Portugal acaba de entrar na oitava onda de calor do ano. E poderá ficar sob uma cúpula de calor durante 8 a 10 dias, com mínimas de mais de 27º C e máximas até 44º C. Onda de calor e cúpula de calor não são a mesma coisa, mas podem funcionar em conjunto. E esta nova vaga de temperaturas extremas até é típica do verão, só que decorre em situações absolutamente excecionais, depois da do final de maio e da de junho, que ainda faz bater recordes na Europa; e por isso é tão perigosa.
Julho começa com noites tropicais durante vários dias consecutivos, mesmo em partes do litoral onde isso é raro, e máximas sempre acima de 30º C. A Península Ibérica vai transformar-se no verdadeiro “forno ibérico”, capaz de produzir e reciclar o seu próprio calor. A atmosfera que está a gerar este episódio, relativamente típico do início de julho, do verão, não mudou. O que mudou foi o ambiente em que tudo ocorre: um planeta mais quente, o Mediterrâneo a ferver, solos mais secos e verões que parecem começar cada vez mais cedo e acabar cada vez mais tarde. Como resume o climatólogo Carlos da Câmara, “o que está a acontecer agora não é diferente do que acontecia há 30 ou 40 anos. O mecanismo atmosférico é conhecidíssimo. O problema são os impactos.”
Segundo o IPMA, até 29 de junho tinham sido identificadas sete ondas de calor em Portugal — uma em fevereiro, duas em março, duas em abril, uma em maio e outra em junho. Até 23 de junho acumulavam-se já 59 dias em onda de calor. A nova vaga, que se prolongará durante pelo menos oito a dez dias, transforma-se assim na oitava onda de calor de um ano que está a aproximar-se dos registos mais extremos das últimas décadas. Na quinta-feira houve seis distritos em alerta vermelho. Esta sexta já são 12, e os restantes estão a laranja. Afinal, o que é que temos pela frente?
O que torna esta onda de calor diferente das duas anteriores?
As últimas três vagas de calor, registadas desde maio, tiveram características de formação semelhantes, mas foram distintas. A primeira chamou a atenção pela precocidade. O calor extremo chegou ainda antes do verão climatológico e bateu vários recordes para o mês de maio. A segunda inseriu-se numa enorme vaga de calor europeia, uma mancha de quilómetros, que atingiu Espanha, França, Itália e outras regiões do continente e que contribuiu para o aquecimento excecional do Mediterrâneo. Portugal conseguiu escapar por muito pouco do pior, valeu-nos uma depressão em altitude no sítio certo.
Esta terceira grande vaga, que começa com o início de julho, parece combinar vários ingredientes dos dois episódios anteriores, mas acrescenta-lhes elementos novos. “Do ponto de vista climatológico, está ligado exatamente ao mesmo tipo de fenomenologia que foi responsável pelas outras ondas de calor que afetaram a Europa”, explica Carlos da Câmara, professor do Instituto Dom Luiz e da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. A diferença é que esta se desenvolve sobre uma Península e um Mediterrâneo já muito mais quentes e sobre solos que chegam a julho muito mais secos. O destaque vai para a persistência das temperaturas mínimas em valores anormais (sempre mais de 20ºC em muitas noites consecutivas), para o calor acumulado na Península e para a forma como a própria geografia ibérica poderá ajudar a produzir e a reter o ar muito quente.
O próprio IPMA considera particularmente rara a persistência de noites tropicais na faixa costeira ocidental. É relativamente frequente que as temperaturas mínimas não desçam dos 20º C em regiões do interior ou na costa sul do Algarve. Mas é raro que áreas metropolitanas como Lisboa e Porto acumulem cinco, seis ou sete noites consecutivas acima desse limiar e que alguns concelhos possam registar mínimas entre os 25º C e os 28º C.
O calor vem influenciado por um anticiclone localizado a norte/noroeste do arquipélago dos Açores, estendendo-se depois em crista até ao Golfo da Biscaia, e que se desloca para leste, estabelecendo uma circulação do quadrante leste no continente.
