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Écône: o cisma da elite que se esqueceu do rebanho

Ao assumir a vontade de poder mundano, a Fraternidade Sacerdotal São Pio X acabou por negar a própria fonte da fé e da graça que diz defender cegamente.

João Pedro Palma
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No dia 1 de julho, em Écône, a Fraternidade Sacerdotal São Pio X consumou aquilo que Roma tentou evitar até ao último instante: a consagração de quatro novos bispos sem mandato pontifício, abrindo um Cisma com a Igreja Católica.

A excomunhão automática, ditada pelo direito canónico não é surpresa para ninguém, sendo apenas a materialização de uma rutura anunciada com meses de antecedência, carta após carta, apelo após apelo. Apesar de tudo é de lamentar.

Creio que a disputa não é sobre a missa tridentina e o tradicionalismo questionável, cuja licitude, no entanto, ninguém contesta, mas sobre autoridade e necessidade de poder. Pode praticar-se o rito antigo, defender-se o latim e o véu, sem com isso negar a Roma, o Papa e o poder de dizer quem pode ser bispo.

A Fraternidade Sacerdotal São Pio X escolheu negar precisamente isso: ao assumir a vontade de poder mundano, acabou por negar a própria fonte da fé e da graça que diz defender cegamente. Além de ser um ato contraditório, revela a verdadeira natureza do extremismo e fundamentalismo, que assola todos os campos da sociedade, sem exceção. No caso concreto religioso, quando o centro de preocupação deixa de ser o povo de Deus, o rebanho disperso, muitas vezes confuso, que a Igreja existe para servir, e passa a ser a preservação, em exclusivo, de uma alegada pureza e superioridade doutrinal que só a si própria se dirige e serve, talvez essa estrutura, por mais bispos que consagre, já não faça falta à Igreja. Faz falta, isso sim, a uma elite que se quer alimentar e promover a si mesma, fechada sobre a sua própria certeza, indiferente a saber se ainda serve alguém além de quem já está convencido.

Impressionou-me, entretanto, a assimetria de tom, que quase nos cria inconscientemente uma distinção entre bons e maus. Leão XIV escreveu, na véspera, uma carta de uma ternura quase desarmante, falando de “rasgar a túnica inconsútil de Cristo” e suplicando, do fundo do coração, que a Fraternidade recuasse. Não é o tom de um Vaticano vingativo, mas o tom de quem sabe que vai perder uma parte do rebanho e ainda assim insiste em falar-lhe como filho. É um apelo à tolerância, à comunhão e à unidade, porque a Igreja Católica, na sua pretensão mais pura e profunda, não é uma coleção de doutrinas de pensamento em competição. É um corpo vivo, com uma cabeça visível. Defender a Igreja Católica, hoje, não é defender uma instituição perfeita, mas é defender a ideia, difícil e exigente, de que a comunhão, a inclusão e a tolerância valem mais do que ter razão.

Vale mais porque é essa comunhão, mais que a certeza “infalível” doutrinal de cada grupo isolado, que impede a fé de se tornar propriedade privada de quem se considera mais fiel do que os outros. Uma Igreja que tolera dentro de si o rito antigo e o rito reformado, o fiel que reza em latim e o que reza noutro idioma, o teólogo conservador e o progressista, tornam a fé em si mais forte, ao contrário de qualquer pretensão doutrinalmente impecável, mas isolada do resto do corpo.

A força da Igreja nunca esteve na uniformidade, mas na unidade, ou seja, na capacidade de manter unidos os que discordam entre si.

É por isso que a lição de Écône não devia servir somente para envergonhar a Fraternidade em causa. Devia servir de aviso a todos os que, dentro da própria Igreja, progressistas ou conservadores, sinodais ou tradicionalistas, confundem convicção com superioridade, e passam a tratar quem discorda como adversário, em vez de como irmão.

Fica, ainda assim, o mérito de Leão XIV numa tentativa de que a comunhão não seja um ideal bonito nos discursos papais e se torne, de facto, a coluna vertebral de uma Igreja que ainda quer ser católica e sobretudo universal.

Tenhamos hoje presente que quem coloca a sua própria certeza acima de tudo e decide unilateralmente que a obediência é negociável quando lhe convém, afasta-se da própria essência daquilo que diz defender. Pode invocar a tradição, pode invocar a necessidade, pode até ter razão em pontos concretos da sua crítica à Igreja Católica em si, mas ao romper a comunhão, deixa de ser, em sentido pleno, Igreja.

A tradição sem comunhão não é fidelidade: é cisma puro e duro. E não é possível defender a Igreja contra a Igreja.