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Milionário maltês julgado por alegada encomenda do assassínio da jornalista Daphne Caruana Galizia

Um dos homens mais ricos de Malta, herdeiro de um império imobiliário, terá contratado um grupo de mercenários através de um taxista que, agora, está sob um programa de proteção de testemunhas.

Edgar Caetano
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Começou em Malta o julgamento de Yorgen Fenech, um dos empresários mais ricos do país, acusado de ter encomendado o assassínio da jornalista de investigação Daphne Caruana Galizia, em 2017. Terá pago, segundo a acusação, 150 mil euros a um grupo de mercenários para matar a jornalista cujo homicídio gerou uma crise política interna e uma onda de indignação internacional.

Fenech, de 44 anos, é herdeiro de um império empresarial e imobiliário que inclui o hotel e casino Hilton Malta. No início do julgamento, em Valletta, declarou-se não-culpado dos crimes de cumplicidade em homicídio voluntário e associação criminosa.

O homem, que foi detido há sete anos e acabou por sair da prisão, sob fiança, em fevereiro, é o último de sete arguidos acusados de envolvimento neste homicídio – cinco já foram condenados e um recebeu um perdão presidencial em troca de colaboração com a justiça.

Segundo a acusação, o plano para matar Daphne Caruana Galizia começou a ser preparado em abril de 2017. Os procuradores alegam que Fenech pediu ao seu amigo Melvin Theuma, taxista, que encontrasse alguém disposto a matar a jornalista, chegando mesmo a indicar o nome de um conhecido gangster, George Degiorgio, como potencial executor do crime. Terá sido esse homem, entre outros, que foi contratado para o crime.

A acusação sustenta que Fenech pretendia impedir a publicação de investigações sobre membros da sua família e, mais tarde, sobre os seus próprios negócios.

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Inicialmente, o homicídio foi suspenso devido às eleições legislativas realizadas em junho de 2017. Contudo, após a vitória do partido trabalhista, Fenech terá dado instruções para avançar com o plano, entregando pessoalmente um envelope com 30 mil euros como pagamento inicial.

Os procuradores afirmam que os executores ponderaram utilizar uma arma de fogo, mas acabaram por optar por um engenho explosivo. A bomba, escondida numa caixa de sapatos de criança e colocada sob o banco do condutor na noite anterior ao ataque, foi detonada remotamente através de um telemóvel. Os homens estudaram, ao longo de várias semanas, os movimentos habituais da jornalista e conseguiram entrar no carro para colocar a bomba sem levantar suspeitas.

A explosão ocorreu a 16 de outubro de 2017, quando Daphne Caruana Galizia, de 53 anos, saía de casa, na localidade de Bidnija. O veículo despistou-se e incendiou-se. O primeiro a chegar ao local foi o filho da jornalista, Matthew Caruana Galizia, que encontrou os restos mortais da mãe no carro em chamas.

A acusação refere ainda que, após o atentado, Fenech terá suportado dezenas de milhares de euros em despesas judiciais dos irmãos George e Alfred Degiorgio, apontados como dois dos autores materiais do crime.

Grande parte da prova da acusação assenta no testemunho de Melvin Theuma, atualmente integrado num programa de proteção de testemunhas, e em gravações áudio que afirma ter feito clandestinamente das conversas com Fenech. A defesa contesta a interpretação dessas gravações e acusa Theuma de apresentar uma versão dos factos baseada em “meias verdades” e “mentiras evidentes”.

O assassínio de Daphne Caruana Galizia provocou uma profunda crise política e institucional em Malta. Na sequência da detenção de Yorgen Fenech, o então primeiro-ministro, Joseph Muscat, apresentou a demissão em dezembro de 2019 por ligações do seu governo a Fenech.

Caso seja condenado pelo crime de homicídio, Fenech poderá enfrentar uma pena de prisão perpétua. A acusação pede ainda uma pena adicional entre 20 e 30 anos pelo crime de associação criminosa.