3 de julho de 2025. A azáfama começou manhã cedo, num processo que tardou anos a chegar ao Campus da Justiça, em Lisboa. Dezenas de jornalistas, advogados, arguidos e curiosos acumulavam-se nas imediações do tribunal para o arranque do julgamento do processo Operação Marquês, num dia que ficaria também marcado pela morte do futebolista Diogo Jota.
Parece ter sido há muito, muito tempo que o ex-primeiro-ministro José Sócrates chegava ao Juízo Central Criminal de Lisboa, desafiador e a disparar em várias direções. Um ano depois do início, os advogados de diversos arguidos acreditam que ainda estamos longe do fim.
Na sala 1 do 6.º piso do edifício A do Campus foram já ouvidas 91 testemunhas, incluindo as gravações dos depoimentos em fases anteriores do processo de testemunhas entretanto falecidas. Tendo em conta que o Ministério Público (MP) arrolou cerca de 225 testemunhas para o julgamento, as inquirições do ponto de vista da acusação ainda nem chegaram a meio, se bem que algumas testemunhas tenham sido (e outras possam vir a ser) dispensadas. E ainda faltam algumas centenas arroladas também pelas defesas dos arguidos.
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Ao todo, o coletivo presidido pela juíza Susana Seca e composto pelas magistradas Rita Seabra e Alexandra Pereira conduziu um total de 173 sessões. Como o tribunal contabiliza a manhã de trabalho como uma sessão e a continuação à tarde como outra sessão, chegamos à conclusão que já houve 85 dias de julgamento. Dias esses preenchidos igualmente com inúmeros incidentes processuais, vários momentos de tensão — sobretudo na fase inicial, entre a defesa de José Sócrates, o ex-primeiro-ministro, a equipa de procuradores do MP e o coletivo de juízas — e a ‘novela’ de renúncias de advogados do antigo governante.
Cinco arguidos já falaram… e um vai voltar em breve
O ex-primeiro-ministro José Sócrates, os gestores Rui Horta e Costa e Diogo Gaspar Ferreira, o advogado Gonçalo Trindade Ferreira e o economista e administrador de empresas Rui Mão de Ferro. Na lista de 18 arguidos, apenas estes cinco arguidos quiseram prestar declarações em audiência de julgamento, enquanto a maioria remeteu logo à partida a sua vontade de falar para mais tarde ou até apenas no fim da produção de prova. Se é certo que um arguido pode manifestar a qualquer momento o seu direito de falar em julgamento, apenas um já mostrou vontade de voltar a falar: precisamente José Sócrates.
José Sócrates
O ex-primeiro-ministro expressou a sua intenção de voltar falar em setembro, aguardando-se a decisão do coletivo sobre as datas, devendo agora abordar os temas relacionados com os circuitos financeiros de que beneficiou e com origem em Carlos Santos Silva — apontada como a prova mais forte do MP, que imputa ao antigo governante a prática de 22 crimes: três de corrupção, seis de fraude fiscal e 13 de branqueamento de capitais.
No primeiro momento em que quis prestar declarações, José Sócrates falou durante quase uma dezena de sessões, logo no arranque, mas pouco ou nada falou sobre a circulação do dinheiro — o follow the money subjacente à tese da acusação.
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O antigo primeiro-ministro decidiu dividir as explicações por blocos temáticos, pontuadas por algumas questões do MP e das outras defesas, e começou pelo núcleo de factos relacionados com a PT — quer sobre sobre a OPA da Sonae à operadora de telecomunicações, quer sobre o processo de alienação da participação na Vivo e passagem para a Oi no Brasil, relativamente aos quais rejeitou a prática de qualquer conduta ilícita.
Pelo meio houve ainda espaço e tempo para falar da sua relação com Ricardo Salgado ou, mais precisamente, pelo que disse ser a inexistência de uma amizade com o ex-banqueiro, apesar da reprodução de escutas em audiência em que se ouve a tratar o antigo presidente do BES como “caro amigo” e a quem exprime um “sentimento de grande admiração”.
