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O mar também está em onda de calor. Atlântico e Mediterrâneo batem recordes e podem tornar o verão ainda mais quente

O Mediterrâneo tem zonas até 6ºC acima do normal e os oceanos bateram um novo recorde. Mais calor no mar significa noites mais quentes, mais humidade, tempestades mais intensas e mais "heat domes".

Filomena Martins
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Enquanto Portugal e grande parte da Europa atravessam mais uma onda de calor, há outro termómetro a bater recordes, longe das cidades e das estações meteorológicas. Está no mar. O Atlântico Norte e o Mediterrâneo estão excecionalmente quentes e batem recordes. O aquecimento é tão pronunciado que o diretor do Serviço de Alterações Climáticas Copernicus, Carlo Buontempo, admite que as condições atuais podem marcar “o início de uma nova fase”, conduzindo-nos “mais uma vez para território desconhecido”.

O mar quente não é apenas mais um sintoma das alterações climáticas. É também uma gigantesca reserva de energia capaz de influenciar o tempo e o clima em terra, alimentar noites tropicais, fornecer mais humidade às tempestades e aumentar a pressão sobre os ecossistemas marinhos. Afinal, o que está a acontecer ao Atlântico Norte e ao Mediterrâneo?

O que está a acontecer ao Atlântico Norte e ao Mediterrâneo?

As temperaturas em terra têm dominado as notícias das últimas semanas, mas os oceanos estão igualmente a viver um episódio extraordinário. Depois da onda de calor marinha registada no final de maio, a intensa vaga de calor que atingiu a Europa na segunda quinzena de junho voltou a aquecer os mares que rodeiam o continente. O aquecimento não acontece por acaso. “As ondas de calor atmosférico acabam por ter esse efeito quando são conjugadas com ventos fracos”, explica Álvaro Peliz, oceanógrafo e investigador do Instituto Dom Luiz, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Os dados do Copernicus mostram que, a 29 de junho, praticamente todos os mares europeus apresentavam temperaturas da superfície acima da média, com destaque para o Mediterrâneo ocidental, o mar do Norte e o Báltico.

https://twitter.com/MeteoredES/status/2072581826980262087

No Mediterrâneo ocidental, as maiores anomalias aproximavam-se dos 6ºC acima do normal, sobretudo no Golfo de Lyon, no mar da Ligúria e no mar Tirreno. Em algumas áreas do sul do Tirreno, a temperatura da água já se aproxima dos 30ºC, valores mais próprios de mares tropicais do que do Mediterrâneo no início de julho, segundo o Copernicus e o La Repubblica. “A camada superficial do mar fica muito estável e, ao ficar muito estável, fica mais exposta à atmosfera e ao calor”, explica Álvaro Peliz: “Acaba por haver uma espécie de efeito de retroação positiva”.

Estamos perante recordes? Quão excecional é o que estamos a ver?

Sim. E não apenas no Mediterrâneo. A 21 de junho, a temperatura média da superfície dos oceanos fora das regiões polares atingiu 20,86ºC, segundo o Serviço de Alterações Climáticas Copernicus (C3S), superando o anterior recorde de 20,83ºC, registado em 2023 e repetido em 2024. O Serviço de Vigilância Marinha do Copernicus (CMEMS) chegou mesmo aos 21,0ºC, mais uma décima do que os máximos anteriores.

Pode parecer uma diferença insignificante, mas Carlo Buontempo deixou um aviso pouco habitual para um cientista: estas condições “podem indicar o início de uma nova fase” e é provável que “vejamos cair mais recordes de temperatura nos próximos meses”.

https://twitter.com/ElTiempoes/status/2072296489032814651

Também o Copernicus Marine considera que este nível de aquecimento é “sem precedentes” para esta época do ano e que terá consequências nos padrões meteorológicos, no clima global e nos ecossistemas marinhos.

Quanto está o mar acima do normal? E porque é que algumas centésimas são tão importantes?

