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(A) :: O ex-general que perdeu o filho em Gaza. Gadi Eisenkot, o novo rival de Netanyahu que quer "curar" as divisões em Israel

O ex-general que perdeu o filho em Gaza. Gadi Eisenkot, o novo rival de Netanyahu que quer "curar" as divisões em Israel

Filho de pais marroquinos, Gadi Eisenkot está à frente em várias sondagens para vencer as próximas eleições em Israel. Visto como modesto e íntegro, ex-líder das IDF aposta em ser oposto de Netanyahu.

José Carlos Duarte
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Dezembro de 2023, dois meses desde o início da guerra em Gaza. Gadi Eisenkot pertence ao gabinete de guerra liderado por Benjamin Netanyahu. O general recebe uma notícia que o marca para sempre: o filho Gal tinha morrido em combate no enclave palestiniano. O funeral do jovem de 25 anos reúne os principais rostos do Governo de Israel, incluindo Benjamin Netanyahu. Algumas fotografias ficaram célebres do momento: o na altura ministro estava agarrado aos familiares, mantendo uma expressão rígida e sóbria, ao contrário da mulher e dos filhos, que choravam e procuravam conforto nele.

É esta imagem firme e calma em momentos turbulentos que muitos israelitas têm de Gadi Eisenkot. Afinal, este general na reserva liderou as Forças de Defesa de Israel (IDF) durante quatro anos. O luto do filho ocorreu longe dos holofotes, mas deu ao ex-militar uma nova perspetiva. “No jazigo do Gal, jurei que o preço que ele e os seus amigos pagaram — aqueles que ele conhecia e aqueles que não — não seria em vão. Desde aí, a cada dia que passa, tenho sentido uma obrigação cada vez maior para concretizar essa promessa”, contou o antigo ministro, num artigo escrito no jornal Ynet.

Meses depois da morte do filho, Gadi Eisenkot entrou em rota de colisão com Benjamin Netanyahu. Criticou a falta de estratégia do primeiro-ministro e saiu do gabinete de guerra. Desde aí, tem trilhado um caminho cada vez mais bem-sucedido na política israelita. Em 2022, o antigo líder das IDF tinha-se juntado ao Partido Unidade Nacional, liderado pelo centrista Benny Gantz — que foi visto durante anos como o principal rival político do chefe do Governo, agora ultrapassado por Naftali Bennett e Yair Lapid.

A meses da ida às urnas em Israel, o principal adversário nas futuras eleições legislativas marcadas expectavelmente para outubro é Gadi Eisenkot, que criou um novo partido: Yashar (que pode ser traduzido como justo ou reto para português). O nome não foi escolhido ao acaso. O pai que perdeu o filho em Gaza tenta transmitir uma mensagem de honestidade e unidade em Israel. Em algumas sondagens, esta força política já ultrapassou o Likud, liderado por Benjamin Netanyahu.

Atualmente, Israel é governado por uma coligação que junta o Likud e partidos ultraortodoxos e de extrema-direita. Muitos israelitas sentem-se frustrados e cansados com o rumo do Governo, que teve de lidar com as consequências do 7 de Outubro. Benjamin Netanyahu mantém o mesmo estilo teatral e disruptivo de sempre, enquanto vários ministros usam uma retórica radical que muitos israelitas sentem que contribui para a divisão da sociedade. É neste contexto que a figura unificadora e sóbria de Gadi Eisenkot prospera.

A 30 de junho, Gadi Eisenkot apresentou oficialmente a campanha do seu partido para as eleições. O general na reserva mostrou saber perfeitamente quais são as vulnerabilidades do atual Executivo, apresentando-se como a solução para resolver os problemas de Israel. Acusou o Governo de “mentir”, gerar o “caos” e “alimentar a divisão” entre os israelitas. “A única forma que eles têm de governar é dividir-nos”, atirou, questionando: “Vamos aceitar a perpetuação das divisões sociais e encaminharmo-nos para um novo desastre, ou vamos curar-nos e reconstruir-nos?”

Se é certo que há uma imagem de tranquilidade associada ao ex-general, Gadi Eisenkot não é totalmente claro nas suas intenções políticas. Define-se como um centrista, mas nunca concretizou que rumo seguirá no futuro. Uma das poucas exceções é a criação do Estado Palestiniano: o antigo general defende a solução de dois Estados, apesar de assegurar que o assunto não é uma “prioridade” por agora. Para lá disso, sabe-se muito pouco sobre as ideias deste quase novato na política. E a ambiguidade serve como munição para Benjamin Netanyahu. O Likud já o acusou de ser de “esquerda” e de ser demasiado brando: “Opôs-se a atacar o Irão e a eliminar Khamenei”.

