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(A) :: As chamas à porta, a noite sem dormir e a memória de 1986. Incêndio voltou a ameaçar casas em Castanheira do Vouga

As chamas à porta, a noite sem dormir e a memória de 1986. Incêndio voltou a ameaçar casas em Castanheira do Vouga

Com vários focos de incêndio, os bombeiros desdobram-se, com apoio dos populares. Dimensão das chamas recorda o fogo que resultou na morte de 16 pessoas em Castanheira do Vouga.

Miguel Pinheiro Correia
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Guilherme Costa Oliveira
photography

Fora do pavilhão da Associação Humanitária Castanheirense, impera o fumo escuro dos incêndios que lavram há várias horas. Dentro do edifício em Castanheira do Vouga, concelho de Águeda, homens e mulheres de farda azul ou vermelha sentam-se à mesa para respirar alguma normalidade. Apesar de serem quase 18h, os bombeiros só agora conseguiram almoçar.

O esforço não passa despercebido. “Merecem muitos elogios”, confessa Raquel Santos. Antes de ajudar a servir as refeições, estava de máscara na cara perto das chamas, e levou comida, bebida e medicamentos a alguns bombeiros. “Tentamos ajudar”, resume.

Apesar de ter começado na madrugada de quinta-feira, dia 4, em Vouzela e a dezenas de quilómetros da freguesia de Castanheira do Vouga, o incêndio rapidamente passou do distrito de Viseu para Aveiro. “Por volta das cinco da manhã foi quando o fogo atingiu o pico. Tínhamos a aldeia cercada com muito lume e muito vento. Meteu respeito”. Mário Santos fala ao Observador à porta de casa, horas após uma noite sem descanso, que antes de envolver os bombeiros, contou com a entreajuda de todos os vizinhos.

Para os habitantes da freguesia do município de Águeda, os incêndios não são novidade, mas enquanto combatem as chamas fazem já balanços. “Este ano foi pior”, entende Henrique Martins. De balde na mão, corre entre a carrinha que levou até à zona de floresta (e que transporta um tanque de água) e um ponto onde houve uma projeção do incêndio maior.

A azáfama e a imprevisibilidade do fogo que provocaram esta projeção ilustram bem a tarefa hercúlea dos bombeiros. Enquanto apagavam as chamas que se dirigiam a grande velocidade para uma zona de habitação, um pequeno foco secundário começou nas costas dos operacionais. Valeu, mais uma vez, a prontidão dos populares.

“Há dez anos isto ardeu tudo. O ano passado não houve incêndios, mas agora voltou”, acrescenta Henrique, depois de conseguirem apagar o foco de incêndio. As carrinhas dos moradores da povoação e as máquinas agrícolas misturam-se com os inúmeros carros de bombeiros, numa mobilização que recorda aos mais velhos o incêndio trágico de 1986.

“Eu só tinha seis anos, mas lembro-me de estar toda a família a correr para casa dos meus avós”, comenta um vizinho com o outro. “Morreram pessoas, animais, tudo”. De olhos postos no fogo, recordam os 13 bombeiros e três civis que morreram em junho desse ano.

A marca de 40 anos desde a tragédia levou à freguesia o ministro da Administração Interna. No meio do fumo intenso desta sexta-feira, os moradores recordam o discurso de Luís Neves, mas pedem “mais ação” em vez de palavras. “A prevenção não se faz apenas com meios de combate. Faz-se com planeamento, investimento continuado, conhecimento do território e envolvimento das populações”, disse o governante durante a cerimónia de há duas semanas.

Os vizinhos apontam a ironia: no discurso, o ministro destacou o exemplo de Alcafaz, “hoje referência no âmbito do programa Aldeia Segura”. Esta sexta-feira, a aldeia foi um dos palcos principais da violência das chamas, tendo ficado quase isolada e rodeada de chamas. O incêndio que começou em Vouzela já fez dois feridos graves.

“Começámos a ver os clarões ao longe, mas foi demasiado rápido”. Moradores de Castanheira do Vouga passaram noite sem dormir

Enquanto a maioria dos portugueses fixava os olhos no ecrã para ver o jogo do mundial entre Portugal e Croácia, João Henriques tinha outra preocupação. Até tinha estado no sofá a ver futebol, mas não chegou a ouvir o apito inicial da partida.

“Começámos a ver os clarões [do fogo] ao longe. Mas foi demasiado rápido. Eu estava descansadinho a ver futebol quando ouvimos o sino aqui da capela”. O alarme foi compreendido por todos os vizinhos, que rapidamente saíram à rua “para ver o que se passava”. Sem capacidade de travar o avançar das chamas, esperaram, impotentes, a chegada do fogo até mais perto das casas.

Os anos de experiência com o fogo e os incêndios que se vão repetindo nesta zona não atenuam a aflição quando as casas são ameaçadas. “É sempre um sobressalto enorme”.

