Na esplanada da Rita, sobranceira ao promontório por onde desliza a amada Zambujeira do Mar, o cronista dava uma folga ao pessimismo… Nem abandono, nem sobrelotação; mesmo correndo o risco de ofender alguns saudosistas, não havia sinais de sobreexploração nem nos inquietava a mercantilização daquela aldeia, quase desconhecida do seu próprio país até à invenção do Sudoeste e, com ele, do festival de Verão moderno. Calçada impecavelmente arranjada, árvores novas, bem plantadas em caldeiras amplas, iluminação pública renovada, tal como toda a sinalética e equipamento urbano. Esplanadas organizadas e coerentes de acordo com um só modelo, contemporâneo, mas razoavelmente dialogante com a paisagem. A praia, lá em baixo, com as velhas ondas desfazendo-se a ritmo regular sobre o areal raso e prolongado, produzindo aquele sempiterno som, dia e noite, de uma espécie de câmara de mar. Um dia de princípio de Verão, agradavelmente ameno, num intervalo entre ondas de calor, com uma travessa de amêijoas, pão alentejano e, à frente, uma imigrante Corona com a lima de lei. Sim, de vez em quando, disse o escriba para com os botões da camisa florida, esta brincadeira do mundo e tal, até que funciona.
E é então que, da mesa de trás, onde até ali três pessoas se limitavam a existir diante umas das outras, uma diz: “Pfff… Alterações climáticas… É que já nem dizem ‘aquecimento global’! Como as calotas polares não derreteram, as ilhas não ficaram todas submersas e não sei quê, tiveram de arranjar outra expressão. Agora, é ‘alterações climáticas’!”
Lamentamos a amêijoa cuspida naquele instante, na esperança, porém, de que, mesmo banhada em molho à Bulhão Pato, tenha conseguido reencontrar o caminho de volta ao oceano e conquistado uma segunda e fulgurante oportunidade para se pôr bem longe daqui. De repente, a lima secou, a Corona ficou morna, toda a paisagem sumptuosa diante do olhar empalideceu como a fotografia ranhosa dum calendário de papel desbotada pelo sol, numa barbearia dos anos 80. O maquinista da escrita limitou-se a escutar o silêncio concordante dos outros, até à conclusão do porta-voz: “Só gostava de saber aonde é que anda agora aquele palhaço do Al Gore!”
Certo. No grau de pessimismo de que padece, uma pessoa chega a alegrar-se com o mero facto de ouvir imbecilidades em português correcto, quanto mais com referências a políticos estrangeiros desaparecidos há uns bons 20 anos de circulação. Mas é paliativo que passa depressa. Naquele pequenino instante, restaurara-se a certeza: não importa o empreendedor que trouxe o festival que ressuscitou esta terra, os imigrantes que aqui encontraram trabalho e trouxeram vida, o autarca responsável pelo bom ordenamento urbano, os produtores e empresários locais, como os donos da Rita e das suas boas amêijoas: um dia destes, vamos mesmo sufocar todos, com fome e sede, graças a luminárias daquelas.
Fossem as únicas. Seria tão bom exportá-las, mas há tanto disto em todo o mundo… As redes sociais, o chalupismo em geral, o trumpismo e suas imitações baratas, apareceram nos últimos anos como um livre-trânsito que autorizou o regresso à casa de partida de muito neandertal. Já não se lhes pede sequer que leiam, que estudem, que acompanhem minimamente o que diz a comunidade científica por todo o mundo. Que considerem, sequer por um instante, que talvez a opinião deles e mesmo aquele vídeo que viram no YouTube não sejam particularmente valiosos comparados com décadas de investigação de meteorologistas, climatologistas, biólogos, botânicos, oceanógrafos, geógrafos, universidades inteiras, enfim. Exige-lhes somente o hercúleo exercício de repararem no país em que vivem. Onde, Verão após Verão, os incêndios são mais intensos. Inverno após Inverno, mais constantes as cheias. Que, ainda há quatro anos, teve 100% do território em seca. Há cinco meses, um comboio de tempestades que destruiu concelhos inteiros e deixou aldeias no interior do país isoladas, forçadas a ir votar de barquinho a remos. Que entra hoje na oitava onda de calor do ano – que ainda vai a meio. Num continente a bater recordes de temperatura. Em que todos os anos, a linha de costa recua mais meio a dois metros, por via da subida do nível médio da água do mar, causado pelo degelo das calotas que o outro diz não existir, provavelmente pelo simples facto de não as estar a ver ali, diante dele, ao fundo da Zambujeira do Mar.
O escriba pensa na quantidade de baleias derretidas em óleo no século passado para acender os candeeiros que iluminaram as ruas do mundo e se será demasiado criminoso meditar – apenas meditar – na hipótese académica de alguma vez ter de se fazer o mesmo a génios falecidos de causas naturais. Ou usar aquelas cabeças-de-vento como eólicas, ao menos. Valerá a pena perguntar-lhes se, quem sabe, Trump não ataca as renováveis apenas no contexto da guerra económica com a China, para desvalorizar um sector em que a rival é lidar destacada e riquíssima, ao contrário dos EUA, nos metais raros de que depende e, com ele, toda a economia do futuro? Esqueçam. Gastar energia nisso? Melhor aplicá-la nas amêijoas.
Mas que tudo o que um dia ameno e perfeito como aquele sugira a um indivíduo seja não o mero e grato desfrute e sim o insulto generalizado à ciência, em voz alta, como a ignorância sempre gosta de fazer, é qualquer coisa. Na verdade, às vezes, até este escriba pessimista acredita que, um dia, a mesma inteligência artificial que, hoje, as faz acelerar, nos ajudará a encontrar solução para as alterações climáticas, através de cidades, transportes e respostas energéticas muito mais eficientes e, nisso, poupar-nos à extinção por sufoco generalizado ou guerra por um copo de água potável. Porém, para uma coisa, sabe-o e já não é de agora, nunca haverá cura: a estupidez humana. (A conta, por favor.)