Num coordenado Marques’Almeida de ganga escura, a carregar uma carteira Ernest W. Baker, e a usar o seu batom clássico, Mónica Neto entra na carrinha cinzenta pelas 9h, a caminho de Ílhavo, onde decorre parte da programação do segundo dia do Portugal Fashion Experience, evento que chega ao fim este sábado, 4 de julho, com desfiles de Susana Bettencourt, A Line, Estelita Mendonça, Davii e Lo Siento. Já tem o telemóvel à mão — enquanto segue viagem com um grupo de convidados e imprensa internacional, resolve questões de logística do evento. Do Museu da Vista Alegre, segue para a Costa Nova, para o desfile de David Catalán. E pelo caminho há mais para resolver. Das garrafas de água que deviam estar nas carrinhas ao discurso do autarca num cronograma com os minutos contados, a agenda intensa não se esgota depois de a última manequim pisar a passerelle do M-Odu, no Porto.


“Na verdade, o Portugal Fashion não consegue parar; a nossa atividade é permanente porque temos a responsabilidade de representação destas marcas para continuamente perceber o que podemos fazer a seguir e para onde podemos ir”, diz ao Observador a diretora da plataforma, que explica que o evento é apenas uma componente desta cadeia. “O que faz sentido é termos uma comunicação forte de tudo o que há de melhor na moda portuguesa. Nós conseguimos conciliar isso com os nossos planos de internacionalização, que é algo que também nos diferencia desde sempre, e com uma ação permanente de apoio ao desenvolvimento de negócio”, diz Mónica Neto. “Na próxima semana tenho uma série de reuniões e follow-ups sobre o que vamos conseguir fazer, por exemplo, nas semanas da moda de setembro, que demoram meses a ser preparadas. Há calendários internacionais com quem temos de ter reuniões porque eles próprios têm timings para fechar o calendário e anunciar antes das férias.”
Desde o começo do ano a plataforma já levou designers portugueses a Paris, Copenhaga e Milão, por exemplo. Nomes como David Catalán, Miguel Vieira, Ernest W. Baker e Marques’Almeida têm presença frequente em semanas da moda internacionais também através do Portugal Fashion, que abre espaço para jovens criadores através do incubator e do concurso Bloom, o que permitiu a presença de Veehana, Lo Siento, Maria Carlos Baptista ou da e.p. ate’lye, de Enzo Peres, no showroom da Paris Fashion Week em janeiro.
As ações de internacionalização foram financiadas com fundos europeus do Portugal 2030, ainda da candidatura aprovada em 2025 e que também financiou o evento de julho do ano passado. Mas desde março que o projeto está sem financiamento, à espera da aprovação da candidatura submetida no final de janeiro. “As ações que estamos a fazer estão na expectativa do apoio que pode vir e na capacidade de angariar outras parcerias”, destaca Mónica Neto. “Submetemos uma proposta do plano de ação com o orçamento e, até à aprovação, o que temos obrigação de contratar é na expectativa da candidatura; é o risco que temos caso não venha a ser aprovada. Para esta edição, o orçamento é de 500 mil euros”, esclarece a diretora da plataforma.
Neste sentido, o anúncio da ministra da Cultura, Desporto e Juventude, ao fim do showcase da Esad, um desfile com as criações dos estudantes que concluem a licenciatura em Design de Moda, traz alguma esperança ao setor. Numa participação rápida no evento, Margarida Balseiro Lopes destacou as alterações nas regras para o Mecenato Cultural, que passa a incluir a moda entre as atividades elegíveis. “Para quem vem aos eventos, se calhar não é tão percetível, mas há um trabalho permanente de acompanhamento, mentoria e criação de pontes: as relações com a indústria e com os mercados internacionais. Portanto, sim, acreditamos que isto pode ser interessante para o apoio a esta plataforma permanente, muito para além dos eventos. Até pode abrir portas a outro tipo de parcerias, consultoras de negócio e uma série de outras entidades que também podem entrar”, considera Mónica Neto.

