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Gilberto Gil: "Que a minha herança seja isso: a beleza, o bem e a bondade"

O ícone da música brasileira prepara-se para atuar em Cascais, no Ageas Cooljazz. Em outubro, leva a ópera “Amor Azul” a Lisboa. Em entrevista, reflete sobre o que o move e o que ainda está por fazer-

Ricardo Farinha
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Figura maior da música e cultura brasileira, um dos mais influentes e relevantes artistas da lusofonia nas últimas seis décadas, Gilberto Gil prepara-se para atuar em Portugal já esta quarta-feira, 8 de julho, ao encabeçar uma das noites do festival Ageas Cooljazz, no Hipódromo Manuel Possolo, em Cascais. Ainda há bilhetes à venda, entre os 38€ e os 47€, para uma noite que irá contar com um concerto de abertura de Maria Luiza Jobim, cantora, compositora e filha mais nova de Tom Jobim.

Meses mais tarde, a 10 de outubro, o músico baiano estará de regresso para apresentar o espetáculo Amor Azul, uma ópera com o maestro italiano Aldo Brizzi, inspirado em textos milenares indianos dos antigos poetas Kalidasa e Jayadeva, que estará em cena no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, com bilhetes disponíveis a partir dos 60€.

Foi um dos protagonistas do fundamental movimento Tropicalismo, foi ministro da Cultura do Brasil, conquistou inúmeros prémios e editou dezenas de discos, Gilberto Gil, com 84 anos, passou os últimos tempos em estádios de futebol e enormes arenas, numa digressão megalómana, Tempo Rei, de despedida dos palcos. Não inteiramente, pois como se vê continua a atuar e garante ser algo que planeia fazer até ao final dos seus dias, mas irá pelo menos abrandar a intensidade e a periodicidade das atuações.

Em entrevista ao Observador, Gilberto Gil antecipa o reencontro com o público português, explica o que o continua a mover para se manter tão ativo numa idade avançada, fala da relação que mantém com o ofício, com a composição — sendo que não edita um disco de originais há oito anos, desde OK OK OK — e revela como gostaria de um dia ser lembrado.

Este ano vem fazer duas atuações distintas em Portugal: o concerto no Ageas Cooljazz e o espetáculo Amor Azul em Lisboa, isto depois de ter dado um concerto no Porto em abril. Para esclarecer: são performances bastante diferentes?
Sim, este concerto agora é o que classicamente consideramos como um show, como um espetáculo com a presença de uma liderança artística, neste caso, uma personagem que tem o seu nome, a sua imagem e a sua história ligados àquele espetáculo. O Amor Azul é uma outra coisa, é uma ópera baseada num poema de um grande criador hindu, o Jayadeva. É uma proposta trazida por um músico italiano de formação erudita e clássica, onde tenho uma presença apenas como compositor de algumas partes. São duas coisas bem distintas.

Depois de tantos discos, espetáculos, viagens, encontros, o que é que o continua a mover para subir ao palco? É essa possibilidade de fazer sempre algo diferente?
É o facto de haver uma alegria muito grande, uma manifestação efusiva do espírito quando está em cena, no contacto com os ouvintes, com as audiências, com pessoas que vêm a locais especiais para ouvir, ver e, eventualmente, abraçar os artistas como eu. É essa alegria que continua a manifestar-se como um combustível essencial, indispensável para o bom andamento da vida. Continuo tocando, cantando e recebendo o público porque isso é a vida para mim. Enquanto viver, farei isso.

"Não há propriamente coisas a adicionar à ambição. A ambição é a mesma, ela continua sendo a mesma: estar ali, ter a música como combustível de vida, ter os públicos como amparo, como tela em que se reflete, em que se projeta essa vivência musical e existencial. É isso, não ambiciono nada de mais. O que já tenho é suficiente."

