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Pepinos financeiros

Com a regulação do pepino financeiro temos a garantia de que pujantes vão ser os Estados, o imobiliário, os Bancos Centrais e as CMVMs da vida. Agora, quem produz?

João Pires da Cruz
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Uma das primeiras coisas que aprendi quando entrei num banco, sem ser pela porta do balcão, foi o custo do dinheiro. Para um banco, há dinheiro a vários preços.

O mais barato de todos é aquele que vem dos nossos depósitos. Faz sentido porque não somos membros do mercado e temos pouco dinheiro para lá meter, embora muitos de nós façam um montante relevante.

A seguir é o dinheiro dos outros bancos. Sim, os bancos também emprestam dinheiro uns aos outros e este mercado é tão importante que é daqui que se fazem contas para se publicar aquilo que se designa por indexante, como aquele que tem no seu crédito à habitação que deve ser EURIBOR 6 meses. É um valor variável que representa o custo típico do dinheiro para os bancos, daí a taxa para o seu empréstimo ser EURIBOR6M mais uns picos por cento, que é o que paga o trabalho do banco e a probabilidade de alguns clientes não pagarem.

A seguir é o dinheiro do banco central. Se os bancos forem à procura de dinheiro aos clientes e não houver, vão aos outros bancos e não há, então vão ao banco central e este imprime mais dinheiro. Ou seja, o mecanismo de produzir dinheiro em função do crescimento da economia depende deste escalonamento de preços, coisa que se esqueceram durante a crise de 2011 e que ainda hoje andamos a pagar.

Finalmente, o dinheiro mais caro de todos é o dos acionistas. E tem de ser, senão os acionistas não são acionistas, são clientes depositantes. É precioso ter dinheiro dos acionistas nos bancos que é para não serem os depositantes a pagar o crédito todo, algum tem de vir do dono do banco que, como se imagina, se o banco falhar fica sem ele. É por isso que os bancos devem pagar mais aos acionistas do que pagam aos outros todos.

Esta é, em termos gerais, a arquitetura que permite termos sistema financeiro e moeda centralizada.  Que funcionou durante décadas no mundo inteiro, não sendo, como se deve calcular, isenta de riscos. E esta é a frase chave para que as moscas ataquem a ferida. Se dá dinheiro e tem risco, é chamar o regulador que tem ideias fresquíssimas e ignorantes para estragar tudo.

Toda a gente tem recebido aquelas imagens que mostram que o desenvolvimento tecnológico da União Europeia  são as tampas de plástico agarradas à garrafa enquanto a dos Estados Unidos são foguetões de estágios recuperáveis. Tal como nos habituámos à ideia de que a União Europeia é o centro de regulação do formato aceitável do pepino para ser consumido. Em termos simples, que a União Europeia produz regulação e os Estados Unidos e a China produzem tecnologia. Isto por um lado, pelo outro, a estimativa do crescimento económico da UE desde 2010 é passar de (em biliões europeus de USD) 14.6 para 18.5, dos EUA de 15.0 para 30.7 e da China de 6.1 para 19.4 (tirámos o UK por causa do Brexit). Se quiserem em percentagem dá, respetivamente, 27%, 105% e 218%. A China tinha muito para crescer porque estava comprimida por anos de parvoíce marxista, mas o que justifica a diferença entre os EUA e a UE?

Vamos ser racionais. Se é verdade que vivemos num regime de fascismo do pepino sem defeitos, os americanos também têm das suas e algumas bem piores que a regulação do pepino e tampinhas presas. Mas será que o dinheiro flui da mesma forma? E do ponto de vista da regulação da produção do dinheiro que, vimos, está intimamente ligada ao crescimento económico?

Em 2008, o regulador ignorante e cheio de ideias frescas – o Bank of International Settlements, baseado em Basileia – resolve pôr em ação um novo enquadramento regulamentar, cheio de pontos, riscos, cálculos e imposições. Algo que obrigou os bancos todos, incluindo os centrais, a contratarem exércitos de pessoas para garantir que todos os membros do mercado avaliavam o risco dos empréstimos quase da mesma maneira. Aqueles que saíam um bocado da “matriz” teriam de justificar com enorme detalhe por que razão não usavam exatamente a mesma “fórmula” que provocou a crise do subprime (sim, a “fórmula” é a mesma. Podem rir.). Tudo isto para calcular quanto do dinheiro do acionista é que devia estar no banco, isto é, quanto do dinheiro mais caro tem de estar no banco ou, para ser absolutamente claro, quão rico teria de ser o banco para fazer circular dinheiro pela economia.

A coisa era “genial”. Os bancos diferenciavam-se pela forma como geriam os riscos, agora passavam a gerir todos da mesma maneira, como se esse não fosse o maior risco de todos. Mas, pior, deixava de ser possível ter bancos “pobres” porque a quantidade de dinheiro dos acionistas passava a ser um fator fundamental. Os americanos, os maiores incentivadores da criação desta regulação ao princípio, ao verem que começava a ser dominada por amanuenses sem noção, abandonaram completamente na fase de implementação pela razão que apontei: não era possível aos bancos pequenos cumprir com tamanha imbecilidade e, para eles, a profundidade do sistema financeiro, a forma como a rede de crédito chega aos agentes económicos mais pequenos, era fundamental.

O que aconteceu de lá para cá? Na UE o crédito aos privados subiu 14%, nos EUA subiu 41%. Claro que isto é uma discussão de ovo e galinha, cresceram por causa do crédito menos regulado ou o crédito cresceu por causa de um crescimento económico orgânico? A verdade é que o FMI diz que a Europa não sofre do mal de falta de poupança, mas de um sistema de intermediação financeira menos profundo (em português, menos crédito dado a pessoas que produzem de facto). Claro que na UE isso é uma chamada às moscas do costume e vai de sugerirem uma união dos mercados de capitais, que nunca foi um problema até aos anos 2010, mas sem a qual nenhuma união europeia vai poder sobreviver agora.

A verdade é que a Europa estava pujante face aos EUA e agora anda com a corda na garganta a ver-se substituída em muito daquilo que era a sua vantagem, a tecnologia, a engenharia e a qualidade dos seus produtos. É pouco credível que tenha sido apenas pela fúria reguladora do pepino e das tampinhas, ou mesmo da imposição de metas administrativas sobre sectores produtivos que parecem ter sido desenhadas numa escola primária, numa aula de cidadania. O diagnóstico dos economistas cai sobre a capacidade americana de levar o dinheiro das poupanças ao investimento produtivo, mas a verdade é que o rio das causas vai desaguar aos bancos centrais que são, também eles, os reguladores do fluxo financeiro. E o facto é que eles conseguem e nós não.

Claro que se resolve se houver meios financeiros profundos, se os bancos emprestarem com risco, se houver intermediários que sejam capazes de avaliar os riscos de investimento em tecnologia de ponta e montarem fundos de investimento, que vão buscar o dinheiro aos bancos e às poupanças para investirem em produção tecnológica e que os bancos confiem neles. Mas com a regulação do pepino financeiro, em que todo o crédito tem de ser aplicado de forma segura e previsível, temos a garantia de que pujantes vão ser os Estados, o imobiliário, os Bancos Centrais e as CMVMs da vida. Esses vão ser agentes económicos pujantes. Agora, quem produz? Que o faça de forma segura porque não queremos pepinos financeiros com defeitos. Ou vá para o outro lado do Atlântico.