O que é uma onda de calor?
Os dois conceitos são frequentemente usados como sinónimos, mas não o são. Uma onda de calor é aquilo que se mede à superfície. Em Portugal, o IPMA utiliza a definição da Organização Meteorológica Mundial e considera que existe uma onda de calor quando, durante pelo menos seis dias consecutivos, a temperatura máxima diária se mantém 5º C acima do valor médio para essa data e local. Uma onda de calor não é simplesmente um ou dois dias muito quentes. É um período prolongado de temperaturas anormalmente elevadas para uma determinada região e época do ano. Isto significa que 38º C em julho no Alentejo pode não ser suficiente para haver uma onda de calor, porque essas temperaturas são relativamente normais para a região, mas 33º C em maio ou em zonas mais frescas do país podem, pelo contrário, ser considerados onda de calor porque estão muito acima do que é habitual para a época. Por isso, uma onda de calor é um conceito relativo, não um valor fixo.
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As ondas de calor estão associadas ao aumento da mortalidade, agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias, maior risco de incêndio, secagem dos solos, diminuição das reservas de água, perdas agrícolas e maior consumo de eletricidade. E quando são acompanhadas por noites tropicais (mínimas acima de 20º C), tornam-se ainda mais perigosas porque o corpo humano deixa de conseguir recuperar do calor acumulado durante o dia.
E o que é uma heat dome?
Já uma heat dome, ou cúpula de calor, é uma configuração atmosférica que pode produzir uma onda de calor. Funciona como uma tampa. Uma vasta área de altas pressões favorece movimentos descendentes de ar. Esse ar, ao descer, comprime-se e aquece. Como há menos nuvens, há mais radiação solar, menos renovação da massa de ar e o calor vai-se acumulando junto à superfície.
É como colocar uma tampa numa panela. “Em cima desta depressão térmica há sempre um anticiclone”, explica Carlos da Câmara. “Esse anticiclone empurra o ar para baixo, o ar é comprimido e aquece ainda mais.” É esse mecanismo de compressão e aquecimento que constitui a chamada cúpula de calor. O ar quente fica preso, afunda lentamente, comprime-se e aquece ainda mais. Como a atmosfera fica bloqueada, torna-se muito difícil a entrada de massas de ar mais fresco ou de frentes atlânticas. E o resultado são temperaturas muito elevadas, calor persistente, noites cada vez mais quentes, agravamento da seca e maior risco de incêndios.
Normalmente há uma combinação de fatores para que se forme uma cúpula de calor: um anticiclone muito forte, em que as altas pressões se instalam e impedem a circulação normal da atmosfera; uma corrente de jato (jet stream) muito ondulada, que ao ficar mais sinuosa pode deixar uma área de altas pressões “presa” durante vários dias; solos secos, que com pouca humidade, têm menos evaporação e mais energia disponível para aquecer o ar; e mar muito quente, porque no Mediterrâneo e no Atlântico Norte as águas mais quentes fornecem mais calor e humidade à atmosfera. A Agência Espacial Europeia descreve este mecanismo como um sistema persistente de altas pressões que aprisiona ar quente e seco e amplifica o aquecimento à superfície. Por isso, pode haver ondas de calor sem uma verdadeira heat dome, e pode haver uma heat dome que não atinja os critérios necessários para ser classificada como onda de calor.
Uma cúpula de calor é o mecanismo atmosférico. Uma onda de calor é a consequência à superfície.
Muitas das grandes ondas de calor dos últimos anos na Europa e nos EUA foram alimentadas por autênticas cúpulas de calor. Agora fala-se mais delas porque parecem estar a tornar-se mais frequentes, mais duradouras e mais intensas. Os cientistas acreditam que o aquecimento global e os solos mais secos estão a tornar estes bloqueios atmosféricos mais perigosos, embora ainda exista investigação em curso sobre a forma exata como as alterações climáticas estão a influenciar a frequência destes episódios.