José Sócrates abordou também factos da pronúncia ligados ao grupo Lena, designadamente o procedimento relativamente ao concurso para a construção do troço do TGV entre Poceirão e Caia, negando qualquer favorecimento ao grupo ao qual estava ligado o seu amigo Carlos Santos Silva, tal como em relação às casas da Venezuela ou aos projetos noutras latitudes, como Argélia ou Angola. Mas o ex-governante foi mais longe e abordou inclusivamente factos que nem sequer fazem parte da pronúncia, como os supostos favorecimentos à Lena no âmbito da Parque Escolar.

E não deixou de refletir igualmente sobre algumas das suas amizades, designadamente em relação ao empresário Carlos Santos Silva, ao ex-ministro e ex-administrador da CGD Armando Vara ou ao antigo chairman da PT Henrique Granadeiro.
Rui Horta e Costa
O gestor ligado ao empreendimento de Vale do Lobo não conseguiu explicar em julgamento a transferência de 200 mil euros do cidadão holandês Jeroen Van Dooren para uma conta confidencial de Rui Horta e Costa, no banco UBS, na Suíça, no dia 26 de agosto de 2009, nem a razão pela qual daí saíram, 10 dias depois, segundo o procurador Rosário Teixeira, 100 mil euros para a conta de uma sociedade controlada por Diogo Gaspar Ferreira. “Não consigo explicar. Até hoje“, confidenciou.
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Por outro lado, Rui Horta e Costa — implicado na alegada corrupção de Armando Vara e José Sócrates (em que teria sido repartida uma contrapartida de dois milhões de euros, com a alegada intermediação de Carlos Santos Silva como ‘testa de ferro’) para a viabilização do financiamento de mais de 200 milhões de euros da CGD ao empreendimento no Algarve — vincou que o antigo administrador do banco público “nunca solicitou, pediu ou deu a entender qualquer espécie de compensação monetária ou outra”.
Diogo Gaspar Ferreira
O antigo diretor executivo do empreendimento de Vale do Lobo procurou afastar uma suposta proximidade com Armando Vara, ao apontar para uma relação do “estrito âmbito profissional”, embora as escutas reproduzidas tenham evidenciado uma proximidade pessoal, visível em convites para ir jantar, para irem ao ténis ou só para se queixarem da falta de cadeiras para estender toalhas junto da piscina. Recusou ainda assim qualquer influência política de Vara ou de José Sócrates.
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Em paralelo, Diogo Gaspar Ferreira negou as alegações do cidadão holandês Jeroen Van Dooren, que, segundo o MP, disse ter recebido indicação do arguido para transferir dois milhões de euros para uma conta na Suíça de Joaquim Barroca, administrador do grupo Lena, à qual o empresário Carlos Santos Silva teria acesso. Dessa verba sairia depois um milhão de euros rumo a Armando Vara. “Não tem nada a ver comigo ou com Vale do Lobo. Terão de arranjar outra explicação”, sintetizou.
Gonçalo Trindade Ferreira
Num depoimento em dois momentos — em outubro de 2025 e em maio deste ano, devido às questões ligadas ao sigilo profissional —, o advogado assumiu a autoria de todos os factos referidos nos autos, nos quais é acusado em coautoria de três crimes de branqueamento, mas notou não ter então consciência de que pudesse estar a participar na prática de alegados crimes.
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Gonçalo Trindade Ferreira confirmou ter entregado a João Perna, ex-motorista de Sócrates, um envelope com 10 mil euros, a pedido de Carlos Santos Silva. Assumiu também ter entregado dois envelopes à ex-mulher do antigo governante, Sofia Fava, embora tivesse salientado o seu desconhecimento do conteúdo. Reconheceu ainda a participação no contrato de arrendamento da casa de Paris — efetuado a posteriori — e revelou os detalhes da intervenção nos processos de aquisição de casas por parte de Santos Silva à mãe de Sócrates, designadamente os dois imóveis no Cacém e o apartamento no edifício Heron Castilho, em Lisboa.