Designers criticam falta de espaço nas fábricas; indústria diz que marcas nacionais não são fortes
Um dia antes, no arranque do evento, Mónica Neto acompanhou a visita da comitiva internacional a duas fábricas em Paços de Ferreira. Ambas produzem para marcas de luxo internacionais, e não têm nenhum cliente nacional — uma questão comum entre os designers, que se queixam da dificuldade em entrar nas fábricas, especialmente pelas altas quantidades mínimas de produção exigidas.
“O que as pessoas às vezes não percebem é que o negócio das empresas industriais portuguesas foi muito alavancado pelo private label e pela resposta a grandes marcas internacionais que têm capacidade para pagar e produzir em grandes escalas”, reconhece Mónica Neto, que refere que já se observam “algumas mudanças”, com marcas a procurar a indústria para a produção de pequenas quantidades num âmbito de um mercado mais exclusivo. “Isso começou a mudar o mindset dos nossos industriais. A diferença é que essas marcas internacionais têm uma capacidade para pagar aquilo que é a dificuldade para uma linha de montagem de fazer uma pequena escala de produção. Os nossos designers não têm tanto essa capacidade.”
Numa iniciativa tão focada em ligar a indústria aos criadores, Mónica Neto garante que as dores dos designers nacionais estão a ser ouvidas. “Estamos a lançar uma plataforma chamada Portugal Fashion Up, onde precisamente tivemos este esforço de abordar a indústria, as associações setoriais e parceiros industriais em produção, no sentido de entrarem numa rede onde o Portugal Fashion valida um conjunto de designers e marcas e também empresas que estão disponíveis para serem contactadas por estes designers e marcas”, diz a diretora do Portugal Fashion, que explica que há dois níveis de entrada. “Um é simplesmente estar aberto a receber estes pedidos e perceber se conseguem contribuir para apoiar aquele designer no desenvolvimento de uma coleção. Depois há uma rede de empresas que já definiu até alguns apoios pré-estabelecidos, nomeadamente para os bloomers e para os incubators: como oferecer determinados metros de tecido ou a possibilidade de um desconto naquilo que eles chamam de subtaxa para fazer amostras para desfiles”.

A contrapartida para as fábricas é a plataforma de promoção, que pode valer mais num meio em que os acordos de confidencialidade impedem os parceiros da indústria de se associarem a determinadas marcas internacionais. “O que temos vindo a trabalhar com os industriais é que provavelmente nós podemos ajudar a compensar por este esforço para aceitar os nossos designers, que não têm tanta capacidade para uma encomenda de pagamentos muito elevados, mas que podem dar visibilidade às coleções no Portugal Fashion. Nós próprios podemos começar a usar a nossa plataforma de comunicação para comunicar o designer e a fábrica que o ajudou“, diz Mónica Neto.
Do lado industrial, o que se ouve é que as marcas nacionais precisam de ser melhor construídas para terem capacidade de crescer. “Tipicamente, os apoios que temos conseguido são mais centrados na promoção de imagem e comunicação. Costumo dizer que é muito ingrato porque estamos a trabalhar o fim de linha. O designer, quando vem negociar um desfile, tem que fazer todo o esforço para conseguir ter aquela coleção, alimentar a sua identidade de marca, o seu branding e as suas redes sociais. Nós proporcionamos uma série de conteúdos que saem daqui e alimentam toda essa necessidade de comunicação, promoção e vendas, mas muitas vezes ainda é insuficiente para a atividade dos designers”, argumenta a diretora do Portugal Fashion, que precisa ser a figura de diplomacia entre dois setores com potencial para crescerem juntos se forem capazes de resolver as suas diferenças.
“Não posso passar uma mensagem em que eu própria não acredito”
Ao longo dos desfiles, Mónica Neto é sempre bem recebida, com a intimidade de uma amiga de longa data. Uma relação construída mês a mês, com visitas e reuniões que antecipam os eventos e iniciativas de promoção. “É interessante estar numa timeline poderosa de contacto e perceber com os designers as expectativas; eles próprios conseguem antecipar a produção da sua coleção para os timings. É uma comunicação constante e um trabalho exigente, pois trabalhamos marcas com identidades, necessidades e mercados diferenciados.”
O discurso institucional combina com o estilo pessoal de Mónica Neto, por norma em tons discretos, mas sempre a comunicar a moda nacional. Depois do coordenado dos Marques’Almeida, na sexta-feira escolheu um colete dos Ernest W. Baker preto com pequenas lantejoulas douradas. “O preto acaba por ser uma escolha recorrente em moda, muitas vezes porque ficamos neutras e porque é tipo farda para quem trabalha nesta área. Mas não é obrigatório que seja preto, apesar de eu usar muitas vezes”, ri-se a diretora do Portugal Fashion, que dá preferência às peças nacionais. “Diria que é inevitável que eu pense em comprar português, dos nossos designers, e que tenha o cuidado de ser uma embaixadora deles na minha imagem. Não posso passar uma mensagem na qual eu própria não acredito.”
O Observador está instalado no Porto a convite do Portugal Fashion.