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(A) :: “Se medirmos o mundo com a régua à medida dos humanos, as outras espécies parecerão inferiores”. Christine opõe-se ao excecionalismo humano

“Se medirmos o mundo com a régua à medida dos humanos, as outras espécies parecerão inferiores”. Christine opõe-se ao excecionalismo humano

Em "O Símio Arrogante", Christine Webb debate contra aqueles que defendem a supremacia do ser humano, defendendo uma dinâmica de maior cooperação com a Natureza e os restantes animais.

Martim Andrade
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O ser humano não é o maior, nem o mais rápido, nem o mais forte entre as espécies; o que o distingue é o seu intelecto. É o mesmo aspeto que dá o nome à nossa espécie: Homo sapiens, o “homem sábio”, como descreveu Carl Lineu, o cientista que nos batizou. Mas onde muitos veem uma comparação indiscutível entre o ser humano e qualquer outro animal, a primatóloga Christine Webb vê a ideologia que poderá estar na base da futura extinção do Homem.

O título do livro que escreveu é provocador: O Símio Arrogante. Como explica em entrevista ao Observador, esta descrição não abrange toda a população humana na Terra, é antes uma “personagem, uma forma de estar no mundo”. Para a especialista em comportamento social, cognição e emoção, o conceito de “excecionalismo humano”,  que “reside na premissa de que as outras espécies existem para nosso uso e benefício exclusivo, dando-nos o direito de as tratar como quisermos”, está a levar-nos ao fim através da crise ecológica em curso e contra a qual, defende, as pessoas demoram a tomar medidas por estarem tão convencidas da sua “supremacia humana”.

Assim, incentiva que se “desaprenda” este “mito” — como admite ter feito após ter visto pela primeira vez um camião de transporte de aves rumo a aviários  —, numa transformação que acredita já estar a acontecer aos poucos. Para nos tornarmos uma sociedade mais alinhada com a natureza ao invés de a “usarmos e manipularmos”, Christine Webb defende “mudanças radicais em quase todos os setores da cultura e da economia” das civilizações “dominantes”. “A mundivisão humanocêntrica priva-nos de experiências mais ricas e significativas no aqui-e-agora”, afirma a autora do livro editado pela Temas e Debates no mês de junho.

“Tendemos a associar as nossas características negativas ao nosso lado animal, enquanto as positivas são o que nos distingue das outras espécies”

A dinâmica entre humanos e animais dura há vários milénios. Neste período, os humanos parece que se desenvolveram muito mais que as restantes espécies, construindo sociedades, infraestruturas e tudo aquilo com que vivemos nos dias de hoje. Como explica que outros animais não tenham sido capazes de edificar este tipo de organização social e cultural?
Isto remete-nos para a premissa de que os humanos são únicos e que essa singularidade reside na capacidade de manipular e controlar o ambiente ao ponto de erguer uma civilização. No meu campo de estudo, quando afirmamos que os humanos foram evolutivamente bem-sucedidos, apontamos geralmente para esta capacidade notável de nos espalharmos e habitarmos todo o globo. Considero que esta é uma perspetiva muito limitada de sucesso. Podemos pensar no sucesso evolutivo em termos de resiliência e longevidade. Os seres humanos existem há cerca de 200 mil anos e estamos, aparentemente, a caminhar muito rapidamente para a nossa própria destruição. Sob os critérios estritamente darwinistas de seleção, consideraríamos um sucesso evolutivo durar um período de tempo tão curto? Outras espécies, como os musgos, existem há centenas de milhões de anos. Conseguiram-no não competindo com o ambiente ou construindo estruturas, mas sim cooperando com o meio e criando comunidades e relações interespécies extremamente resilientes. Sim, os humanos têm uma capacidade notável de construir edifícios e elementos culturais, mas outras espécies possuem as suas próprias capacidades extraordinárias que podem perfeitamente ultrapassar as nossas e sobreviver-nos. Tudo depende da régua que utilizamos. Se medirmos o mundo com uma régua feita à medida dos humanos, as outras espécies vão parecer inevitavelmente inferiores. Se medirmos o mundo pela capacidade de construir arranha-céus, os outros animais falham. Mas se utilizarmos outras métricas, os seres humanos serão os inferiores. O meu interesse reside em expor esse viés e integrá-lo nas nossas conversas.

