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Benfica District: Entre o negócio e os resultados desportivos – o risco de crescer para perder

A questão nunca será ser a favor ou contra o Benfica District, mas perceber se o projeto existe para servir o futebol – ou se, gradualmente, o futebol começará a servir o projeto.

Nazir Karmali
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Há uma ideia particularmente sedutora no futebol moderno: crescer fora de campo para garantir estabilidade dentro dele. O raciocínio parece intuitivo – um clube financeiramente mais forte, mais moderno e com receitas mais diversificadas deveria tornar-se também mais competitivo. O Benfica District nasce precisamente dessa ideia.

E é exatamente por isso que o debate exige frieza estratégica. Porque a experiência recente do Tottenham Hotspur demonstra que crescimento financeiro e crescimento competitivo não são necessariamente sinónimos. Em determinados contextos, podem até entrar em conflito – no limite, uma carteira de concertos esgotados, pode tornar-se financeiramente mais previsível e rentável do que uma grande campanha europeia quando o centro absoluto da organização é o entretenimento em vez do desporto.

O modelo Tottenham: quando o crescimento deixa de servir o futebol

O Tottenham tornou-se um dos casos mais paradigmáticos do futebol europeu contemporâneo. Em 2025, apresentou receitas superiores a £565 milhões, incluindo mais de £277 milhões em receitas comerciais, possui um dos estádios mais modernos do mundo e uma valorização estimada acima dos £3 mil milhões. Em paralelo, acumulou prejuízos próximos de £95 milhões e uma dívida bancária superior a £847 milhões, maioritariamente associada à construção do novo estádio. Mas mais preocupante do que os indicadores financeiros foi a erosão competitiva da equipa, incapaz de acompanhar o investimento desportivo dos principais rivais ingleses.

O problema nunca foi a construção do estádio. Pelo contrário. O Tottenham Hotspur Stadium tornou-se uma extraordinária plataforma de geração de receitas: NFL, concertos, eventos corporativos, hospitalidade premium, restauração, exploração comercial permanente e uma utilização praticamente contínua do recinto transformaram-no num dos ativos mais sofisticados do desporto europeu.

O problema surgiu quando esse sucesso económico deixou de se traduzir num reforço proporcional da competitividade dentro das quatro linhas. A partir de determinado momento, o crescimento estrutural e infraestrutural pareceu transformar-se num fim em si mesmo. O futebol deixou gradualmente de ocupar o centro absoluto da organização, cedendo espaço a uma lógica mais ampla de entretenimento, eventos, monetização de ativos e maximização de receitas. O deslumbramento foi tal que o foco deixou de estar na vertente desportiva da equipa, com claro impacto na performance da equipa dentro das 4 linhas.

E quando os resultados desportivos começaram a deteriorar-se, as fragilidades tornaram-se evidentes: menor receita proveniente da UEFA, perda de atratividade competitiva e maior pressão sobre os patrocínios. De forma quase impercetível, o Tottenham passou a depender cada vez mais de atividades não diretamente ligadas ao futebol para sustentar a sua estrutura financeira – e isso condicionou o investimento no futebol. Instalou-se um ciclo difícil de inverter.

Um clube, outrora um dos “Big 6” da Premier League, a par dos rivais de Manchester, Liverpool, Chelsea e Arsenal, forçado a lutar durante duas temporadas consecutivas até à última jornada, para não descer ao Championship. A principal lição é clara: um clube pode tornar-se estruturalmente mais rico e, ao mesmo tempo, menos competitivo desportivamente e financeiramente mais débil. E após duas épocas a terminar em 17.º na Premier League, com receitas de audiovisuais em queda e ausência de receitas da Liga dos Campeões, o Tottenham acabou de anunciar uma nova injeção de capital de £100 milhões da família Lewis, a terceira injeção em 18 meses e a quarta em 4 anos, totalizando £333 milhões desde maio de 2022, apenas para fazer face a défices de tesouraria mais imediatos.

Real Madrid e Barcelona: o estádio como instrumento de poder desportivo

Em contraste, Real Madrid e Barcelona compreenderam há muito que a centralidade dos clubes reside no futebol e nas modalidades. O crescimento económico é um meio; o objetivo principal permanece inalterado: vencer.

O novo Santiago Bernabéu é talvez o exemplo mais sofisticado desta lógica. A renovação do estádio – superior a mil milhões de euros – introduziu cobertura retrátil, relvado amovível, ecrã de 360º, experiências premium, zonas comerciais e capacidade para acolher concertos e grandes eventos internacionais durante todo o ano. Os resultados são evidentes: as receitas de matchday praticamente duplicaram, o clube ultrapassou mil milhões de euros de receitas anuais e existem projeções superiores a 300 milhões anuais gerados exclusivamente pelo estádio.

