Numa altura em que Portugal se debate com uma das maiores ondas de calor deste século — com temperaturas máximas a rondar os 40ºC durante pelo menos uma semana, e noites tórridas —, muitos serviços hospitalares e centros de saúde do SNS não têm a climatização adequada: faltam sistemas de ar condicionado, sobretudo nos hospitais mais antigos, e noutros o ar condicionado está frequentemente avariado. Ainda esta semana, o diretor executivo do SNS sublinhou a importância de a população ter acesso a espaços climatizados — Álvaro Almeida disse que esse era “um ponto central do plano sazonal” e que as unidades de saúde já tinham tomado as “medidas necessárias” para os assegurar. O relato dos profissionais no terreno mostra outra realidade.
O presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH), Xavier Barreto, reconhece que as condições atuais dos hospitais são melhores do que eram em 2003, mas salienta que há muitos serviços, nomeadamente enfermarias, que não têm as condições de climatização adequadas. “Estamos melhor do que estávamos em 2003, mas há problemas de climatização em muitos serviços, desde o ambulatório às enfermarias”, diz o responsável, recusando identificar os casos concretos.
O presidente da APAH lembra, no entanto, que os problemas de climatização se concentram sobretudo nos hospitais mais antigos. “Às vezes estamos perante edifícios que têm décadas, às vezes até mais do que isso, que têm problemas de isolamento nas janelas, na forma como estão construídos, na forma como estão orientados. Há uma série de problemas de construção que às vezes são muito difíceis de ultrapassar”, sublinha Xavier Barreto.
Problemas com climatização estendem-se às unidades do SNS em todo o país
De acordo com um levantamento feito pelo Observador junto de vários responsáveis hospitalares e dirigentes sindicais, a falta de climatização adequada nas unidades do SNS é comum a todas as regiões do continente, afetando muitos hospitais e dezenas de centros de saúde. “É um problema que está generalizado“, diz Xavier Barreto. No caso dos serviços hospitalares, entre as Unidades Locais de Saúde (ULS) mais afetadas estão a de São José, Santa Maria, Santarém ou Portalegre (na zona sul) ou a ULS de Santo António, Trás-os-Montes e Alto Douro e o próprio IPO do Porto, a norte.

Nos cuidados de saúde primários, o problema da falta de climatização adequada atinge proporções ainda maiores, com cerca de metade dos coordenadores dos centros de saúde a nível nacional a reportarem problemas, segundo o último balanço feito pela associação que representa os profissionais das Unidades de Saúde Familiares.
Nos hospitais da zona central de Lisboa, que pertencem à ULS de São José, os problemas de climatização dos edifícios (alguns deles construídos ainda no século XVI) são frequentes. No hospital Dona Estefânia, as avarias do sistema de ar condicionado são comuns, tornando mais difícil o tratamento de feridas e aumentando a sensação de calor extremo, diz um trabalhador da ULS, sob condição de anonimato. No hospital dos Capuchos, um antigo convento, o problema da falta de climatização persiste, apesar das intervenções de melhoria feitas nos últimos anos.
Também na ULS de Santa Maria os problemas com o ar condicionado afetam vários pisos, adianta o presidente da Federação Nacional dos Médicos (FNAM), André Gomes. Um médico do hospital salienta que, nos internamentos, “em quartos com quatro e cinco doentes, é um sufoco”. O Observador questionou as ULS de São José e Santa Maria mas não obteve resposta.
Na zona das consultas externas do IPO de Lisboa — um edifício com 80 anos — também não há ar condicionado, um problema que o atual conselho de administração está a tentar resolver, com a “instalação de um sistema AVAC (Aquecimento, Ventilação e Ar Condicionado), encontrando-se os trabalhos em curso”, esclarece a instituição, acrescentando que “até à conclusão da obra, a climatização dos espaços está a ser assegurada através de equipamentos portáteis de ar condicionado”.
Segundo o presidente da FNAM, há também falhas frequentes na climatização nos hospitais de Santarém e Portalegre. Fonte oficial do hospital de Santarém admite dificuldades no funcionamento do ar condicionado em alguns espaços, um problema que está a ser resolvido através da substituição do quadro elétrico. Já em Portalegre, fonte oficial fala em “constrangimentos pontuais”, nomeadamente um problema no ar condicionado que afetou esta sexta-feira uma “área restrita do internamento”.
Na Península de Setúbal, o caso mais grave é do hospital da Nossa Senhora do Rosário no Barreiro, onde “não há ar condicionado nas zonas das consultas externas e na maior parte dos serviços”, adianta o médico João Proença, dirigente sindical da FNAM na região. Em alternativa, a administração recorre a ventoinhas nesses espaços, diz. Também no Hospital Ortopédico de Sant’Iago do Outão, um edifício antigo no Parque Nacional da Arrábida, não existe climatização adequada, adianta o médico.