“Eu era miúdo, estava deslumbrado de poder sair de manhã de Lisboa para ir a Paris e voltar ao fim do dia. À data, quando comecei a trabalhar, Carlos Santos Silva era conhecido do meu primo. Eu era o único interlocutor, é óbvio que me sentia lisonjeado. Achei que aquilo fazia parte do meu serviço e meti tudo no mesmo saco. Tinha total confiança naquilo que me era pedido”, contou em tribunal, admitindo ainda a compra de 2.374 exemplares do livro de Sócrates (A Confiança no Mundo — Sobre a Tortura em Democracia) a pedido de Santos Silva: “Achei que um amigo estava a fazer um favor a outro amigo para ficar com o livro em primeiro lugar“.
Rui Mão de Ferro
O economista e administrador de empresas prestou declarações em setembro passado e assumiu sentir-se “enganado” por Carlos Santos Silva. Negou que tivesse uma relação de grande proximidade com o amigo de décadas de José Sócrates e explicou que só começou a trabalhar com o empresário ligado ao grupo Lena em fevereiro ou março de 2009, alegando que entre 2009 e 2014 (quando ‘rebentou’ publicamente o caso Marquês) não tinha razões para desconfiar de Santos Silva.
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“Todos os atos que pratiquei nunca me pareceram estranhos”, afirmou, contando ter colaborado em vários projetos de cariz internacional, como em Angola, no Brasil, na Argélia ou na Líbia, mas não na Venezuela — uma das partes sobre a qual incide a acusação do MP por um alegado favorecimento de Sócrates a Santos Silva e ao grupo Lena. Porém, acabou por destacar o peso das informações que veio a ter a posteriori: “Se foram praticados atos que aparentemente são inócuos, num determinado contexto deixam de parecer“.
Rui Mão de Ferro foi também confrontado com as ligações a diferentes pessoas na órbita do ex-primeiro-ministro, designadamente o antigo motorista João Perna, a ex-mulher Sofia Fava, a mãe de Sócrates — Maria Adelaide Monteiro —, Domingos Farinho, alegado ghostwriter do livro do antigo governante, e António Peixoto, blogger que faria elogios ao antigo primeiro-ministro na blogosfera. Estes dois últimos foram mesmo contratados por empresas de Mão de Ferro, receberam os seus honorários mas não terão prestado qualquer serviço. Por último, confirmou também os pedidos de Santos Silva para a aquisição de livros de Sócrates, ridicularizando a situação como uma tentativa do antigo governante para “se manter politicamente relevante e ter muitos livros vendidos”.
Os depoimentos mais marcantes de testemunhas
Campos e Cunha, ex-ministro das Finanças do Governo Sócrates
No dia 4 de novembro de 2025, Luís Campos e Cunha veio ao julgamento para ser ouvido como testemunha, num depoimento que serviu como um ‘ajuste de contas’ com Sócrates, depois de duras críticas do antigo primeiro-ministro ao seu ex-ministro das Finanças, que deixou o cargo ao fim de cerca de quatro meses. No tribunal, Campos e Cunha denunciou ter sido alvo de pressões de Sócrates para mudar a administração da Caixa Geral de Depósitos (CGD) liderada por Vítor Martins e nomear Armando Vara, algo que terá começado ainda antes de assumir funções no executivo (no qual esteve entre março e julho de 2005).
Numa matéria muito relevante para a tese do MP, que liga essas pressões a um acordo com Vara e aos crimes de corrupção que alegadamente se seguiriam em relação ao empreendimento de Vale do Lobo, Campos e Cunha foi taxativo: “Desde o início, o eng. Pinto de Sousa [José Sócrates Pinto de Sousa] instou-me a que demitisse a administração da CGD e nomeasse Armando Vara. Não era um ato ilegal, mas há outras considerações além da ilegalidade. Cabia ao ministro das Finanças fazê-lo e não fiz. Isso foi falado reiteradamente, mesmo antes de ter ido para o Governo”.
