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Roupa mais funcional, upcycling, e aulas de tricô pelo YouTube: os novos designers do Portugal Fashion

Jovens do Bloom apostam na reutilização, e.p. ate'lye faz colab com a Salsa e Ministra assiste a showcase: "Queremos criar condições para que a moda possa atrair mais investimento privado".

Sâmia Fiates
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Inês Lacerda
photography

Ceder as suas botas a um dos modelos pode soar como tradição — mas foi na verdade “uma pedra pelo caminho”. “Tinha uma bota a menos do que imaginava. E o modelo teve que calçar a minha novamente”, diz Enzo Peres, que venceu o Bloom há um ano — concurso que dá a conhecer o trabalho de novos designers e que abriu esta quinta-feira os trabalhos na antiga fábrica de conservas Vasco da Gama, em Matosinhos, depois do desfile de David Catalán, no passeio das casas típicas da Costa Nova, em Ílhavo, dar o pontapé inicial na componente de semana da moda deste Portugal Fashion Experience.

O designer brasileiro que vive há quatro no Porto é o nome por trás da marca E.P. Atel’ye. Fez o estágio na Salsa Jeans, e agora apresenta no Portugal Fashion uma coleção em nome próprio, mas em parceria com a marca.

Das camisas desconstruídas em branco e preto, o jovem de 21 anos evoluiu para uma coleção completa com calças, blazers, camisas e vestidos, explorando materiais diferentes e até inovadores; desde os padrões em sedas fluidas à rigidez transparente de uma pele que mais parece papel. “Paris abriu os meus olhos para a necessidade de ser consistente e criar produtos que interessem aos compradores. Aprendi que as peças têm de funcionar em três pontos: abrir, colocar e fechar. Na coleção passada as peças eram confusas, mas agora, embora o styling seja complexo, a base são roupas funcionais”, destaca, mostrando uma visão mais objetiva, construída ao longo do último ano, e em especial nos últimos seis meses em que esteve a estagiar na Salsa. “Estou há seis meses a trabalhar com eles nesse projeto, que surgiu como uma coleção cápsula e depois foi desenvolvendo até se tornar uma grande coleção com 15 ou 16 looks. Ainda estamos em processo de tentar arranjar uma forma de tornar isso comercial, seja por minha parte ou por parte da Salsa; ainda deixei isso em aberto.”

No final da conversa, um jovem com uma câmara na mão aproxima-se de Enzo. “Também sou brasileiro, admiro muito o teu trabalho. Se precisar de um modelista, cortar tecido, fotógrafo, estou aqui. Não falo de dinheiro, quero mesmo poder ajudar”, diz. O designer diz que lhe vai responder pelo Instagram, e ambos trocam um cumprimento tímido. Passado um ano do concurso, Enzo Peres mostra ter amadurecido a sua visão do negócio, o uso de materiais e técnicas e transparece uma postura mais profissional. E já inspira uma nova geração.

Upcycling e trabalho manual em destaque no concurso Bloom

Pode não ter sido de propósito, mas no subconsciente da nova geração de criadores, a sustentabilidade está intrínseca à moda. Pelo menos é o que se percebe ao ver os desfiles da plataforma Bloom do Portugal Fashion: fechos que se convertem num corset, alfinetes que servem como franjas, redes de pesca como saias, conchas a fazer de bordado e objetos aproveitados como acessórios, como uns óculos de escovas de dentes ou uma máscara de luvas. Tudo pode ser o que quiser ser — mesmo que não seja este propriamente o objetivo.

E não foi, de acordo com o vencedor do Bloom deste ano, André Pinto, que diz ter trabalhado pela primeira vez com objetos como anilhas ou alfinetes de ama para construir texturas, que combinou com rendas e cortes clássicos femininos, numa coleção inspirada no filme de ficção científica de 1927 Metrópolis. “Peguei em momentos do filme, para fazer a minha própria narrativa para a coleção, em que foram a máquina, o metálico, o robô e o subaquático”, explica o designer. “Não queria que fosse um tecido metálico só. Então pensei em criar um tecido ou uma malha de metal e foi a partir daí que surgiu”, conta o jovem de 26 anos, estudante do MODATEX Porto.

