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(A) :: O fim do casamento de Belle Burden deu um livro. Mas se nem tudo em "Estranhos" é verdade, de onde vem o sucesso imparável?

O fim do casamento de Belle Burden deu um livro. Mas se nem tudo em "Estranhos" é verdade, de onde vem o sucesso imparável?

A vida da autora desfez-se durante a pandemia. Seguiu-se um purgatório familiar e financeiro, descrito num livro agora publicado entre nós. As vendas não param, mesmo com dúvidas por explicar. Porquê?

Andreia Costa
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Assim que foi publicado nos EUA, a 13 de janeiro deste ano, Estranhos — Memórias de Um Casamento fez um sprint até à meta e ocupou de imediato o primeiro lugar do ranking de não ficção de capa dura do The New York Times. Seguiu-se o assalto às listas de mais vendidos de outras publicações, como The Washington Post e Publishers Weekly, e a plataformas digitais, como a Apple Books. Multiplicaram-se as entrevistas dadas a Oprah Winfrey ou Drew Barrymore e um grande destaque em clubes do livro conceituados, como o de Reese Witherspoon e o de Katie Couric. No entanto, quando toda a gente está a elogiar um livro, seguem-se geralmente as desconfianças, surgem detalhes omitidos e descobre-se que nem tudo aconteceu exatamente como está descrito.

Este é primeiro livro de Belle Burden, está nas livrarias portuguesas desde 2 de julho (com selo da Bertrand Editora) e é uma obra de não-ficção — ou será que não é bem assim?

Estranhos — Memórias de Um Casamento relata o fim inesperado do relacionamento de 20 anos da autora — que o currículo continua a descrever como “advogada pro bono de imigração, especializada em casos juvenis” — e a batalha financeira que se seguiu. Já tinha assinado colunas de opinião no The New York Times e refere no livro que, quando era mais nova, tinha o sonho de escrever, mas até aqui nunca se tinha dedicado a isso. Esse é um dos pontos que faz torcer o nariz aos céticos, mandatários do partido “uma mulher rica não pode queixar-se/se o marido foi embora foi porque a vida sexual tinha arrefecido/uma mulher que nunca publicou nada não pode escrever tão bem”. Do outro lado está a fação “o marido é um patife/Belle Burden está a abrir os olhos de todas as mulheres que não são financeiramente independentes”.

As opiniões continuam a aparecer em catadupa, mas mesmo com certos factos a não baterem certo com os relatos que estão no livro, as vendas não abrandam. Nos EUA, a obra chegou já à nona edição e os direitos já foram comprados pela Netflix, que pretende transformar a obra em filme com Gwyneth Paltrow como protagonista e Heidi Schreck (Billions, Nurse Jackie) a assinar o argumento.

Para entender o fenómeno (e as polémicas) é preciso regressar ao início — que, neste caso, é o fim de um casamento. Em 2020, durante o confinamento ditado pela Covid-19, Belle Burden, o marido e as filhas pequenas isolaram-se na segunda casa da família, em Martha’s Vineyard. Numa noite como qualquer outra, Belle é contactada por um homem que lhe revela que o marido dela está a ter um caso com a mulher dele. Primeiro impacto. Depois de lhe jurar que não significou nada e que quer salvar o casamento de 20 anos, afinal, na manhã seguinte, o marido diz-lhe que vai regressar a Nova Iorque, e decide que quer o divórcio. Mais: não quer a guarda dos filhos. Segundo impacto. “Achava que queria a nossa vida, mas não quero”, diz simplesmente o marido como justificação para partir, deixando-a numa ilha, com duas filhas menores [o filho mais velho do casal estava em casa de amigos] que ainda dormem, em plena pandemia.

Quando o divórcio avança, Belle descobre que o marido tinha acumulado uma fortuna, mas em contas à parte, apenas em nome dele, durante anos. Terceiro impacto. Nada disso entraria na divisão dos bens, uma vez que antes do casamento, o marido (cujo nome verdadeiro, Henry Davis, é trocado no livro por um fictício, James) tinha pedido uma alteração que estipulava que só o que estivesse em nome dos dois poderia ser dividido. Quarto impacto. As duas casas da família tinham sido compradas apenas com dinheiro de Burden, mas estavam em nome dos dois. Explosão.

Por um lado, o livro levantou uma questão que tem gerado muitas conversas: conhecemos realmente a pessoa com quem partilhamos uma vida inteira? Por outro, têm sido feitas muitas contas matemáticas que questionam o drama descrito por Belle Burden quando confrontada com a possibilidade de ter de vender tudo para dar metade ao marido. Isto porque a autora é rica. Do lado paterno descende dos Vanderbilts, família que fez fortuna com um império ferroviário durante a Era de Ouro nos EUA, e a avó materna era a socialite Babe Paley, um dos “cisnes” de Truman Capote (era assim que o escritor se referia às amizades que colecionava). Herdeira de ambos os lados, nunca ficaria propriamente sem nada. A autora nunca nega que tem dinheiro e é privilegiada — aliás, são termos que a própria refere várias vezes, e apesar de nunca falar nos números que entretanto foram divulgados, isso não tem afastado os leitores.