Uma das primeiras reflexões que surgem ao ler o seu livro prende-se com a necessidade que nós, seres humanos, sentimos de nos compararmos com outras espécies. Por que razão precisamos de nos autoproclamar como a espécie mais inteligente ou a melhor?
É interessante, porque a forma como definimos os seres humanos é por oposição aos animais, reivindicando certas características que só nós possuímos ou nas quais os outros animais seriam deficientes. Trata-se de uma abordagem muito peculiar. Não é a única forma de definir a humanidade, também o poderíamos fazer através das coisas que temos em comum com os outros. Esta tendência para nos isolarmos ou nos colocarmos acima dos restantes animais é omnipresente ao longo da história ocidental. No livro, chamo-lhe um “complexo de superioridade”. Na psicologia, sabemos que os seres humanos têm tendência a vangloriar-se das suas conquistas incríveis para ocultar e mascarar sentimentos mais profundos de insegurança e inadequação. Acredito que uma das razões para a existência do excecionalismo humano é precisamente camuflar um sentido profundo de inferioridade. Outra razão prende-se com a necessidade de racionalizar e justificar a exploração de outros animais e do meio ambiente de uma forma mais geral.

Sendo a sua investigação focada no mundo dos primatas, esta tendência para a comparação — seja entre espécies diferentes ou dentro da própria espécie — é um comportamento que se observa noutros animais, ou é algo exclusivamente humano?
Questionam-me frequentemente se outras formas de vida acreditam que são excecionais e se talvez tenham os seus próprios complexos de superioridade em relação a outros seres vivos. Creio que seria outra versão de excecionalismo humano afirmar que os humanos são os únicos “maus da fita”. Como argumento no livro, esta não é uma característica intrínseca a toda a espécie humana, é um fenómeno cultural. Existem certos grupos e populações que a exibem mais do que outros. Não descartaria essa possibilidade noutras espécies, mas não diria que se aplica à totalidade de uma espécie. Talvez existam grupos ou populações de outros animais que possam ser arrogantes à sua maneira. No entanto, não creio que essa arrogância se manifeste da mesma forma que nos seres humanos. Todas as capacidades cognitivas manifestam-se de forma diferente em cada espécie, dependendo do que é relevante para a sua sobrevivência. Portanto, não tenho a certeza de que assuma a mesma forma de comparação e de desvalorização constante das capacidades das outras formas de vida, mas a arrogância pode manifestar-se de forma diferente.

Já detetou algum tipo de traço psicológico que se assemelhe à arrogância nos seus anos de investigação? Obviamente que não da mesma forma, mas algo que lhe tenha chamado a atenção?
Sem dúvida que outros animais têm hierarquias e, em alguns casos, essas criam uma distribuição desigual de recursos e conflitos — algo de que os seres humanos tentam afastar-se, mas que acontece frequentemente nas nossas vidas. O que me parece crucial é que, quando falamos de outros animais, enfatizamos frequentemente apenas esse lado da história: que a natureza é brutal, que os outros animais são competitivos, agressivos e individualistas, e que impera a sobrevivência do mais forte. Na verdade, essa é apenas metade da história. O outro lado mostra-nos simbiose, cooperação e interações positivas. Tal como muitas outras espécies, os seres humanos albergam ambos os lados na sua natureza. O problema é que tendemos a associar as nossas características negativas ao nosso lado “animal”, enquanto as positivas são o que nos distingue das outras espécies: o facto de sermos morais, racionais, dotados de cultura e inteligência. Contudo, partilhamos as duas faces desta moeda com muitas outras formas de vida.

"Hesito muito em afirmar que qualquer característica comportamental, cognitiva ou emocional seja exclusivamente nossa"
Christine Webb, primatóloga e autora de "O Símio Arrogante"

