(c) 2023 am|dev

(A) :: Só a aura de quem é maior que o mundo consegue parar a terra e o povo que não têm igual (a crónica do Argentina-Cabo Verde)

Só a aura de quem é maior que o mundo consegue parar a terra e o povo que não têm igual (a crónica do Argentina-Cabo Verde)

A história que uniu uma nação e emocionou miúdos e graúdos acabou a muito custo. Afinal, este ainda é o palco que dá vida aos desejos de Lionel. Fica o sonho de um país que se fez gigante (3-2, a.p.).

Tiago Gama Alexandre
text

Siga tudo sobre o Mundial-2026 aqui no Observador

Canta, irmão.
Canta, meu irmão.
Que a Liberdade é hino
E o Homem, a certeza.

Com dignidade, enterra a semente
No pó da ilha nua.
No despenhadeiro da vida, a esperança é
Do tamanho do mar
Que nos abraça.

São os filhos da liberdade, entram em campo como tubarões e chegaram à América para escrever mais uma página bonita na história de um pequeno país em que também se fala português. Como diz o hino nacional de Cabo Verde, o Cântico da Liberdade, que foi adotado em maio de 1996 e tem letra de Amílcar Spencer Lopes e música de Adalberto Higino Tavares Silva, “a esperança é do tamanho do mar” que abraça o povo cabo-verdiano. Depois de pararem Espanha e Uruguai, dois países que, outrora, dominaram o mundo do futebol, os Tubarões Azuis não tiveram medo de ser surpreendidos por uma Arábia Saudita que estava, igualmente, a lutar pelo apuramento para a próxima fase e, apesar de não terem conseguido vencer, garantiram o segundo lugar do grupo H, “eliminando” os uruguaios, e tornaram-se o país mais pequeno a chegar à fase a eliminar do Campeonato do Mundo.

Agora era hora de medir forças com quem estava no trono, a super Argentina de Lionel Scaloni e o incontornável Lionel Messi. É certo que o segundo Lionel tem sido uma das grandes figuras deste Mundial, mas o duelo com Cabo Verde ficou marcado por um registo histórico alcançado pelo primeiro: Scaloni chegou aos 100 jogos no comando técnico da albiceleste. O início da trajetória remonta ao ano de 2018, quando o jovem treinador, que tem agora 48 anos, decidiu dar o salto dos Sub-20 para a seleção principal do seu país, que teimava em não se encontrar nas grandes competições. Desde então, Lionel Scaloni venceu tudo o que havia para ganhar — Mundial, duas Copas América e Finalíssima, tendo ainda conquistado o prémio de treinador do ano na Bola de Ouro e no The Best. No total, chegou aos 16 avos de final do Campeonato do Mundo com 72 vitórias, 18 empates e apenas nove derrotas em 99 jogos.

https://observador.pt/2026/06/27/entre-estrelas-e-o-atlantico-ecoa-o-cantico-da-liberdade-de-quem-foi-a-america-abracar-a-historia-a-cronica-do-cabo-verde-arabia-saudita/

“Estamos num bom momento, mas agora as margens são muito pequenas. Este é um jogo em que, se perderes, estás fora. Sabemos disso. São uma boa equipa. Já os analisámos, não só porque vamos jogar contra eles, mas porque estávamos a estudar possíveis adversários e depois qualificaram-se. Não estamos surpreendidos, para ser sincero. São uma boa equipa e não estão aqui por acaso. Temos de os respeitar e é isso que vamos fazer. Contra a Arábia Saudita mereciam ganhar. Frente à Espanha e ao Uruguai, talvez tenham sofrido um pouco mais, mas defenderam bem. Também fecharam bem os espaços interiores e são muito perigosos no contra-ataque. Messi? Claro que tudo o que ele faz é mais visível, mas há mais um avançado na equipa. Criamos oportunidades e o Leo Messi, além de ser um grande jogador, é um avançado. Jogue com o Julián [Alvarez] ou com o Lautaro [Martínez], vamos tentar que todos marquem, tal como qualquer outro”, analisou Scaloni.