Reagindo às questões levantadas, Burden respondeu com um comunicado. “Quando escrevi Estranhos, partilhei a minha dor, os meus erros e a minha vergonha. Assumi os meus privilégios da forma mais clara possível e respeitei a privacidade dos autos judiciais sigilosos. Mantenho tudo o que escrevi, incluindo o medo que senti perante as ameaças do meu ex-marido, as contribuições que dei e que poderia dar à minha família, e o que me aconteceu a nível financeiro e emocional durante o meu casamento e divórcio.”

“Li tanto o livro como o artigo, e o artigo não altera a minha opinião sobre o livro. Penso que, no livro, Burden deixa bem claro logo no início que possui uma imensa riqueza.”

O artigo a que o utilizador lazlo_camp se refere no Reddit foi publicado a 23 de maio de 2026 na revista The New Yorker. O que falta nos ‘Estranhos’ de Belle Burden, assinado por Jessica Winter, expõe os detalhes do acordo pré-nupcial e do acordo de divórcio que “complicam a narrativa”. E é aqui que toda esta história fica mais complexa — a narrativa do livro, não o sucesso que o mesmo continua a acumular.

Uma mulher rica nunca fica sem nada. Ou fica?

Belle Burden formou-se em Harvard. Recém-licenciada em Direito, foi trabalhar para a firma de advogados Davis, Polk & Wardwell, em Nova Iorque. Foi lá que conheceu “James”, igualmente advogado.

“A rapidez com que tudo começou e a rapidez com que tudo acabou eram imagens inversas uma da outra. Ambas surgiram do nada. Ele quis tudo, quis-me a mim. E depois deixou de querer”, recorda a autora.

Em poucos meses estavam noivos, mas quando chegou o momento de assinarem o acordo pré-nupcial surgiu aquilo que Burden descreve agora como um sinal de alerta. Ficou acordado que as despesas domésticas seriam partilhadas mas, em caso de divórcio, só os bens em nome dos dois seriam divididos. Os rendimentos do marido, extra despesas, não fariam parte do pacote, assim como a herança de Burden — beneficiária de cinco fundos fiduciários, diz a documentação. Problema: ele, entretanto transformado em gestor de fundos de sucesso, tinha milhões de dólares numa conta separada, enquanto ela tinha deixado de trabalhar quando tiveram o primeiro dos três filhos.

“Ele ganhou muito dinheiro e guardou-o todo em nome dele — ou, pelo menos, a maior parte do que não gastou em despesas”, recordou a autora em entrevista ao podcast Obsessed: The Podcast, do site The Daily Beast.

Já a própria, diz, tinha esvaziado os dois fundos de que era beneficiária quase na totalidade para comprar um apartamento no bairro nova-iorquino de Tribeca e a casa de férias em Martha’s Vineyard. De acordo com registos públicos disponíveis, obtidos pela The New Yorker, o apartamento custou um pouco menos de quatro milhões de dólares, em 2002, tendo Burden contraído um empréstimo de um milhão. A casa custou 5,4 milhões, existindo um empréstimo de três.

Sem rendimentos no momento da separação, Burden contestou o acesso aos ganhos de “James”; ele quis metade das casas. O caso avançou para tribunal, mas os dois chegaram a um acordo uma hora antes do arranque do julgamento. Segundo a autora, “com termos determinados pelo ‘James’”. Porém, revela de The New Yorker, de acordo com os registos judiciais, nunca houve nenhuma data marcada para o julgamento. Havia, sim, uma reunião de acompanhamento, na qual as duas partes discutem questões logísticas e definem prazos.

De acordo com a revista, Belle Burden omitiu mais elementos. No livro diz que desistiu da carreira de advogada quando teve filhos, deixando de ter ordenado, mas a publicação garante que os documentos do divórcio revelam que, em 2019, declarou rendimentos de 800 mil dólares. Em Estranhos — Memórias de Um Casamento, Belle conta igualmente que se viu confrontada com dois cenários: ou pagar ao ex a metade das propriedades que lhe pertencia, aquilo que alega que era impossível; ou vender. Embora Burden escreva que empenhou quase tudo o que lhe pertencia no património, a New Yorker descobriu que ela e o irmão são beneficiários de um fundo de 63 milhões, que lhes garantirá uma quota de 45 milhões de dólares entre os dois, a herdar após a morte da madrasta.

Reagindo às questões levantadas pela revista, Burden respondeu com um comunicado. “Quando escrevi Estranhos, partilhei a minha dor, os meus erros e a minha vergonha. Assumi os meus privilégios da forma mais clara possível e respeitei a privacidade dos autos judiciais sigilosos. Mantenho tudo o que escrevi, incluindo o medo que senti perante as ameaças do meu ex-marido, as contribuições que dei e que poderia dar à minha família, e o que me aconteceu a nível financeiro e emocional durante o meu casamento e divórcio.”