Pais de crianças em tratamento no IPO do Porto levam ventoinhas para enfrentar o calor
Na zona norte, o IPO do Porto debate-se, há anos, com problemas de climatização que afetam diretamente as condições em que os doentes oncológicos são tratados. “Na Pediatria, há crianças oncológicas debilitadas a fazer tratamento e são os pais que têm de trazer ventoinhas”, denuncia a vice-presidente da FNAM, Joana Bordalo e Sá, também médica oncologista na instituição. Segundo a especialista, “vários pisos, que têm doentes das áreas cirúrgicas, pós-operatório, doentes em quimioterapia, estão nas mesmas condições”, uma situação que se arrasta há anos. À RTP, o presidente do IPO do Porto, Júlio Oliveira, explicou que, nos últimos dois anos, foi instalado ar condicionado numa parte dos edifícios, num projeto financiado pelo PRR, embora grande parte dos serviços continue sem climatização.
No Hospital de Santo António, construído há mais de dois séculos, “não há ventilação correta em vários serviços”, garante a vice-presidente da FNAM. “É extremamente quente no verão e frio no inverno”, adianta. Já no Hospital de Vila Real, “há zonas sem ar condicionado, nomeadamente o serviço de urgência”, o que, alerta, acarreta “riscos para os doentes”. “Isto pode piorar o prognóstico: se o doente vai à urgência, ou seja está num ambiente fechado e não tem ventilação adequada, vê a sua condição piorar”, frisa Joana Bordalo e Sá, acrescentando que, em geral, “a conjugação de infraestruturas antigas e falta de investimento e obras de renovação” levam a um cenário de degradação das condições a que os utentes estão sujeitos no SNS.
No Algarve, os problemas com o funcionamento do ar condicionado são frequentes — nomeadamente no envelhecido edifício que alberga o hospital de Faro — e afetam alguns serviços, diz a dirigente local do Sindicato dos Enfermeiros Guadalupe Simões. A ULS do Algarve salienta que, “de um modo geral, os sistemas de climatização encontram-se em funcionamento”. Mas reconhece que, “face às elevadas temperaturas que se têm verificado, poderá ser necessário proceder pontualmente a ajustes ou correções em alguns equipamentos”.
“Uma desgraça” nos centros de saúde. Metade dos coordenadores reportam problemas de climatização
Nos centros de saúde, o cenário é ainda mais grave. “É uma desgraça”, aponta Guadalupe Simões. A Associação Nacional das Unidades de Saúde Familiar (USF-AN) lembrou esta quinta-feira que há muitas unidades que continuam sem climatização adequada. “O que não pode ser ignorado é que muitas unidades dos Cuidados de Saúde Primários continuam sem condições térmicas adequadas para utentes e profissionais. Falar de abrigos climatizados enquanto persistem centros de saúde com climatização insuficiente revela uma contradição que precisa de resposta”, sublinha a associação, defendendo que “as USF têm de ter condições para prestar cuidados em segurança, conforto e dignidade, sem expor utentes e profissionais a temperaturas incompatíveis com uma atividade clínica de qualidade”.
No habitual inquérito bianual às USF, que reporta ao ano passado, cerca de metade (49%) dos coordenadores das USF disseram não ter um sistema de climatização em condições adequadas – “embora com resultados ligeiramente melhores face aos do biénio anterior (55%)”. A associação diz já ter alertado a tutela quanto a este problema. “Este estado de coisas mantém-se ano após ano apesar de estar identificado pela USF-AN e comunicado à tutela“, salienta, acrescentando que “os dados evidenciam uma fragilidade estrutural que afeta diretamente a segurança, o bem-estar e a qualidade dos cuidados”.
“A situação é mais gravosa nos centros de saúde, alguns não têm sistemas de climatização adequada, outros deixaram de funcionar por falta de manutenção”, aponta o presidente da FNAM, lembrando que uma temperatura demasiado elevada dentro de gabinetes médicos e, sobretudo, de enfermagem (por vezes com uma temperatura igual à do espaço exterior) pode comprometer os cuidados prestados. “Isto retira a capacidade para fazer boa limpeza de feridas, e prejudica para questões básicas de higiene e infeção”, alerta André Gomes. O dirigente sindical vinca também o impacto que as deficientes condições de climatização dos centros de saúde podem ter nos profissionais. “Afeta a capacidade de concentração, provoca desidratação”, enumera, recordando que, de acordo com a legislação em vigor, imposta por um decreto-lei de 1986, “a temperatura dos locais de trabalho deve, na medida do possível, oscilar entre 18ºC e 22ºC”, não podendo exceder os 25ºC.