“Temos uma ligação grande com a Argentina. Poder enfrentá-los é um prémio para estes jogadores, para esta equipa e para este povo. Para nós é uma grande satisfação enfrentar aquele que, para muitos, é o maior jogador de todos os tempos. Vai ser a camisola 10 contra as dez ilhas? Obviamente. Teremos caráter, disciplina e a nossa identidade. Sabemos da importância deste jogo. É o jogo das nossas vidas, mas vamos aproveitá-lo e dar o melhor de nós. O nosso único pensamento é tentar ultrapassar esta eliminatória. Estamos tranquilos. Chegámos aqui por mérito próprio e não há nada a recear nem motivo para excessiva preocupação. Dificuldades? Acho que isso preocupa todos em África. Essa situação não é de agora. Nas competições anteriores tem havido essa dificuldade, as equipas africanas não conseguem aguentar a parte final do jogo”, garantiu Bubista.

https://twitter.com/sporttvportugal/status/2073164961732247958?s=20

Depois de ter rodado o seu onze diante da Jordânia, mantendo apenas Emiliano e Lautaro Martínez, Lionel Scaloni voltou à forma habitual, optando por deixar o avançado do Inter Milão no ataque, ao lado de Lionel Messi, e lançar Facundo Medina no lado esquerdo da defesa. Cristián Romero recuperou de um problema no joelho e juntou-se a Lisandro Martínez no centro da defesa. Já Bubista optou por fazer cinco mudanças, voltando a mexer nos corredores laterais, com Steven Moreira e Sidny Lopes Cabral a renderem Wagner Pina. No miolo, Laros Duarte juntou-se ao irmão Deroy e a Kevin Pina, com Jovane Cabral a voltar de lesão diretamente para o lugar de Willy Semedo, com Nuno da Costa a estrear-se a titular em Mundiais. Dailon Livramento ficou no banco, ao passo que o capitão Ryan Mendes segurou a titularidade numa altura em que está a ser investigado pelas autoridades da Nova Zelândia devido a acusações de agressão sexual. Telmo Arcanjo, que se lesionou no tendão isquiotibial, sentou-se no banco.

Com David Beckham a assistir e o céu de Miami bastante negro, o jogo começou com maior ascendente argentino, mas com pouco espaço para criar perigo, por conta da excelente organização cabo-verdiana, que baixou o bloco e fechou o espaço central com o importante contributo de Pina. Com bola, os Tubarões Azuis tentaram por diversas vezes surpreender em transição, mas a seleção das pampas fechou bem o espaço com uma rápida reação à perda. Messi foi o primeiro a quebrar a organização defensiva de Cabo Verde, mas o seu remate cruzado, rasteiro, na passada, saiu ao lado (15′). A pausa para hidratação acabou por fazer bem à albiceleste que, logo a seguir, inaugurou o marcador: grande passe de Lisandro Martínez para as costas da defesa, Diney Borges hesitou, Messi dominou e, isolado, atirou fora do alcance de Vozinha (29′). Ao cair do pano, Enzo Fernández desferiu um remate colocado à entrada da área para defesa apertada de Vozinha (45′).

https://twitter.com/LiveModeTV_PT/status/2073173902289678799?s=20

O intervalo fez bem aos Tubarões Azuis, que tiveram uma entrada afirmativa, acercando-se da baliza de Dibu. A abrir, Steven ganhou espaço para subir na direita, cruzou, Enzo não completou o corte e, à entrada da área, Deroy apareceu a rematar colocado para uma estirada de Dibu junto ao relvado (54′). Pouco depois, Cabo Verde voltou a ter espaço na direita, Ryan recebeu sem marcação, contemporizou e, no momento certo, tocou curto para Deroy Duarte que, na pequena-área, atirou forte e cruzado para o empate (59′). Logo a seguir ao golo, Leo Messi voltou a aparecer isolado, mas Vozinha apareceu no momento e negou-lhe o bis com uma enorme mancha (63′). Já com Alvarez, Nicolás González, Jamiro Monteiro e Dailon em campo, a Argentina voltou a assumir as despesas da partida e quase faturou de livre, com Messi a apanhar todos de surpresa na cobrança, mas Vozinha voltou a voar para travar o astro argentino (73′). Depois da pausa para hidratação, Willy e Hélio Varela saltaram do banco e os campeões do mundo voltaram a ameaçar, valendo Pico a impedir o golo de Enzo, que tinha a baliza à sua mercê (81′).

https://twitter.com/LiveModeTV_PT/status/2073186842023784657?s=20

Para a reta final do tempo regulamentar, Scaloni lançou Leandro Paredes e Nico Tagliafico e, no lance seguinte, Mac Allister aproveitou um corte à entrada da área para armar o remate dentro da área, mas Deroy Duarte cortou com a perna (87′). Já na compensação, Paredes armou o remate de fora da área, mas Vozinha voltou a impor-se, defendendo a dois tempos (90+2′), aparecendo logo a seguir para travar novo livre de Messi (90+5′). A pausa voltou a fazer bem à albiceleste, que chegou ao golo logo a abrir o prolongamento, com Leo Messi a cobrar um canto na esquerda para o desvio ao primeiro poste de Mac Allister, com Lisandro Martínez a recolher ao segundo poste, sem marcação, desferindo depois um remate forte para o 2-1 (92′). A partir daí Cabo Verde voltou a aventurar-se no ataque, contando com as entradas de Yannick Semedo e Gilson Benchimol, e foi feliz num dos melhores lances deste Mundial: Sidny recebeu de Semedo na esquerda, deambulou para dentro, deixou Mac Allister pelo caminho e, já dentro da área, desferiu um grande remate em arco que entrou no ângulo superior mais distante (103′).

