Donald Trump sobe ao púlpito de punho erguido, ao som de cânticos de “USA, USA, USA”, perante um mar de apoiantes com bandeiras norte-americanas e camisolas com referências políticas. O momento podia ter acontecido durante qualquer comício do Partido Republicano, mas não é essa a ocasião. “Daqui a dez dias, o nosso país vai celebrar um dos marcos mais monumentais da História da Humanidade. Vamos assinalar os 250 anos da gloriosa liberdade americana”, declarou o Presidente dos Estados Unidos da América (EUA), por ocasião da inauguração, no dia 24 de junho, da “Grande Feira Estadual Americana de Trump”.
Localizada no National Mall, em Washington D.C., a “Grande Feira” será durante duas semanas palco de cantores e oradores para celebrar o 250.º aniversário da assinatura da Declaração da Independência, no dia 4 de julho de 1776. A festa para assinalar o quarto de milénio dos EUA na capital começou a ser preparada pelo Congresso há dez anos, mas o regresso de Donald Trump à Casa Branca mudou completamente o rumo dos planos da comissão bipartidária.
“O Presidente Trump não conseguiu evitar tentar fazer com que o 250.º aniversário dos EUA fosse sobre ele”, criticou o senador democrata Alex Padilla, que pertence à comissão. Enquanto a taskforce criada pela Casa Branca para assumir o planeamento tomava conta das celebrações em Washington D.C., a comissão do Congresso decidiu apostar em eventos no resto do país, com concertos, desfiles, exibições históricas e fogo de artifício. Um dos maiores eventos acontece em Los Angeles, com um enorme concerto em que os lucros revertem para a caridade. Outro, acontecerá em Nova Iorque, com uma concentração de veleiros.

Porém, este fim de semana, a “cidade que nunca dorme” procura fazer jus ao nome e as celebrações do 4 de Julho não são a única coisa que mantém as autoridades nova-iorquinas ocupadas. Para além do casamento de Taylor Swift em Madison Square Garden, que exigiu um reforço de segurança esta sexta-feira, a cidade é também palco de mais um jogo do Mundial de Futebol, com Brasil e Noruega a defrontarem-se este domingo nos oitavos de final. E é precisamente no Mundial — e não no aniversário da nação — que o autarca da cidade, Zohran Mamdani, tem apostado toda a sua energia.
Os discursos de antecipação dos dois políticos, na noite do 3 de julho, foram exemplos claros de duas visões da América diametralmente opostas. Mamdani reservou para o aniversário um discurso em que refletiu sobre a História de uma “nação de contradições”, rodeado de pessoas que obtiveram a nacionalidade recentemente. Já Trump foi até ao Mount Rushmore, onde denunciou a “ameaça comunista”, que disse ser em parte trazida por “recém-chegados” ao país que apoiam ideias “totalmente opostas” à forma de viver norte-americana.
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“Focado nas celebrações do 4 de Julho”, Trump falha os jogos do Mundial
A seleção nacional dos Estados Unidos entrou em campo pela primeira vez no Campeonato do Mundo de futebol de 2026 contra o Paraguai, no dia 13 de junho. O jogo era também o primeiro frente a frente da competição em solo norte-americano. No camarote de honra, ao lado do Presidente paraguaio e do presidente da FIFA, a delegação norte-americana era encabeçada não pelo chefe de Estado, mas pelo secretário de Estado, Marco Rubio.

Donald Trump quebrou assim a tradição de o chefe de Estado do país organizador marcar presença no jogo de abertura. Mas a ausência prolongou-se à medida que o campeonato avançou para a fase final. Até este sábado, em que se jogam já os oitavos de final — os EUA estão entre as 16 últimas equipas na competição —, o Presidente continua sem ter sido visto num jogo. Nas redes sociais, onde Trump é conhecido pela sua frequência de publicação, uma pesquisa pelas palavras “Mundial” ou “Team USA” revela apenas duas publicações durante o mês de junho: uma em que salienta os números da FIFA de adesão aos jogos e outra em que congratula a seleção nacional depois da vitória contra o Paraguai.
Tendo em conta a sua preferência pelos holofotes, a relação próxima com Gianni Infantino e o seu papel ativo durante os últimos meses de preparação para um Mundial, o silêncio levantou questões, que pessoas próximas de Trump se apressaram a desvalorizar. “A única coisa que vos vou dizer sobre o meu chefe (…) é que ele gosta de um bom cliffhanger“, afirmou Andrew Giuliani, responsável da taskforce da Casa Branca para o Mundial e filho do antigo advogado de Trump, ao The Telegraph.