Depois de todos estes anos de carreira e de experiência acumulada, sente que a idade também transformou a sua relação com a música? Ou, no fundo, é exatamente a mesma desde sempre? Claro que foi adquirindo conhecimentos e aprofundando e alterando diferentes elementos, mas diria que a relação que mantém com a música é a mesma?
Acho que há dois aspetos nisso: a música como essência e a música como forma. Como essência, ela é permanente, intransformável e continua sendo como era na minha infância, na minha adolescência, e quando me tornei um profissional da música. Continua sendo a mesma coisa, a essência é a mesma. A forma vai-se modificando com o passar do tempo. Como ressaltou, vai havendo a incorporação de novas apreensões, novas compreensões, novas necessidades, novas maneiras de expressar a existência. No caso da música popular, como é o meu caso, a palavra tem uma importância muito grande — o verbo, a linguagem. Então vai-se incorporando novas maneiras de dizer, novas maneiras de expressar. Existem estas duas questões. A essência é a mesma, a música que aprecio e cultivo desde a infância. E a forma vai mudando com o envelhecimento, com o decorrer do tempo.

Nesta fase, existe alguma coisa que ainda lhe falte fazer? Tem objetivos específicos? Ou é uma questão de ir fazendo aquilo que de facto lhe apetece fazer?
Acho que é uma questão de ir fazendo, continuar fazendo. Continuar a dar espaço a essa manifestação da vida à qual me referi antes. É essencial continuar vivo, continuar vivendo. E isso tem a ver com essa espontaneidade com que o fator criativo se vai manifestando. A criatividade é alimentada por essa dimensão essencial da música à qual me referi e pelas formas com que as transformações se vão dando ao longo do tempo. Então não há propriamente coisas a adicionar à ambição. A ambição é a mesma, ela continua sendo a mesma: estar ali, ter a música como combustível de vida, ter os públicos como amparo, como tela em que se reflete, em que se projeta essa vivência musical e existencial. É isso, não ambiciono nada de mais. O que já tenho é suficiente. Poder cantar, poder tocar a minha guitarra, poder projetar a minha voz, que é uma voz já mais velha, mais cansada, mas ainda é uma voz entusiasmada, que gosta do ofício, que gosta de fazer o que faz.

E uma voz que tem encontrado muitas outras vozes no público, que cantam com a sua.
Exatamente.

E sobre a composição: continua a escrever novas canções? É algo que faz parte do seu dia a dia?
Nestes últimos tempos, especialmente nos últimos dois anos, em que tive de intensificar as minhas atividades de contacto com o público através de concertos — [a tour] Tempo Rei foi uma temporada que me obrigou a estar em espaços muito amplos, estádios de futebol, grandes salas de concerto e tudo mais — isso levou-me a um modo muito intensivo de apresentações. Daqui por diante, espero diminuir a intensidade e a abrangência do trabalho em termos de público e conseguir mais tempo para me dedicar a essa reflexão caseira, essa reflexão doméstica da música. Ultimamente, o que o tempo me permite são os momentos mais íntimos com a minha guitarra, com o meu violão, onde produzo improvisações, voos espontâneos, sem finalidade de obtenção de canções. É o que eu tenho feito mais. São as improvisações domésticas, as improvisações com a minha guitarra e, eventualmente, com a minha própria voz, o canto e a execução da guitarra em casa, sem compromisso, sem necessariamente buscar composições. Espero voltar a interessar-me por isso. A partir do ano que vem, quando estiver mais livre destes compromissos.

Mesmo sem uma finalidade concreta, sem procurar finalizar uma canção, imagino que essas improvisações em casa também sejam, de alguma forma, parte de um modo de vida.
Sim… Como é que eu poderia dizer… Às vezes até são mais satisfatórias.

Desde que começou, obviamente a música foi sofrendo inúmeras transformações ao longo das décadas. Esteve sempre atento a essas mudanças e foi experimentando diferentes coisas, incorporando novos elementos. Hoje estamos numa era radicalmente diferente. Como é que olha para o papel da tecnologia na música? As ferramentas de inteligência artificial, por exemplo, são algo que encara com entusiasmo, com preocupação, nem uma coisa nem outra?
Acho que nem uma coisa nem outra, ou talvez as duas coisas, porque sempre foi assim. A incorporação de novas tecnologias, de novos instrumentais, isso sempre esteve presente, não só para mim, mas para quase todos os criadores, quase todos os compositores e fazedores de canções da minha geração. A questão do impacto que essas novas tecnologias podem ter no nosso trabalho sempre foi uma preocupação de todos nós e continua sendo. A inteligência artificial, por exemplo, com os seus desafios, mas também com a sua extraordinária contribuição para o trabalho humano, para o trabalho das linguagens, para a confecção dos textos, a confecção dos tecidos audiovisuais, tudo isso é muito interessante e importante, e tudo isso traz em si, ao mesmo tempo, uma preocupação, um receio de que diferentes problemas possam surgir e afetar drasticamente o nosso trabalho. Ao mesmo tempo, são coisas muito acolhedoras, que nos levam a desenvolver a nossa própria inteligência. A inteligência artificial pode ajudar ao desenvolvimento da inteligência humana e acho que é muito importante nisso, como toda a tecnologia sónica, através dos novos instrumentos e da eletrónica, que também tiveram e continuam a ter um papel muito importante no desenvolvimento da nossa sensibilidade artística.

