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Portugal Fashion. As listas de David Catalán em Ílhavo e a rave dos Marques'Almeida em Matosinhos

O designer espanhol abriu os trabalhos na quinta-feira com uma coleção inspirada em coletes salva-vidas vintage. À noite, os Marques'Almeida fizeram uma rave de luxo em Matosinhos.

Sâmia Fiates
text
Inês Lacerda
photography

Na passadeira diante das casas listadas em cores como o castanho, o azul e o amarelo, as pessoas começam a juntar-se. Há música, câmaras, poses à frente das portas coloridas, e a perceção de que algo diferente se passa. De uma das casas, vê-se um homem com a camisa desabotoada sentado na varanda, como que a assistir. A mulher junta-se à janela, com um chapéu para a proteger do sol. Não procuraram o espetáculo, mas este veio até eles. Já passa do meio-dia de uma quinta-feira que promete ser de muito calor — as temperaturas superam os 30 graus, mas há a expetativa de ficar ainda mais quente nos próximos dias. Os convidados sentam-se no muro baixo da praça, que serve de banco. É quando de uma tenda surgem os primeiros modelos, que caminham ao ritmo da batida da música.

Depois de um dia de visitas a fábricas de Paços de Ferreira e do summit na sede da ANJE, no Porto, David Catalán inaugurou oficialmente a componente de desfiles do Portugal Fashion na passada quinta-feira, 2 de julho, ao apresentar a sua coleção primavera/verão 2027 diante das casas típicas da Costa Nova, em Ílhavo.

O passeio fez-se passerelle para os mais de 30 coordenados, montados em combinações monocromáticas e em tons, na sua maioria, sóbrios. As faixas e tiras soltas parecem ser o fio condutor da coleção, que também conversa com o ambiente (apesar de não ter sido combinado) — seja nas listas das malhas, tradicionais do designer, seja pelas cores vibrantes, como o azul e o amarelo, que aparecem de repente a contrastar com a neutralidade dos beges, nudes e gangas. “Por acaso, a coleção tem um ar costal”, brinca David Catalán. “A inspiração da coleção eram os coletes salva-vidas vintage. Por isso, acho que encaixa bastante bem com o ambiente aqui na Costa Nova. Tínhamos umas imagens de referência antigas dos pescadores, dos homens que trabalhavam nos botes. E usámos essas referências para depois tentar aplicar numa parte mais moderna”, diz o designer espanhol radicado no Porto. “É tudo 100% made in Portugal. O único que não é português aqui sou eu”.

A aproveitar-se de um clássico nestes tons creme, o trenchcoat surge em várias leituras — mais desportivo, mais acinturado ou mais fluido — combinados com calções mais curtos, bem acima do joelho, e tops soltos com decotes largos. A alfaiataria também vem desconstruída, com cintos a ajustar as peças, golas levantadas, mas também as riscas clássicas, que voltam com força nesta temporada. O fio condutor são as tiras de tecidos que por vezes são cintos, por outras são cordões ou simplesmente detalhes soltos, que dão movimento.

Por fim, Catalán surpreende ao incluir materiais inovadores, como os coordenados com acabamentos metálicos ou as peças com furos a laser — e alguns feitos à mão. “Tentámos replicar a mesma técnica, tanto na parte artesanal como depois na parte técnica. Podemos ver o corte realmente feito à mão nos couros. Foi tudo feito à mão, pecinha a pecinha. Só a camisola tem uns 250 cortezinhos em forma de escama”, partilha o designer.

Depois de uma intervenção de Maria Gambina durante o almoço na ria, a bordo do hotel flutuante Costa do Sol, do concurso Bloom durante a tarde em Matosinhos, e do showcase da Esad, que teve na plateia a ministra da Cultura, Juventude e Desporto; foi a vez dos Marques’Almeida fecharem os trabalhos deste primeiro dia de desfiles.

Plumas e lantejoulas na rave de Marques’Almeida

Ainda faltam mais de cinco horas para o desfile, mas Marta Marques e Paulo Almeida, os designers que juntos fazem a assinatura Marques’Almeida, já circulam pela azáfama que antecipa o concurso Bloom, na antiga fábrica de conservas Vasco da Gama, em Matosinhos. E não podia ser diferente — são professores no curso de Design de Moda da Esad, que apresenta as coleções dos estudantes num showcase esta tarde; e mentores dos jovens designers que florescem no concurso do Portugal Fashion. “Sinto que agora já estamos a fazer um trabalho dos mais velhos. É muito gratificante e mudou muito a maneira como trabalhamos e apresentamos, o facto de estarmos a dar aulas e estarmos a trabalhar com estes criadores emergentes”, diz Marta Marques. “A ideia de família, de comunidade, sempre foi muito importante. Em vez das marcas se separarem ou dos designers se separarem, para nós é mesmo muito bom que nos juntemos. Juntos somos mais fortes”, completa Paulo Almeida, recordando a exposição de marcas portuguesas que apresentaram em Copenhaga em janeiro.

Mas depois do cair da noite, já pelas 22h — com o calor sem dar trégua e o termómetro ainda a marcar 32 graus — a fábrica virou rave. A névoa no ar, uma espécie de poeira iluminada por holofotes vermelhos, e a música alta com batidas que ritmavam com o piscar das luzes, deram o ambiente para a entrada das modelos com cabeças de penas a desfilar os brocados em tops peplum e calças cargo dos Marques’Almeida.

A dupla de designers explica ter-se inspirado num editorial de moda que explora o estilo dos anos 90. “Foi sempre um bocado a nossa ideia do luxury, era desconstruir o look luxury numa coisa completamente rave”, diz Marta Marques. “Foi mesmo uma rave. Daí elas terem o cabelo todo molhado, transpiradas, cabeças de penas… Mas estão com calças cargo, com o vestido de lantejoulas no chão, num edifício que é uma fábrica com as paredes de grafitis”, conclui Paulo Almeida.

Lantejoulas que se viram com ainda maior frequência nesta coleção, com peças mais trabalhadas para os modelos de festa. “Temos feito um trabalho mais ou menos contínuo de fazer evoluir a nossa identidade e o nosso consumidor também está a evoluir“, diz a designer, que assume recear uma fase de repetição de formatos. “Digo que este é o nosso desfile de crise de meia-idade“, brinca. A marca, que cresceu em Londres mas hoje chega com força em mercados como os Estados Unidos da América e o Médio Oriente — apesar das taxas e da guerra — teve de se adaptar às exigências dos consumidores destas duas regiões, nomeadamente a cultura de recato das mulheres muçulmanas e os tamanhos grandes pedidos pelos consumidores norte-americanos. “Nós somos muito pouco sensíveis nesse aspeto. É um desafio. Conseguir ter este nível de criatividade deixa-me entusiasmado na mesma para dar resposta”, diz Paulo Almeida. “E quer dizer que vai chegar a um público novo, portanto está tudo bem”, completa Marta Marques — “A seguir eu ponho uma música rave e pronto!”, ri-se Paulo Almeida.

O Observador está instalado no Porto a convite do Portugal Fashion.