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O Cisma das contradições

É fascinante como os responsáveis pela Fraternidade S. Pio X, críticos do diálogo inter-religioso e da liberdade religiosa, copiam os argumentos dos bombistas suicidas. 

P. João Basto
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1. Tentei escapar ao tema. Mas já percebi: não vou conseguir. Falo da tensão entre a pequena e quase desconhecida Fraternidade S. Pio X e a Igreja Católica. O motivo: a ordenação de quatro bispos sem «mandato pontifício», o que significa uma afronta direta e clara à autoridade papal. Na passada quarta-feira, quando a Fraternidade S. Pio X avançou com este ato, quis dizer que não reconhece à Igreja, no seu todo, qualquer legitimidade, assumindo que a fidelidade a Jesus Cristo e ao Evangelho exige uma separação.

Infelizmente, este debate tem sido contaminado por pontos de partida já corrompidos. O termo cisma, embora tecnicamente correto, induz uma falsa analogia com os cismas do Ocidente e do Oriente. Não me parece que estejamos numa cisão dessa magnitude. Por outro lado, a tosca divisão entre conservadores e progressistas é caricatural, infantil e está longe de explicar o que se passa. Além disso, a ideia de que está causa uma questão litúrgica pode ser mediática, mas é falsa. O que está em causa é uma questão teológica de fundo.

2.Umas das grandes forças da Igreja é a forma como equilibra unidade e diversidade, e isso até é visível na iconografia cristã. Em Viana, por exemplo, a Senhora do Minho é representada vestida de lavradeira minhota, traje que, claramente, Maria de Nazaré nunca conheceu. Em todo o mundo, a Missa pode ser celebrada de vinte e quatro formas diferentes, por questões de inculturação ou de nuance teológica e cultural, e, ainda assim, um maronita, um siro-malabar, um membro da Igreja Arménia ou da Igreja de rito latino celebram a mesma Missa. Por isso, contrariando alguns discursos obsessivos e obcecados, é preciso reforçar que a Igreja tem uma «banda larga» – na recente e feliz expressão de D. Alexandre Palma – nos seus modos de pertença. Mesmo os assustadores dogmas são entendidos, dentro da teologia católica, mais como «inícios de discussão» do que como fórmulas finais e unívocas.

3.É comum dizer-se que esta tensão começou por causa do Concílio Vaticano II (1962-1965). Não concordo totalmente com essa leitura histórica, mas não a vou discutir ou problematizar. Ainda assim, os problemas teológicos por detrás da ruptura da Fraternidade são três: a relação entre a Igreja e o Mundo; o papel universal de Cristo na redenção e a compreensão do primado do Papa sobre a restante Igreja. Mas aquilo que a Fraternidade propõe são visões incompletas e descontextualizadas de perspectivas teológicas legítimas. O Catolicismo reconhece a ambiguidade do Mundo, mas também reconhece a bênção da realidade, aliás, entende a bênção como a primeira palavra. O Catolicismo reconhece que Jesus é o único salvador, mas isso não a impede de assumir que Cristo é maior do que a Igreja, e que Cristo como Logos – razão – está presente em tudo o que é belo, justo e verdadeiro. O Catolicismo reconhece que o Papa, como Bispo de Roma, tem um poder “supremo e imediato”, mas sabe que esse poder não é igual ao de um monarca absoluto. O Papa não é “o primeiro entre muitos”, mas a sua autoridade nasce e revela-se na comunhão.

4.Infelizmente, no discurso que antecedeu a ordenação, o líder da Fraternidade S. Pio X não quis explicar os seus pontos de vista teológicos. Mas disse coisas que devemos destacar. Afirmou que, apesar daquele ato, os membros da Fraternidade pertenciam «à Igreja primeiramente pela fé». Ora, tal é impossível. Não se é português unicamente porque se apoia a seleção no Mundial, nem ninguém pertence a um partido apenas por acreditar na totalidade do seu programa eleitoral. Mas afirmou, também, que aquele ato «não é uma opinião», mas «uma necessidade absoluta», pois não o fazer seria «trair a Igreja», a ponto de estarem «prontos a pagar qualquer preço […] mesmo que sejamos tratados como rebeldes».

É realmente curioso que um grupo que defende uma relação conflitual com o Mundo realize uma ordenação episcopal como outros organizaram o Woodstock, com direito a transmissão em direto e em streaming. É interessante que a Fraternidade, tão preocupada com o relativismo cultural e religioso, adira à mesma mentalidade que promete combater e criticar. É fascinante como os responsáveis pela Fraternidade S. Pio X, críticos do diálogo inter-religioso e da liberdade religiosa, copiam os argumentos dos bombistas suicidas.

5.O certo é que a Fraternidade S. Pio X costuma defender que o Vaticano II operou um aggiornamento na Igreja, que correspondeu a uma ruptura com a Tradição. É uma ideia falsa. Tanto assim é que um dos movimentos intelectuais que preparou o Vaticano II foi o chamado «movimento do regresso às fontes». Ainda assim, a Tradição da Igreja – que não se deve confundir com tradições – não é só uma história de continuidade. A Tradição da Igreja é, também, uma história de descontinuidade. Por exemplo, a Igreja pós-Concílio de Trento rompeu com a Igreja pré-Trento, porque, dentro do seu enorme pacote intelectual, a Igreja encontrou sempre recursos para responder aos desafios do tempo que atravessava.

Há poucos assuntos a que a Igreja não tenha prestado atenção e que não suscitem, dentro da mais saudável teologia, posições radicalmente opostas. O Catolicismo não é tudo e o seu contrário, mas a Igreja só vive dentro de um equilíbrio esquizofrénico. Tal como Paulo: simultaneamente judeu, grego e romano. Mas quem leu uma linha da história da Igreja já sabe: quem quis salvar a Igreja de si mesma, prometendo pureza e retidão, acabou a criar mais incoerência e confusão; não poucas vezes, monstruosidades.