O vento forte tornou longa a noite de quinta para sexta-feira. “O lume era muito forte e o vento também. Muitas projeções, muitas folhas pelo ar a arder que depois incendiavam aqui e ali. Tivemos que nos socorrer uns aos outros, como é habitual”, acrescenta Mário.

Com a casa fora do alcance das chamas, nem assim conseguiu descansar. Usou os meios que tinha à sua disposição para apoiar os vizinhos até à chegada dos bombeiros. Desesperado e com receio de mais noites sem dormir, Mário não coloca em causa o empenho dos operacionais, mas questiona a gestão. “Os incêndios às vezes são combatidos por pessoas de fora, sem conhecimento do terreno. Nós temos que contar com a Associação Humanitária Castanheirense, que fez um trabalho espetacular e só com voluntários. Ajudaram-nos muito de noite”.

Ao início da tarde, horas depois de uma noite sem dormir e iluminada pelo fogo, os vizinhos repetem os elogios aos bombeiros de Castanheira do Vouga. Durante a tarde, o fogo continuou pela freguesia e o alarme para uma nova noite de sobressalto manteve-se.

“Dava para evitar a maioria [dos incêndios] se cada pessoa fizesse o seu trabalho e cumprisse com a lei”

Pelas 15h de sexta-feira, Carina Pereira ainda tenta antecipar o fogo. A casa onde vive, em Massadas, quase não tem vizinhos, sendo rodeada a toda a volta por um denso eucaliptal. A preparação é certeira: menos de uma hora depois, as chamas chegaram.

“Foi bastante rápido a chegar aqui. Nós esperámos pelo fogo durante a noite e sabíamos que viria, mas o vento ajudou a não ganhar grande velocidade nesta direção”. Demorou, mas, como Carina previa, não tardou.

Os bombeiros controlaram as chamas com os meios possíveis. A paisagem estava marcada por colunas de fumo que surgiam em todas as orientações do horizonte, o que complica a mobilização dos operacionais. Apesar disso, as críticas de Carina focam-se na prevenção e não na reação.

“A falta de limpeza e a falta de fiscalização têm complicado os trabalhos. Dava para evitar a maioria das situações se cada pessoa fizesse o seu trabalho e cumprisse com a lei. Entendo que as autoridades competentes não chegam a todo o lado, mas também poderiam ter um peso mais importante em zonas como estas que passam frequentemente por incêndios”.

Não tendo sido “apanhada de surpresa”, a castanheirense que “já estava a contar” com as chamas elogia a mobilização rápida dos bombeiros. Controlado o incêndio perto da casa de Carina, os bombeiros mobilizam-se para outra zona que volta a preocupar. Ainda em Massadas, um morador olha com lágrimas nos olhos para a devastação provocada pelo incêndio.

“Este terreno que está a arder é meu, aquele [um terreno contíguo] também e o outro também”, relata, enquanto aponta para as áreas consumidas pelas chamas, como justificação para não querer falar. “Pelo menos ainda não chegou à casa”.

Em frente ao dono do terreno, estão vários bombeiros e elementos da Proteção Civil, que montam uma linha com mangueiras para aguardar a chegada do fogo. “Enquanto ele estiver no meio do mato não há grande coisa a fazer. Vamos esperar que chegue aqui à estrada para apagar e evitar que passe para o outro lado [da estrada], onde estão mais eucaliptos”, resume ao Observador um bombeiro.

A opção por deixar arder uma zona que não representa um risco imediato para as pessoas tem outra explicação: se aquela vegetação queimar toda, os bombeiros sabem que não há o risco de voltar a arder no futuro, e podem concentrar esforços em outros locais, não redobrando o trabalho.

Mas a imprevisibilidade do vento complica os trabalhos. Atrás da linha dos bombeiros, num terreno com vegetação seca onde os operacionais queriam evitar a propagação do fogo, começa a ouvir-se o crepitar das chamas. Sem que nada o fizesse prever, as chamas deflagraram rapidamente.

Sem meios para chegar a esse local, os bombeiros pediram ajuda aos populares que estavam no local e que rapidamente, com baldes e ramos de árvores, apagaram as chamas antes que ganhassem maior dimensão. “As projeções complicam… Voam e pegam em vegetação seca e é um instante até arder. Eu tenho estado sempre de olho, tenho feito os possíveis para ajudar”, conta Henrique, que está no local a tentar proteger o seu estaleiro de lenha.

“Aqui já há pouco a fazer, agora é esperar que a noite seja mais calma que ontem [de quinta-feira para sexta-feira]”, acrescenta um elemento da Proteção Civil.

Proteção Civil reconhece dificuldades na operação dos meios aéreos

Com o cair da noite, o pavilhão da Associação Humanitária Castanheirense voltou a ser o ponto de encontro de dezenas de bombeiros vindos de perto e de longe. Entre os camiões estacionados no parque em frente ao edifício, leem-se as localidades das corporações: Mafra, Ericeira, Alcabideche, Carnaxide, Algés, Vagos, Oliveira do Bairro, Aveiro, entre tantos outros.

