Durante muito tempo achei que a depressão era uma coisa que acontecia aos outros. As pessoas deprimidas eram aquelas que eu via em campanhas de sensibilização, em reportagens ou em estatísticas. Pessoas tristes. Pessoas que choravam. Pessoas que conseguiam sair da cama.
Ora, eu saía da cama. Ou pelo menos levantava-me dela. Por isso nunca imaginei que estivesse a adoecer.
Aos quinze ou dezasseis anos, durante uma sessão sobre educação sexual na escola, pediram-nos sugestões de temas para abordar no futuro. Num papel anónimo escrevi: “É importante falar de tudo isto. Mas porque é que ninguém fala de saúde mental?”
Nunca obtive resposta. Anos depois, percebo que o silêncio também educa. Ensina-nos aquilo que não merece ser dito. Ensina-nos a sofrer em privado.
Quando a depressão chegou, não entrou de rompante. Não houve um dia específico. Não acordei diferente. Foi uma erosão lenta. Primeiro deixei de me reconhecer. Depois deixei de me cuidar. Depois deixei de me importar.
Estava a licenciar-me. Era adulta. Era dona de mim. Achava eu.
Sem dar por isso, comecei a afastar-me dos meus amigos. Das pessoas que amava. Da minha família. De mim própria. Vestia quase sempre a mesma roupa. As mesmas calças pretas. O mesmo casaco. Os mesmos sapatos. O cabelo preso da forma mais rápida possível. Dormia com a camisola do pijama e muitas vezes continuava com ela durante o dia inteiro. Prometia-me todos os dias: “Amanhã tomo banho”; “Amanhã lavo o cabelo”; “Amanhã escovo os dentes”; “Amanhã volto a ser eu”.
Mas o amanhã nunca chegava. E esta talvez seja uma das partes da depressão sobre a qual menos se fala. Não é apenas tristeza. É abandono. É assistir à pessoa que éramos desaparecer lentamente e não ter forças para a salvar.
Ficava deitada horas a fio. Às vezes dias. Não porque queria. Porque não conseguia. As pessoas imaginam a depressão como um excesso de emoções. No meu caso foi precisamente o contrário. Foi a ausência delas. Deixei de sentir alegria. Mas também deixei de sentir tristeza. Não chorava. Não ria. Não vibrava. Não sonhava. Não desejava. Não vivia. Existia. Era como se alguém tivesse carregado num interruptor e desligado tudo aquilo que me tornava humana. Havia dias em que estava rodeada de gente e, ainda assim, sentia-me a pessoa mais sozinha do mundo.
Logo eu. Que toda a gente descrevia como sorridente. Que fazia amigos em qualquer lugar. Que parecia cheia de vida. A verdade é que o sorriso continuava lá. Mas já não havia ninguém por trás dele.
Começaram depois os comprimidos. Um. Dois. Cinco. Dez. Onze por dia. Antidepressivos. Ansiolíticos. Antipsicóticos. Tomava-os como quem se agarra desesperadamente a uma boia no meio do oceano. Alguns ajudaram-me a estabilizar quando já não conseguia fazê-lo sozinha. Outros tiveram efeitos secundários, que, no meu caso, fizeram-me sentir emocionalmente anestesiada. A ansiedade diminuiu, mas também senti desaparecer a alegria, a tristeza, a empatia, o amor e a capacidade de me emocionar. Hoje sei que a medicação foi essencial no meu tratamento, mas também aprendi que cada pessoa reage de forma diferente e que deve sempre, sem exceção, ser acompanhada por um profissional de saúde.
Porque quando estamos tristes ainda sabemos que estamos vivos. Quando não sentimos nada, nem isso sabemos.
Com o tempo percebi também que a medicação, apesar de ser uma ferramenta importante, não funciona sozinha. A recuperação não acontece apenas através de comprimidos. A psicoterapia teve um papel essencial no meu caminho. Ter um profissional preparado para ouvir, compreender e ajudar a organizar aquilo que parecia impossível de explicar fez-me perceber que pedir ajuda não era sinal de fraqueza. Era uma forma de sobrevivência.
Os psicólogos e outros profissionais de saúde mental têm um papel fundamental porque, muitas vezes, a pessoa que sofre já não consegue ver uma saída sozinha. Às vezes precisamos que alguém nos ajude a encontrar o caminho de volta para nós próprios.
O meu corpo começou então a gritar. Tremores. Suores constantes. Náuseas. Sangramentos. Exaustão. Dores que apareciam sem explicação. E eu continuava a ignorá-lo. Até ao dia em que parei a medicação abruptamente. Achei que bastava querer. Achei que a força de vontade resolvia. Achei que era mais forte do que a doença. Foi uma das piores decisões que tomei. Parar medicação de repente pode ter consequências muito difíceis e provocar efeitos intensos. No meu caso, o corpo respondeu com violência. Abstinência. Vómitos. Tensão arterial descontrolada. Dor. Muita dor. Hoje percebo que não era o meu corpo a falhar. Era o meu corpo a tentar salvar-me. Porque há uma coisa que aprendi da forma mais difícil: as pessoas nem sempre conseguem pedir ajuda. Mas o corpo pede por elas. Pede através da insónia. Das dores inexplicáveis. Da perda de apetite. Do excesso de apetite. Do isolamento. Do silêncio. Da roupa que deixa de ser trocada. Dos banhos que deixam de acontecer. Dos convites que deixam de ser aceites.
Durante anos ouvi a mesma frase: “Mas tens uma vida tão boa.” Como se a dor precisasse de autorização. Como se o sofrimento obedecesse a critérios de mérito.
Como se a estabilidade financeira, o amor da família ou os privilégios anulassem a possibilidade de adoecer. Não anulam. A saúde mental não escolhe currículos. Não escolhe contas bancárias. Não escolhe famílias. Não escolhe sorrisos.
Este texto não é um pedido de pena. Nem um pedido de atenção. É um pedido de escuta. Porque neste momento há alguém a ler estas palavras que ainda não encontrou coragem para dizer o que sente. Que continua a responder “está tudo bem”. Que continua a sorrir. Que continua a funcionar. Mas cujo corpo já começou a gritar.
Quem se reconhecer nestas palavras deve saber que pedir ajuda não é um sinal de fraqueza. A depressão convence-nos de que estamos sozinhos. Mas não estamos. E ninguém deveria esperar até ao limite para pedir ajuda. Eu esperei. E quase me perdi no caminho.
Mafalda de Brito é estudante de licenciatura em Ciência Política e Relações Internacionais.