O filho de marroquinos que participou na Guerra do Líbano

Entre a elite israelita, historicamente há certos perfis que se destacam. Os líderes políticos costumam vir de famílias originárias do centro e do leste da Europa, sendo associados à tradição dos judeus asquenazes. Muitos deles também passaram longos períodos nos Estados Unidos, como é o caso de Benjamin Netanyahu. A trajetória de vida de Gadi Eisenkot é totalmente distinta. É filho de pais marroquinos (o pai nasceu em Marraquexe, a mãe em Casablanca) e nasceu no norte de Israel, apesar de ter passado a infância e adolescência em Eilat.

Ao longo da sua carreira militar, o filho de marroquinos quebrou várias barreiras em relação à sua origem. Foi o primeiro líder das IDF de origem mizrahi — o nome que se atribui em Israel aos judeus originários do Norte de África e do Médio Oriente. Se conseguir chegar a primeiro-ministro, será o primeiro a ocupar o cargo desta comunidade, que se sente muitas vezes marginalizada da restante sociedade. Como escreve o L’Orient-Le Jour, isto acaba por ser um trunfo político: muitos veem Gadi Eisenkot como o representante dos israelitas que se sentem à margem da elite asquenaz.

Além disso, as origens humildes de Gadi Eisenkot contribuem para essa perceção. O agora político cresceu no sul de Israel: a mãe era dona de casa e o pai trabalhava como mineiro. É descrito pelos amigos de infância como um “rapaz calmo” — e muitos ficaram surpreendidos por quão longe chegou na carreira militar, na qual ingressou aos 18 anos. Inicialmente, pensou juntar-se à Marinha, mas preferiu alistar-se na Brigada de Infantaria Golani, uma das mais antigas das IDF e que viria um dia a chefiar.

O filho de marroquinos juntou-se às IDF em 1978 e desde cedo se destacou na carreira militar, apesar de a mãe ter desejado que se tornasse rabino. Três anos depois, participou na Guerra do Líbano e ficou ferido em combate. Enquanto militar, foi mais tarde destacado para a parcela de território libanês que ficou sob controlo israelita após o término daquele conflito. Ao contrário de grande parte dos líderes políticos do país, Gadi Eisenkot nunca pertenceu a unidades de forças especiais das Forças de Defesa de Israel, tendo construído todo o seu percurso na infantaria.

A doutrina que é a mancha no currículo e a oposição a Netanyahu nas IDF

Apesar do percurso mais convencional, Gadi Eisenkot destacou-se e atraiu as atenções da classe política israelita. Em 1999, foi escolhido para assessor militar do então primeiro-ministro e antigo rival de Benjamin Netanyahu, o trabalhista Ehud Barak, que foi o responsável por retirar as tropas israelitas do Líbano em 2000. Ao mesmo tempo, o militar — que também se licenciou em História na Universidade de Telavive — assumiu o comando da Divisão da Judeia e Samaria, responsável pelas operações na Cisjordânia, durante a Segunda Intifada, que levou a um aumento substancial da violência política no território palestiniano.

Em 2005, quando Ariel Sharon era primeiro-ministro, o general na reserva teve ainda um desafio mais exigente: foi escolhido para liderar a Direção de Operações israelita, o órgão que coordena e executa as atividades militares israelitas em todas as frentes de guerra. Um ano depois, rebentava a Segunda Guerra do Líbano, que acabou por ditar a demissão do então comandante da Frente Norte, Udi Adam. Em outubro de 2006, com o conflito já terminado, Gadi Eisenkot foi o escolhido para assumir o seu cargo. 

Foi enquanto comandante da Frente Norte que deixou um legado ainda hoje controverso. Gadi Eisenkot elaborou e defendeu a Doutrina Dahiya (nome inspirado num bairro de Beirute que era um bastião do Hezbollah e que ficou totalmente destruído durante a Segunda Guerra do Líbano). Essa estratégia contemplava a destruição massiva de infraestrutura civil em territórios hostis a Israel. “Vamos aplicar força desproporcional e causar grandes danos e destruição. Do nosso ponto de vista, não são aldeias civis, são bases militares”, defendeu na altura.