A menção honrosa do concurso ficou com Rita Santos, de 21 anos, recém-licenciada em Design de Moda na ESAD, que apresentou a sua coleção de final de curso — peças em tricô com fios de pérolas e macramê branco com franjas e muita pele à mostra. “Refleti um bocadinho sobre como é que eu cheguei aqui: que pessoas é que estiveram presentes no meu percurso e tudo aquilo que eu passei para conseguir estar aqui hoje. Todas as pessoas, todas as experiências, todos os momentos que acontecem na nossa vida vão deixando fragmentos em nós e vão criando a pessoa que nós somos hoje, a nossa identidade. As pérolas significam isso: têm a questão do ser precioso e o facto de serem utilizadas em tricô, que são os nós que vão construindo um todo que é especial. E o macramê também vem da minha mãe”, conta ao Observador. Saberes que Rita não domina, mas que aprendeu para esta coleção. “Aprendi tricô em dezembro, pelo YouTube“, ri-se, destacando que as texturas manuais não serão, necessariamente, parte da sua identidade. “É algo que eu gosto e que quero explorar, mas não quero fazer só isso. Gosto também da costura mais tradicional”.

A falar ainda no rescaldo do prémio, os dois jovens designers garantem que sim, querem viver de moda. Mas ainda não têm bem a ideia do que será o futuro. Para já, há oportunidades para os dois escolhidos pelo júri, composto por Serge Carreira, diretor da Iniciativa de Marcas Emergentes da Fédération de la Haute Couture et de la Mode / Paris Fashion Week; os designers Inês Amorim e Reid Baker, fundadores da marca Ernest W Baker; o CEO da Showpress, Luís Pereira; o diretor de fashion design da Salsa Jeans, Felix Santos; e a Diretora do Portugal Fashion, Mónica Neto. O prémio para o designer vencedor inclui o valor de 2.500 euros, um estágio profissional remunerado na Salsa Jeans, convite para participar nas próximas edições do Portugal Fashion, um voucher de formação na Católica Porto Business School. O segundo lugar ganha uma residência criativa de três meses na Salsa Jeans e um voucher de formação na Católica. Ambos também passam a receber mentoria continuada, acompanhamento técnico e assessoria de imprensa especializada. Contudo, depois daqui, é preciso caminhar com os próprios pés.

O autógrafo da Ministra

“Adorei”, reagiu Margarida Balseiro Lopes, depois do showcase da ESAD, desfile que a Ministra da Cultura, Juventude e Desporto escolheu para visitar o Portugal Fashion. “Tive a preocupação de escolher este momento, porque tenho cultura, mas também tenho a juventude.” À chegada visitou os bastidores — onde os modelos se vestem e se maquilham — para depois sentar-se na primeira fila, ao lado da Presidente da Câmara Municipal de Matosinhos, Luísa Salgueiro, e do Presidente da ANJE, Carlos Carvalho.

A caminho da saída, já sem tempo, falou brevemente com os jornalistas para anunciar a alteração no regime de mecenato cultural, que deve passar a incluir a moda nas suas modalidades. “Vamos aprovar amanhã a versão final porque o mecenato é uma matéria fiscal, é competência do Parlamento”, diz Margarida Balseiro Lopes. “Agora vamos legislar nos termos propostos pelo Governo com pequeninas alterações. Uma das principais alterações é o alargamento das áreas legais — passamos a incluir a moda, que não era considerada cultura para efeitos de mecenato cultural”.

Uma alteração que promete mais recursos para financiar eventos de moda, que até agora dependem muito de fundos europeus ou das ajudas das autarquias. “A ANJE será certamente um dos parceiros com quem queremos trabalhar. Olhamos para a moda como uma área que naturalmente tem uma dimensão económica, tem uma dimensão social, mas tem também uma dimensão cultural e de formação de talentos e internacionalização do país”, assinala a Ministra. “Queremos sobretudo criar condições para que a moda possa atrair mais investimento privado“.

Foi mesmo a sair da antiga fábrica de conservas que Margarida Balseiro Lopes foi abordada por um jovem a vestir uma camisa xadrez. Deu-lhe um caderno e uma caneta, pedindo um autógrafo. “Isto não é nada habitual”, comentou a Ministra, que destinou uma mensagem ao fã chamando-o pelo nome e “com um beijinho”.

O Observador está instalado no Porto a convite do Portugal Fashion.