Logo no início do livro, define como tese que “o excecionalismo humano é a causa principal da atual crise ecológica”. Consegue explicar brevemente os efeitos desta crise e de que forma, concretamente, foi provocada pelo excecionalismo humano?
Apresento vários dados estatísticos no livro. Além do aquecimento global — que se tem vindo a sentir estes últimos dias na Europa —, a crise manifesta-se na acidificação dos oceanos. O aumento da temperatura da água cria ambientes químicos distintos, o que alimenta a crise da biodiversidade. As taxas de extinção atuais são entre 100 e 1.000 vezes mais rápidas do que as taxas de extinção de referência, ou seja, aquilo que seria de esperar com base nas flutuações normais das populações. Há quem lhe chame a sexta extinção em massa da vida na Terra, e é claramente causada pelo Homem. Há também a crise dos polinizadores, cujas populações estão a diminuir drasticamente, além da poluição, do consumo excessivo e da superpopulação. A trajetória em que nos encontramos não é, de todo, positiva. Temos conhecimento desta crise ecológica há muitas décadas, pelo menos desde os anos 60. Para mim, este hiato entre a consciencialização, a compreensão do problema e a tomada de medidas — que não estamos a adotar, pelo menos à escala coletiva necessária — faz-me questionar se diagnosticámos o problema corretamente. Quando debatemos a crise ecológica, mencionamos os combustíveis fósseis, as alterações climáticas, a perda de biodiversidade e a destruição de habitats. Contudo, raramente abordamos a relação subjacente entre os humanos e o resto da natureza, que é o que impulsiona estes sistemas e padrões de exploração. Dado este descompasso entre a consciência e a ação, precisamos de começar a pensar nos fundamentos: nas visões do mundo e nas relações entre os humanos, os outros animais e o ambiente. É isto que quero dizer quando afirmo que o excecionalismo humano está na raiz da crise ecológica. Não significa que seja a única causa. Há muitos outros fatores em jogo, tal como os sistemas radiculares das plantas são complexos, difusos e possuem múltiplos nós e forças que interagem entre si. O mesmo aplica-se à crise ecológica, mas considero que o excecionalismo humano é um fator de peso que permanece invisível na maior parte do discurso ambientalista que domina a opinião pública.

O ser humano é a única espécie que se autossabota de forma consciente?
Bem, importa clarificar novamente que o excecionalismo humano não é uma característica universal da nossa espécie. É um fenómeno cultural. Isto pode parecer confuso face ao título do livro, mas encaro o “símio arrogante” como uma personagem, um papel, uma forma de estar no mundo. Se me pergunta se creio que membros ou culturas de outras espécies estão conscientemente a causar a sua própria destruição, a resposta é que nunca vi qualquer evidência disso. Portanto, diria que é provavelmente um fenómeno só humano. Ao mesmo tempo, e em linha com a resposta anterior, hesito muito em afirmar que qualquer característica comportamental, cognitiva ou emocional seja exclusivamente nossa. Não porque não considere os humanos únicos em certos aspetos, mas porque quase todas as características que durante muito tempo defendemos como sendo o fator de separação entre nós e as outras espécies acabaram por ser encontradas noutras formas de vida. Sendo assim, duvido muito que outras espécies exibam esta forma de pensar sobre si mesmas, mas nunca diria nunca. 

“Aprendemos muito cedo que estudar a natureza implica, frequentemente, prejudicá-la”

No livro, partilha a sua história pessoal e conta como se consciencializou desta visão, tendo tido necessidade de desaprender uma série de coisas para seguir esta ideologia que apresenta. Poderia dar exemplos de elementos do nosso quotidiano, ou de experiências da sua juventude que teve de reaprender?
Uma das teses centrais do livro é que o excecionalismo humano raramente é ensinado de forma explícita. A maioria de nós não vai para a escola nem ouve os pais desenharem uma pirâmide no quadro com os humanos no topo e os outros animais na base. No entanto, assimilamos o excecionalismo humano, por exemplo, observando os comportamentos e as crenças das pessoas que nos rodeiam enquanto crescemos. É também por isso que este conceito permanece invisível. No livro, descrevo-o como a crença implícita mais poderosa do nosso tempo. Interiorizamos esta mundividência, mesmo que subconscientemente, através da escola, dos manuais escolares, da linguagem, das campanhas políticas, dos sermões religiosos, da publicidade e dos meios de comunicação social.