https://twitter.com/LiveModeTV_PT/status/2073198995535511923?s=20

https://twitter.com/LiveModeTV_PT/status/2073201512369537514?s=20

Gonzalo Montiel saiu do banco para os últimos 15 minutos, a tempo de ver mais uma obra de arte de Messi, que voltou a cobrar um canto na esquerda com conta, peso e medida para Romero, que ganhou ao primeiro poste e cabeceou para o 3-2 (111′). Logo a seguir ao golo, Sidny voltou a ter uma oportunidade de levantar o estádio no corredor esquerdo, cobrou o livre à entrada da área para a baliza, mas Dibu voou e impediu o golo com uma grande defesa (116′). Os argentinos acabaram o jogo a sofrer e a perder tempo, mas conseguiram, a muito custo, segurar o apuramento para os oitavos de final (3-2, a.p.). Para a história fica um país de 500 mil habitantes que se fez gigante no maior palco do mundo. Só Messi conseguiu “arruinar” um fim de semana de festa, em que se comemora, no domingo, o Dia da Independência cabo-verdiana.

https://twitter.com/LiveModeTV_PT/status/2073205402603225563?s=20

A estrela

  • Sim, é uma repetição, mas já se tornou inevitável não colocar Lionel Messi nesta categoria. É um dos grandes destaques deste Campeonato do Mundo e, como se não bastasse o que faz dentro de campo, os números e os recordes não enganam. Diante de Cabo Verde, a pulga voltou a andar à solta e chegou aos sete golos neste Mundial, igualando o seu melhor registo numa edição, que foi alcançado em 2022. Para além disso, marcou pelo oitavo jogo consecutivo da competição, prolongando o melhor registo de sempre, que já era seu. Joga e faz jogar como se tivesse 25 anos e só não marcou mais porque Vozinha voltou a ser grande.

https://twitter.com/Footballtweet/status/2073203865571197213?s=20

O joker

  • Andaram este Campeonato do Mundo de mãos dadas e o encontro dentro das quatro linhas não podia ter sido melhor. Vozinha só não foi o herói de jogo porque um tal de Leo Messi voltou a resolver. Nos últimos dias, a FIFA lembrou a história de vida do veterano guarda-redes cabo-verdiano, que era para se ter chamado… Jorge Valdano, que foi campeão do mundo em 1986 com Diego Maradona. Só não aconteceu porque a mãe contrariou a vontade do pai e porque a lei do seu país não permitia que os habitantes tivessem nomes estrangeiros. Ficou Josimar, para o mundo Vozinha.

https://observador.pt/2026/06/16/a-influencia-de-josimar-a-alcunha-por-fazer-queixas-aos-avos-e-as-lagrimas-pela-mae-sem-visto-o-dia-em-que-vozinha-se-tornou-uma-lenda/

A sentença

  • Pela sexta edição consecutiva, a Argentina está nos oitavos de final e tem o caminho semiaberto para chegar à final. Na próxima fase, a campeã do mundo vai defrontar o Egito, seguindo-se um embate contra Suíça, Colômbia/Gana. Nas meias-finais, os argentinos podem encontrar Brasil/Noruega ou Inglaterra/México. Curiosamente, o jogo mais complicado pode ter sido mesmo este, frente ao país com menos história futebolística deste lote. Cabo Verde despede-se da competição com uma das histórias mais bonitas de sempre.

https://twitter.com/FIFAWorldCup/status/2073206219884409343?s=20

A mentira

  • Quem pensava que este jogo eram favas contadas, perdeu uma das partidas mais emocionantes deste Mundial. E essa é, porventura, a mentira a retirar deste jogo. O sucesso de Cabo Verde não foi por acaso, devendo-se à astúcia tática, à intensidade e à confiança transmitidas por Bubista. Não venceu nenhum jogo, é certo, mas também não perdeu no tempo regulamentar. E defrontou três campeões do mundo. A história é incrível e vai perdurar na eternidade da competição.

https://twitter.com/fcfcomunica/status/2073210286652146075?s=20