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(A) :: Portugal Fashion. Último dia abriu com estreia de Malteza, marcou o regresso de Diogo Miranda e fechou com o manifesto de Lo Siento

Portugal Fashion. Último dia abriu com estreia de Malteza, marcou o regresso de Diogo Miranda e fechou com o manifesto de Lo Siento

A marca de Joana Maltez estreou-se com força na passerelle do Porto, enquanto a A Line apresentou pela primeira vez, sob a direção de Diogo Miranda. Lo Siento fechou os desfiles com manifesto.

Sâmia Fiates
text
Inês Lacerda
photography

“There’s no discharge in the war”, ouve-se, pela voz de Taylor Holmes, numa conhecida gravação de 1915 do poema Boots, de Rudyard Kipling. O ritmo é o da marcha de soldados: “Boots, boots, boots, moving up and down again. There’s no discharge in the war”, diz a voz, cada vez mais descontrolada. E é num ambiente de uma hipnose quase incómoda que arranca o último desfile desta 55ª edição do Portugal Fashion, que decorreu entre 1 e 4 de julho, e passou por Paços de Ferreira, Ílhavo e Matosinhos antes de aterrar no M-ODU, no Porto.

A temática militar domina a coleção Kill Me Before the War, dos Lo Siento, que inclui dois vestidos confecionados a partir dos tecidos de dois paraquedas da Segunda Guerra Mundial, comprados numa loja de segunda mão em Portugal. “Já queríamos ter aproveitado esta ideia dos paraquedas na outra coleção. Mas dado o contexto atual, acho que fazia mais sentido para esta coleção do que propriamente para as outras anteriores. São dois mundos a representar os contrastes que nós estamos a viver”, explica João Pereira, um dos fundadores da Lo Siento, marca criada em 2019 e que está na plataforma incubator do Portugal Fashion. “Fechar é importante, mas ao mesmo tempo assustador”, confidencia o designer, que divide a direção criativa com José Pinto, que desde 2017, quando passou pelo concurso Bloom, assina como Airiev. Os dois criadores, de 28 e 26 anos, juntaram-se sob a mesma marca em 2023, mas ainda mantêm outros empregos — João como stylist e José como designer na Marques’Almeida — dedicando-se à marca própria só depois do expediente. “O José está mais na parte da confeção e eu trato mais da parte visual e gráfica da marca. Os dois mundos conseguem-se unir na perfeição e damo-nos muito bem”.

Uma das características das peças da Lo Siento é o upcycling — como os paraquedas que viraram vestidos — e o uso de deadstock. Para manter a sustentabilidade, procuram uma produção mais controlada, em pequenas fábricas familiares. “Em todas as coleções que nós fazemos vamos às fábricas e vemos o que é que eles têm que já não estão a usar, ou desperdício de material, e então compramos. Às vezes as próprias fábricas cedem-nos estes tecidos, porque não estão a ser utilizados. E fazemos o que dá para fazer dentro daquela metragem ou dos quilos que nós temos disponíveis”, explica o fundador da Lo Siento. “Felizmente, nesse aspeto, também temos arranjado patrocinadores industriais que nos têm apoiado. Nesta coleção apresentámos dois casacos feitos com tecidos novos da Tintex, que são resíduos de bolas de ténis trituradas e de grãos de café.”

Mesmo assim, produzir menos não significa que haja um travão para o crescimento, e a dupla visa mercados internacionais. “Queremos começar nesta plataforma B2B, deixámos um bocado esta parte de direct to customer e estamos mais focados na parte comercial, porque é aí que nós vemos a marca no futuro”. Neste sentido, o apoio do Portugal Fashion tem sido importante — em janeiro a dupla esteve em Paris, no showroom organizado pela plataforma com designers nacionais. “Mostramos a nossa roupa e mostramos que o mercado nacional e os designers portugueses também têm o mesmo direito e a mesma visualidade que qualquer designer de outra nacionalidade. Estarmos em Paris é o culminar de um trabalho que foi feito ao longo dos anos”, explica o criador da Lo Siento, que diz que a marca mira principalmente nos Países Baixos e no mercado oriental. “Vai ser uma das nossas apostas nos próximos anos, tentar entrar nestes mercados porque acho que as nossas peças conseguem ser muito mais facilmente adquiridas lá.”

Para viver do sonho, têm um plano, e sabem que é preciso resiliência e paciência. “Como somos uma marca a começar não temos o mesmo investimento nem o mesmo fundo de maneio que têm outras marcas mais estabelecidas. Isso é o nosso sonho. São anos de poupanças que nós vamos gastando. É um trabalho que é um bocado fantasma. As pessoas veem o processo final e a coleção mas não veem quantas pessoas estão por trás disto”, diz João Pereira. “Eu e o Zé falamos todos os dias, nós temos uma relação de amizade muito próxima e estamos sempre a dizer: ‘Vai ser a última coleção, temos que dar tudo’, e depois arranjamos sempre forma de fazer a próxima acontecer. Porque lá está, o mercado português, infelizmente, não tem a mesma possibilidade de compra que tem outros mercados internacionais”, desabafa o criador. “Temos que insistir com os clientes e com as pessoas que nos rodeiam sobre a ideia de preferir gastar dinheiro numa peça que seja boa e única, uma vez, do que comprar em massa. E apoiar os artistas e criadores locais.”

