Quem conversa com Peter Hutton, diretor da Saudi Pro League, percebe rapidamente a serenidade de cada frase e o peso do currículo que acumulou ao logo de uma vida dedicada ao desporto e aos media. É um executivo britânico que conta com mais de 40 anos de carreira.
Peter começou como repórter desportivo em vários canais britânicos, subiu nos degraus da carreira na imprensa e passou para os negócios, até atingir o cargo de CEO do Eurosport. Foi também vice-presidente da Fox internacional e diretor geral da ESPN Star Sports – que depois passou a ser a FOX Sports Asia e a Star Sports na India. Peter Hutton foi ainda o líder da equipa de parcerias desportivas da Meta (empresa que gere o Facebook, Instagram e Whatsapp). No currículo tem mais posições de destaque como Presidente do Conselho de Administração do estádio de Wembley, em Inglaterra e acumulou vários prémios a nível global ao longo da última década.
Por tudo isto, Peter Hutton tem um olhar sobre o negócio desportivo que poucos conseguem atingir. Agora é membro do conselho diretivo da Saudi Pro League e é o presidente fundador da SPL Media House – responsável pela estratégia global da marca e pelos direitos de transmissão do campeonato. Hutton é também um homem com o treino ideal para lidar com qualquer pergunta que possa colocar em causa os objetivos da entidade que representa.

É com base na experiência acumulada que Peter Hutton defende o projeto futebolístico da Arábia Saudita. Aponta para a sustentabilidade de uma “liga histórica” com vontade de se soltar do poder estatal, desvaloriza os gastos financeiros ao mostrar como a liga inglesa é mais despesista, e até saúda a abertura crescente ao público feminino.
A chegada de Cristiano Ronaldo é vista como o catalisador fundamental, um “investimento na marca” que abriu portas a um nível global. No entanto, Hutton esclarece que o plano saudita diferencia-se de experiências passadas, como a da China, por possuir um roteiro de negócios claro, focado na melhoria de infraestruturas e na criação de uma economia do futebol a caminho da privatização.
Um dos pontos centrais da estratégia saúdita é combater o rótulo de “liga de pré-reforma”. Para o diretor, a contratação de talentos jovens com valor de revenda e a aposta no desenvolvimento de jogadores locais e estrangeiros são essenciais para garantir o crescimento a longo prazo. Hutton refere que a visibilidade da liga já alcança números interessantes em mercados como Portugal e Brasil, posicionando-a, “em certas métricas, no top 10 mundial.”
Hutton fala também da evolução social impulsionada pelo futebol, destacando o crescimento exponencial do futebol feminino e a presença cada vez mais significativa de mulheres nos estádios sauditas. Para o executivo, o desporto está a servir como uma figura de proa para uma mudança cultural notável na sociedade da Arábia Saudita. É isso que Hutton vislumbra no horizonte. O Mundial de 2034 será na Arábia Saudita e para o diretor da liga local, o país terá um boa base por utilizar infraestruturas já existentes e por aproveitar a paixão de uma população “fanática por futebol”.
Sobre as transmissões desportivas, que vivem uma forte mutação, Hutton antevê um futuro onde o consumo de media será multiplataforma, adaptando o espetáculo aos novos hábitos das audiências, sem nunca perder a essência da paixão que o jogo desperta.
Numa entrevista ao Observador em Miami, à margem do Portugal Football Summit, Peter Hutton faz a defesa do projeto futebolístico da Arábia Saudita, desmistifica alguns preconceitos em relação ao futebol no Médio Oriente, aponta para as ambições da liga que ajuda a construir e aplaude o crescimento de formatos audiovisuais diferenciados no setor do desporto.

O Peter é um homem com uma vasta experiência no desporto. Muito se tem dito sobre a liga saudita nos últimos anos. Com base em todo o currículo que acumulou, o que nos pode dizer sobre a real dimensão da liga saudita e a importância que tem no mundo do futebol?
Para mim, uma das coisas que me atraiu no que está a acontecer na Arábia Saudita é que, em primeiro lugar, baseia-se em algo antigo e histórico. A liga já existe há mais de 50 anos e algumas equipas são muito mais antigas do que isso. Portanto, não é uma liga nova, mas é uma liga com um sentido de propósito. Foi uma liga controlada pelo governo desde o seu início, com todas as contas pagas pelo governo. Agora, está a entrar num período de privatização onde se pode olhar para este período de entrada de novos jogadores, particularmente Ronaldo, como um investimento na marca. Mas a ideia é desenvolver a economia do futebol saudita para que não tenha de ser financiado pelo governo no futuro, para que as equipas se possam manter pelos seus próprios pés e possamos orgulhar-nos de quem são e do que fazem.
Mas num país como a Arábia Saudita, não há o risco da liga perder sustentabilidade e segurança ao sair da asa estatal?
