Quando Álvaro Azedo saiu de Beja depois de uma reunião, um termómetro marcava 43ºC. “Não é novidade nenhuma para nós”, relata o presidente da Câmara Municipal de Moura. “É a fruta da época. Mais um dia, mais um verão.” Ao segundo dia do mês de julho, igualmente segundo dia da onda de calor que atravessa o País, o autarca não estranha as temperaturas e, como pedido pela secretária de Estado da Saúde Ana Povo, identificou os locais de abrigo temporário destinados a quem deles precise.
Em Moura, são dois esses espaços: um antigo lar de idosos em Safara e “os pavilhões da feira, que estão climatizados e que, em situações-limite, podem ser usados”. O calor “não é novidade no nosso concelho”, frisa Álvaro Azedo ao Observador. “Sempre tivemos verões quentes, com temperaturas dentro dos 40, 41ºC, em certas ocasiões 47, 48ºC e houve tempos em que tivemos até temperaturas de 50ºC.”
Contudo, o hábito não faz ceder a cautela. “Temos que dar uma atenção muito especial aos mais idosos.” O primeiro contacto dos serviços sociais da autarquia é feito via telefone mas “havendo necessidade, temos também as juntas de freguesia, temos os serviços sociais da Câmara, que, obviamente, diligenciam com visitas, no sentido de acautelar algumas situações e necessidades dos idosos”, explica o autarca para quem o trabalho das juntas, que “conhecem as pessoas”, é “preciosíssimo”. Se for preciso, garante, o antigo lar está “preparado e equipado para acolher dezenas de pessoas, às quais podemos dar esse conforto e essa garantia de proteção face à onda de calor”.
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Também em Mora, outro município alentejano de verões tórridos, cabe aos serviços sociais da câmara fazer o acompanhamento dos mais vulneráveis. Até ao dia 2 de julho, como em Moura, nenhuma situação tinha sido sinalizada. “Temos vários programas em que os técnicos se deslocam à casa das pessoas mais idosas e vulneráveis”, descreve ao Observador Luís Simão Matos, presidente da Câmara. Pelo menos uma vez por semana o técnico ajuda as pessoas a comprar medicamentos ou a pagar as contas. “Os nossos idosos estão muito bem acompanhados.”
Na eventualidade de os serviços sociais ou as unidades de saúde sinalizarem alguém que deva ser levado para o abrigo temporário, ambas as câmaras acionarão os espaços e encarregam-se do transporte. Na manhã de quinta-feira, “às 9h15, tivemos o briefing do Centro Coordenador de Operações Municipais (CCOM)”, conta Álvaro Azedo. “A estrutura de Proteção Civil, nos seus vários mecanismos, quer no setor operacional, quer no setor associado às Forças de Segurança, aos Bombeiros e à Cruz Vermelha portuguesa, quer ao trabalho extraordinário da Junta de Freguesia e à Ação Social, trabalham de forma articulada e dentro das competências e da ação de cada uma destas instituições. Fazemos aquilo que nos compete para a proteção dos nossos munícipes.”
Autarquias aproveitam as ZCAP. DGS recomendou abertura de abrigos em circular enviada pela ANMP aos municípios
Tanto em Mora como em Moura, as autarquias aproveitaram algo que já na pandemia tinha sido usado: os locais anteriormente designados como ZCAP, ou Zonas de Concentração e Apoio à População, criadas pela Proteção Civil para emergências e previstas nos Planos Municipais de Emergência. Em conferência de imprensa, a secretária de Estado da Saúde referiu que havia igrejas, centros comerciais ou hotéis identificados, e que seriam ativados caso o nível nacional de contingência subisse de 1, em que se encontra, para 2 ou 3. Contudo, ambos os autarcas ouvidos pelo Observador disseram que ativariam os espaços perante casos individuais que assim o justificassem.
Rita Sá Machado, diretora-geral da Saúde, mencionou numa conferência de imprensa no dia 2 que os Planos Municipais de Emergência já têm esses locais de abrigo temporário pré-definidos e que a coordenação estava a ser feita entre as autoridades de saúde locais, as freguesias e as autarquias.
Ao Observador, fonte oficial da Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP) confirmou ter reunido com a Direção-Geral de Saúde (DGS) há uns dias, mas no dia 1 é que foi recebida a informação sobre as recomendações contra o calor transmitidas numa circular aos municípios. Entre elas, figura a “abertura de locais de abrigo temporário”, “monitorizar, através de contacto, as pessoas em situação de isolamento/vulnerabilidade” e “sempre que se justifique, transportar pessoas vulneráveis para locais climatizados”. Aos municípios, a DGS reforça que “devem assegurar coordenação permanente entre: Autoridade de Saúde e Unidade Local de Saúde; Bombeiros, PSP/GNR e Cruz Vermelha Portuguesa; Segurança Social e IPSS; Associações ou organizações locais”.
