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(A) :: "É falsa a perceção de que imigrantes vêm comer do 'bolo'. Eles aumentam-lhe o tamanho", diz autor do estudo mais polémico do Fórum BCE

"É falsa a perceção de que imigrantes vêm comer do 'bolo'. Eles aumentam-lhe o tamanho", diz autor do estudo mais polémico do Fórum BCE

Estudo mais controverso apresentado no Fórum BCE, em Sintra, sustenta que os imigrantes são, em média, mais qualificados que nativos e estimulam o crescimento económico, “em contraste com a perceção".

Edgar Caetano
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Existe na maior parte dos países mais ricos do mundo – os da OCDE – uma “perceção errada” de que os imigrantes vindos de outras regiões “vêm comer fatias do bolo” das economias de destino e travar o crescimento dos salários dos nativos. Mas a evidência científica sustenta que, regra geral, acontece o oposto, garante Giovanni Peri, professor da Universidade da Califórnia que levou ao Fórum anual que o BCE organiza em Sintra o estudo que foi aquele que gerou debate mais intenso durante o evento. “Os imigrantes não vêm comer o bolo, vêm contribuir para que o seu tamanho aumente“, argumenta o académico.

Em entrevista ao Observador, à margem do Fórum BCE em Sintra, o italiano refuta a ideia de que os imigrantes “concorrem” com os nativos pelos postos de trabalho. Pelo contrário, vêm “complementar” o mercado ocupando profissões que os nativos nem sempre querem ter – e isso acaba por viabilizar um maior investimento empresarial. Um exemplo concreto: “Pense num empresário que quer abrir um restaurante na cidade, se não tiver pessoas para trabalhar lá atrás, na cozinha, não vai abrir esse restaurante – mas se tiver essas pessoas, então vai abrir o restaurante e gerar empregos para o gerente, para o chef, etc.”

Sem estes empregos mais básicos, os negócios encolhem ou fecham e, por isso, os empregos dos cidadãos nacionais também se perdem ou veem limitado o crescimento da sua valorização”, afirma.

Em todo o caso, o estudo de Giovanni Peri também sugere haver outra “perceção errada”: a de que os imigrantes são maioritariamente pessoas com baixas qualificações. Não é isso que os dados recolhidos mostram: o estudo, que examinou dados de vários países da OCDE ao longo de 35 anos (entre 1990 e 2024), revela que a imigração – particularmente a proveniente de países fora da OCDE – contribuiu para aumentos no crescimento e na produtividade, um efeito que é atribuído principalmente à elevada qualificação de muitos imigrantes.

“A imigração proveniente de países não pertencentes à OCDE tem sido um motor significativo do crescimento do PIB por trabalhador, principalmente através de um maior investimento”, salienta o estudo, que foi apresentado no Fórum BCE em Sintra e debatido com intensidade com os membros da plateia que incluía alguns dos mais reconhecidos economistas e banqueiros centrais do mundo, desde Christine Lagarde até Kevin Warsh, novo presidente da Reserva Federal dos EUA.

O académico italiano reconheceu que muitos imigrantes de países mais pobres podem ter qualificações mas não conseguem, no país de destino, empregos que correspondam a essas qualificações. Mas até isso é algo que, sustenta, contribui para um aumento da produtividade na economia, sobretudo a prazo.

Mesmo em empregos de qualificação média ou baixa “ter uma educação superior é algo que importa para ser mais produtivo. Por exemplo, olhe para a assistência a idosos: um estrangeiro que seja médico ou enfermeiro no seu país terá conhecimentos de saúde que lhe permitem prestar uma assistência melhor do que aquela que pode ser prestada por uma pessoa sem instrução”, afirma Giovanni Peri, ao Observador.

A OCDE concluiu, no final do ano passado, que 41% dos imigrantes em Portugal estão sobrequalificados para o trabalho que desempenham. Ou seja, muitos têm licenciaturas ou outras qualificações elevadas, mas acabam a trabalhar em funções como hotelaria, restauração, construção, logística ou serviços pouco qualificados.

“Talvez um médico que emigre nunca possa [ver as competências reconhecidas e] ser médico no novo país, mas poderá tornar-se um enfermeiro especializado ou um assistente mais qualificado, o que tenderá a produzir um grande ganho de produtividade ao longo do tempo“, advoga Giovanni Peri.

A “perceção errada” de que imigrantes têm baixas qualificações

O estudo encomendado pelo BCE para ser debatido no Fórum anual de Sintra sustenta que, embora nem sempre isso corresponda à perceção pública, “o crescimento na imigração, sobretudo vinda de países não pertencentes à OCDE, tem sido, em média, marcado por um equilíbrio entre pessoas com e sem formação superior”. E isso é parte da explicação para que os indicadores de produtividade do trabalho tenham aumentado em períodos de elevada imigração, de acordo com a investigação.

Este benefício para as economias, pode ler-se no documento, “contrasta com a perceção que existe em pessoas que vivem nos países recetores, que muitas vezes descrevem os imigrantes como pessoas com baixas qualificações”. Não faltam, acrescenta-se, “evidências abundantes acerca das perceções erradas dos cidadãos em relação à imigração”.