Mas a questão central é esta: o Santiago Bernabéu existe para reforçar a competitividade dentro de campo, financiando salários, contratações e reduzindo a dependência dos direitos audiovisuais. No Real Madrid, a hierarquia nunca se inverte. O estádio existe para alavancar a obsessão competitiva. Depois da 15ª Liga dos Campeões, o objetivo é conquistar a 16ª.

No caso do Barcelona, as semelhanças com o Benfica são evidentes. Tal como o Benfica, o Barcelona assenta o seu modelo na ideia de que o futebol profissional masculino é o motor económico que sustenta a formação e um vasto universo de modalidades masculinas e femininas. Por isso, o projeto Espai Barça vai muito além da simples renovação do Camp Nou, incluindo também um novo Palau Blaugrana, áreas VIP, espaços comerciais, escritórios, zonas de lazer e soluções de sustentabilidade energética, transformando todo o complexo numa plataforma global de hospitalidade, turismo e entretenimento.

As projeções apontam para cerca de 250 milhões de euros de receitas anuais adicionais, distribuídas entre patrocínios e naming rights (24%), hospitalidade (24%), bilhética (22%), museu, visitas e turismo (15%) e reuniões e eventos (15%).

Tal como no Real Madrid o princípio é o mesmo: o crescimento económico não constitui um fim em si mesmo. O Espai Barça procura reforçar a capacidade competitiva do Barcelona, recuperando simultaneamente uma visão identitária materializada no maior estádio da Europa, com 105 mil lugares ao serviço do futebol, e num novo Palau Blaugrana concebido para impulsionar as modalidades e consolidar o carácter eclético do clube.

Benfica District: o desafio de modernizar sem deslocar o centro do de gravidade institucional

O Benfica District representa uma transformação estrutural de enorme dimensão: uma arena multiusos, novos pavilhões, hotel, residência de atletas, zonas comerciais, restauração, museu, megastore e uma profunda reconfiguração do Estádio da Luz. O investimento ronda os 220 milhões de euros, aos quais acrescem cerca de 75 milhões destinados ao aumento da capacidade da Luz para 80 mil lugares (já em curso).

No papel, o racional parece sólido. Mas quantas vezes projetos financeiramente sustentáveis falharam quando confrontados com a realidade operacional?

O modelo financeiro desenhado para o District exige taxas de ocupação elevadas, forte capacidade de consumo, procura permanente e elevada densidade de monetização ao longo de todo o ano. Existe, porém, uma diferença estrutural impossível de ignorar: Lisboa não é Londres. O Benfica District poderá criar novas fontes de receita, mas dificilmente atingirá a mesma escala económica do modelo inglês.

E é precisamente aqui que identifico o primeiro risco: o Benfica District gerar receitas insuficientes para justificar plenamente o capital investido, criando pressão indireta sobre aquilo que continua a ser o verdadeiro motor competitivo do clube – o investimento desportivo.

Conforme referi num artigo anterior, as contas recentes do Benfica revelam um nível significativo de alavancagem financeira. Mas mais importante ainda, evidenciam uma dependência estrutural do sucesso desportivo: uma parte relevante das receitas operacionais permanece associada às competições da UEFA, enquanto os resultados financeiros continuam fortemente sustentados pela venda de jogadores. Ao contrário dos grandes clubes ingleses, o Benfica não dispõe de uma Premier League capaz de amortecer ciclos prolongados de menor competitividade.

A própria história do Benfica aconselha prudência. Tanto a construção do Campo das Amoreiras, em 1925, como o fecho do Terceiro Anel, em 1985, acabaram associados a períodos de forte pressão financeira subsequente.

Ainda assim, existe um ponto essencial: sem conhecer em detalhe a estrutura do project finance, os níveis de endividamento envolvidos, os prazos e custos da dívida, as garantias associadas e a real capacidade do Benfica para acomodar e reembolsar esse compromisso financeiro ao longo do tempo, seria intelectualmente desonesto retirar conclusões definitivas. Esse ónus pertence à Direção, a quem cabe explicar o projeto de forma transparente e rigorosa, permitindo aos sócios decidir de forma verdadeiramente informada.

Mas o debate sobre o Benfica District não se resume apenas ao risco financeiro. Reside também no risco identitário, isto é, na possibilidade de o crescimento económico começar gradualmente a deslocar o centro de gravidade institucional do clube, construindo um Benfica assente em “betão e infraestruturas”, priorizando resultados financeiros e crescimento económico em detrimento dos resultados desportivos.