Ao mesmo jornal, uma fonte com conhecimento do pensamento do Presidente garantia que este marcará presença na final, mas antecipava que, caso os EUA cheguem às meias-finais, Trump poderá fazer a tal surpresa aos fãs. De qualquer forma, a mesma fonte insistia que a prioridade do chefe de Estado é outra. “O Presidente está focado nas celebrações do 4 de Julho. O Mundial simplesmente não está no radar dele neste momento”, garantiu.
Federico de Jesus, antigo diretor de comunicação de Barack Obama, disse à BBC Sport não “estranhar” a ausência de Trump, que prefere guardar as aparições públicas para o “evento principal”, mas apresenta outra possibilidade que pode pesar no seu afastamento dos estádios: o Presidente está “receoso” de ser vaiado pelos adeptos, tal como aconteceu no início de junho, quando marcou presença no primeiro jogo dos New York Knicks em casa para as finais da NBA.
Existe uma terceira leitura para a ausência de Donald Trump, com um pendor bem mais político: “Este Mundial tem sido um evento da diáspora, uma vitrine da natureza permeável da nacionalidade e do sucesso das populações imigrantes. Simplesmente não combina com a energia de um Presidente tão desejoso de demonizar e excluir”, aponta o jornalista do The Guardian, Barney Ronay, mencionando diretamente as suas políticas de imigração.
Como os festejos passaram de uma “celebração da diversidade” a um “sacrilégio democrático”
Um enorme arco do triunfo, um espelho de água da cor da bandeira norte-americana e um alinhamento musical repleto de estrelas. Estes são apenas três dos muitos desejos expressados por Donald Trump ao longo do último ano para as celebrações do 4 de Julho. Contudo, chegado o dia, o arco ainda não foi construído e limita-se a uma maquete no recinto, o espelho de água do Lincoln Memorial continua com um tom esverdeado e o alinhamento inclui bandas militares e cantores que já atuaram em eventos da Casa Branca e do Partido Republicano — nenhum dos quais pode ser considerado uma “estrela”. Já a tímida adesão ao evento de abertura terá mesmo “enfurecido” Trump, segundo a CNN.

Para perceber o que correu mal na organização do evento, é preciso recuar no tempo até 2016, data em que foi estabelecida a America250, uma comissão que inclui cidadãos, congressistas e membros da administração norte-americana, responsável por organizar as celebrações. Depois de anos de preparação, a comissão decidiu que o programa incluiria até seis semanas de atuações e workshops por todo o país, que culminariam num desfile com carros alegóricos e bandas filarmónicas no National Mall, em Washington.
O plano tinha como objetivo “celebrar os sucessos da nação” e a “diversidade cultural”, mas também “contemplar as consequências da [sua] História”, segundo documentos internos de novembro de 2023 e de setembro de 2024, citados pela The Atlantic e pela TIME, respetivamente. O regresso de Donald Trump à Casa Branca, em janeiro de 2025, e a assinatura nesse mesmo mês de uma ordem executiva para a criação da Freedom 250 — um grupo encarregado de organizar as celebrações —, descarrilou os planos.
Iniciou-se então um braço de ferro entre as duas organizações, com a administração a bloquear o financiamento da America250. Questionado pela Atlantic, o Departamento do Interior argumentou que “gastar dinheiro dos impostos em eventos frívolos e com pouca afluência” era como “deitar dinheiro à rua”. No verão de 2025, as ordens para as celebrações eram de que fossem eventos “em grande escala, feitos para serem vistos na TV”, segundo relatou uma pessoa com conhecimento da organização à TIME.
A direção que a organização estava a tomar e as crescentes semelhanças com um comício político levaram vários dos cantores escalados a anunciar a sua desistência, assim como onze estados norte-americanos — todos os estados e territórios estão representados na “Grande Feira” — a recusarem enviar delegações. Três semanas antes do aniversário, a politização do evento tornou-se explícita, quando Trump escreveu nas redes sociais que as celebrações iam ser “o mais espetacular COMÍCIO TRUMP de todos”.
“Tornar esse espaço num comício Trump é uma espécie de sacrilégio democrático. Reaproveita um espaço público para a glorificação de um único indivíduo”, escreveu Robert Croft, professor de História norte-americana na Universidade de Yale, num artigo de opinião em que reflete sobre os objetivos de celebrar o 4 de Julho. “O 250.º aniversário da independência americana devia ser um momento de memória cívica. Devia pedir aos cidadãos para pensarem na república: nas suas promessas, traições, feitos e obrigações por cumprir. Em vez disso, a própria linguagem de Trump transforma o evento num espetáculo de promoção da imagem pessoal”, critica.