O Mediterrâneo ocidental apresenta atualmente anomalias de até +6ºC, enquanto algumas zonas do Tirreno já se aproximam dos 30ºC. O mar do Norte e o Báltico também registam anomalias muito significativas. À escala global, a diferença é de apenas algumas centésimas de grau. Mas os oceanos cobrem cerca de 361 milhões de quilómetros quadrados, aproximadamente 71% da superfície do planeta, e absorvem perto de 90% do excesso de calor provocado pelo aquecimento global, segundo a NASA e a Organização Meteorológica Mundial.

Contas feitas, em 2025, os oceanos acumularam mais 23 zetajoules de energia adicional. A Organização Meteorológica Mundial comparou essa quantidade de calor a cerca de 200 vezes toda a eletricidade produzida no mundo em 2024.

Uma décima de grau num oceano não é comparável a uma décima de grau num copo de água. É uma quantidade colossal de energia extra armazenada no sistema climático. “Apenas três metros de água conseguem controlar muito mais calor do que toda a atmosfera que está em cima”, explica Álvaro Peliz.

O que é uma onda de calor marinha?

Tal como acontece na atmosfera, também o mar pode entrar em onda de calor. Os cientistas falam de uma onda de calor marinha quando a temperatura da superfície do mar se mantém durante vários dias consecutivos muito acima do normal para aquela região e para aquela época do ano (a mesma definição para as ondas de calor em terra).

O Mediterrâneo tornou-se um dos maiores pontos de preocupação do planeta porque estas ondas de calor marinhas, tal como as terrestres, estão a tornar-se mais frequentes, mais intensas e mais duradouras.

Os dados do Copernicus mostram que, nos últimos três anos, toda a bacia mediterrânica registou condições de onda de calor marinha e pelo menos metade do mar sofreu episódios classificados como severos ou extremos.

Porque é que o Mediterrâneo e o Atlântico junto à Península estão a aquecer tanto e tão depressa?

Há várias razões, mas uma delas é particularmente importante este ano: os bloqueios anticiclónicos persistentes.

Um estudo publicado na Nature Geoscience pelo Centro Euro-Mediterrânico para as Alterações Climáticas concluiu que 63% das ondas de calor marinhas no Mediterrâneo ocidental estão associadas a dorsais subtropicais persistentes e ventos fracos. “Quando o vento é menos intenso, a camada superficial do mar fica muito estável e aquece muito rapidamente”, diz o oceanógrafo Álvaro Peliz.

Ora, quando o anticiclone se instala, o vento diminui drasticamente, o mar perde menos calor para a atmosfera e as águas superficiais aquecem rapidamente. Todo um ciclo vicioso.

https://twitter.com/WeatherProf/status/2072297209366798589

O problema é exatamente este processo que se pode tornar circular. O mar aquece e, ao aquecer, ajuda a reforçar e a estabilizar o anticiclone, contribuindo para a persistência dos bloqueios atmosféricos. O anticiclone aquece o mar e o mar ajuda o anticiclone a permanecer no mesmo local durante mais tempo. E temos um bloqueio.

Isto é culpa do El Niño, das alterações climáticas ou das duas coisas?

As duas coisas desempenham um papel, mas neste ponto os especialistas são cautelosos. O Copernicus considera que o atual aquecimento “reflete tanto as alterações climáticas como o início de um fenómeno El Niño”, que este ano parece ser bastante reforçado.

https://twitter.com/MeteoredBR/status/2072596002389807293

No entanto, lembra também que, em junho de 2024, quando os oceanos registaram o anterior recorde de aquecimento para esta época do ano, o sistema ENSO estava em condições neutras. O que quer dizer que o El Niño ajuda a explicar uma parte da situação atual, mas não explica sozinho a tendência de fundo.

E essa tendência é inequívoca: os oceanos continuam a acumular calor e a bater recordes de temperatura. Mesmo em anos sem El Niño.

O que é que um Atlântico e um Mediterrâneo tão quentes fazem a uma onda de calor em terra?

