valores dos países ocidentais tornou-se para a esquerda a terra prometida dos novos eleitores.
PS. “Se reduzir a idade de reforma para 65 anos ou para 40 anos de desconto é de esquerda, então vamos assumir que somos de esquerda, mas somos portugueses” — declarou o deputado do Chega, Rui Afonso. Este “ser de esquerda” em matéria de despesa — esta semana “o Chega votou ao lado do PS o projeto de lei do PS que força o Estado a pagar o prémio salarial que devolve as propinas aos recém-formados e garante que o incentivo é acumulável com o regime do IRS Jovem” — faz parte da táctica do Chega para chegar a novos eleitorados, ou seja ao eleitorado PS. André Ventura percebeu que tem à sua disposição os eleitores do PS que nesta matéria têm a acrescida vantagem, para Ventura obviamente, de estarem infantilizados por décadas de patranhas socialistas sobre a despesa. Presumo que daqui a pouco tempo descobriremos mais uma vez que há vida para além do défice mas que é uma vida muito difícil.