À luz do Direito Internacional, a falta de proporcionalidade e a destruição de bairros residenciais são medidas ilegais. E esta doutrina tão radical contrasta com a imagem calma e moderada que Gadi Eisenkot tenta agora transmitir. Contudo, estas ideias nunca travaram a sua subida na hierarquia das IDF. Em fevereiro de 2015, é escolhido por Benjamin Netanyahu como o novo chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel, substituindo Benny Gantz no cargo.

No entanto, a escolha não agradou plenamente a Benjamin Netanyahu. Apesar de ter sido o responsável por nomear o líder das IDF, o primeiro-ministro apenas o fez por pressão do ministro da Defesa da altura, Moshe Ya’alon. A desconfiança do chefe do Executivo face a Gadi Eisenkot intensificou-se ao longo do mandato. Os dois homens — que agora são rivais políticos — enfrentaram-se várias vezes nos bastidores. Aliás, ainda que até então nunca se tivesse envolvido em política, o general colidiu de frente com os partidos mais à direita em Israel.

A tensão nos bastidores deu lugar ao confronto público em 2016. Tudo começou quando o soldado israelita Elor Azaria matou Abdel Fattah al-Sharif, um homem palestiniano que tinha esfaqueado e ferido outro membro das IDF na Cisjordânia. Foi difundido um vídeo em que se vê o militar de Israel a disparar contra a cabeça do palestiniano, quando este já se encontrava imóvel e desarmado no chão. O caso abriu um debate acérrimo na sociedade israelita sobre a ética que os militares deviam apresentar.

De um lado, o primeiro-ministro nunca censurou o sucedido. Pelo contrário, Benjamin Netanyahu chegou a telefonar à família do soldado e defendeu publicamente que deveria ser indultado. Por outro, Gadi Eisenkot veio a público exigir o cumprimento estrito dos códigos que vigoram nas IDF, rejeitando o uso excessivo de força: “Defender o país com lealdade e amor, tratar as pessoas com respeito e perseverar na missão”.

Num julgamento altamente polarizado, Elor Azaria acabou por ser condenado a 18 meses de prisão. Gadi Eisenkot nunca comentou diretamente o processo judicial, mas manteve-se inflexível na posição de que o soldado deveria ser responsabilizado pelo que fez: “Um jovem de 18 anos que serve no Exército não é uma criança. É um combatente, um soldado que deve dedicar a sua vida a executar as tarefas que lhe damos”.

Em declarações ao jornal The Times of Israel, David Makovsky, membro do think tank Washington Institute for Near East Policy, refletiu sobre como o caso de Elor Azaria demonstra como Gadi Eisenkot lidava com as questões éticas nas Forças Armadas. “Ele achava que o exército tinha uma certa ética e, como chefe do Estado-Maior, cabia-lhe garantir que este estivesse à altura dessa ética”, explicou o analista. “Se houver uma violação dessas normas, então age-se por instinto. E ele fê-lo. Mas nem sempre era assim que os outros políticos viam a situação.”

Por iniciativa própria, em 2018, Gadi Eisenkot anunciou que passaria à reserva após 40 anos nas IDF e que ia abandonar a sua liderança, algo que se concretizou em janeiro do ano seguinte. Muitos já anteviam na altura que o antigo general se ia candidatar a um cargo político. Mesmo com os confrontos que foram tendo, Benjamin Netanyahu elogiou o “tremendo trabalho” que o general fez nas IDF. “Eliminámos muitas ameaças ao Estado de Israel”, destacou o primeiro-ministro.

O então Presidente de Israel, Reuven Rivlin, foi ainda mais longe nos elogios, descrevendo-o como um “soldado, combatente, estadista, modesto, corajoso, um estratega de primeiro nível e uma pessoa que gosta de pessoas”. “Durante os últimos quatro anos não houve guerras, mas as IDF, sob o seu comando, nunca deixaram de lutar”, sublinhou o ex-chefe de Estado. Esta é, agora, a impressão que muitos israelitas têm de Gadi Eisenkot: a de um homem que soube defender as fronteiras do país e que evitou longos conflitos.