Direção Executiva do SNS nega problemas de climatização
Apesar de todos os problemas reportados por médicos, enfermeiros e gestores hospitalares, que trabalham diariamente no terreno, a Direção Executiva do SNS (cujas funções incluem garantir a resposta assistencial do SNS) nega o problema, e garante não ter conhecimento de casos de unidades do SNS onde a climatização não seja adequada. “Não existe registo nem informação de qualquer hospital ou serviço com problemas de climatização“, responde ao Observador a entidade liderada por Álvaro Almeida, garantindo que “todas as unidades do SNS encontram-se devidamente preparadas, estando garantidas condições adequadas de climatização”.

A DE-SNS acrescenta que este “é um aspeto central dos planos locais de preparação e resposta sazonal em saúde, no âmbito dos quais as ULS avaliaram as respetivas necessidades e adotaram as medidas necessárias para assegurar condições adequadas de conforto térmico”.
A onda de calor que Portugal atravessa, pelo menos até meio da próxima semana, levou já o Instituto Português do Mar e da Atmosfera a colocar 12 distritos sob aviso vermelho devido ao calor, sendo que se espera que o SNS seja colocado à prova nos próximos dias. As ULS já elevaram até ao nível de contingência para dar resposta a um eventual aumento da procura.
https://observador.pt/especiais/espacos-climatizados-reforcos-nos-servicos-e-escalas-asseguradas-o-plano-do-governo-para-enfrentar-o-calor-em-portugal/
Taxa de mortalidade foi muito superior nos internamentos sem ar condicionado, conclui estudo
O impacto da falta de climatização não é uma questão menor. Para os doentes, pode mesmo ser devastador: um estudo do Instituto Doutor Ricardo Jorge, que analisou o efeito da onda de calor do verão de 2003, concluiu que nas enfermarias sem ar condicionado, a mortalidade foi 55% superior em relação às restantes.
A atual onda de calor prolongada assemelha-se ao calor extremo trazido ao território continental entre 29 de julho e 14 de agosto de 2003 pela maior onda de calor já registada em Portugal, e que provocou 2.700 mortes em excesso. Um estudo produzido, em 2010, pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), descobriu que taxas de mortalidade dentro dos hospitais foram muito mais elevadas nas enfermarias sem ar condicionado instalado nesse período. “O estudo demonstrou que, durante a onda de calor de agosto de 2003, as taxas de mortalidade foram visivelmente mais baixas nas enfermarias com ar condicionado (5,8 mortes por mil pessoas-dia) do que nas enfermarias sem climatização (9,0 mortes por mil pessoas-dia)”, lê-se no trabalho, enviado ao Observador pelo INSA.
Os autores compararam o período de 18 dias que durou a onda de calor em 2003 com outros e concluíram que a diferença significativa na mortalidade não se verificou de forma generalizada. “Quando analisados os períodos de inverno e primavera (grupo de controle), onde o ar condicionado não era necessário para refrescar, a taxa de sobrevivência entre enfermarias com e sem AC foi estatisticamente idêntica. Isto prova que a diferença de mortalidade observada no verão se deveu diretamente ao protetor efeito do ar condicionado e não a uma melhor qualidade geral ou diferenças intrínsecas nos cuidados prestados pelas enfermarias que tinham AC”, escrevem os autores, o que reforça a importância de os hospitais, e particularmente os serviços de internamento (conhecidos por enfermarias) estarem dotados de uma climatização adequada.
A seguir à onda de calor de 2003, a Administração Central do Sistema de Saúde passou a recomendar a instalação de ar condicionado em todos os hospitais, mas apenas as unidades construídas após o ano de 2008 são obrigadas a ter este tipo de climatização. Ora, dos cerca de 100 hospitais do SNS, apenas uma minoria foi construída após esta data.
https://observador.pt/2026/02/20/ninguem-compreende-hospitais-sem-orientacoes-sobre-metas-internas-a-atingir-em-2026-termos-de-referencia-estao-atrasados-ha-meses/
A falta de capacidade de alguns hospitais e centros de saúde para garantirem uma adequada climatização dos espaços preocupa a associação que representa os profissionais das Unidades de Saúde Familiares, que teme que o problema se possa agravar num contexto em que as Unidades Locais de Saúde estão ainda ‘às cegas’ sem contratos-programa, nem orientações orçamentais para este ano — um problema que o Observador noticiou em fevereiro —, o que pode comprometer os investimentos. “Esta preocupação agrava-se num contexto em que persistem atrasos na contratualização das ULS, indefinição de objetivos e limitações na capacidade de planear, contratar e responder às necessidades dos serviços”, sublinha a USF-AN.
Para a vice-presidente da FNAM, a responsabilidade pelo grau de degradação das infraestruturas do SNS é dos governos, que não têm libertado verbas para renovação dos edifícios. “As instituições não têm onde ir buscar recursos, e há medidas simples que deveriam ser tomadas. Em termos de orçamento, o investimento é uma rubrica a que ninguém presta atenção e os hospitais vão-se degradando”, critica Joana Bordalo e Sá.