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Lisboa ativa abrigos se DGS o indicar. Porto sugere piscinas e parques
António da Luz Pereira, da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), explica ao Observador que a identificação das pessoas vulneráveis cabe às juntas de freguesia, às Unidades Locais de Saúde (ULS) e às forças de segurança e que a informação é transmitida entre estas entidades, de forma a dar respostas, que também podem ser pedidas pelos “familiares e amigos”.
Se no Alentejo a proximidade é essencial para sinalizar as pessoas mais vulneráveis, como funciona esse trabalho em Lisboa e no Porto? O Observador questionou a Câmara Municipal de Lisboa para saber como são identificados os casos que precisam de ajuda, e como podem estes ter acesso aos abrigos temporários, mas não obteve resposta em tempo útil. Em comunicado, a autarquia anunciou ter designado o Pavilhão Casal Vistoso — que também foi usado durante a pandemia — e o Pavilhão Manuel Castelo Branco como espaços que “poderão servir de abrigos temporários para a população mais vulnerável, em caso de extrema necessidade, em articulação com as entidades responsáveis, designadamente a Direção-Geral de Saúde, autoridade nacional de saúde pública”.
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Quanto ao Porto, que também foi questionado sobre o encaminhamento dos mais vulneráveis, a autarquia remeteu para o comunicado publicado no site. Neste, foram dadas alternativas de “locais devidamente climatizados, reduzindo a exposição prolongada às temperaturas extremas”, como piscinas, a Universidade Intergeracional de Ramalde, e “espaços exteriores com sombra” como o Parque da Cidade ou o Parque Urbano da Pasteleira.
Mas não há informação disponível sobre os locais onde pode ser acolhida população em situação mais vulnerável que necessite, por exemplo, de um local para pernoitar — os chamados abrigos temporários. De qualquer forma, no caso da segunda maior autarquia do país, a iniciativa para os pedidos de apoio fica à responsabilidade da própria população. “Em caso de emergência, deve ser contactado o 112 ou o Regimento de Sapadores Bombeiros do Porto, através do número 225 073 700. Para aconselhamento de saúde, está disponível o SNS 24, através do número 808 24 24 24. A Câmara do Porto continuará a acompanhar permanentemente a evolução da situação meteorológica, adotando as medidas que se revelem necessárias e divulgando atempadamente novas informações à população”, termina a nota.
Durante estes dias, pode haver pessoas vulneráveis sem condições para aguentar o calor em casa, e que não estejam já sinalizadas pelos serviços sociais. “Qualquer pessoa que necessite deve contactar a junta, porque mesmo que se não tiver nas suas capacidades ou competências, ajuda sempre a articular essa resposta e será sempre mais fácil do que contactar um Serviço Municipal de Proteção Civil”, aconselha Francisco de Brito, presidente da Associação Nacional de Freguesias (ANAFRE). “Geralmente quem tem competência nestas situações é o Serviço Municipal de Proteção Civil, que depois convoca ou não a junta de freguesia para algum tipo de auxílio.” Mas, assegura, “a junta de freguesia estará sempre disponível para ajudar”.
Segundo o presidente da ANAFRE, existem juntas que estão a adotar “horários alargados” e “a criar locais de abrigo temporário”. Frisa, porém, que se a pessoa se estiver a sentir mal de saúde, deverá recorrer ao 112.
Amadora ativou Plano Prévio de Intervenção. Cascais conta com efeito do mar
A Amadora, outra autarquia de elevada densidade populacional, identificou o Pavilhão Municipal Rita Borralho, “com capacidade para 297 pessoas”, como um abrigo temporário. “Para este pavilhão estão preposicionados todos os meios logísticos necessários de apoio: águas, camas, alimentação e banhos”, indica fonte oficial. Além disso, também o centro comercial UBBO é sugerido como um espaço comercial com condições de climatização. “Estes espaços estão identificados desde 2019 e constam no Plano Local de Preparação e Resposta Sazonal em Saúde (Amadora) e no Plano Prévio de Intervenção — Condições Meteorológicas Adversas 2025/2026. Ambos os planos estão neste momento ativos (desde o dia 01/07/2026)”, tal como os abrigos e, garante a autarquia, caso seja necessário destinar alguém vulnerável para estes locais, os serviços sociais estarão atentos. “Desde ontem, em todas as visitas domiciliárias efectuadas pela equipa de intervenção social, está a ser distribuído um folheto informativo com todas as recomendações e as técnicas esclarecem os utentes”, indica fonte da câmara municipal. “Os seniores mais dependentes estão enquadrados em instituições, seja nos locais ou em casa.”