Sublinhando que estava determinado a não trocar a liderança do banco público sem fundamentos, o antigo ministro das Finanças admitiu que começou a “arrastar os pés” nesse tema. Apesar de ter conversado com Armando Vara sobre a CGD, reiterou que “nunca se falou sobre uma nomeação” para a administração e deixou a sua justificação. “A certa altura, tornou-se quase um ponto de honra para mim não demitir a administração da Caixa. Demitir para meter lá gente do PS… Eu não queria arranjar ‘jobs for the boys’”.
Luís Campos e Cunha demitiu-se do Governo de José Sócrates e uma semana depois a administração liderada por Vítor Martins foi demitida.
Pedro Cardigos, inspetor tributário
Testemunha inaugural deste julgamento, Pedro Cardigos foi um dos inspetores tributários envolvidos na investigação. Nos três dias em que prestou declarações em audiência, o inspetor da AT revelou como José Sócrates raramente tinha noção de quanto dinheiro tinha no banco, que recebia sempre dinheiro quando o saldo ficava negativo (ou perto disso), e que o ex-motorista João Perna fazia pagamentos em benefício do ex-primeiro-ministro, com verbas depositadas na sua conta a partir de levantamentos em ‘dinheiro vivo’ das contas de Carlos Santos Silva, o empresário e amigo de Sócrates.
No seu depoimento, Pedro Cardigos procurou detalhar os diferentes circuitos financeiros na órbita de José Sócrates e segundo os seus interesses. Um dos exemplos indicados remontou a fevereiro de 2014, sobre o qual declarou que foi feito um depósito em numerário na conta de João Perna com fundos originários de um levantamento prévio da conta de Santos Silva. Depois, foi da conta do motorista que foi feito o pagamento do condomínio do ex-primeiro-ministro, mas também várias outras despesas, designadamente, a revisão do carro de José Sócrates ou o tratamento da sua ex-mulher Sofia Fava numa clínica dentária.
Contudo, o depoimento deste inspetor tributário também permitiu às defesas rebater ou colocar em causa a solidez da prova do MP. Pedro Cardigos admitiu erros em alguns factos imputados aos arguidos, como num pagamento de 250 mil euros que o relatório da AT referia ter sido feito por Sócrates à CGD, quando, afinal, terá sido a Carlos Santos Silva, como forma de pagamento de um empréstimo. “Este pagamento de 250 mil euros não terá sido como eu pus — pagamento antecipado à CGD —, mas como o Dr. [Pedro] Delille está a dizer e ter sido ao Sr. Carlos Santos Silva”, reconheceu.
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Ana Vaz, antiga gestora de conta de Carlos Santos Silva:
O depoimento da antiga gestora de conta de Carlos Santos Silva no departamento de Private Banking do BES expôs a disponibilização de verbas pelo empresário para a esfera de José Sócrates, indo ao encontro da tese do MP. Ana Vaz contou, por exemplo, como foi através do Google que descobriu que determinadas operações eram feitas em benefício de pessoas ligadas ao ex-primeiro-ministro. Foram disso exemplo as transferências para a mãe de Sócrates com vista à compra de uma casa no edifício Heron Castilho ou a compra de um monte alentejano a Sofia Fava, ex-mulher do antigo governante.
“Quando há certos movimentos para os quais não consigo ter uma explicação simples e transparente, faz-nos estar mais alerta. Temos deveres de diligência e de tentar perceber o cliente [no âmbito da lei do branqueamento de capitais], se o que faz está de acordo com os movimentos da conta”, referiu. A gestora de conta descreveu ainda levantamentos de 10 mil euros em dinheiro vivo “de uma forma muito recorrente, como se fosse uma vez por semana”, e que a levaram a questionar o empresário: “Deu uma resposta vaga de que eram para despesas”. E isso fez Ana Vaz reportar a situação ao departamento de compliance do BES.