A entrada na política, o gabinete de guerra e a rutura com o “grande amigo” Gantz

A especulação de que entraria na política logo após chefiar as IDF não se concretizou no curto prazo. O agora general na reserva apenas deu esse passo em 2022, ano em que se juntou à coligação Unidade Nacional, liderada por Benny Gantz. Nas eleições legislativas desse ano, a força política conquistou o quarto lugar e Gadi Eisenkot foi eleito deputado. O bloco liderado pelo partido Likud, de Benjamin Netanyahu, saiu vencedor, abrindo caminho para a formação de um Governo apoiado por partidos ultraortodoxos e de extrema-direita.

O 7 de Outubro veio mudar o xadrez político em Israel. Os ataques do Hamas em território israelita e o início da guerra na Faixa de Gaza levaram Benjamin Netanyahu a apelar à unidade nacional. O primeiro-ministro formou um gabinete de guerra, convidando Benny Gantz e Gadi Eisenkot para o integrarem. Ambos tinham liderado as IDF no passado e tinham a experiência necessária para ajudar a guiar o país numa das suas fases mais negras. Os dois homens aceitaram o convite.

Este gabinete de guerra acabou por não durar nem um ano. Benjamin Netanyahu viu-se obrigado a tentar equilibrar o realismo e o pragmatismo de perfis como o de Gadi Eisenkot com as exigências radicais dos ministros de extrema-direita. Um ato de equilibrismo complexo que colapsou em junho de 2024, altura em que os dois antigos chefes das IDF bateram com a porta. “Considerações exteriores e a política infiltraram-se nas discussões. É tempo de o deixar”, anunciou o general na reserva na sua carta de demissão.

Politicamente, Gadi Eisenkot mantinha-se como deputado, sendo que — a partir de 2024 — se manteve na oposição a Benjamin Netanyahu, ao lado do “grande amigo” Benny Gantz. Este também antigo líder das IDF era considerado, nos meses a seguir ao 7 de Outubro, o político mais popular em Israel. A grande bandeira dos dois homens que se definem como centristas? A oposição aos partidos mais radicais e a ministros como Itamar Ben-Gvir ou Bezalel Smotrich.

Em junho de 2025, o filho de pais marroquinos decidiu abandonar a Unidade Nacional e saiu do Parlamento. Os motivos não foram totalmente claros, mas especula-se que o antigo general sentia que Benny Gantz estaria a personalizar o partido em seu redor e a evitar a convocação de eleições primárias. Num comunicado, o líder partidário identificou que havia “diferenças ideológicas significativas” entre si e o “amigo pessoal”. “Mesmo que a parceria política entre nós tenha acabado, a amizade e o respeito mútuo vão continuar”, garantiu Benny Gantz.

O “anti-Netanyahu” que não domina o inglês

Estrategicamente, o cenário estava aberto para Gadi Eisenkot trilhar um caminho a solo. Há uma fadiga generalizada associada ao Governo de Benjamin Netanyahu e Benny Gantz foi perdendo gás nas sondagens. A oposição mais ao centro — liderada pelo ex-primeiro-ministro Naftali Bennett e por Yair Lapid — também não convence uma parte significativa do eleitorado, ao passo que a esquerda praticamente desapareceu após o 7 de Outubro. Foi neste vazio que o antigo general que perdeu o filho em Gaza fundou em setembro de 2025 o seu próprio partido — o Yashar — com uma premissa clara: “Os cidadãos de Israel merecem uma liderança que sirva o público com integridade e com um compromisso profundo pelo nosso futuro partilhado”.

Contrariamente a muitas alternativas do mesmo espaço ideológico, o general na reserva apresenta um grande trunfo: praticamente não tem escândalos associados ao seu nome. Com uma carreira política curta e uma certa frescura na imagem, Gadi Eisenkot foi encarado como alguém que podia sarar as diferenças entre os israelitas. Algo que o valoriza consiste na visão de que é o “anti-Netanyahu”.

"Os cidadãos de Israel merecem uma liderança que sirva o público com integridade e com um compromisso profundo pelo nosso futuro partilhado."
Gadi Eisenkot

À Associated Press, o analista israelita Gideon Rahat salienta precisamente que Gadi Eisenkot é “tudo o que Netanyahu não é”. É modesto em vez de autoconfiante, é calmo em vez de efusivo, é estável em vez de disruptivo. Um estilo que parece simples face a Benjamin Netanyahu, considerado por muitos como “o Rei de Israel”, mas que se tornou a fórmula de sucesso para o atual momento que o país atravessa. “Ele não polariza, não é um populista como Netanyahu e vai tentar unir o país”, prossegue o mesmo especialista.