Um mar mais quente evapora mais água, mantém a atmosfera quente durante mais tempo e aumenta a humidade disponível junto à superfície. “A água do mar tem uma capacidade de conservar calor muito superior à da atmosfera. O oceano acaba por ajudar a manter temperaturas mais elevadas”, explica Álvaro Peliz. O resultado é um calor mais pesado, mais abafado e, muitas vezes, mais difícil de suportar. O meteorólogo italiano Daniele Ingemi descreve o Mediterrâneo como um “enorme humidificador natural”.

O mar funciona também como uma gigantesca bateria térmica. Absorve calor durante o dia e liberta-o lentamente durante a noite. Quando está excecionalmente quente, devolve mais calor à atmosfera, ajudando a manter temperaturas mínimas elevadas e agravando as noites tropicais, precisamente um dos fenómenos que mais impacto têm na saúde e no circuito de aquecimento do ar nas ondas de calor. “Mesmo quando a circulação atmosférica permite prever massas de ar mais frescas, ao passarem sobre um oceano mais quente acabam por retroalimentar-se de calor”, alerta Álvaro Peliz.

Por isso, o mar quente não é apenas uma vítima das ondas de calor. Está também a tornar-se um dos seus aliados.

E o que impacta na chuva extrema, nas trovoadas, inundações e tempestades?

Segundo o Copernicus, um oceano mais quente fornece energia adicional às tempestades e aumenta o potencial para precipitações extremas, cheias e inundações.

Mais evaporação significa mais vapor de água na atmosfera e mais combustível disponível quando surgem condições de instabilidade. “O oceano consegue usar o calor para altitudes bastante elevadas e isso acaba por ajudar a produzir fenómenos energéticos bastante intensos e aumentar a possibilidade de tempestades”, diz-nos Álvaro Peliz.

O mar quente pode, por isso, ajudar a produzir episódios de chuva muito intensa e fenómenos convectivos mais extremos, de vento e chuva.

O que significa este aquecimento para os ecossistemas, a pesca e as espécies marinhas?

Também aqui os sinais de mudança se acumulam. O investigador do Instituto Espanhol de Oceanografia Carlos García-Soto alerta que fenómenos como ondas de calor marinhas, secas, inundações, incêndios ou perdas agrícolas tendem a ocorrer de forma cada vez mais simultânea, aumentando a pressão sobre os ecossistemas e sobre a capacidade de resposta da sociedade e dos governos.

Na Galiza e no Cantábrico, o biólogo marinho Rafael Bañón já identificou mais de cinquenta espécies de águas quentes que se deslocaram para norte e documentou a chegada de espécies que alcançam o sul da Grã-Bretanha.

Os peixes de águas quentes estão a expandir-se a um ritmo sem precedentes e as espécies de águas frias estão a perder território, uma mudança com consequências ecológicas, mas também económicas, para a pesca e para a gestão dos recursos marinhos.

Até um tubarão branco já foi visto no Mediterrâneo.

O que pode acontecer durante o resto do verão?

Os cientistas são prudentes, mas a tendência é clara. Com um El Niño em desenvolvimento, que se pode transformar num Super El Niño no Pacífico e mexer nas monções asiáticas todas, os restantes oceanos também excecionalmente quentes e uma atmosfera que continua a acumular energia, o Copernicus considera provável que os próximos meses tragam novos recordes, tanto no oceano como na atmosfera.

Ou seja, que as temperaturas não párem de subir.

Enquanto a Europa, a partir da Península Ibérica, atravessa mais um episódio de calor extremo, os cientistas olham cada vez mais para esse outro termómetro, que é o do mar. Porque o calor extra acumulado nos oceanos não desaparece, fica armazenado durante semanas ou meses e continua a alimentar a atmosfera muito depois de a onda de calor em terra terminar. E, assim, o Atlântico e o Mediterrâneo estão também a transformar-se numa das peças centrais para compreender por que razão os extremos estão a tornar-se cada vez mais extremos em terra.