A literatura infantil é normalmente escrita por adultos e tem como alvo declarado as crianças. No entanto os adultos desconfiam das crianças. Talvez por isso vários autores tenham sugerido que os livros para crianças não devam sob pretexto algum ser escritos por adultos. Não existe porém uma verdadeira alternativa: nenhuma criança consegue escrever um livro para crianças. A infância é a única altura da vida em que os leitores não têm a tentação de se tornar escritores, que desgraçou tantas vidas adultas.
O remédio parece ser escrever livros sobre crianças; mas como estes são escritos por adultos, são prejudicados pelo trabalho que dão, em particular o de supor às crianças um lado de dentro, uma linguagem especial e sentimentos de criança, e em particular uma grande vontade de crescer. Os melhores livros sobre crianças são assim ficções confessas: livros escritos por adultos a fingir que pensam como crianças; e nunca se saberá bem o que as crianças pensam deles. O melhor exemplo português é o romance A escola do Paraíso, de José Rodrigues Miguéis (1901-1980), publicado em 1960.
Miguéis, que viveu na América a maior parte da vida, escreveu-o tarde, como uma autobiografia mal-disfarçada (composta como a de Júlio César na terceira pessoa), talvez depois de passar três anos atípicos em Portugal. O título ameaça poesia, e a ameaça é às vezes real. Mas por volta da página 40 os leitores percebem com alívio que o título era prosaico; refere-se a um colégio na rua do Paraíso, em Lisboa. Esse colégio atraiu o protagonista desde os dois anos e meio; e o livro, como o maravilhoso Coração de Edmundo De Amicis (de 1886), é o resultado de uma atracção contumaz pela escola.
Não é fácil explicar essa atracção. O pequeno provinciano de Lisboa, para quem tudo é oficialmente ocasião para aulas, nunca aprende nada na escola. Gosta antes de imaginar relações entre “episódios soltos” (como lhes chama), em especial a seguir a golpes de teatro e desastres externos: a sua violação por uma criada, uma morte no prédio, um tremor de terra, um duplo regicídio, os avanços de um pedófilo (no capítulo intitulado “República, sou teu”), ou a compra de um piano. Os seus raciocínios são sempre frios e amáveis.
As coisas passam-se no perímetro diminuto da cidade antiga; à medida que os pais do protagonista sobem na vida vão mudando de casa; mas nunca saem da mesma área. Isso dá à vida do herói amor e estabilidade. Na última parte do romance, contudo, o protagonista começa a andar sozinho em Lisboa; já acabou a relação com o conhecimento que lhe davam o Paraíso e a escola. Um dia ouve dizer que há um incêndio e corre para norte atrás de um carro de bombeiros. Perde-se dos companheiros e vê-se num sítio que “nem lhe parecia Lisboa;” tinha chegado à Estefânia.