Elisabete Bernardo, a rececionista de hotel:
Parecia, à primeira vista, um depoimento que se perderia na futura história deste julgamento. Porém, quando o tribunal estabeleceu no dia 22 de outubro a ligação remota para Elisabete Bernardo, assistir-se-ia a uma das inquirições mais ilustrativas sobre a circulação de dinheiro no julgamento, com a antiga rececionista do hotel Pine Cliffs, no Algarve — onde José Sócrates costumava passar férias com a família e amigos —, a contar como José Paulo Pinto de Sousa, primo do ex-primeiro-ministro, saldou as contas da estada da família naquela unidade.
“Recordo-me de o sr. Sousa, o primo, ir fazer o pagamento das unidades (quartos reservados). Eram pelo menos duas unidades. Ele nessa vez pagou em dinheiro. Abriu uma mala, tirou um envelope e pagou. Estamos a falar de um volume grande (de dinheiro). Não quero pôr valores descabidos, mas certamente por volta de 20 mil euros. Não devo estar muito longe desse valor”, recordou.
Os momentos insólitos, os ‘choques’ mais duros e um carrossel de renúncias
Contava o julgamento apenas uma hora de duração quando José Sócrates se levantou da sua cadeira na sala de audiência, enquanto o seu advogado, Pedro Delille, e a presidente do coletivo, Susana Seca, falavam sobre um requerimento. O ex-primeiro-ministro percorreu a fila de cadeiras até ao outro lado da sala e, à saída da porta, perguntou aos polícias ali presentes onde era o WC, que lhe apontaram para o lado direito do corredor.

Quando ainda estava fora da sala, a juíza procurou José Sócrates e, ao não o ver, desabafou: “Pediu autorização para sair da sala?” De seguida, o antigo governante reapareceu à entrada da sala e foi logo interpelado pela oficial de justiça sobre a situação. “Agora tenho de dizer quando vou ao quarto de banho?“, reagiu então Sócrates, atónito e de forma bem audível. Ao encaminhar-se para o seu lugar, o principal arguido da Operação Marquês ouviu um ‘recado’ de Susana Seca: “Tem de pedir autorização”.
Do “quarto de banho” a uma advertência foi uma questão de segundos, num momento tão inusitado quanto tenso entre Sócrates e Susana Seca.
José Sócrates (JS) — Senhora juíza, quero pedir a palavra…
Juíza (J) — Neste momento, não…
JS — Não me vai dar a palavra?
J — Neste momento, o tribunal não lhe vai dar a palavra.
JS — Pedi para falar e não me dá a palavra. É isso?
J — Vou advertir o arguido…
JS — O tribunal não me dá a palavra e ainda me adverte?
J — Neste momento, o tribunal não lhe vai dar a palavra. E vamos fazer uma interrupção para melhor apreciar os requerimentos.
Esse primeiro ‘choque’, todavia, empalidece perante outros duelos bem mais agressivos, quer entre Sócrates e os procuradores do MP — que já se fez representar em audiência por cinco magistrados: Rómulo Mateus, Rui Real, Nadine Xarope, Hugo Neto e Rosário Teixeira, o principal rosto da investigação deste caso —, quer entre a juíza Susana Seca e Pedro Delille, o primeiro advogado do ex-primeiro-ministro no julgamento.
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O expoente desses choques ocorreu no dia 30 de outubro e seria citado por Delille como justificação para a renúncia à defesa de Sócrates no processo. Pedro Delille entrou na sala de audiência pelas 10h40, quando a audiência já decorria há cerca de 20 minutos e para a qual tinha sido inclusivamente chamada pelo tribunal uma advogada oficiosa para suprir a sua ausência.
