Albert Camus, o famoso absurdista que era apaixonado pelo futebol, escreveu celebremente: “tudo o que sei de mais seguro sobre a moralidade e as obrigações dos homens devo-o ao futebol”. Mas será que o futebol também nos tem algo a ensinar sobre a política? Nem tudo, e a confusão que se vive em Westminster mostra precisamente o que acontece quando se trata um primeiro-ministro como se fosse o treinador da equipa principal a meio de uma série de derrotas.
Dezoito meses após alcançar a sua maior maioria parlamentar desde 1997, o partido trabalhista britânico sofreu uma das mais pesadas derrotas eleitorais da sua história recente nas eleições autárquicas de 7 de maio, que viu o Reform UK de Nigel Farage alcançar 1500 vereadores e o controlo de quase 30 câmaras. Mas como chegámos até aqui?
As causas económicas, sociais e políticas do declínio são conhecidas. Mas a substância não explica tudo. Margaret Thatcher venceu três eleições com sondagens a mostrar que o eleitorado preferia os trabalhistas nos temas dominantes do emprego e da segurança social, e na década seguinte os conservadores sofreram com a imagem do “nasty party” quando as suas políticas recolhiam a simpatia popular em testes às cegas. A verdade é que os eleitores não votam apenas em políticas, mas numa imagem, uma promessa de identidade, uma sensação de confiança que nenhum número do PIB consegue, por si só, criar ou destruir. E é aqui que percebemos como Starmer, o homem da estabilidade, o antigo procurador sóbrio que sucedeu à era do “caos conservador”, passou de uma maioria absoluta para o primeiro-ministro que 69% dos britânicos veem desfavoravelmente.
O escândalo em torno da nomeação de Peter Mandelson para a embaixada do Reino Unido em Washington representou a falência moral do projeto Starmer. O primeiro-ministro nomeou para o mais relevante posto diplomático britânico um homem com ligações próximas a Jeffrey Epstein, anunciando publicamente a decisão antes de o processo de vetting estar sequer concluído, e confirmando-a depois de Mandelson ter chumbado no escrutínio de segurança (tendo posteriormente afirmado que desconhecia este facto). Quando o escândalo deflagrou, Starmer sacrificou o seu chefe de gabinete, o seu diretor de comunicação e o topo da diplomacia britânica para se salvar de uma decisão política da sua responsabilidade, a semanas das eleições autárquicas que deram uma vitória estrondosa ao Reform UK.
No rescaldo de tudo isto, a reação interna do partido foi errática, pouco calculada e até já contou com o ‘ressurgimento’ do ex-PM Tony Blair. A quente, mais de 90 deputados exigiram publicamente a saída de Starmer, vários ministros demitiram-se e o então Presidente da Câmara de Manchester, Andy Burnham, candidatou-se e venceu a eleição suplementar de Makerfield, tornando-se agora deputado. Forçado a demitir-se pelos seus próprios deputados, Starmer não resistiu e Burnham prepara-se para assumir o cargo já antes do final de julho, tudo na lógica futebolística de substituir o treinador que não tem dado bons resultados.
Por esta altura, os trabalhistas estão confiantes de que a substituição de Starmer é o seu milagre da salvação. Mas a sua defenestração apressada pode bem causar ainda mais instabilidade e arrisca ser o primeiro passo de um longo carrossel de chefes de governo, à semelhança da rápida sequência May-Johnson-Truss-Sunak do Partido Conservador. Isto não estancará a hemorragia do partido. Pelo contrário, numa altura em que lidera as sondagens, Farage já exige novas eleições e Burnham é apelidado de “ilegítimo”, por ter sido eleito por “apenas 0,03% dos britânicos”.
Com o bipartidarismo britânico definitivamente “morto e enterrado” e um Reform cada vez mais próximo das chaves de Downing Street, a prioridade do partido trabalhista não deve ser (apenas) mudar de treinador, mas mudar de jogo. E isto não se faz com discursos monótonos lidos do teleponto ou simpáticas declarações de valores ou intenções. Para já, um bom primeiro passo para os trabalhistas talvez seja acabar com as conspirações de bastidores, sair de frente das câmaras e perceber que a sua autoimplosão em direto é o melhor folheto eleitoral que Farage não precisa de distribuir.