E de que forma é que isto está presente no ensino?
Dou um exemplo da educação infantil, particularmente na área das ciências. Supõe-se que a ciência seja o campo de estudo que fomenta o respeito e a ligação à natureza — razão pela qual muitas crianças a adoram e querem ser cientistas, para passarem tempo ao ar livre e conhecerem outros animais. Pelo menos, foi por isso que quis ser cientista. Contudo, aprendemos muito cedo que estudar a natureza implica, frequentemente, prejudicá-la. Não sei como é em Portugal, mas no sistema de ensino americano é comum a dissecação de rãs ou porcos. Dizem-nos para fazer coleções de insetos, para os caçarmos com redes e matá-los depois. Fazemos tudo isto em prol do conhecimento científico, mas a verdade é que estamos a ser prejudiciais e violentos, matando estes seres no processo. Considero que esta é uma das principais áreas onde o excecionalismo humano se solidifica e reforça. Também se reflete nos nossos sistemas alimentares. Muitas crianças não fazem a associação entre o animal no prato e a vida que outrora existiu. No livro, menciono um vídeo maravilhoso de uma criança brasileira que descobre que o polvo que tem no prato foi um animal vivo. A reação dele é absolutamente devastadora, fica inconsolável. Pergunta por que razão haveríamos de cortar as pernas e a cabeça ao polvo, e por que faríamos isso a qualquer animal vivo. Existem imensos vídeos no YouTube que retratam este fenómeno de crianças a perceberem que a comida provém de um ser vivo. Isto não é algo que lhes seja ensinado, as pessoas tendem a omiti-lo para proteger as crianças. É mais uma forma de incutir o excecionalismo humano, algo que mais tarde, na adolescência ou na idade adulta, terá de ser desaprendido.

"Não acredito que consumir outras espécies seja intrinsecamente imoral, os humanos são consumidores, temos de comer outras formas de vida, sejam plantas ou animais"
Christine Webb, primatóloga e autora de "O Símio Arrogante"

Mas a verdade é que vemos na natureza animais a comer outros animais. Não se trata de um comportamento natural? Onde entra aqui o excecionalismo?
O meu livro não é sobre veganismo, mas compreendo perfeitamente a origem da questão. Existe sempre a tendência para comparar o consumo humano de carne com o que acontece na natureza. Contudo, a verdade é que a pecuária industrial moderna não é comparável. Não está no mesmo espetro do que acontece no mundo selvagem. É qualitativamente diferente no seu alcance, no volume de sofrimento que causa e na sua pegada ecológica. Este sistema gerou um consumo casual de outros animais que caracteriza a vida moderna. Da forma como é feito, a sociedade não tem qualquer imagem do animal que perdeu a vida ou do sofrimento que ele suportou. Se víssemos as imagens ou os vídeos do processo nos matadouros ou nos laboratórios científicos, provavelmente muitas pessoas não quereriam voltar a consumir carne. Há uma desconexão total. Falamos muito sobre cadeias alimentares e sobre o facto de o ser humano estar no topo, mas a verdade é que as cadeias alimentares não existem, o que existe são redes alimentares. Numa rede alimentar não há uma hierarquia rígida — até as presas exercem limites e restrições sobre os hábitos dos predadores. Esta é mais uma razão pela qual a agricultura industrializada difere do panorama natural. Não pretendo interferir em demasia nas escolhas alimentares individuais, que são muito específicas de cada cultura, contexto socioeconómico e saúde de cada um. Para mim, o excecionalismo humano reside na premissa de que as outras espécies existem para nosso uso e benefício exclusivo, dando-nos o direito de as tratar como quisermos. Isto leva ao consumo casual de outras formas de vida, o que não considero ético. Mas não acredito que consumir outras espécies seja intrinsecamente imoral, os humanos são consumidores, temos de comer outras formas de vida, sejam plantas ou animais. Faz parte de ser um animal neste planeta.

No polo oposto, como é que olha para o conceito de “humanização” dos animais, nomeadamente no que toca aos animais de estimação e à domesticação?
A domesticação é frequentemente discutida como uma história unilateral, na qual os humanos domesticaram outras espécies — como os lobos, que se tornaram cães. No entanto, devemos lembrar-nos de que este processo pode ter sido uma via de dois sentidos. Os lobos também domesticaram os seres humanos. Nós beneficiámos da presença deles para proteção e companhia, mas os lobos também retiraram vantagens ao viver perto dos colonatos humanos, garantindo proteção, acesso a comida, ao fogo e ao calor. Portanto, não vejo a domesticação como uma coação puramente humana, mas sim como uma relação bidirecional e recíproca que se desenvolveu. Hoje em dia, ser “dono” de um cão — e a própria palavra “dono” ou “proprietário” é problemática e reveladora de uma relação hierárquica — manifesta-se de várias formas. Vejo que os cães gozam de muita autonomia nas suas vidas, querem viver ao lado dos humanos, mas mantêm liberdade. Por outro lado, existem “donos” extremamente controladores, onde os animais não têm qualquer palavra a dizer sobre a forma como vivem. Não tenho uma resposta genérica sobre ter animais de estimação porque a experiência varia drasticamente dependendo da relação individual entre o humano e o animal. Pode dar azo a dinâmicas éticas belíssimas ou a versões profundamente deploráveis.

