Primeiro Gonçalo Ramos, depois Bernardo Silva, de seguida Bruno Fernandes e João Neves, pelo meio o seu amigo Cristiano Ronaldo. O respeito que se pode ter no futebol também se mede pela forma como aqueles que ganham se vão abraçar ao que perde antes da festa pelo triunfo. Mais uma vez, Luka Modric foi exemplo paradigmático disso mesmo. Uma coisa é cumprimentar um adversário depois do jogo, outra é ter quase a necessidade de confortar aquele que, aos 40 anos, ainda é uma referência para todos. Alguém teria de cair num duelo particular de gigantes quarentões que marcaram a história do futebol nas últimas duas décadas. Ronaldo ficou com o “brinde”, a Modric calhou a fava. E tudo por causa de um golo anulado aos 90+13′.
Não era líquido que, caso o encontro seguisse para prolongamento, o triunfo caísse para a Croácia. Ainda assim, sobrou uma certeza: foi esse lance em que Gvardiol conseguiu marcar que se tornou o último capítulo do jogo e da carreira internacional de Luka Modric, que pode ou não fazer mais uma temporada pelo AC Milan depois de mais de uma década no Real Madrid, mas que deve agora deixar a seleção croata.
Aliás, existe uma outra curiosidade que liga Ronaldo e Modric, neste caso com Lionel Messi e Guillermo Ochoa também na equação: foram os únicos que marcaram presença no Mundial de 2006, na Alemanha, e que estão agora nos EUA, México e Canadá para mais uma fase final do Campeonato do Mundo. Aí, há duas décadas, o VAR não era sequer um sonho (ou se era, estava ainda longe de passar à prática). Agora, através da tecnologia do fora de jogo semiautomático, Matanovic e Ronaldo viram golos anulados na segunda parte. No entanto, foi outra tecnologia que era ainda menos crível nesse ano de 2006 a afastar Luka Modric.
Ninguém tinha dúvidas sobre o posicionamento dos avançados croatas antes do golo de Gvardiol, com um claro adiantamento em relação à linha defensiva de Portugal. Contudo, faltava apenas saber se Matanovic tinha ou não tocado na bola antes de a mesma bater nas costas de Renato Veiga e sobrar para Pasalic. O VAR chamou o árbitro, Espen Eskas; o norueguês esteve a ver as imagens com várias repetições do mesmo frame, a dúvida subsistia – e, assim, o golo continuava a contar. Foi aí que entrou em cena o chip especial que a bola deste Mundial, a Trionda, tem. E o que foi possível apurar a partir daí? Apesar de ser um toque mínimo, quase impercetível à vista desarmada, existiu e foi registado pelo próprio sistema da bola.
Como a FIFA tinha revelado ainda antes do Mundial, quando foi anunciada a bola que iria estar presente na competição com o nome de Trionda em homenagem aos três países organizadores, existe um chip de sensor de movimento de 500 Hz de última geração que permite fornecer informações de cada elemento quando a bola se move, passando de forma instantânea informações à sala do VAR e do AVAR. É isso que ajuda na análise de possíveis grandes penalidades, bolas que passam ou não a linha ou cantos.
Foi assim que a Croácia, e neste caso Luka Modric, ficou de fora do Mundial-2026. E foi assim que todo o esforço do médio de 40 anos para estar na competição, depois de uma dupla fratura num osso da cara que colocou a convocatória em risco (jogando mais tarde com máscara durante algumas semanas), acabou por cair por terra, numa fase em que o futuro enquanto jogador também não está definido. De recordar que Luka Modric, que ganhou a Bola de Ouro em 2018, tinha uma medalha de prata (2018) e uma de bronze (2022) em Campeonatos do Mundo, além de uma final da Liga das Nações também perdida (2023). Depois de ter conquistado três Campeonatos, duas Taças e uma Supertaça da Croácia pelo Dínamo Zagreb, foi no Real Madrid que o médio “forrou” todo o seu currículo, com seis Ligas dos Campeões, cinco Mundiais, uma Taça Intercontinental, cinco Supertaças Europeias, quatro Ligas, duas Taças e cinco Supertaças de Espanha.