Joana Maltez estreia com Malteza e Diogo Miranda regressa com A Line

A Malteza abriu a passerelle no último dia de Portugal Fashion com um jogo de xadrez — sobre as ombreiras dos casacos esculturais, nos formatos das mangas, em gravatas e carteiras, nos padrões das malhas e nas cores das camisas, pretas e brancas. Joana Maltez foi às lágrimas no cumprimento final, emocionada com a presença da mãe, Maria dos Anjos, a responsável por todas as peças de croché da coleção. “Era uma referência para mim já há muito tempo; sempre a vi a fazer e falei-lhe: ‘mãe, olha, por favor, vamos partilhar este momento as duas'”, disse aos jornalistas. “Uma coisa é quando nos apresentamos em concurso e estamos a dividir o palco com outros designers. Outra coisa, completamente diferente, é quando é o nosso nome a ser reconhecido e as pessoas veem-nos pela nossa marca. Por isso deixou-me extremamente feliz”, desabafa a designer de 34 anos, que participou no Bloom em 2021, no Sangue Novo da ModaLisboa em 2022, e já apresentou uma coleção em 2023 na semana da moda da Tunísia.

“O início foi muito mais tentarmos pôr a marca num determinado patamar. Não é fácil criarmos uma marca e de repente as pessoas quererem usar ou terem uma identificação estética. É preciso criares coleções, peças e conteúdo. O nosso início foi muito trabalharmos com influencers e tentarmos vestir figuras públicas em eventos internacionalmente. Temos algumas colaborações internacionais que estamos à espera que saiam”, revela a designer, que chegou a vestir nomes como Margarida Vila Nova, Inês Aguiar e Bárbara Bandeira. Mas agora, diz estar pronta para um salto a nível de produção. “No final deste mês vamos estar numa feira para buyers na Alemanha, para lojas. O foco é tentar espalhar um bocadinho mais o nome da marca. Trabalharmos não só a parte conceptual, que é aquilo que chama mais nome. Ainda é um caminho que tenho que aprender, porque é a primeira coleção em nome individual, e tenho a certeza que o Portugal Fashion me vai ajudar e guiar”, diz a designer. Para já, no meio das peças escultóricas com volumes, aposta também na camisaria com detalhes únicos, numa coleção com produção 100% no próprio atelier.

Neste último dia há mais estreias e ainda se celebrou o trabalho de criadores internacionais, com as coleções da sul-africana Judy Sanderson e do brasileiro Davii, ambos radicados no Porto, da saudita baseada no Dubai Daneh e do luso-descendente Gabriel Figueiredo com a sua marca parisiense De Pino, pela primeira vez no calendário. Entre os designers portugueses, destaque para o desfile de “até já” de Susana Bettencourt, que promete continuar a atender no ateliê (e aparecer no calendário do Portugal Fashion) mas quer fazer uma pausa nas coleções e dedicar-se ao ensino; a coleção de Estelita Mendonça, que convida a uma reflexão sobre a produção em massa com peças feitas a partir de sacos de compras, e o regresso de Diogo Miranda, agora ao leme da A Line.

“Esta coleção já estava feita há muito tempo”, conta o designer, que recebeu o convite da organização do Portugal Fashion há cerca de um mês. “A verdade é que quando tinha o meu projeto era mais criativo e não me preocupava tanto com a parte mais comercial. E aqui tem que ter essa responsabilidade. E acho que é isso que se vê no desfile. Apresentámos uma coleção com uma linguagem global, wearable, desejável e, de certa forma, que nasceu num meio industrial”, diz, afirmando que o elemento de espetáculo está nas combinações de styling.

A passerelle montada do lado de fora do pavilhão do M-ODU encheu-se para assistir ao regresso, três anos depois de Diogo Miranda deixar a marca em nome próprio. Com ares de coleção cruise, com direito a vestidos camiseiros e túnicas fluidas; camisas listadas em tons de rosa, vermelho e azul dão um ar divertido ao estilo corporate — também houve espaço para coordenados de festa, dos vestidos longos aos fatos completos. O estilo sofisticado, feminino e as silhuetas clássicas com as quais o designer construiu a sua carreira, estão de volta. Pode ser uma estreia para a A Line, mas ao final do desfile o público aplaudiu Diogo Miranda, que volta para um espaço que sempre foi seu.

O Observador está instalado no Porto a convite do Portugal Fashion.