“Estudos mostram que, quando se pergunta às pessoas quantos imigrantes existem no seu país, elas tendem a sobrestimar largamente o seu número. Pensam que 20% ou 30% do país é imigrante, quando na realidade é mais perto de 10% ou 12%. E quando se pergunta sobre a taxa de desemprego entre imigrantes, pensam que a maioria está desempregada, quando, pelo contrário, a maioria trabalha“, afirma Peri, notando que, “quando se pergunta sobre as qualificações, muito poucos dirão que há muitos imigrantes com formação superior; pensam que são pouco qualificados, quando são relativamente instruídos, em média“.

https://observador.pt/2026/06/22/residem-em-portugal-114-milhoes-de-pessoas-16-milhoes-sao-estrangeiras/

Aliás, de acordo com os dados, “em mais de 81% das observações, a imigração líquida foi mais qualificada do que a população local”, pode ler-se no estudo. Ao Observador, Giovanni Peri reconhece que esse dado surpreendeu até a equipa de economistas envolvidos no trabalho, por si liderados.

“Uma revelação interessante é que o nível de educação destes imigrantes é relativamente alto“, refere o italiano, notando que “a intensidade de licenciados nesta imigração é normalmente superior à dos residentes, e esse é um canal através do qual os imigrantes aumentam o capital humano” e, por isso, o crescimento potencial das economias.

E qual é o impacto nos países de origem?

O estudo de Giovanni Peri concentra-se no impacto da imigração nos países de destino, mas Fabio Panetta, governador do Banco de Itália que estava na primeira fila do Fórum BCE, questionou o académico sobre os possíveis impactos nos países de origem. Será que o efeito é simétrico e se está, apenas, a “transferir [potencial de] crescimento de uns países para outros?”, perguntou Panetta.

“A abordagem económica tradicional diz-nos que a emigração é muito boa para quem emigra e temos, também, muitas evidências de que é boa para o país de destino”, respondeu o académico italiano. Já para os países de origem, “é comum falar-se da ‘fuga de cérebros’ que, por definição, pode ser negativa”.

Ainda assim, aponta Giovanni Peri, “além da questão das remessas, existem evidências de que se o emigrante não sai do seu país para sempre, se a dada altura regressar, trazendo consigo tecnologia, isso pode ajudar o país de origem”. Mas este estudo não trabalhou sobre essa componente dos fluxos migratórios e respetivo impacto – “isso poderia ser o próximo passo” nesta investigação, aponta.

No estudo, afirma-se que “os imigrantes mais qualificados ajudam mais a produtividade e o investimento, mas os imigrantes com menor instrução não prejudicam a produtividade” e, ao mesmo tempo, “preenchem empregos necessários” num contexto de encolhimento da população.

Em Portugal, o INE estima quase um em cada quatro imigrantes residentes em Portugal tem formação superior, uma proporção que já supera ligeiramente a da população portuguesa. De acordo com os dados mais recentes dos Censos do Instituto Nacional de Estatística (INE), 24,24% dos estrangeiros no país têm formação superior, face a 24,09% entre a população residente considerada pelos últimos Censos.

“O efeito agregado é grande: para cada 1% extra da população que é imigrante gera-se, acumulado ao longo de 10 anos, entre 1,5 e 1,9 pontos percentuais de crescimento extra do PIB per capita e, logo, da produtividade”, sustenta Giovanni Peri. Isto é algo que demonstra o potencial da imigração para impulsionar o crescimento económico, particularmente em regiões como a União Europeia, onde o crescimento da população nativa tem sido negativo, defende o economista.

O estudo conclui que “os resultados mostram que a produtividade do trabalho nos países recetores cresceu significativamente durante e após períodos de taxas de imigração mais elevadas, ou após choques migratórios e políticas de imigração mais abertas”. Refere-se o caso de Espanha, onde a imigração aumentou em 15 pontos percentuais (na percentagem da população adulta) entre 1990 e 2024 e o crescimento real do PIB per capita de Espanha (acumulado) foi de cerca de 75%. O estudo aponta que “até um terço deste crescimento [económico] pode ser atribuído ao fluxo de imigrantes“.

Também o Reino Unido terá, segundo os dados apurados, registado um crescimento total em que um terço pode ser atribuído ao crescimento da imigração, no mesmo período de 35 anos. Em Itália, outra das grandes economias da OCDE estudadas por Giovanni Peri, houve um crescimento de 7,5 pontos percentuais no peso da imigração (no total da população) e o estudo atribui à imigração “um acréscimo de 14,5% de crescimento do PIB per capita, face a um crescimento (total) de 24% no período”, de acordo com o estudo.

Sublinha-se que “as estimativas neste artigo devem ser consideradas apenas sugestivas e interpretadas com muitas reservas, pois são ‘correlações parciais’ cuidadosamente elaboradas, e não coeficientes causais”. No entanto, diz Giovanni Peri, “a magnitude económica destas correlações, a consistência e robustez dos resultados em diferentes margens de variação, a correspondência com a evidência microeconómica e a sua novidade em considerar uma amostra abrangente da OCDE ao longo de 35 anos implicam que são informações importantes para a nossa compreensão e investigação futura sobre os efeitos da imigração na produtividade, num período de declínio da população nativa”.

