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(A) :: Queda de Maradona, assassinato de Escobar e um Brasil entre Senna e o "Voo da Muamba": as histórias do Mundial de 1994 (que valeu o tetra)

Queda de Maradona, assassinato de Escobar e um Brasil entre Senna e o "Voo da Muamba": as histórias do Mundial de 1994 (que valeu o tetra)

Soccer teve mais aceitação do que esperado e O Mundial de 1994 nos EUA bateu todos os recordes de assistências. De assistências e também de histórias. Boas, más ou tristes, houve um pouco de tudo.

Bruno Roseiro
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Era o primeiro Campeonato do Mundo com uma Rússia separada da União Soviética, era também o primeiro Mundial com as duas Alemanhas unificadas depois da queda do Muro de Berlim, tornou-se um Mundial para alguns outsiders ganharem o seu lugar na história, com destaque para uma Bulgária com toque nacional de Krassimir Balakov, Emil Kostadinov e Yordanov que era liderada por Hristo Stoichkov e para uma Suécia que conseguiu mostrar que aquele Europeu de 1992 só não foi seu por mero acaso (tão grande como o acaso que estendeu a passadeira a história de encantar da Dinamarca, que foi campeã após substituir a Jugoslávia). No final, aquilo que todos temiam que podia ser um fiasco tornou-se um dos Mundiais mais rentáveis de sempre apesar de ser organizado nos Estados Unidos, país que não tinha uma relação própria com o soccer.

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Entre a queda abrupta de um ídolo chamado Diego Maradona, os cinco golos de Oleg Salenko em apenas 60 minutos na goleada da Rússia frente aos Camarões ou a medalha de bronze que ficou para a Suécia depois de uma goleada diante da Bulgária, muita da história passou pelo Brasil. A Itália teve no central Franco Baresi um exemplo de resiliência, sendo sujeito a uma pequena intervenção cirúrgica ao menisco durante a prova para regressar ainda a tempo de jogar (e bem) a final, e no mágico Roberto Baggio um farol para voltar a uma grande decisão – mesmo não estando a 100%, com esse peso extra de ter falhado a grande penalidade que decidiu a final. Ainda assim, tudo passou pela canarinha, que voltou aos títulos 24 anos depois de Pelé.

Era um Mundial com uma enorme carga simbólica para o Brasil, que perdera apenas dois meses antes um dos seus maiores ídolos da história de forma trágica. Milhões de pessoas marcaram presença nas cerimónias fúnebres de Ayrton Senna, falecido no circuito de Ímola a 1 de maio de 1994, e a presença do escrete liderado por Carlos Alberto Parreira nos Estados Unidos era uma oportunidade para voltar a reerguer a cabeça de um povo abalado pela perda de uma lenda. Prometeu, cumpriu. Houve jogos bem mais complicado do que se poderia pensar sobretudo na fase a eliminar, diante de Estados Unidos (1-0), Países Baixos (o melhor jogo do torneio, 3-2) e Suécia (1-0), mas o Brasil conseguiu superar todos os obstáculos a ser coroar uma geração de jogador experientes, batidos e com um coletivo fortíssimo no desempate por grandes penalidades frente à Itália. Romário foi o melhor marcador, Bebeto fez três vezes a celebração do bebé que um dia viria a jogar em Portugal (Mattheus Oliveira), Taffarel, Dunga, Jorginho, Branco, Márcio Santos e Leonardo estiveram também em destaque, cada um à sua maneira, para o quarto título mundial (primeiro sem Pelé).

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Tudo acabou em festa depois da vitória no Rose Bowl, em Pasadena, tudo viria a terminar num dos maiores escândalos políticos e institucionais do Brasil na década de 90. Por altura do regresso, e em vez de apenas duas toneladas que tinham ido para os Estados Unidos, a comitiva do Brasil regressou com um total de 17 toneladas de bagagem. Havia de tudo: televisões, consolas, computadores, videocassetes, vários eletrodomésticos (que no caso de alguns jogadores eram cozinhas e salas…), equipamentos comerciais ou máquinas industriais. Ricardo Teixeira, presidente da Confederação Brasileira de Futebol, ameaçou não haver desfile pelas ruas caso a bagagem não fosse libertada. Passou, com alegações de falta de “condições operacionais” para fazer a fiscalização no aeroporto. No entanto, o “Voo da Muamba”, como ficaria depois conhecido, levou a várias demissões, batalhas judiciais e um rombo fiscal de um milhão de dólares.

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Uma história. O autogolo da Colômbia “favoritaça” que custou a vida a Andrés Escobar

Higuita não conseguiu estar, Valderrama estava, Freddy Rincón e Asprilla também. A Colômbia era uma das seleções que mais interesse motivava no Mundial de 1994 por estar a atravessar aquela que para muitos era uma Geração de Ouro sem precendentes no país (a ponto de Pelé dizer que era “favoritaça” à vitória). O que falhou? Os resultados. Apesar do triunfo no fecho da fase de grupos diante da Suíça, as derrotas iniciais com Roménia e Estados Unidos acabaram por eliminar os sul-americanos. No regresso a casa, no estacionamento de uma discoteca em Medellín, Andrés Escobar, defesa do Atlético Nacional que marcara um autogolo com os anfitriões, envolveu-se numa discussão com os irmãos traficantes de droga Santiago Gallón Henao e Pedro David Gallón Henao. Tinham perdido muito dinheiro em apostas ilegais por aquele lance infeliz. Humberto Muñoz Castro, motorista dos barões da droga, matou ali o jogador com seis disparos, num crime que chocou o mundo e que mergulhou a Colômbia numa reflexão sobre o poder do narcotráfico na sociedade.