É um risco, sim. Mas acho que uma das coisas boas de um país como a Arábia Saudita é que existe uma visão de onde querem chegar. Existe um roteiro que diz: investimos agora, melhoramos as instalações, melhoramos as equipas, melhoramos as estruturas por trás das equipas e, ao usar esse investimento, estamos a construir algo para o futuro. Esse é o desafio de todos nós que estamos envolvidos na realidade deste negócio: transformá-lo em algo real, genuíno e autosustentável, e não em algo que o resto do mundo possa dizer que estão apenas a “atirar dinheiro a um problema”. Temos de tentar construir algo, e isso não é exclusivo da Arábia Saudita; é apropriado para outras ligas também, mas há muitas indústrias de futebol que dão prejuízo por aí. Precisamos de transformar isto em algo sensato e sustentável.
Qual é a diferença entre a liga saudita e aquilo que foi o plano chinês?
Acho que a diferença é que aprendemos com ambos. Vê-se esse entusiasmo com a chegada de jogadores de renome, mas é preciso fazê-lo como um investimento e dizer: ‘Estou a fazer isto por uma razão, e o próximo passo é este, e o seguinte é aquele’. Isso não aconteceu necessariamente na primeira vez na China. Houve um entusiasmo em apoiar o desejo do governo de investir no desporto, mas não havia necessariamente um plano de negócios subjacente. Neste caso, existe um plano de negócios e esperamos poder transformá-lo em algo a longo prazo, sustentável e algo de que nos possamos orgulhar.
Mas quão longe pode chegar este projeto? Por exemplo, vê a liga saudita a ser uma das mais vistas no mundo e comparada a nivel desportivo com outras ligas na Europa?
Acho que, mesmo olhando para os números agora, vejo a liga saudita provavelmente no top 10, dependendo das métricas que usar. Primeiro, porque tem uma audiência enorme no Médio Oriente; é claramente a liga dominante nessa região, que tem uma enorme população que assiste a futebol. É transmitida em canal aberto e chega a imensa gente. Mas agora temos acordos de transmissão basicamente em todos os mercados do mundo, e os números que vemos em mercados como o Brasil ou Portugal são enormes. Assim, vê-se a liga a crescer em visibilidade e credibilidade. A credibilidade é muito importante. Olhe para como o Al Hilal jogou no Mundial de Clubes ou o que fizemos na Liga dos Campeões da Ásia; essas coisas significam que este não é um produto puramente doméstico, mas algo com credibilidade noutros mercados.
Mas como será depois de Ronaldo? Porque refere esses números num momento em que o Cristiano Ronaldo faz parte da liga. É normal associar as coisas. Como planeiam viver depois de Ronaldo?
O lado positivo é que não somos apenas o Ronaldo. Ele claramente fez uma diferença massiva na liga e continua a fazê-la, tanto em termos da sua reputação internacional como na forma como se envolve na elevação dos padrões locais. Isso é algo de que ele se deve orgulhar. Mas há grandes nomes: Karim Benzema, João Félix, há muitos jogadores jovens que vieram de França e de Portugal, em particular nos últimos dois anos, e que estão a melhorar. Ronaldo abriu portas como talvez mais ninguém no mundo conseguiria, mas temos de garantir que estamos a construir um base de talento, tanto saudita como estrangeiro, que ajudará a liga a continuar a crescer.

Acha que não são vistos como uma “liga para a pré-reforma”?
Se olhar para os jogadores que entraram nos últimos dois anos, isso mudou definitivamente. É verdade que, quando quisemos renovar a imagem da liga, procurámos nomes reconhecíveis que trouxessem seguidores nas redes sociais e audiências televisivas. Mas os investimentos recentes mostram jogadores que têm valor de revenda no final dos seus contratos na Arábia Saudita. Há o desejo de trazer talento jovem. Qualquer equipa forte é sempre uma mistura de juventude e experiência; não se pode colocar apenas um monte de homens velhos e esperar ganhar a liga.
Mas os valores são massivos. Apenas alguns clubes europeus conseguem competir com as equipas sauditas. Isto é financeiramente fiável? Durante quanto tempo podem fazer isto?
Se olhar para o valor total do mercado de transferências, é uma fração do que a Premier League gasta em jogadores. Eu vivi em França como fã de futebol inglês e via os adeptos franceses a perguntarem: ‘Como podem sustentar a compra de todo o nosso melhor talento para Inglaterra?’. Os jogadores movem-se em vagas de um mercado para outro. Atualmente, fizemos progressos reais para que isto seja uma indústria genuína na Arábia Saudita, ao mesmo tempo que tentamos construir uma liga da qual os sauditas se orgulhem, mostrando que bons jogadores vêm jogar aqui e que vale a pena assistir e tornar-se fã de uma equipa. Esse era o propósito do investimento: mudar essa mentalidade.
Olhando para o futuro, daqui a oito anos a Arábia Saudita terá um Mundial. Como é que o país se está a preparar? Tivemos o Catar com problemas de clima, e várias mortes ligadas à construção de estádios. Não há Mundial sem problemas, sabemos disso. Qual será o problema da Arábia Saudita e como planeiam resolvê-lo?