Ao Observador, mesmo reconhecendo algumas limitações do estudo, Giovanni Peri sustenta que há algo que pode ser dito sem reservas: “O que este artigo realmente refuta é a ideia de que os imigrantes geram um efeito depressivo na economia, que excluem os nativos do emprego ou que geram um congestionamento que os prejudica”.

Empresas são quem mais ganha com imigração? Cabe ao Estado gerir “benefício”

Outro ponto focado por Giovanni Peri, em entrevista, é que é frequente ouvir-se que a sociedade como um todo assume os custos sociais da imigração – e são as empresas (e respetivos acionistas) que beneficiam do ganho económico associado à imigração, seja ela mais ou menos qualificada.

Se assim for, isso é uma questão de redistribuição que depende do sistema fiscal“, afirma o italiano, salientando que cabe ao governo tributar as empresas e “garantir que existe uma redistribuição que traga proveitos para a comunidade local e os bens públicos”. “A nossa investigação mostra que existe um ganho; a forma como ele é distribuído é uma escolha política que deve garantir que todos fiquem melhor [graças ao aumento da imigração]”, conclui o italiano.

Para Giovanni Peri, perante esse “aumento do bolo“, o que os governos devem fazer – além de garantir uma justa redistribuição dos proveitos – é gerir melhor a imigração do ponto de vista comunicacional, tratando-a como qualquer outro programa das políticas públicas (como a Educação ou a Saúde) e “impedir que se fomente uma ideia de que as autoridades gerem a imigração como gerem uma catástrofe ou uma emergência”.

Estudo sobre imigração foi o mais debatido (na apresentação e nos corredores)

Além de momentos como o “Policy Panel”, um debate entre os mais importantes banqueiros centrais do mundo, e da entrega dos prémios a jovens economistas, o Fórum BCE conta, invariavelmente, com a publicação de um conjunto de trabalhos académicos que são, durante o evento, apresentados pelos respetivos autores e discutidos pela audiência.

Nesta edição de 2026, houve um estudo de Bart Van Ark, professor de Manchester, sobre como acelerar o crescimento económico na Europa, outro trabalho sobre regulação financeira da autoria de Mariassunta Giannetti, da Stockholm School of Economics e, também, um estudo sobre pagamentos digitais que foi feito pelo atual governador do banco central da Coreia do Sul, Hyun Song Shin.

Mas o trabalho que originou um debate mais vivo foi o estudo de Giovanni Peri sobre o impacto da imigração. Foi escasso o tempo de perguntas e respostas, dado o número de participantes que levantaram a mão para fazer perguntas ao autor. Algumas dessas perguntas incidiram na dificuldade que o estudo tem – e o próprio autor reconhece – em estabelecer correlações causais, ou seja, causa-efeito.

Ainda assim, nos corredores um economista com quem o Observador falou à margem do evento elogiou o facto de que, mesmo não se podendo tirar conclusões muito sólidas sobre o impacto positivo da imigração, pelo menos é útil para acabar com muitas das suposições acerca dos eventuais impactos negativos.

Foi, também, questionado o facto de se ter usado dados sobre a imigração líquida, correndo o risco de esconder realidades bem diferentes quando tanto o país A como o país B têm, por hipótese, imigração líquida de zero (entre saídas e entradas) – mas o país A pode não ter tido qualquer imigração ou emigração e o país B pode ter tido milhares de pessoas a sair e outras tantas a entrar.

Um outro economista com quem o Observador falou, à margem do evento, salientou que o estudo não reflete de forma suficientemente robusta sobre os custos sociais e políticos da imigração, sobretudo quando acontece de forma muito repentina e sobretudo quando provém de países com culturas mais díspares e difíceis de integrar.

É preciso “comunicar que mais imigrantes ajudam os negócios locais e os outros trabalhadores, porque criam oportunidades, consomem e fundam empresas”. Já “cortar a imigração apenas para agradar às pessoas não é o caminho certo, precisamos de políticas inteligentes e de planear com antecedência, definindo o número de cientistas de que precisamos, mas também de cuidadores de idosos, trabalhadores agrícolas ou para a hotelaria”.

Depois, deve-se abrir-lhes as portas de forma controlada, defende Peri, acrescentando que “um sistema mais organizado e planeado eliminaria o sentimento de que a fronteira está um caos, que é o que realmente assusta as pessoas“.

A recomendação deste académico é que “se planearmos e mostrarmos os ganhos económicos que estes fluxos trarão, poderemos usar esse ganho para redistribuir e compensar as comunidades locais, abrindo mais escolas ou construindo mais casas, entre outras coisas”. “Essa é uma forma muito melhor de pensar e agir do que, simplesmente, fechar as fronteiras“, remata.

https://www.youtube.com/watch?v=KWKvOruDjd4&t=2s