“Aqui, essencialmente, [garantimos] apoio com alguns mantimentos. Alguns ‘kits’ de pequeno-almoço, temos recebido associações que vêm de fora, rececebemos comida que vem dos restaurantes que deixam aqui ajuda, temos levado água às populações, medicamentos, pomadas para as queimaduras. Tudo o que falta”, explica Raquel, da junta de freguesia de Castanheira do Vouga.

Durante a tarde de sexta-feira, não foi só a comida que levou os bombeiros ao pavilhão. As corporações aproveitaram também para abastecer os camiões com água. O recinto esteve na iminência de poder ser evacuado, numa altura em que as chamas se aproximavam. “Creio que não será preciso evacuar porque o vento acalmou. Mas na povoação aqui ao lado, em Massadas, estava muito agressivo”, acrescenta Raquel.

“Vamos esperar que se mantenha assim e que arda devagarinho para conseguirmos ir controlando”. A expectativa da castanheirense confirmou-se e o pavilhão continuou a receber bombeiros até ao final do dia, quando se concentraram algumas dezenas de operacionais à espera de serem rendidos.

Entre os bombeiros, a expectativa é semelhante à dos populares. “Vamos esperar que o vento não aumente e que se mantenha assim, a arder devagarinho, para conseguirmos ir controlando”, rematou Raquel.

Ao Observador, o comandante José Neves, do Comando Sub-Regional de Emergência e Proteção Civil de Viseu Dão Lafões, explicou que o combate às chamas durante a sexta-feira mereceu maior atenção “no flanco esquerdo” — uma extensão de quase 29 km, entre Vouzela e Águeda, onde as chamas deram mais trabalho.

“Esperamos uma noite complicada com rajadas de vento que podem ter algum significado”. O objetivo, acrescenta, era pelo menos “segurar” as chamas durante a noite, evitando desperdiçar todo o trabalho que se fez durante o dia.

Durante o dia, vários moradores de Castanheira do Vouga notaram a ausência de meios aéreos naquela zona. “Acho que vi um helicóptero, mas devia ser de reconhecimento, de resto não vi mais nada”, disse João Henriques. O comandante José Neves contextualiza esta aparente ausência com a dificuldade dos meios aéreos circularem numa zona com fumo denso. “Tivemos dificuldade para um helicóptero fazer apenas uma volta”, reconhece. Apesar disso, garante que o fogo contou com dez meios aéreos, entre os quais um Canadair espanhol.

Segundo o presidente da Câmara de Vouzela, ao início de sábado as frentes de incêndio mais preocupantes eram as de Cercosa e em São João do Monte. “Nós aqui continuamos com muitos pontos quentes, que nos obrigam a dispersar os meios por esses locais, continuamos com a temperatura elevadíssima, não baixou quase nada durante a noite e o vento com alguma intensidade”, relatou à agência Lusa.

“Tudo indicia que houve um comportamento criminoso”, reconhece ministro da Administração Interna

Entre as conversas dos moradores com os bombeiros, a possibilidade de o incêndio ter tido origem em fogo posto é quase dada como adquirida. “Deviam era filmar quem vem atear o fogo, não é quem vem apagar”, comenta um operacional, de mangueira na mão. “Quem pega fogo à floresta devia ser mais castigado”, reclama outra moradora.

O facto de o incêndio ter começado durante a madrugada leva, além dos moradores, o próprio ministro da Administração Interna a reconhecer indícios de origem criminosa na ignição. “Não é de noite que há condições para o surgimento de ignições e logo duas ignições por volta das 2h, 3h da manhã”, afirmou. “Tudo indicia que houve, de facto, um comportamento de mão humana, um comportamento criminoso”.

Em declarações aos jornalistas em Torres Novas na sexta-feira, Luís Neves assumiu que o incêndio que deflagrou em Vouzela continuava a concentrar mais atenções dos operacionais. “Estamos muito concentrados neste grande incêndio que já atinge vários concelhos. (…) [O objetivo] É circunscrever este grande incêndio”.

“O país está preparado. […] Estamos em situação de alerta”, assumiu, acrescentando que a coordenação entre as entidades envolvidas está “muito alinhada” e que o combate inicial aos incêndios tem sido bem-sucedido, permitindo extinguir rapidamente a maioria das ocorrências.

No terreno, e perto do local onde esteve Luís Neves há poucas semanas, o incêndio fez dois feridos graves, um com queimaduras de segundo e terceiro grau e outro com traumatismo craniano, disse à Lusa Fonte da Proteção Civil.

“Um homem de 55 anos ficou com queimaduras graves” quando tentava combater o fogo e um outro, de “34 anos, sofreu um traumatismo craniano grave” ao cair de uma carrinha particular que transportava água para combater o incêndio, indicou à Lusa o comandante Pedro Araújo da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC).

Os dois feridos tiveram de ser retirados por helicópteros do INEM para unidades hospitalares próximas.