Não seria um Mundial se não houvesse uma história de crise na preparação. tivemos bastantes nos EUA desta vez. O bom da Arábia Saudita é que muitos dos estádios já existem, o que é importante e um benefício semelhante ao de realizar jogos nos EUA. Ter estádios e infraestruturas já existentes evita uma conta enorme associada ao Mundial e retira muito do risco. Além disso, há uma enorme população fanática por futebol, não só na Arábia Saudita, mas em todo o Médio Oriente, que comparece aos jogos. Viu-se isso no Qatar: uma das histórias de medo era que os estádios estariam vazios, mas não estiveram. Podemos esperar estádios cheios na Arábia Saudita também.
O que têm a aprender com este Mundial?
Uma das lições sobre grandes eventos é que as pessoas procuram histórias negativas antes de acontecerem. Depois de tudo o que se disse no início, veja o que estamos a desfrutar na América: estádios cheios, histórias incríveis como a do guarda-redes de Cabo Verde ou Curaçau. As histórias emergem e o evento é mais forte do que a negatividade que sempre o precede.
O Peter tem uma longa experiência no futebol, nos media e nos serviços de transmissões desportivas. Vê as pessoas a verem jogos de futebol na televisão daqui a oito anos?
Sim, vejo. Mas as pessoas irão consumir na plataforma que lhes convier. A FIFA merece crédito por relaxar as regras sobre o YouTube e o TikTok desta vez, permitindo que as emissoras coloquem jogos nos seus canais principais, mas também nestas plataformas. A Fox Sports aqui teve excelentes números no YouTube. Os gostos de consumo mudam à medida que o hardware e o comportamento se desenvolvem, e o futebol precisa de se adaptar a isso. Mas a beleza da paixão que o futebol detém é que as pessoas encontrarão uma forma de ver o que realmente lhes convenha.
Mas acha que vão ver um jogo completo?
Alguns sim, outros alimentar-se-ão de clipes, formatos curtos e bastidores; essa é a realidade. O público doméstico, que era maioritariamente masculino quando eu era mais jovem, mudou, e a quota feminina de visualização tem aumentado continuamente. As coisas mudam e desenvolvem-se, e é isso que torna a indústria tão interessante como os jogos em campo; há sempre uma nova história, é preciso testar, aprender e ser curioso.
Falou sobre o público feminino em crescimento. Isso acontece na liga saudita?
É uma história interessante e uma das razões pelas quais me envolvi – o compromisso em desenvolver a parte feminina do jogo. Isso aconteceu claramente em campo, onde todos os jogos da liga feminina saudita são televisionados. A liga começou há apenas três ou quatro anos, mas cresceu fortemente com jogadoras internacionais de relevo. Além disso, se olhar para as multidões nos jogos, a sociedade saudita mudou: passou de um ponto onde não havia mulheres nas bancadas para agora, onde elas representam uma proporção significativa do público. O Ronaldo também ajudou nisso, atraindo novos públicos e tornando o desporto mais relevante para toda a sociedade saudita; ele tem sido a figura de proa de um movimento de mudança notável.
Voltemos às transmissões e às novas plataformas, elas não são tão reguladas como os media tradicionais. Não existe uma visão editorial ou jornalistas; muitas vezes são apenas “tipos engraçados” a tentar criar conteúdos para as redes sociais. Isto é um problema? Devemos pensar em regular este tipo de transmissões também?
Acho que o caminho é termos mais versões de um jogo disponíveis para as pessoas. Aqui nos EUA, vemos a versão da NFL no Nickelodeon com personagens de desenhos animados, o que atrai um público específico e traz mais pessoas para o desporto. Ter mais versões e diferentes formas de contar histórias em torno do jogo é bom. A forma como as pessoas se importam com o jogo não creio que se possa regular; cabe à própria audiência.
Estamos a tentar criar um grande espetáculo visível em todas as plataformas?
A realidade é que não se pode controlar o consumo. A produção de media segue os gostos das audiências. Dizer que existe apenas uma forma de contar a história é um design destinado ao fracasso.

Gosta dos intervalos comerciais que surgiram neste Mundial?
A minha posição pessoal vai contra o que está a ser feito pelas transmissões americanos, mas é preciso adotar uma política de “testar e aprender”. Testar nem sempre significa que o novo é bom; significa analisar as evidências e tomar uma decisão qualificada depois.
Terminamos com a sua expectativa. Para este Mundial, quem acha que é favorito à conquista?
Como fã da Inglaterra, a minha principal expectativa é a desilusão, porque já testei e aprendi isso. Acho que a competição ainda está numa fase fascinante e genuinamente aberta. Adoro como a França parece “em chamas”, a Espanha parece uma equipa forte e Portugal, pela forma como está a melhorar, dá-nos esperança. Será uma fase eliminatória muito interessante.