Estas questões parecem, porém, estar a impactar pouco ou nada as vendas do livro e a onda gigante de defensores de Belle Burden. Muitos leitores referem que, no final de contas, os factos continuam a ser os factos. O marido de Belle abandonou-a literalmente da noite para o dia, descartou-se das funções de pai e enganou-a financeiramente. Há sobretudo muitas mulheres que se reveem no discurso de injustiça para com quem, muitas vezes, abdica das carreiras para criar uma família.

Holly Peterson, do Wall Street Journal: “A Belle Burden não está a mentir. Está a contar a história dela como a vê. E merece ser lida com seriedade. Mas a história dela não é toda a história, e no momento em que decidimos que ler o relato de um dos cônjuges nos qualifica para emitir um veredito sobre o casal, estamos a cair na preguiça intelectual."

“Não consegui largar o livro — é uma história tão comovente e, ao mesmo tempo, tão poderosa que todos deviam ler, especialmente jovens mulheres”, escreveu Brett Chody na plataforma Goodreads.

Em entrevista ao Daily Beast, a autora deixou um desejo semelhante. “Se o meu livro servir para alguma coisa, espero que as mulheres mais jovens ou da minha geração analisem bem a sua situação financeira e reflitam sobre o que lhes aconteceria se o casamento acabasse.”

O Wall Street Journal publicou um artigo intitulado Ela perdeu quase tudo no divórcio. Agora, as mulheres estão a aprender com os erros dela, referindo como a história de Belle Burden tinha sido moldada por “ingenuidade financeira”.

Já o New York Times classificou a obra como “thriller financeiro”, motivado por um “acordo pré-nupcial opressivo”.

“James” pode muito bem ser o ex-marido mais odiado do mundo (porque mesmo que a própria ex-mulher tenha seguido em frente, há pelo mundo milhares de pessoas da equipa Belle). Porém, no final de os avanços e recuos matemáticos, as casas ficaram para Belle Burden, o ex-marido deu-lhe três milhões e passou a pagar 50 mil euros mensais de pensão de alimentos até a filha mais nova ter 22 anos — tem agora 18.

E o lado do marido?

No The Wall Street Journal, Holly Peterson questiona: “Qual é que achamos que é o lado do marido”? Isto porque diz ficar perturbada com a “rapidez com que nós, enquanto leitores, aceitámos um lado de uma relação complicada: o marido é um monstro, ela é nossa irmã”.

Para a jornalista, falta analisarmos a zona cinzenta: “É esse o problema”. Ainda assim, Holly Peterson continua a defender a qualidade do livro. “A Belle Burden não está a mentir. Está a contar a história dela como a vê. E merece ser lida com seriedade. Mas a história dela não é toda a história, e no momento em que decidimos que ler o relato de um dos cônjuges nos qualifica para emitir um veredito sobre o casal, estamos a cair na preguiça intelectual.”

Quanto a “James”, é certo que já teve muitas propostas de entrevistas. Até ao momento, limitou-se a enviar uma nota breve ao New York Times. “Embora discorde de muitas das suas memórias, bem como da sua descrição generalizada e errada da minha relação com os meus filhos, não desejo comentar mais detalhadamente, a fim de os proteger de novas violações da sua privacidade, para além de dizer que continuo a apoiar com carinho os meus filhos e a ser apoiado por eles com carinho.”

O pingue-pongue do amor/ódio

Ainda antes da publicação do artigo da New Yorker, já o livro e a autora tinham sido arrasados no jornal digital Medium. Janice Harayda, crítica literária da publicação, não acredita em Belle Burden e diz exatamente isso logo no título.

Analisa ponto a ponto, começando por sugerir que a vida sexual teria arrefecido. “É bem possível que a relação deles lhe parecesse ‘romântica’ e ‘carinhosa’. Mas e o marido dela? Será que ele ansiava pelo sexo apaixonado da juventude, em vez do carinho que ela tanto valorizava?”, questiona.

Depois, duvida de memórias tão precisas como “quando alguém se inclina” ou “bebe um gole de chá” — sem recurso a notas, “quem tem os detalhes tão frescos?”, pergunta. E vai mais longe, sugerindo que pode haver um ghostwriter à mistura. “Burden tinha pouca experiência na escrita, além da elaboração de alegações judiciais, e escreveu um livro cativante com um estilo refinado”, descreve.

Escrito pela própria ou não, tudo verdade ou cheio de floreados, Janice Harayda acerta em pelo menos uma coisa: Estranhos — Memórias de Um Casamento é realmente cativante, além de cruel, duro, ternurento e sempre muito bem escrito.

O pingue-pongue de amor/ódio em relação à obra continua, mas talvez a revista Slate tenha conseguido desmistificar aquilo que apontam ao livro como problema. “As memórias situam-se sempre na fronteira entre o que cada uma das partes pensa que aconteceu e os poucos detalhes que podem ser verificados como factos inegáveis. Se um escritor não consegue ser incontestavelmente verdadeiro na sua escrita — algo que ninguém consegue fazer na totalidade, pelo menos no que diz respeito às próprias histórias —, o máximo que se pode alcançar é uma honestidade emocional profunda. As melhores [obras de] memórias não são, portanto, factuais. São simplesmente sinceras.”