Os apoiantes do primeiro-ministro israelita até ridicularizam o antigo general. Acusam-no de não saber falar fluentemente inglês — ao contrário de Benjamin Netanyahu, que viveu nos Estados Unidos — de não ser sofisticado, de ser tíbio face ao Irão e de não ter ideias políticas próprias. Num vídeo que se tornou viral em Israel, Gadi Eisenkot respondeu diretamente a estas críticas: “Onde estava o excelente inglês de Netanyahu no 7 de Outubro? Ajudou-nos de alguma maneira? Onde está o seu excelente inglês ao fortalecer a relação entre Israel e os Estados Unidos, que está num ponto de rutura?”

Um homem comum que não domina o inglês, um pai que sofreu com a guerra em Gaza e um antigo militar sem escândalos de corrupção. À CNN Internacional, Anshel Pfeffer, biógrafo de Netanyahu, destaca que Gadi Eisenkot segue um guião novo na política em Israel. Em vez de imitar o estilo duro e eficaz de Bibi, o general na reserva está a tentar “derrotá-lo ao ser o seu oposto”. 

"Eisenkot não é Netanyahu e nunca poderá ser. Mas talvez seja isso que muitos israelitas querem: um estilo de liderança fundamentalmente diferente."
Anshel Pfeffer, biógrafo do primeiro-ministro israelita

“Eisenkot não é Netanyahu e nunca poderá ser. Mas talvez seja isso que muitos israelitas querem: um estilo de liderança fundamentalmente diferente”, apontou Anshel Pfeffer. O analista indicou que este contraste coloca Gadi Eisenkot numa excelente posição, convertendo-o no principal rival do atual primeiro-ministro e forçando um cenário de bipolarização. Contudo, se em termos de personalidade as diferenças são evidentes, o mesmo especialista mantém ainda algumas dúvidas sobre as políticas concretas que o líder do partido Yashar irá seguir caso chegue ao poder.

Nas redes sociais, Gadi Eisenkot tem apostado precisamente nessa estratégia: de bipolarização e de se apresentar como uma antítese de Benjamin Netanyahu, em vez de detalhar qual será o seu programa eleitoral. Os ataques contra o chefe do Executivo são uma constante. Após o primeiro-ministro ter dito numa entrevista que “perdeu peso” após o 7 de Outubro e que isso foi “algo de positivo”, o general na reserva não perdoou e acusou-o de ser “distante” e de adotar uma conduta “indigna”.

Ao mesmo tempo que atacou Benjamin Netanyahu, não deixou de lembrar na mesma publicação uma das suas grandes bandeiras eleitorais, que ecoa junto de grande parte do eleitorado: a criação imediata de uma comissão de inquérito para investigar a débâcle do 7 de Outubro. Enquanto Benjamin Netanyahu tem tentado adiar esse cenário, Gadi Eisenkot tem prometido que fará tudo para entender o que falhou, apurar responsabilidades políticas e perceber as falhas de segurança que permitiram os ataques do Hamas.

Gadi Eisenkot tem feito outra promessa que sabe que o primeiro-ministro israelita dificilmente conseguirá cumprir, devido à coligação que sustenta o seu Governo. O antigo general quer acabar com as isenções dos judeus ultraortodoxos em servir nas IDF. Sob o lema “serviço para todos”, o líder do Yashar tem argumentado que as Forças Armadas enfrentam uma crise de recursos humanos. Embora a medida seja impopular entre os partidos religiosos que sustentam o Executivo do primeiro-ministro, é bem vista entre os judeus seculares, cansados de carregar sozinhos o fardo da defesa de Israel.

Mais além destas duas grandes prioridades, que são populares e eleitoralmente eficazes, é difícil situar Gadi Eisenkot no panorama político israelita. Embora defenda uma solução de dois Estados, o líder do Yashar tem insistido que a criação de um Estado palestiniano “não é relevante” para já e atira o assunto para mais tarde. Tal como praticamente todos os restantes políticos, sempre apoiou as operações militares em Gaza e no Líbano, desejando manter pelo meio a melhor relação possível com os Estados Unidos.