A juíza presidente estava a falar e o mandatário do ex-primeiro-ministro tentou tomar a palavra para justificar a chegada a esta hora, mas foi travado de imediato, com Susana Seca a defender que devia primeiro envergar a toga de advogado e que José Sócrates estava até ali a ser representado por uma advogada oficiosa chamada pouco antes. “Presumi que começasse mais tarde“, disse Pedro Delille, mas Susana Seca não deu azo a grandes explicações e, num tom assertivo, atirou: “Presumiu mal”.
Pedro Delille respondeu que a presidente do coletivo não lhe iria “ralhar” pelo atraso. Contudo, Susana Seca encerrou ali a conversa, de dedo em riste e com um tom de voz mais exaltado: “Não lhe dou a palavra. Vai responder à Ordem (dos Advogados). Acabou a brincadeira”.
Na semana seguinte, a notícia da renúncia de Pedro Delille cai com estrondo no tribunal. “Renuncio ao mandato que me foi conferido pelo senhor eng. José Sócrates para o representar no processo (…), o que faço por razões deontológicas: fiquei definitiva e absolutamente convencido, após o episódio da passada quinta-feira, que soma a tudo o resto oportunamente denunciado, de que continuar neste julgamento violenta em termos insuportáveis a minha consciência como advogado e a ética que me imponho”, referiu o advogado, que já nem compareceu nessa sessão e fez chegar a informação por escrito aos autos.
Seria o início do que ficou entretanto conhecido como ‘carrossel’ de advogados de José Sócrates. Seriam constituídos como mandatários José Preto e Sara Leitão Moreira, que abandonaram a defesa pouco tempo depois, por não verem os seus pedidos de cerca de cinco meses para consulta e estudo do processo, a fim de preparação da sua defesa. Pelo meio, passaram já cerca de uma dezena de advogados oficiosos em representação do ex-primeiro-ministro, numa instabilidade que, por ora, abrandou com o reconhecimento pelo tribunal da indicação de Luís Carlos Esteves para defensor oficioso permanente.
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E se, como se viu anteriormente, um momento insólito se ligou a um episódio de tensão, há também ligações de situações inesperadas ao carrossel de renúncias de advogados de defesa de Sócrates (e consequente chamada de defensores oficiosos).
Foi o caso do dia 17 de março, que marcava o regresso das sessões de julgamento na sequência da saída da advogada Sara Leitão Moreira — a terceira mandatária constituída pelo ex-primeiro-ministro, após as renúncias de Delille e José Preto. Nesse dia, José Sócrates teve nada mais, nada menos do que quatro advogados ligados à sua defesa.
Primeiro, à entrada para a sessão, ainda se presumia a representação de Sócrates pelo advogado Marco António Amaro, que tinha sido indicado pela Ordem dos Advogados para uma substituição permanente. Só que este acabou por pedir dispensa na véspera, uma dispensa que só foi conhecida no início da sessão, na qual se apresentou sem qualquer aviso o defensor oficioso Luís Carlos Esteves, por indicação do bastonário João Massano.
Contudo, como essa indicação não estava ainda formalizada nos autos e foram levantadas questões sobre a validade desse ato, o tribunal acabou por ter de chamar um defensor oficioso de escala no edifício, o que levou à entrada de Humberto Monteiro para representar provisoriamente o antigo governante na parte da tarde. E isto já aconteceu depois de o advogado Filipe Baptista, que até aqui assegurou a defesa de Sofia Fava, ex-mulher do antigo primeiro-ministro, ter anunciado que tinha uma “procuração condicionada” de José Sócrates para assumir a sua defesa.
O advogado — antigo secretário de Estado do Governo Sócrates que também defende Sofia Fava na Operação Marquês e o próprio José Sócrates numa ação administrativa contra o Estado — condicionou a apresentação dessa procuração à garantia de interrupção do julgamento por 10 dias, a fim de se inteirar dos factos relacionados com o principal arguido do processo. No entanto, a juíza Susana Seca não quis travar o rumo dos trabalhos e uma nova interrupção, acabando por continuar a sessão.