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Um herói (ou anti-herói). O dia em que Maradona acabou o jogo, o Mundial e a carreira

Depois de ter cumprido uma sanção de 15 meses por consumo de cocaína, Diego Armando Maradona deixou o Nápoles em 1992. Ainda havia muitos clubes interessados, acabou por fazer uma temporada no Sevilha, a seguir regressou à Argentina para representar o Newell’s Old Boys. A cabeça do 10 estava apenas no Mundial de 1994, depois da vitória de 1986 e da final perdida em 1990. A equipa prometia muito, a goleada diante da Grécia aumentou a expetativa, tudo acabou a seguir ao triunfo com a Nigéria: no final da partida, saiu de mão dada com uma responsável da FIFA pelo controlo antidoping e viria a testar novamente positiva a mais uma substância proibida, neste caso efedrina. A Argentina não mais recuperou da saída precoce do seu capitão, caindo nos oitavos com a Roménia, Maradona não mais recuperou da saída precoce daquele que teria de ser o “seu” Mundial. Mais do que um génio, ali acabou o jogador, mesmo acabando apenas em 1997.

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Uma curiosidade. O soccer invadiu os EUA, só falhou mesmo o penálti de Diana Ross

Havia muita renitência em torno da organização de um Campeonato do Mundo nos EUA, tendo em conta que era um país onde o soccer não era propriamente famoso (e até a era com mais interesse já tinha passado). A FIFA arriscou na mesma, vendo ali uma oportunidade onde muitos adivinhavam uma crise, e a aposta foi mesmo certeira: essa fase final, com 24 equipas em nove cidades, pulverizou por completo os recordes de assistência numa só competição (3.587.538 milhões de espectadores, numa média de 68.991 por encontro) antes do aumento da prova de 24 para 32 equipas quatro anos depois, em França. Dos estádios cheios à parte financeira, correu tudo bem menos… uma parte da cerimónia de abertura: a cantora Diana Ross tinha de correr a certa altura em direção à baliza para marcar um penálti que iria “partir” a baliza mas a tentativa saiu tão mal que, mais de três décadas depois, ainda é recordada como um dos maiores falhanços em Mundiais.

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Como foram os resultados do Mundial de 1994

  • 17 de junho (fase de grupos): Alemanha-Bolívia, 1-0 e Espanha-Coreia do Sul, 2-2
  • 18 de junho (fase de grupos): EUA-Suíça, 1-1, Colômbia-Roménia, 1-3 e Itália-Rep. Irlanda, 0-0
  • 19 de junho (fase de grupos): Camarões-Suécia, 2-2, Noruega-México, 1-0 e Bélgica-Marrocos, 1-0
  • 20 de junho (fase de grupos): Brasil-Rússia, 2-0 e Países Baixos-Arábia Saudita, 2-1
  • 21 de junho (fase de grupos): Alemanha-Espanha, 1-1, Argentina-Grécia, 4-0 e Nigéria-Bulgária, 3-0
  • 22 de junho (fase de grupos): Roménia-Suíça, 1-4 e EUA-Colômbia, 2-1
  • 23 de junho (fase de grupos): Coreia do Sul-Bolívia, 0-0 e Itália-Noruega, 1-0
  • 24 de junho (fase de grupos): Brasil-Camarões, 3-0, Suécia-Rússia, 3-1 e México-Rep. Irlanda, 2-1
  • 25 de junho (fase de grupos): Argentina-Nigéria, 2-1, Bélgica-Países Baixos, 1-0 e Arábia Saudita-Marrocos, 2-1
  • 26 de junho (fase de grupos): Suíça-Colômbia, 0-2, EUA-Roménia, 0-1 e Bulgária-Grécia, 4-0
  • 27 de junho (fase de grupos): Bolívia-Espanha, 1-3 e Alemanha-Coreia do Sul, 3-2
  • 28 de junho (fase de grupos): Rússia-Camarões, 6-1, Brasil-Suécia, 1-1, Itália-México, 1-1 e Rep. Irlanda-Noruega, 0-0
  • 29 de junho (fase de grupos): Bélgica-Arábia Saudita, 0-1 e Marrocos-Países Baixos, 1-2
  • 30 de junho (fase de grupos): Argentina-Bulgária, 0-2 e Grécia-Nigéria, 0-2
  • 2 de julho (oitavos): Alemanha-Bélgica, 3-2 e Espanha-Suíça, 3-0
  • 3 de julho (oitavos): Arábia Saudita-Suécia, 1-3 e Roménia-Argentina, 3-2
  • 4 de julho (oitavos): Países Baixos-Rep. Irlanda, 2-0 e Brasil-EUA, 1-0
  • 5 de julho (oitavos): Nigéria-Itália, 1-2 a.p. e México-Bulgária, 1-1 e 1-3 g.p.
  • 9 de julho (quartos): Itália-Espanha, 2-1 e Países Baixos-Brasil, 2-3
  • 10 de julho (quartos): Bulgária-Alemanha, 3-2 e Roménia-Suécia, 2-2 e 4-5 g.p.
  • 13 de julho (meias-finais): Bulgária-Itália, 1-2 e Suécia-Brasil, 0-1
  • 16 de julho (3.º/4.º lugares): Suécia-Bulgária, 4-0
  • 17 de julho (final): Brasil-Itália, 0-0 e 3-2 g.p.