O complexo panorama político em Israel, em que Gadi Eisenkot não fecha a porta aos partidos árabes

Por agora, o antigo general aposta na ambiguidade nas políticas que vai seguir, preferindo focar-se na sua personalidade e nas diferenças face a Benjamin Netanyahu. Mas isso poderá ser uma estratégia: é que a tarefa de formar governo em Israel não será nada fácil após as legislativas marcadas para outubro. Depois de todos os votos contados, e caso vença as eleições, Gadi Eisenkot terá de formar uma coligação que deverá contar com vários partidos. E quanto menos se comprometer, mais sucesso poderá ter.

Partidos árabes, centristas, de esquerda, de direita e ultraortodoxos. O panorama político israelita define-se por ser profundamente fragmentado. Gadi Eisenkot até pode ganhar as eleições, mas assegurar a governabilidade não será uma tarefa fácil. De fora de qualquer cenário pós-eleitoral, ficam já os partidos ultraortodoxos e a extrema-direita, que dificilmente se aliarão a um político que defende abertamente que todos os israelitas devem servir nas IDF.

A oposição a Benjamin Netanyahu tem ainda outro bloco: o liderado por Naftali Bennett e por Yair Lapid (que formaram uma coligação cada um com o seu partido). O ex-general admitiu que tentou juntar-se a estes dois e criar uma coligação centrista, mas houve “resistência” a essa ideia. De qualquer forma, os dois homens continuam a ser vistos como os parceiros pós-eleitorais naturais de Gadi Eisenkot caso este vença as legislativas, num cenário em que uma reconciliação e aliança com Benny Gantz — que concorre a solo pela Unidade Nacional — seria igualmente provável.

No ar, paira ainda um cenário complexo que Gadi Eisenkot nunca rejeitou: um acordo de incidência parlamentar com os partidos árabes para formar uma maioria no Parlamento que lhe permita tornar-se primeiro-ministro. Essas forças políticas têm demonstrado abertura para viabilizar uma plataforma centrista pragmática, desde que o grande objetivo comum seja alcançado: afastar Benjamin Netanyahu do poder.

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O apoio de partidos árabes a um Governo é um assunto que gera muitos anticorpos na sociedade israelita. Sabendo disso, Benjamin Netanyahu tem centrado a sua campanha precisamente em redor deste tema, agitando o papão do risco de segurança que tal cenário representaria. “A escolha real nas próximas eleições é clara: um governo alargado de unidade nacional liderado pelo primeiro-ministro Netanyahu, ou um governo de esquerda frágil liderado por Eisenkot com Yair Golan, Yair Lapid e os partidos árabes”, lê-se numa publicação na conta do Likud na rede social X.

Segundo as sondagens, Benjamin Netanyahu está num cenário de empate técnico com Gadi Eisenkot. É provável também que o primeiro-ministro não consiga uma maioria parlamentar — nem com os partidos ultraortodoxos e de extrema-direita. A tática do chefe do Executivo adaptou-se já a essa realidade, como clarifica Gayil Talshir, professor de Ciência Política na Universidade de Jerusalém, ao Wall Street Journal: “A estratégia de Netanyahu não é ganhar a eleição, mas garantir que o outro lado não tem maioria. Se for esse o caso, haverá um governo interino. Netanyahu vai manter-se no poder até que haja novas eleições no próximo ano”.

Mais do que simplesmente ganhar as eleições, Gadi Eisenkot terá de derrotar Benjamin Netanyahu em várias frentes e precisa de ter uma calculadora na mão. Sem contar com o apoio dos ultraortodoxos e distanciando-se da extrema-direita, o ex-general terá de contar com o apoio de aliados centristas. Mas é um acordo com os partidos árabes — um assunto que permanece envolto em algum mistério devido à sensibilidade política do tema — que será provavelmente a chave que o poderá levar a chefiar um governo.

"A estratégia de Netanyahu não é ganhar a eleição, mas garantir que o outro lado não tem maioria. Se for esse o caso, haverá um governo interino. Netanyahu vai manter-se no poder até que haja novas eleições no próximo ano."
Gayil Talshir, professor de Ciência Política na Universidade de Jerusalém

Sem grande espaço para deslizes num ambiente altamente polarizado, o militar filho de marroquinos que jurou no jazigo do filho mudar o rumo do país ambiciona ser aquele que derrota Benjamin Netanyahu nestas eleições e que “cura” as divisões no país. Encarnando a antítese do rival, o “urso de peluche com coluna vertebral de aço” — como o descreve o especialista David Makovsky — tem uma espinhosa missão pela frente: derrotar um rival astuto e experiente que conhece como ninguém as regras do jogo.