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Fundão. Ministério Público avança com acusação contra 11 bombeiros suspeitos de violação em "praxe" no quartel

O caso remonta a novembro de 2025, quando a PJ deteve 11 elementos da corporação do Fundão por suspeitas de violação de um colega de 19 anos.

Carlos Pedro
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Os 11 bombeiros do Fundão detidos em novembro de 2025, por suspeitas de violação de um elemento da mesma corporação, deverão ser julgados no Tribunal de Castelo Branco. À Rádio Observador, o Ministério Público confirmou que o inquérito tutelado pela Comarca de Castelo Branco “conheceu despacho final de acusação e foi remetido para julgamento ao Juízo Central Criminal de Castelo Branco”. Fonte do Tribunal confirma que todos os bombeiros detidos em novembro estão acusados de envolvimento no alegado crime, sem adiantar mais pormenores.

Os arguidos estavam todos indiciados por, pelo menos, um crime de violação: seis dos arguidos eram suspeitos da prática de dois crimes de violação e um crime de coação sexual; a outros três arguidos era apontado um crime de violação e um de coação sexual, enquanto os restantes dois arguidos responderam, numa primeira fase, apenas pela alegada prática de um crime de violação. Neste momento, e até meio do mês de julho, decorre ainda o prazo para os advogados requererem a abertura de instrução.

https://observador.pt/2025/11/25/onze-bombeiros-do-fundao-detidos-por-violacao-contra-jovem-bombeiro-de-19-anos-em-praxe-no-quartel/

A detenção ocorreu a 25 de novembro de 2025, numa operação realizada através do Departamento de Investigação Criminal da Guarda, em articulação com a Diretoria do Centro da Polícia Judiciária.

No momento em que as detenções foram concretizadas, a PJ referia que a vítima tinha sido sujeita “a atos sexuais violentos, numa duvidosa praxe, pois seriam os seus dois primeiros serviços” naquela corporação. As autoridades referiram também que foi a própria vítima a apresentar queixa, e que terá recebido o apoio do comando dos Bombeiros Voluntários do Fundão.

As autoridades aplicaram como medida de coação a proibição de contactos com os restantes arguidos, testemunhas e vítima. Os arguidos ficaram também impedidos de se aproximar a menos de 500 metros da vítima.

O Observador apurou também, na altura, que chegaram a ser feitos vídeos das agressões sexuais ao jovem bombeiro e que foi o próprio comandante, José Sousa, entretanto já demitido, quem entregou os suspeitos envolvidos à PJ.

Ouça aqui o Onde Pára o Caso da Rádio Observador.

https://observador.pt/programas/onde-para-o-caso/fundao-bombeiros-detidos-em-novembro-devem-ser-julgados/

Liga dos Bombeiros fala em “caso isolado” e compreende demissão por “responsabilidade subjetiva”

José Sousa era o comandante dos Bombeiros Voluntários do Fundão à data dos factos e no momento em que o caso foi tornado público. Três dias depois, e 10 dias após o início das funções no cargo, demitiu-se, não sem antes suspender oito dos 11 arguidos.

Em comunicado, admitiu ter tomado a decisão com “tristeza”, mas de “consciência tranquila”. José Sousa garantiu que nunca teve conhecimento de qualquer situação semelhante à denunciada pelo jovem de 19 anos, garantindo que esteve sempre “próximo, vigilante e empenhado na proteção da vítima”.

Ouvido pela Rádio Observador, o presidente da Liga dos Bombeiros, António Nunes, considera “natural” o afastamento do antigo comandante da corporação: “Quem lidera qualquer organização tem uma responsabilidade objetiva e uma responsabilidade subjetiva. Na responsabilidade objetiva, [José Sousa] não tem nenhuma. Na responsabilidade subjetiva, tem porque o responsável máximo de tudo o que ocorre dentro de um Corpo de Bombeiros é o comandante. É normal, e é de enaltecer, que o comandante seja sempre o primeiro responsável por tudo o que ocorre no Corpo de Bombeiros.”

Sobre a alegada praxe que terá levado à prática dos crimes, António Nunes já tinha negado que essa fosse uma questão recorrente nos quartéis. O presidente da Liga dos Bombeiros prefere falar em “batismos” e diz que este foi um “caso isolado”. Por isso, António Nunes considera que não há qualquer urgência de aumentar a vigilância para casos semelhantes. António Nunes considera ainda que o assunto está “encerrado” internamente, e espera agora pela decisão dos tribunais.

O atual comandante da corporação do Fundão, Pedro Caldinho — que substituiu interinamente José Sousa e assumiu, já neste ano, em definitivo a liderança do comando de operações — recusou prestar declarações sobre este episódio e remeteu uma posição para “quando o caso transitar em julgado”.

Também a advogada de defesa do bombeiro vítima das alegadas violações ficou em silêncio. Num primeiro momento, Joana Bento mostrou disponibilidade para falar sobre o tema, mas depois ficou incontactável.