Veleiros, fogo de artifício e segurança reforçada. O “espírito de otimismo” em Nova Iorque
A 4 de julho de 1776, 56 delegados, representantes das 13 colónias britânicas no continente americano, reúnem-se no segundo congresso continental em Filadélfia, na Pensilvânia, onde assinam a Declaração de Independência. A história é universalmente conhecida, inspirou revoluções e obras de arte e fez da Pensilvânia o berço de uma nação. Mas a primeira capital oficial dos Estados Unidos, reconhecida como tal pela Constituição, foi Nova Iorque.
A “Big Apple” rapidamente perdeu o estatuto de capital, mas durante os 250 anos de História dos EUA a cidade manteve-se como uma das mais importantes âncoras económicas, culturais e políticas do país. Esse mesmo estatuto é agora mobilizado pela governadora do estado de Nova Iorque, para colocar o foco das celebrações do 4 de Julho na cidade. “Nova Iorque desempenhou um papel fulcral na luta da América pela independência e não há melhor local para assinalar o 250.º aniversário da nossa nação”, afirmou Kathy Hochul na conferência de imprensa em que anunciou o programa para o fim de semana.
A celebração começou já na sexta-feira, com um evento descrito como “o maior encontro de veleiros de sempre”. A meia-noite foi assinalada com a queda da famosa bola de Times Square — que, pela primeira vez, cai em junho e não à meia-noite do dia 31 de dezembro. O ponto alto é a parada de veleiros internacionais no rio Hudson, liderados pela Guarda Costeira norte-americana, que durará mais de duas horas, à qual se somam também paradas em terra e no ar, protagonizadas pela Força Aérea. O dia termina com o tradicional fogo de artifício, que, desta vez, se estende por mais quilómetros, em colaboração com Nova Jérsia. Entre os espectadores estarão 100 mil nova-iorquinos que beneficiaram do sorteio de bilhetes gratuitos promovido pelo mayor.
A dimensão do evento exigiu às autoridades um reforço da presença policial por toda a cidade, com operações da Marinha e da Guarda Costeira em toda a orla marítima, voos de drones e reforço das patrulhas policiais. A isto soma-se ainda um destacamento que a polícia de Nova Iorque anunciou para um evento privado no Madison Square Garden — e que se veio a confirmar, tal como antecipado pela imprensa local, ser o casamento da cantora Taylor Swift e do jogador de futebol americano Travis Kelce. As medidas adicionais deste fim-de-semana juntam-se às que já tinham sido anunciadas no início do mês, para fazer frente ao fluxo de 1,2 milhões de pessoas esperadas na cidade para assistir aos jogos no MetLife Stadium, no estado vizinho de Nova Jérsia, que irá receber, entre muitos outros jogos, a final do Mundial.

“Os olhos do mundo estão em cima de nós”, reconheceu a governadora em entrevista ao Politico, em que destacava ainda outros eventos desportivos ao longo do mês, quando questionada sobre se estava preocupada com a possibilidade de a cidade ser palco de “loucuras de verão”. Apesar das preocupações, Hochul congratulava-se à data com o ambiente que acreditava estar a fomentar na cidade — numa oposição ao ambiente criado pelo Presidente. “Eu estou a tentar criar um espírito de otimismo. O derrotismo e o cinismo não teriam sido tão generalizados há 250 anos; não teríamos este país [se fossem]”, rematou a líder estadual.
Dois discursos, duas visões diferentes: a “ameaça comunista” promovida pelos “recém-chegados” vs. os imigrantes que fazem da América “excecional”
“No 4 de Julho, vamos ter o melhor espetáculo de todos no National Mall. O vosso Presidente favorito vai falar”. Donald Trump antecipava assim as celebrações deste sábado durante a inauguração da “Grande Feira”. Mas o arranque dos festejos foi logo marcado pela política, com o discurso de Trump na noite de sexta-feira no Dakota do Sul, em frente ao Mount Rushmore. O Presidente manteve a tónica nacionalista ao elogiar os quatro presidentes que têm o rosto esculpido na pedra — George Washington, Thomas Jefferson, Theodore Roosevelt e Abraham Lincoln. “Foram homens de ação, homens de ambição, homens de ousadia, homens predestinados e homens de uma grande e verdadeira inteligência”, afirmou.