Desde a guitarra elétrica à era dos softwares.
Exatamente.

Também queria perguntar sobre a banda do seu filho e netos, os Gilsons, que de algum modo prolongam o seu legado embora também tenham uma vida própria. Acima de tudo, o que é que gostava que eles soubessem durante a sua carreira? De que é que gostava que eles não se esquecessem?
Desejo que eles não se esqueçam nunca da capacidade auditiva, da capacidade de escuta da própria vida, o que a vida lhes informa, o que a vida lhes propõe. E que, através das suas personalidades, eles possam traduzir um bem-estar melhor no mundo, um ser melhor no mundo, um contribuir de forma mais ampla para a melhoria da vida humana, para a melhoria do planeta, para a melhoria das nossas condições de existência, não só no plano humano, mas no plano do conjunto das existências terreais, das existências cósmicas. Acho que é isso que queria deles: mais atenção à herança dos valores, dos valores mais essenciais, dos valores mais positivos. Enfim, atenção profunda, escuta profunda a essa essencialidade do modo musical, do modo da música. As formas vão sendo transformadas pelos seus tempos, os tempos individuais de cada um deles. Enfim, são muito mais jovens do que eu, seguramente com percursos existenciais mais longos do que o meu. Acho que é isso que lhes desejo, prosperidade nesse sentido profundo da palavra.

"Vou continuar sempre tendo muito prazer em estar em Portugal, em encontrar-me com o público português, em poder ouvir a cristalinidade da expressão, da linguagem, do modo de falar, do modo de se expressar dos portugueses. Quero continuar sempre atento a esse facto de que aquilo que pronunciamos, o que dizemos, o que expressamos em palavras, a base disso, a fonte original, foi-nos dada pela língua portuguesa."

Quando fala da música como capacidade para melhorar o mundo, continua a olhar para esse poder transformador da música da mesma forma?
Da mesma forma. A música como uma das manifestações do sentido milagroso do viver. A vida como um milagre, como um mistério permanente que vai trazendo para as nossas práticas o sentido fundamental do bem e da beleza. É isso que vou tentando espalhar e deixar.

Como é que gostava de ser lembrado?
Pelo que chegou até as pessoas. A minha música, a minha imagem, o meu reflexo, a capacidade que tudo isso tenha tido de inspirar as pessoas no sentido do enriquecimento das suas próprias vidas. Que a minha herança seja isso: a beleza, o bem e a bondade.

Quando olha para trás, há algum álbum, alguma música, algum projeto que gostasse que tivesse tido mais atenção, que hoje possa ser redescoberto, e que gostasse de realçar?
Foi o que aconteceu. Poderia ter feito tudo o que fiz de forma diferente, de forma mais intensa, de forma mais aperfeiçoada, talvez. Mas, na verdade, é tudo o que fiz. Só tenho em mãos aquilo que me foi possível fazer.

Como referiu, vai fazer agora estes concertos e depois planeia passar mais tempo em casa. Também é importante, nesta fase da vida e da carreira, marcar presença em Portugal com estes espetáculos?
Acho que vou continuar sempre tendo muito prazer em estar em Portugal, em encontrar-me com o público português, em poder ouvir a cristalinidade da expressão, da linguagem, do modo de falar, do modo de se expressar dos portugueses. Quero continuar sempre atento a esse facto de que aquilo que pronunciamos, o que dizemos, o que expressamos em palavras, a base disso, a fonte original, foi-nos dada pela língua portuguesa. Isso é uma riqueza inigualável para mim.