“Na maioria dos casos, podemos fazer investigações sem fazer mal aos animais”

É possível fazer investigação sobre a vida animal e a natureza de uma forma puramente observacional, sem intervenção direta, ou acredita que deveríamos simplesmente deixar de estudar estes temas e deixar a natureza “em paz”?
Podemos, absolutamente! Sou cientista e observo outros primatas para ganhar a vida. Portanto, defendo que devemos continuar a fazer ciência, investigação e a conhecer melhor estes animais e a natureza. Admito que existam certas questões que talvez só consigamos responder através de trabalho invasivo, mas não tenho a certeza de que tenhamos necessidade de colocar essas questões.

Que tipo de questões?
Se quisermos descobrir algo sobre a anatomia de um animal… Se bem que poderíamos simplesmente esperar que o animal morresse de causas naturais para realizar o estudo. Na maioria dos casos, podemos fazer investigações sem fazer mal aos animais. Conseguimos obter o mesmo conhecimento permitindo que os animais vivam as suas vidas de forma autónoma. Há tanta coisa em cativeiro e nos ambientes onde mantemos os animais para responder a certas perguntas que considero que resultam numa má ciência, e não apenas numa ética questionável. Hoje em dia recorre-se muito à colocação de dispositivos nos animais para medir a frequência cardíaca. Embora por vezes não sejam considerados invasivos, penso que para muitos animais o são bastante. Por vezes, estes métodos são utilizados para fins de conservação, mas noutras ocasiões servem apenas para obter dados biométricos específicos. Talvez fôssemos privados desse tipo de informação, mas isso não significa que não possamos obter dados sobre muitas outras coisas. Quando levamos o excecionalismo humano e a ética a sério, fechamos certas vias de investigação científica que envolvem prejudicar outras formas de vida. Mas, simultaneamente, abrimos muitas outras. Não se trata apenas de sacrificar ou abdicar de certas vertentes da nossa ciência, isto pode gerar novas vias de investigação muito mais criativas.

Há várias linhas celulares e modelos animais que são utilizados em medicamentos e terapias cruciais para determinadas condições. Como é que é possível contornar isto, de uma forma a que deixe de ser prejudicial para o ambiente?
A investigação biomédica é uma realidade ligeiramente diferente daquela que vivo enquanto primatóloga. Como sabe, existe atualmente um grande debate sobre a utilização de modelos animais em testes biomédicos, seja para o desenvolvimento de vacinas, tratamentos de doenças ou estudo de patologias em geral. Além das preocupações éticas, existem problemas científicos reais, visto que muitos dos resultados destes modelos animais não se traduzem com sucesso quando se passa para os ensaios clínicos em humanos. Isto pode dever-se, em parte, à premissa errada de que os animais que estamos a estudar são seres biológica e psicologicamente saudáveis, quando na verdade não o são em ambiente de laboratório. Ainda assim, existem intervenções científicas que dependem destes modelos. Felizmente, graças aos avanços tecnológicos, estão a ser desenvolvidas diversas alternativas aos modelos animais. Isto remete-nos para o que referi anteriormente: se começarmos a afastar-nos da utilização de outros animais, desenvolveremos soluções e alternativas mais criativas. A dependência histórica de modelos animais limitou-nos. Se não encontrámos uma alternativa para determinada questão nas vacinas é, em parte, porque não tivemos a pressão necessária para a procurar ou desenvolver. A necessidade aguça a criatividade e impulsiona soluções tecnológicas inovadoras para os problemas que os modelos animais costumavam resolver.