Mas Trump utilizou sobretudo o discurso como arma de ataque político, denunciado adversários e inimigos que corporizam aquilo que definiu como “ameaça comunista”, onde inclui alguns migrantes. “Uma geração depois de termos lutado e vencido a Guerra Fria contra a ameaça do comunismo, há agora um novo ressurgimento da ameaça comunista na nossa terra, incluindo de recém-chegados ao nosso país que abraçam ideias totalmente opostas à nossa forma de vida e ao nosso grande sucesso”, disse Trump. O comunismo, acrescentou, “é o inimigo da Constituição”: “É a grande ameaça à nossa nação, incluindo as da I Guerra Mundial, II Guerra Mundial, Pearl Harbor ou até o 11 de Setembro. (…) É o oposto da vida, da liberdade e da busca da felicidade. É morte, tirania e a busca do mal.”
O Presidente não nomeou diretamente quem compõe essa “ameaça comunista”, mas as suas palavras estão a ser interpretadas como um endurecimento do discurso político contra o Partido Democrata, a poucos meses das eleições intercalares. E nenhum democrata simboliza mais a viragem à esquerda do partido do que Zohran Mamdani, que usará estes festejos para apresentar uma visão diametralmente oposta do país.
A começar com o próprio princípio de celebração incontestada da América. Questionado pelo New York Times, o socialista democrático não negou ter uma relação difícil com a comemoração. “Aniversários desta escala não são apenas convites para refletir sobre o passado. Também são um espelho. Lembro-me de muitos posters nos dormitórios da Universidade que descreviam patriotismo na linguagem de ‘ou gostas, ou sais'”, refletiu. “Mas o patriotismo não é fingir que o nosso país não tem falhas. É amar o nosso país o suficiente para lutar para que se cumpram os seus ideais”, continua.
Esta mesma reflexão sobre o significado de patriotismo foi repetida no discurso que fez esta sexta-feira para assinalar o 4 de Julho, em que lembrou as comunidades indígenas e imigrantes, o legado da escravatura no país e criticou o chamado “excecionalismo americano”. “É-nos dito que a América é excecional porque somos mais ricos, mais fortes, mais poderosos que todos. A verdade, meus amigos, é que a América é excecional porque aqui nada é fixo, (…) e o trabalho de cumprir os valores consagrados na Declaração da Independência continua e pertence-nos”, declarou, apontando as pessoas à sua volta que são, como ele, cidadãos norte-americanos naturalizados e atrás da mesma secretária utilizada por George Washington, que considera o pioneiro desse trabalho.
“Cada um de vocês tem um poder especial de determinar o que significa a América. Os poderosos já sabem a sua resposta. A América é, na visão deles, uma arena de supremacia, onde apenas alguns escolhidos têm direito à liberdade, onde não são todos criados iguais”, criticou, citando as famosas palavras da Declaração da Independência, inscritas no National Mall: “Consideramos estas verdades como evidentes: todos os homens são criados iguais“.
Se Donald Trump se focou nas celebrações de 4 de Julho, em detrimento do Mundial em que é anfitrião, Zohran Mamdani fez exatamente o oposto e atirou-se de cabeça ao campeonato do mundo. “Não é só o facto de Mamdani estar em todo o lado e emocionalmente envolvido em todos os aspetos do Mundial: nos jogos, a publicar avisos meteorológicos, a comentar sabiamente os resultados”, analisa o enviado do The Guardian para a competição em Nova Iorque. “É a sua habilidade para utilizar o evento para transmitir mensagens políticas“.

Se a sua campanha à Câmara assentou na promessa de creches e transportes gratuitos e habitação a preços acessíveis, este mês o autarca procurou democratizar também o acesso à cultura e aproveitar a euforia desportiva que tomou conta da cidade a seu favor. Primeiro, com uma lotaria de bilhetes para os jogos de basquetebol dos Knicks e depois com uma lotaria semelhante para os jogos do Mundial no MetLife; bem como a criação de um sistema de shuttles a 20 dólares para os jogos em Nova Jérsia e de fanzones gratuitas por toda a cidade para assistir aos jogos. A lotaria de bilhetes para o 4 de Julho é apenas mais um exemplo desta estratégia. “No fundo, o futebol é um jogo da classe trabalhadora“, resumiu o próprio ao The Athletic.
O futebol torna-se, portanto, uma metáfora para duas visões completamente diferentes sobre o 4 de Julho e os EUA ao fim de 250 anos. Em Washington, Trump, longe das multidões internacionais — e depois de ter bloqueado a atribuição de vistos a membros da comitiva iraniana —, procura “fazer a América grande outra vez”, celebrando os grandes feitos da nação e primando pelo patriotismo. Em Nova Iorque, Mamdani faz uma reflexão crítica sobre a História, foca-se na “luta” futura e abraça a diversidade de nacionalidades que convergiram na cidade para celebrar — seja o aniversário da nação ou uma vitória nas quatro linhas.