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Aliás, poucos aspetos tiveram uma influência tão decisiva no decurso deste primeiro ano de julgamento da Operação Marquês como a ‘novela’ das renúncias de advogados de José Sócrates e a designação de defensores oficiosos para assumirem a representação legal do antigo governante no julgamento. De acordo com a contabilização feita pelo Observador em março, o bloqueio criado pelas renúncias inviabilizou 35 sessões num período de cerca de três meses de trabalho, o que se traduziu no atraso da audição de muitas dezenas de testemunhas.
O balanço e as expectativas das defesas
Um ano já passou desde o início, resta saber quanto tempo ainda faltará até ao fim. Desafiados a um balanço deste primeiro ano e a partilhar as expectativas sobre o futuro deste julgamento, vários advogados partilham ao Observador as suas perspetivas.
- José António Barreiros, advogado do arguido Zeinal Bava:
“Não esperava algo muito diferente para o julgamento. O ambiente de conflitualidade era expectável, tal como os incidentes processuais eram expectáveis.
O julgamento do BES poderá estar resolvido no final do próximo ano, agora este não sei… Não sei se o MP quer manter o rol de testemunhas. Talvez mais dois anos de julgamento ou nunca menos de um ano e meio… Dois anos: é essa a minha expectativa”.
- Rui Patrício, advogado dos arguidos Helder Bataglia e Rui Horta e Costa:
“Excetuando os incidentes relativos à representação do engenheiro José Sócrates, o julgamento tem decorrido dentro do que é o padrão de todos os outros julgamentos no nosso país. Claro que tem demorado e vai demorar bastante mais (não sei dizer quanto, mas certamente não menos de mais um ano judicial, pelo menos). Mas isso decorre do facto de se tratar de um processo gigantesco, com uma acusação enorme, com muitos temas (alguns sem qualquer relação entre si), muitos arguidos e muita prova a produzir. Só a acusação tem mais de duas centenas de testemunhas.
Só havia três formas de este julgamento ser mais rápido: terem feito o processo mais pequeno ou vários processos (o que era possível), fazer-se uma imitação de julgamento em vez de um a sério (o que seria pelo menos ilegal) ou então eliminarem da Lei os julgamentos (coisa de que ninguém ainda se lembrou, mas já espero tudo). Ocorreram prescrições e vão ocorrer mais, mas a causa principal disso nem sequer é o gigantismo do processo e a sua consequente e inevitável demora, é, sim, o facto de numa investigação começada em 2013 terem ido buscar alegados factos que remontam a 2006″.
- Nuno Arêde Carvalho, advogado do arguido João Perna:
“Suponho que vamos continuar com os mesmos problemas que temos tido até agora, nomeadamente de agendamentos e previsibilidade. Este processo tem os mesmos problemas que todos os outros com a mesma dimensão — megaprocessos: demora imenso tempo, porque tem de demorar imenso tempo. Continuamos a pensar que o julgamento é a fase mais curta do processo, o que não tem lógica nenhuma.
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Toda a gente sente-se pressionada para acelerar, desde procuradores a advogados e a juízes. E porquê? Porque passaram anos em investigação e resulta sempre em prejuízo para a defesa. O tempo que este julgamento ainda vai durar? Nunca menos de mais um ano e meio“.
- Francisco Proença de Carvalho, advogado de Ricardo Salgado:
“Independentemente do tempo que demorar, o julgamento do Dr. Ricardo Salgado é uma inexistência. A grave e incurável doença de que padece, comprovada há vários anos, faz com que nem sequer tenha consciência de que está a ser julgado.
Tal como tem acontecido noutras situações semelhantes, em Portugal e no estrangeiro — recorde-se o recente caso de Jordi Pujol, em Espanha —, um arguido que se encontre neste estado de demência não deve, nem pode, ser julgado, sob pena de violação dos mais elementares princípios constitucionais e dos direitos humanos”.