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Nem tudo é ansiedade

As redes sociais permitiram que a saúde mental passasse a ser amplamente falada e discutida, mas deu origem a desinformação e a uma tendência preocupante: o autodiagnóstico.

Pedro Coutinho
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É bastante comum ouvir em consulta frases como: “Só queria que a ansiedade desaparecesse da minha vida” ou “Se existisse um botão para desligar a ansiedade, carregava nele agora”.

E, sinceramente, compreendo este desejo. Quando a ansiedade nos faz sofrer, nos tira o sono, nos faz viver em constante preocupação ou limita a nossa vida, é natural desejar que desapareça o mais rapidamente possível.

Mas existe aqui um aspeto importante que muitas vezes esquecemos: a ansiedade, até certo ponto, é uma resposta emocional normal, saudável, benéfica e útil, que todos já experienciámos de alguma forma ou em algum momento da vida.

Surge frequentemente em situações que nos preocupam, em momentos de incerteza, perante desafios importantes, situações de perigo ou períodos de grande stress. E, nesses momentos, pode ajudar-nos a estar mais atentos, concentrados e motivados, a organizar prioridades, a terminar uma tarefa importante, a mobilizar energia para enfrentar um desafio, a reagir de forma mais rápida e até a tomar melhores decisões.

Por tudo isto, a ansiedade não deve ser vista como um inimigo que devemos temer ou tentar eliminar rapidamente (até porque isso só a aumentaria).

No entanto, nem sempre a ansiedade permanece dentro destes níveis saudáveis. Existem situações em que se torna excessiva, desadaptativa e, por vezes, evoluir para uma perturbação de ansiedade.

Nesses casos, a ansiedade deixa de ser uma resposta pontual a uma situação específica e passa a surgir com demasiada intensidade, a prolongar-se no tempo, a provocar sofrimento significativo e/ ou a condicionar de forma importante o nosso dia a dia.

Pode afetar o nosso desempenho profissional, dificultar as nossas relações, interferir com o descanso ou prejudicar a nossa qualidade de vida. Por vezes, podemos até começar a evitar determinadas situações por medo do que possa acontecer ou por receio de sentir ansiedade. Deixamos de fazer coisas de que gostávamos, limitamos ou alteramos os nossos comportamentos e podemos até começar a viver em alerta constante. Em todos estes casos, é fundamental procurar ajuda.

Mas existe aqui uma nuance importante: nem tudo o que parece ansiedade é necessariamente ansiedade. E, ao mesmo tempo, o facto de algo não ser ansiedade não significa que deva ser ignorado.

Se a pessoa deixou de descansar bem, se vive constantemente em alerta, se sente sintomas físicos ou psicológicos persistentes, se está a perder aos poucos qualidade de vida, se o sofrimento emocional está a afetar o trabalho, as relações ou a forma como vive os dias, então isso merece ser valorizado e compreendido com apoio médico ou psicológico, mesmo que neste momento não saiba exatamente o que é.

Porque, independentemente do nome que damos ao problema, quando não nos sentimos bem, isso merece atenção.

E é precisamente a partir do momento em que reconhecemos que não estamos bem que surge um dos maiores desafios da atualidade: a procura de respostas nas redes sociais ou na internet para aquilo que sentimos.

Nos últimos anos, temos assistido a um número crescente de perfis e conteúdos de saúde mental, ou que abordam temas relacionados com a saúde mental, nas redes sociais. Eu próprio criei a minha página durante o período da pandemia.

Se, por um lado, a internet permitiu que a saúde mental passasse a ser amplamente falada, reconhecida e discutida, por outro também deu origem a alguma desinformação e a uma tendência que me preocupa cada vez mais: o autodiagnóstico.

Hoje, para muitas pessoas, basta ler um post, ver um vídeo ou pesquisar alguns sintomas para sentir a tentação de concluir que tem ansiedade, depressão, PHDA ou outra condição psicológica. E, com a chegada da inteligência artificial, que nos dá respostas aparentemente completas para temas complexos, a tentação tornou-se ainda maior.

Não é infrequente ouvir nas minhas consultas frases como: “Li isto na internet”, “Vi um vídeo nas redes sociais e identificou tudo o que eu sinto” ou “Pesquisei os sintomas e tenho isto”.

À primeira vista, reconhecer aquilo que sentimos pode parecer suficiente para sabermos o que temos, e isto não quer dizer que aquilo que se sente não seja importante. No entanto, estabelecer ou excluir o diagnóstico de uma doença mental ou de outra condição exige muito mais do que a identificação de dois ou três sintomas que encontramos nas redes sociais.

E é aqui que começa o verdadeiro problema. Quando nos autodiagnosticamos, corremos vários riscos. Podemos interpretar mal os sintomas, assumir que temos algo que não temos, ignorar sinais que mereciam atenção médica ou psicológica de forma rápida e cuidada, atrasar um diagnóstico adequado ou adiar um tratamento que poderia evitar sofrimento ou complicações desnecessárias.

Porque diagnosticar corretamente implica compreender a história, perceber quando começaram os sintomas, a sua intensidade, o impacto que têm na vida diária, o contexto em que surgem, excluir outras hipóteses antes de chegar a uma conclusão e, sobretudo, exige uma avaliação realizada por um profissional de saúde (ou vários profissionais, quando necessário). Por muito convincente, completo ou bem escrito que esteja um artigo, um vídeo ou uma publicação nas redes sociais, nada disso substitui essa avaliação.

Costumo partilhar um caso que ilustra bem os riscos do autodiagnóstico. O João (nome fictício) procurou a minha ajuda porque tinha palpitações. Tinha lido na internet que esse poderia ser um sintoma de ansiedade e estava convencido de que era isso que se passava com ele. No entanto, à medida que o fui escutando em consulta, comecei a perceber que as palpitações não encaixavam num quadro de ansiedade, nem noutra doença do foro mental. Naquele momento, o mais correto foi recomendar uma avaliação médica e acabou por descobrir que tinha uma arritmia cardíaca, que gerava palpitações. Felizmente, tinha tratamento. Mas, curiosamente, após o diagnóstico surgiu ansiedade relacionada com aquela condição de saúde.

Este caso mostra-nos algo muito importante: nem tudo é ansiedade, mesmo quando achamos que é. A ansiedade pode mascarar outras doenças e existem muitas doenças que podem apresentar sintomas semelhantes aos da ansiedade. Isto acontece com algumas doenças cardíacas, problemas da tiroide, outras doenças endocrinológicas e até com outras perturbações do foro psicológico.

É por isso que uma dor no peito não pode ser assumida como ansiedade, nem um cansaço como burnout, nem um período de tristeza como depressão.

Sem dúvida que as redes sociais têm um enorme potencial para informar, sensibilizar e ajudar as pessoas a perceber que alguma coisa não está bem. Podem ser o primeiro passo, mas não devem ser o último.

Porque reconhecer um problema é apenas o início do caminho. Compreender verdadeiramente aquilo que estamos a sentir exige uma avaliação cuidada, feita por quem tem formação para a realizar. E isso é algo que nunca devemos esquecer.

Pedro Coutinho é psicólogo clínico, especializado na intervenção na ansiedade e depressão. Fundador da Pedro Coutinho Clínica, publicou recentemente o livro O Meu Nome Não é Ansiedade (ed. Albatroz).