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As iluminadas trevas de Batman

A Devir recupera os 6 volumes de Grant Morrison e os 3 da saga "Absolute", de Scott Snyder. Regressamos à ambiguidade moral e à reconfiguração do mito freudiano que dão densidade única à personagem.

João Pedro Vala
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Nos últimos anos, a Devir tem vindo discreta mas firmemente a suprir uma falha evidente e grosseira no mercado editorial português. Num momento em que a banda desenhada parece assumir enorme protagonismo, sobretudo através de mangás e adaptações de best sellers literários, continua a não ser dada a atenção devida quer à novela gráfica (é incompreensível, por exemplo, que ainda ninguém tenha traduzido o extraordinário Fun Home de Alison Bechdel) quer às grandes narrativas de super-heróis que moldaram o imaginário infantil de gerações, sobretudo — em parte precisamente por essa lacuna — através de filmes e séries televisivas.

Ora, ainda que a imprensa especializada pouca atenção tenha dedicado ao assunto, a verdade é que o problema tem sido em grande medida amenizado, por um lado, através da publicação da colecção Angoulême (na qual se editam os livros premiados pelo prestigiado festival internacional francês) e, por outro, pela publicação, primeiro, dos volumes completos de Dragon Ball, de Akira Toryama, e, agora, de alguns dos fascículos mais icónicos da história do milionário Bruce Wayne, que quando a noite cai vela pela cidade de Gotham vestido de Batman.

É certo que já antes outra pequena editora, a Levoir, publicara três dos maiores marcos deste subgénero literário (Watchmen e V de Vingança, de Alan Moore, e O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller), mas só agora este trabalho parece feito de forma continuada, permitindo-nos compreender melhor as subtilezas do mais fascinante dos super-heróis.

Uma dificuldade evidente para os leitores interessados em acompanhar estas histórias de super-heróis assenta na frequência de publicação que a Marvel e a DC Comics impõem, visto que, dependendo do super-herói, todas as semanas ou meses surge um novo fascículo que acrescenta uma pedra a estes monumentos quase seculares. Assim, o caminho possível para quem pretenda mergulhar neste universo sem se afogar passa pela leitura das reinvenções destes cosmos criadas pelos artistas de maior renome, que, tipicamente, são autocontidas, permitindo-nos assim ler uma história que quase prescinde de qualquer conhecimento prévio acerca da história narrada.

É nessa senda que encontramos os seis volumes agora editados do Batman de Grant Morrison (publicados originalmente entre 2006 e 2013), onde o argumentista escocês nos apresenta a Damian, o filho que, alegadamente, Bruce Wayne terá tido com Talia al Ghul (por sua vez, filha do vilão Ra’s al-Ghul, interpretado por Liam Neeson na saga levada ao cinema por Christopher Nolan), ao mesmo tempo que vemos emergir a associação de malévolos magnatas Black Glove, que pretende destruir quer o Cavaleiro das Trevas quer o próprio Joker apenas para entretenimento dos seus associados (e, claro, de nós, leitores).

O que torna tão fascinante Batman, cujo carisma e fulgor fica a milhas de distância da mesma versão da história que a Marvel procurou criar com o Homem de Ferro, é, em certo sentido, a reconfiguração do mito freudiano que nele encontramos, uma vez que aqui Bruce Wayne não aplica a sua imensa fortuna no combate ao crime para matar o pai, mas precisamente na infundada esperança de assim o ressuscitar. Contudo, o interesse de Batman vai muito além disso. Em quase todas as histórias, é um herói relutante, herdeiro do Aquiles da Ilíada, na medida em que frequentemente as histórias começam com Bruce Wayne convencido a pendurar as armas e desistir de uma causa que lhe parece, no melhor cenário, condenada ao insucesso e, no pior, contraproducente, sendo habitualmente as suas relutâncias dissipadas ora pela intervenção de um vilão (tipicamente o Joker, esse Heitor de Gotham) ora para impedir a morte de alguém que lhe seja querido (Alfred, Rachel ou, no caso concreto da saga de Grant Morrison, Robin), o que, mais uma vez, reproduz a história de Aquiles, cujo rancor contra Agamémnon é apenas superado pela necessidade de vingar a morte do seu doce amigo Pátrocolo.

Porém, como tão argutamente Frank Miller compreendeu no seu extraordinário Cavaleiro das Trevas, o elemento decisivo na história de Batman — e isso aplicar-se-ia, claro, a qualquer super-herói, mas é essencialmente na história do herói de Gotham (e em Watchmen) que o problema vem explicitado — é a questão política. A rendição de uma cidade a um herói mascarado equivale, na prática, a um triunfo do individualismo e constitui, em boa medida, uma defesa assolapada da Segunda Emenda à Constituição dos Estados Unidos. Devido, em parte, à absoluta corrupção das forças policiais de Gotham, a cidade permite a dissolução do monopólio da violência que as sociedades civilizadas tendem a entregar ao Estado e confere legitimidade a um homem não só para que se muna de um arsenal impressionante (sem apresentar para isso qualquer documentação ou cadastro), mas também para que constitua uma espécie de exército unipessoal com o qual definirá e imporá uma forma particularmente violenta e arbitrária de justiça.

Essa ambiguidade moral quer de Batman quer de toda a cidade que este protege fascina-nos porque nos permite iluminar o exercício da leitura, visto que o nosso apego a Bruce Wayne elucida melhor do que inúmeros ensaios a suspensão da moralidade promovida pela arte, que vem depois novamente problematizada através, por exemplo, da introdução de debates televisivos como uma espécie de versão moderna dos coros que encontramos nas tragédias gregas. E é exatamente isso que encontramos também no Joker, de Brian Azzarello, com ilustrações hiper-realistas de Lee Bermejo.

Todavia, de um ponto de vista literário, o mais interessante dos volumes agora publicados pela Devir é Absolute Batman, de Scott Snyder, onde todos os elementos que constituem a história dos Wayne vêm reconfigurados. Batman combate uma corja de malfeitores que compra a estima da população, convencendo-as a matar indiscriminadamente a troco de criptomoedas, mas, nesta história, Bruce Wayne já não é um multimilionário órfão de pai e mãe e Alfred já não é o fiel mordomo a que nos habituáramos. Bruce é agora o filho de um médico e de uma futura candidata à vice-presidência de Gotham e Alfred um impiedoso mercenário. E a história fascina-nos precisamente porque, ao reconstruir tijolo a tijolo a nossa imagem de Batman conduzindo ainda assim a um desfecho semelhante, permite-nos refletir acerca desse mecanismo misterioso que transforma a vida em ficção. E tudo isto enquanto assistimos a porrada de meia-noite.