“Encanta-me a ideia de um mundo onde as crianças cresçam fluentes no conhecimento dos animais e das plantas que as rodeiam”

Um dos argumentos que utiliza no livro é que o excecionalismo humano é vivido de forma diferente dentro da nossa própria espécie. Menciona que o mesmo animal pode ser visto como “descartável” numa cultura e “sagrado” noutra — como as vacas na Índia, por exemplo. Como é que o excecionalismo se cruza com a religião?
O facto de alguns animais serem venerados e reverenciados em certas culturas enquanto os mesmos animais são consumidos casualmente noutras prova que nem todas as hierarquias de espécies dependem da cultura e são altamente variáveis, não é apenas excecionalismo humano. A religião desempenha certamente um papel na construção dessas hierarquias e na forma como encaramos a natureza e a nossa relação com ela. Contudo, nenhuma religião é homogénea. Existe uma enorme diversidade interna em cada credo. A religião mais criticada pela sua ênfase no excecionalismo humano é a cultura judaico-cristã. No Antigo Testamento, há uma passagem no Génesis que refere que Deus deu ao Homem o domínio sobre a Terra e sobre as outras espécies, e que apenas o Homem foi feito à imagem de Deus. Há muitos termos e ideias potencialmente antropocêntricos originários do pensamento judaico-cristão, e muitos pensadores históricos e contemporâneos usam essas palavras para justificar o excecionalismo humano no imaginário público. Ao mesmo tempo, existem figuras marcantes nestas religiões que não defendem esta hierarquia. Há o exemplo de São Francisco de Assis, que dotava os animais de pensamento racional e comunicava com eles, sendo considerado o santo padroeiro dos animais e da natureza. Mesmo hoje em dia, há muitos teólogos e praticantes cristãos que adotam uma mundividência e uma ética muito mais ecocêntricas. Evito apontar o dedo a uma religião em particular porque, tal como na história do pensamento ocidental, existem correntes dominantes de leitura de textos, mas também existem sempre pensadores contraculturais.

"A ideia de que os seres humanos deveriam retirar-se por completo da natureza também não faz sentido. As outras espécies também utilizam a natureza para construir as suas próprias habitações e ninhos"
Christine Webb, primatóloga e autora de "O Símio Arrogante"

Como ficaria um mundo em que começássemos a adotar a filosofia que defende, abandonando de vez o excecionalismo humano e o antropocentrismo? Como seria essa realidade?
Essa transição exigiria mudanças radicais em quase todos os setores da cultura e da economia dominantes, embora algumas destas transformações já estejam em curso. Exigiria uma reestruturação profunda do nosso sistema alimentar e do nosso modelo económico, onde atualmente só valorizamos a vida de uma árvore após ser derrubada. Teríamos de repensar a economia para valorizar a vida enquanto está viva. Teríamos igualmente de reformular os nossos sistemas jurídicos. Atualmente, a legislação concede direitos aos seres humanos e, ocasionalmente, a empresas ou a navios. Todas as outras formas de vida são consideradas objetos ou propriedade. Teríamos de desconstruir esta visão binária que divide o mundo entre “pessoas” e “coisas”. Isto já está a acontecer através do movimento dos direitos da natureza, onde outras espécies e ecossistemas inteiros — como rios, montanhas e florestas — viram a sua personalidade jurídica reconhecida. Seria necessário repensar a pedagogia e o sistema de ensino. Encanta-me a ideia de um mundo onde as crianças cresçam fluentes no conhecimento dos animais e das plantas que as rodeiam. Paralelamente à matemática e à leitura, deveriam adquirir literacia ecológica. Teríamos também de repensar a nossa linguagem. Quando nos referimos à comida, não falamos de porcos ou vacas, usamos termos como pork, [carne de porco, em inglês] ou beef, [carne de vaca, em inglês]. Falamos de “recursos naturais” e “serviços de ecossistema” — termos que mercantilizam e instrumentalizam a natureza. Sabemos que a linguagem tem um efeito poderoso nos nossos padrões de pensamento e reflete as nossas crenças, projetando-as e reforçando-as no mundo.

Esta visão não afetaria também o crescimento da nossa espécie? Poderíamos continuar a construir e a “aproveitarmo-nos” da natureza?
A ideia de que os seres humanos deveriam retirar-se por completo da natureza também não faz sentido. As outras espécies também utilizam a natureza para construir as suas próprias habitações e ninhos. A questão fulcral é: conseguimos fazê-lo de forma equilibrada e sustentável, promovendo ecossistemas prósperos dos quais dependemos inteiramente? Dependemos dos polinizadores para o nosso sistema alimentar, por exemplo. Em última análise, um mundo além do excecionalismo humano não é apenas benéfico para as outras formas de vida, é fundamentalmente bom para os próprios seres humanos, porque necessitamos delas e do ambiente para continuar a construir os nossos lares, a alimentar-nos e a sobreviver.