Além disso, a Amadora apostou num Sistema de Aviso e Alerta (que se pode subscrever através de um SMS com o nome para o número 927 829 700) que, desde o dia 29 de junho, já enviou mais de 6 mil mensagens à população. Regularmente, está a realizar briefings com a ULS Amadora Sintra, os Bombeiros, a Cruz Vermelha, a PSP, a Polícia Municipal e o Serviço Municipal de Proteção Civil.
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Em Cascais, o município definiu vários locais de abrigo temporário “em estreita articulação com a Unidade Local de Saúde de Lisboa Ocidental e com o Delegado de Saúde Coordenador de Cascais”: a Quinta do Pisão (horário entre as 09h00 e as 21h00); a Malveira Arena (horário alargado entre as 11h00 e as 21h00), a Quinta da Alagoa (horário entre as 08h30 e as 23h00), o Parque Marechal Carmona (horário alargado entre as 08h30 e as 21h30); o Parque Quinta da Carreira (aberto ao público sem restrições de horário); o Museu da Vila nos Paços do Concelho (horário alargado entre as 10h00 e as 21h00) e o Parque Outeiro de Polima (aberto ao público sem restrições de horário).
Contudo, não está prevista a pernoita nestes locais, “mas apenas o arrefecimento no período de maior calor”. “Importa realçar que o concelho de Cascais, face à exposição marítima a que está sujeito, tem características atmosféricas distintas de outros concelhos, com uma temperatura mínima prevista para hoje [2 de julho] de 23 graus”, salienta fonte oficial ao Observador.
Não muito longe, em Sintra a Câmara dispõe de instalações preparadas que incluem o apoio da corporação de bombeiros de Queluz. “São locais com climatização, instalações sanitárias, acesso a água potável e zonas de permanência temporária. Dispomos também de 200 camas com roupas, 50 cadeiras e mesas de cabeceira e 20 armários de roupa. Está garantido o fornecimento de refeições, serviço de lavandaria entre outras necessidades que se identifiquem.”
A acontecer, o encaminhamento das pessoas será feito “em articulação com os serviços municipais, juntas de freguesia, autoridades de saúde, forças de segurança, corpos de bombeiros e demais agentes de proteção civil”. “Todos os locais foram alvo de articulação permanente com as autoridades de saúde territorialmente competentes, acompanhando as orientações emanadas pela Direção-Geral da Saúde, Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil e demais entidades com competências nesta matéria.”
O Observador contactou ainda a câmara de Oeiras, bem como a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC), mas não obteve resposta em tempo útil.
Lisboa sugeriu refúgios climáticos que teve de encerrar
Além das zonas de abrigo temporário, que se destinam às pessoas mais vulneráveis aos efeitos da onda de calor, Lisboa também fez uma lista de refúgios climáticos, locais mais confortáveis para enfrentar uma onda de calor. Entre eles, figuram jardins e equipamentos culturais.
Contudo, alguns desses sítios anunciados a 1 de julho, como o Parque Florestal de Monsanto, o Parque Silva Porto, a Tapada das Necessidades, o Parque da Quinta das Conchas e dos Lilases, o Parque dos Moinhos de Santana, o Parque da Bela Vista, o Parque do Vale do Silêncio, o Parque José Gomes Ferreira e o Parque da Mata da Madre de Deus são espaços que foram fechados dia 2 devido à declaração da situação de alerta feita pelo Governo. Além destes sítios, serão ainda encerrados até às 23h59 de dia 6 de julho a Tapada da Ajuda, o Parque do Vale Fundão, o Parque José Gomes Ferreira, o Parque Central de Chelas e a Encosta da Calçada de Carriche.
Entre os jardins considerados refúgios climáticos, encontram-se disponíveis a Mata de São Domingos de Benfica, o Parque Bensaúde, o Jardim do Palácio Beau-Séjour, o Jardim Professor Francisco Caldeira Cabral, o Parque Oeste, o Jardim Bordallo Pinheiro, o Jardim do Campo Grande, o Jardim da Fundação Calouste Gulbenkian, o Parque Eduardo VII, a Estufa Fria, o Parque Verde de Carnide, a Quinta Pedagógica de Lisboa, a Quinta Conde de Arcos, o Jardim da Estrela, o Jardim Vasco da Gama — Rua Vieira Portuense, o Jardim Afonso de Albuquerque, o Jardim do Príncipe Real e o Jardim do Torel.
Certo é que a vaga de calor que atingiu Portugal deverá prolongar-se entre oito e dez dias e podem ser atingidas temperaturas até 44ºC. O país encontra-se ainda em estado de alerta devido ao perigo de incêndio rural até pelo menos às 23h59 de segunda-feira, 6 de julho.
Artigo atualizado às 19h06 de dia 3 de julho, com a informação prestada pela Câmara Municipal de Sintra.