A convicção “realista” de que todos os países transacionam, num mercado comum de interesses, é uma ilusão persistente nas diplomacias ocidentais.
O típico realista imagina que todos querem aquilo que ele quereria no seu lugar, coisas como petróleo, prosperidade, segurança, dinheiro, comércio, reconhecimento, futuro. Infelizmente, a História não funciona só assim.
Nas negociações entre os EUA e o Irão, Washington comporta-se mais ou menos como Sancho Pança. Não o Sancho caricatural, mas o Sancho vital, prudente, telúrico, o homem que intui que moinhos são moinhos, a vida tem peso, o estômago reclama, o burro se cansa, a cevada custa dinheiro e que uma boa refeição vale mais do que dez discursos sobre a glória. Sancho é o homem do pão, do pragmatismo, da aritmética elementar e da sobrevivência. É a razão prática. Mede, calcula, transige.
O Sancho Pança americano, intui que os iranianos precisam de vender petróleo, precisam de electricidade, têm inflação, jovens inquietos, elites cansadas, generais com contas bancárias e filhos no estrangeiro. Portanto acredita que acabarão por negociar, porque é do seu interesse.
É verdade que há Sanchos Pança em Teerão. É gente que não vê o regime como uma aurora metafísica, mas como uma propriedade a conservar, antes que o telhado caia. Querem poder, sim, mas com ar condicionado, dinheiro, hospitais funcionais e universidades ocidentais para a descendência.
É aí que a actual Casa Branca julga ter encontrado a chave. Se há Sanchos Pança em Teerão, pensa, então a solução é dar-lhes cenouras suficientes para conterem os Quixotes tresloucados da Guarda Revolucionária. Daí a ideia de levantar sanções aqui, desbloquear fundos ali, aceitar uma fórmula vaga sobre Ormuz, admitir ambiguidades nucleares, inventar comissões e assinar memorandos. Washington acredita que pode comprar moderação, embora se arrisque a estar apenas a financiar o intervalo, porque a realidade é que no núcleo duro da República Islâmica não manda Sancho Pança.
Manda D. Quixote. Não o cavaleiro literário que confunde moinhos de vento com gigantes e comove pela pureza da loucura, mas o D. Quixote político-religioso, fanático que prefere incendiar a estalagem a reconhecer que a Dulcineia não existe. Para a Guarda Revolucionária, se navios atravessam Ormuz sem pedir licença, são gigantes a ser atacados. Se Israel existe, é encantamento maligno, a desfazer à bomba. Se os americanos querem negociar, é porque temem a coragem do cavaleiro de triste figura. Se a economia se desfaz, que se desfaça, Alá cuidará dos seus e a fé sempre gostou de sacrifícios.
É por isso que as negociações entre o Sancho Pança americano e o D. Quixote iraniano são, em síntese, um diálogo entre o estômago e o delírio. JD Vance fala de incentivos; os pasdaran falam de destino. Washington fala de garantias; a Guarda Revolucionária fala de martírio. Os americanos discutem estabilidade regional; Teerão responde com milícias, drones, mísseis, e comunicados sobre soberania revolucionária. Sancho Pança fala do preço da cevada. Dom Quixote investe contra o moinho.
O problema é que não cavalga sozinho. É ajudado pelo cinismo do Czar e do Mandarim, e criou uma cavalaria andante de discípulos com o Hamas, Hezbollah, Houthis e outras milícias. Cada qual tem a sua Dulcineia, os seus gigantes, a sua lança e a mesma indiferença às contas elementares da vida.
Em Gaza, Sancho Pança, perante casas destruídas, crianças mortas, hospitais arruinados e o futuro amputado, perguntaria como reconstruir. O Hamas só pensa em preservar a “resistência”.
No Líbano, país de comerciantes, poetas, cristãos, sunitas, xiitas, drusos, cafés, bancos, universidades e ruínas romanas foi convertido em plataforma de lançamento de mísseis e drones. Sancho Pança fala de moeda, turismo, electricidade e paz. O Hezbollah só se interessa por túneis, foguetes e jihad.
Os Houthis, por seu turno, encontraram no Mar Vermelho os seus moinhos de vento. Um cargueiro, Israel, uma carga de trigo, um contentor de peças automóveis, etc. Sancho Pança pergunta o que ganha o Iémen com isso e D. Quixote responde que ganha honra.
O erro americano consiste em confundir interesses com racionalidade. Sancho Pança não compreende certas coisas porque vive apenas no mundo das consequências. Se faltar vinho, Sancho nota. Se o burro cair, Sancho pára. Se a estalagem for má, Sancho queixa-se. Se a guerra destruir a seara, Sancho passa fome. D. Quixote vive no mundo das interpretações. Se cai, foi encantamento. Se perde, foi traição. Se destrói, foi purificação. Se a população sofre, foi preço da dignidade. Se o inimigo responde, foi agressão. Se o acordo falha, foi porque nunca houve intenção verdadeira do outro lado. O fanatismo tem sempre um breviário ao alcance da loucura.
Isto não significa que não se deva negociar. Mas é indispensável saber quem é o interlocutor.
Negociar com Sancho Pança é uma arte comercial que tem a ver com preço, prazos, garantias. Negociar com D. Quixote, se o apanharmos sentado à mesa, exige armadura, pistola na gaveta, correntes nos moinhos, guardas à porta, verificação no terreno, e a firme disposição de usar o varapau quando a cenoura não resulta.
Exige também a humildade de perceber que nem todos os homens querem a sua casinha confortável, farta e airosa. Alguns querem mesmo o moinho em chamas, a lança partida, a canção dos mártires e a glória absurda de terem perdido o mundo real para vencerem numa fantasia.
Trump, como tantos antes dele, talvez acredite que os Sanchos Pança iranianos acabarão por dominar os D. Quixotes. Pode ser, mas parece pouco provável. Nos regimes revolucionários, os moderados administram o edifício mas são os fanáticos que guardam as chaves do armeiro.
Por isso, cada acordo com Teerão é uma aposta de alto risco. Aposta-se que o estômago vencerá a ideologia, que a inflação vencerá a escatologia, que os generais preferirão contas bancárias a funerais. Pode acontecer, mas muitos desastres nasceram da convicção de que o outro lado seria sensato pelas razões que nós consideramos sensatas. Há aqui uma lição antiga que, continua de difícil apreensão para certos estadistas simplórios. Os bárbaros não se acalmam quando farejam fraqueza. Excitam-se. O apaziguamento não lhes inspira gratidão, mas apetite. A concessão não é interpretada como generosidade, mas como confirmação de que a pressão funciona. Daladier e Chamberlain aprenderam isso em 1938, com um bigode austríaco particularmente desagradável
Sancho Pança é indispensável à política, sem dúvida. Sem ele não há pão, prudência, limite, ou paz. Mas quando entra sozinho numa sala cheia de cavaleiros de triste figura, convencidos de que a História os contempla, não lhe basta a sabedoria popular e a intuição pragmática. Tem de levar força, aliados, verificação e lucidez. Porque quando D. Quixote confunde navios, cidades e povos com gigantes, não basta explicar-lhe que são meros moinhos de vento. É preciso garantir que, ao carregar contra eles, parte a lança e quebra o nariz, antes de se escaqueirar a ele e ao mundo.