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(A) :: Seremos todos Nick Cave?

Seremos todos Nick Cave?

O artista inspira a nova criação do Teatro Experimental do Porto, para ver neste fim de semana em Matosinhos. Um grupo de imitadores aguarda por um casting. O que é que aprendem no caminho?

Carina Fonseca
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Um a um, vão chegando à sala de espera cinco imitadores de Nick Cave, com corpos e personalidades bem diferentes, embora unidos pela mesma estética: fato preto, camisa branca, óculos escuros, cabelo negro escorrido, bigode, anéis vistosos, um colar ao pescoço. No total, quatro homens e uma mulher aguardam a sua vez de participar num casting para uma produção em torno do artista. Eis o ponto de partida de NIck, nick, NIck, nIcK e NICk, espetáculo que o TEP – Teatro Experimental do Porto estreia neste sábado, 4 de julho, pelas 21h30, no Teatro Municipal de Matosinhos Constantino Nery, com repetição no dia seguinte, às 16 horas.

Trata-se de um projeto de Pedro João e Gonçalo Amorim, este último diretor artístico do TEP e um dos atores em cena (o mais parecido, fisicamente, com Nick Cave). A ideia de fazer este espetáculo, com uma hora e dez minutos de duração, já vinha ganhando forma há quatro anos. Na equipa existem vários admiradores do artista multidisciplinar, que vai da música à escrita, passando pelo cinema e pelas artes visuais. Mas foi Pedro João, responsável pelo texto, quem pôs o foco no cantor, mesmo não sendo fã. “Fui-me apercebendo de que é uma figura que tem imensas nuances, imensas matizes, permite falar de muita coisa”, justifica. “O Nick Cave é uma espécie de artista total do nosso tempo”, reforça Gonçalo Amorim. E, mesmo quando se brinca com a figura, ela não deixa de ter “uma aura magnífica”.

Ainda de fato, pouco depois de um ensaio, Amorim explica que “a peça não é propriamente sobre o Nick Cave, é mais sobre a complexidade da existência, principalmente quando estamos na área das artes, do teatro; jogamos com sombras, com espectros, com ideias de futuro, com ideias de nós mesmos”. E continua: “Andamos sempre um bocadinho neste sítio, com a agravante de que são figuras um bocadinho trágicas, porque não são uns grandes imitadores do Nick Cave; fazem o melhor que podem, mas também são uma espécie de arquétipos de uma sociedade demasiado preocupada com querer parecer sempre alguma coisa”.

Os outros atores são Ivo Alexandre, João Miguel Mota, Rodrigo Santos e Ana Brandão. Esta última dá corpo a uma mulher do norte (isso transparece no chorrilho de palavrões), atriz de profissão, que se candidata àquele papel porque precisa de pagar as contas. A etiqueta do fato, à mostra, é sinal de que pretende devolvê-lo à loja.

“Se é para ser alguém, que seja o Nick”

No início do espetáculo – circunscrito a uma sala de espera impessoal, como que suspensa no tempo –, nenhuma das personagens quebra o silêncio. Porém, com o passar das horas, a partilha de um pacote de snacks e uns cochichos, as características pessoais e motivações de cada imitador vão aflorando. Surgem passos de dança e desabafos. Vai-se da devoção ao cinismo. Alude-se à caverna de Platão e ao filme A sombra de Deus. Esboça-se um retrato fragmentado de Nick Cave, esse “tipo inquieto”, “criador solitário”, “magro e triste quanto baste”; também um “gajo influente e complexo, com um ego do c*****o”, que “tem um sucesso do c*****o a cantar baladas” (aqui, a personagem é facilmente identificável). Aponta-se ainda ao “lado selvagem” do “menino bem”, filho de professores, que nasceu em 22 de setembro, “mesmo na fronteira de Virgem; mais um dia e seria Balança”.

Claro que, em NIck, nick, NIck, nIcK e NICk, há quem tenha um discurso mais emocional e roce a idolatria. “Quando uma história é bem contada, saímos da experiência alterados, mesmo a nível molecular”, refere um dos homens. Mais: “O Nick, para mim, é uma salvação. Visto a sua pele como uma daqueles fatos de nus que se usam no teatro”; “Estudei meticulosamente o meu hospedeiro”. Ou ainda: “Cada concerto é como se fosse uma cerimónia que nos limpa”. Já a mulher, com algum distanciamento, atira: “Também sei cantar, estudei a personagem e o papel. Se é para ser alguém, que seja o Nick”.

De seguida, os atores hão de seguir para uma das muitas marisqueiras de Matosinhos para gravar um vídeo que mostre os sósias de Nick Cave, de óculos escuros, a comer amêijoas – algo que, segundo consta, o cantor terá feito, noutra localidade nortenha, numa das suas visitas a Portugal. A propósito, o artista atua, no próximo dia 9, no festival NOS Alive, em Oeiras. O TEP endereçou ao verdadeiro Nick um convite para assistir à peça, tendo tido como resposta que não haveria disponibilidade. Talvez acabassem todos mesmo à mesa, a comer marisco e a beber finos.