E essa preocupação ganha força quando se observa que cerca de 80% das sugestões apresentadas pelos sócios durante o período de consulta pública estavam diretamente relacionadas com o estádio, e não com hotéis, escritórios ou espaços comerciais.

O sinal é claro: o verdadeiro núcleo emocional e identitário do Benfica continua a residir no futebol e no Estádio da Luz. É aí que os sócios exigem que permaneça o foco estratégico do Clube.

É também por isso que nunca me posicionei contra o Benfica District. Não rejeito modernização nem crescimento económico. Defendo, sim, uma hierarquia clara de prioridades: as infraestruturas e os resultados financeiros devem existir ao serviço da vertente desportiva – nunca o contrário.

Quando, na Assembleia Geral de 3 de janeiro de 2026, defendi que seria possível pensar numa Luz com mais de 80 mil lugares, aproximando-se inclusivamente dos 95 mil, a lógica era precisamente essa: reforçar o principal ativo estratégico do Benfica – o futebol e o Estádio da Luz.

Existe, aliás, uma reflexão histórica curiosa no universo benfiquista. Em 1954, a Luz inaugurou com cerca de 40 mil lugares; em 1960 passou para 70 mil; em 1985 atingiu os 120 mil; e em 1995, com a introdução de cadeiras e outras exigências da UEFA, desceu para cerca de 80 mil, ainda antes de o novo estádio nascer, em 2003, com 65 mil.

A correlação que muitos adeptos fazem é conhecida: à medida que a capacidade do estádio da Luz cresceu (1954-1995), o Benfica viveu alguns dos períodos de maior afirmação competitiva nacional e internacional; e quando diminuiu (1995-presente), instalou-se um ciclo prolongado de menor protagonismo nacional e internacional.

Naturalmente, correlação não implica causalidade. Mas existe uma leitura estratégica relevante: reforçar a centralidade da Luz significa reforçar diretamente aquilo que continua a ser a maior vantagem competitiva e identitária do Benfica – o futebol – e, simultaneamente, reforçar receitas de matchday, aumentar significativamente a hospitalidade premium, potenciar o turismo desportivo, desenvolver áreas corporate e criar novas fontes de receita.

Porque o verdadeiro ponto de decisão para o Benfica não está entre modernizar ou não modernizar. Está em decidir ao serviço de que objetivo estratégico essa modernização será colocada.

Conclusão: crescer para ganhar – ou crescer para crescer (eventualmente perdendo)?

O Benfica precisa inevitavelmente de crescer. Precisa de modernizar infraestruturas, aumentar receitas recorrentes, reforçar capacidade comercial e reduzir a dependência excessiva da venda de jogadores. Atualmente, nenhum grande clube europeu consegue competir ao mais alto nível sem escala económica. Mas a questão decisiva não é financeira. É estratégica.

O clube precisa de garantir que o crescimento económico não altera a sua identidade institucional nem a hierarquia das suas prioridades. Porque existe um risco silencioso neste tipo de transformação: começar gradualmente a medir sucesso através de EBITDA, ocupação imobiliária ou receitas de eventos, em vez de superioridade competitiva dentro de campo.

E o Benfica não pode permitir-se a essa inversão. Não pode porque o futebol continua a financiar grande parte do ecletismo do clube. Não pode porque o contexto português não oferece margem para complacência competitiva prolongada. E não pode porque a exigência histórica do Benfica sempre foi desportiva antes de ser financeira.

E por isso, a verdadeira questão nunca será ser a favor ou contra o Benfica District. A questão central é perceber se o projeto existe para servir o futebol – ou se, gradualmente, o futebol começará a servir o projeto.

O Tottenham tornou-se um aviso particularmente relevante para todo o futebol europeu: é possível construir infraestruturas extraordinárias, aumentar receitas e, ao mesmo tempo, perder competitividade desportiva.

Real Madrid e Barcelona mostram o inverso: é possível transformar estádios em gigantes financeiros sem abdicar da centralidade absoluta da ambição competitiva.

E é nesse equilíbrio que o Benfica se terá de posicionar. Não como uma empresa de entretenimento que possui uma equipa de futebol, mas como um grande clube europeu que utiliza crescimento económico, modernização estrutural e receitas complementares para alimentar aquilo que sempre definiu a sua identidade: ganhar dentro das quatro linhas.

Porque crescer não é neutro. Crescer pode significar perder, se o crescimento deixar de estar ao serviço da ambição competitiva.