Como se vai formar esta vaga de calor?
A configuração meteorológica desta semana é relativamente típica do verão ibérico. “Este mecanismo não tem nada de especial”, diz Carlos da Câmara. “É o modelo conceptual da circulação atmosférica de verão na Península Ibérica.” Um anticiclone localizado próximo das ilhas Britânicas favorece um fluxo de leste que promove uma subida acentuada das temperaturas em Portugal e Espanha. À medida que a circulação de larga escala enfraquece, a massa de ar muito quente permanece praticamente estagnada sobre a Península.
A situação é diferente da registada há dias, em junho, porque aí uma depressão em altitude a oeste da Península ajudava a reforçar a entrada de ar muito quente vindo do norte de África na cúpula que se formou (ao mesmo tempo que nos trazia ar frio para o litoral o que nos deu forma de passarmos ao lado do pior). Desta vez, a atmosfera parece mais estável, menos dinâmica e mais favorável à acumulação de calor.
O que mostra que não é necessária uma configuração meteorológica extraordinária para produzir temperaturas excecionais. Trata-se de uma situação relativamente típica do verão mediterrânico mas que é hoje capaz de gerar extremos de temperatura que há algumas décadas eram muito mais raros.
Porque é que se fala num “forno ibérico”?
A expressão é utilizada por vários meteorologistas portugueses e espanhóis e ajuda a explicar o mecanismo em causa. Nem todas as ondas de calor dependem de uma grande injeção de ar proveniente do Norte de África. Em determinadas circunstâncias, a própria Península Ibérica consegue aquecer significativamente a massa de ar que permanece sobre ela.
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A forte radiação solar típica de julho, a persistência das altas pressões, os ventos fracos e a escassa renovação da atmosfera permitem que o calor se acumule dia após dia. A superfície terrestre aquece muito durante o dia e liberta lentamente essa energia durante a noite. Como o ar não consegue arrefecer de forma significativa, o dia seguinte começa já num patamar térmico elevado e o processo repete-se.
A Península comporta-se quase como um pequeno continente, suficientemente grande para produzir a sua própria massa de ar anormalmente quente. O ar não é substituído por massas mais frescas, permanece praticamente estagnado e vai aquecendo progressivamente. O resultado é uma espécie de reciclagem permanente do calor, que só se altera quando uma massa de ar suficientemente frio o consegue desfazer. “Temos aqui uma máquina fantástica”, descreve o climatologista. “A depressão deslocada para sul traz ar quente e seco de África e depois ainda temos um compressor que aquece ainda mais o ar. É o tal forno ibérico”, resume.
Porque é que as noites tropicais se repetem tanto?
As noites são fundamentais para a recuperação do organismo, dos edifícios e até dos próprios solos. Quando a temperatura não desce dos 20º C estamos perante uma noite tropical. Acima dos 25º C são noites tórridas. O problema é que estas temperaturas têm um impacto direto na saúde porque o corpo perde capacidade de recuperar do stress térmico acumulado durante o dia. “Vinte e seis ou vinte e sete graus de mínima não cabe na cabeça de ninguém”, diz Carlos da Câmara. “Não dá para dormir, não dá para o organismo se restabelecer.”
Mas também desempenham um papel importante na própria evolução da onda de calor. Dias muito quentes aquecem solos, estradas e edifícios. Durante a noite, esse calor é libertado lentamente. Como não existe um arrefecimento significativo, o dia seguinte começa mais quente e tem maior facilidade em atingir temperaturas extremas.
As autoridades de saúde admitem que é precisamente a persistência do calor — e não apenas os picos de temperatura — que mais preocupa do ponto de vista da mortalidade e da descompensação de doenças crónicas.
O que têm a ver o Mediterrâneo quente e os solos secos?
A vaga europeia de junho deixou uma herança importante: um Mediterrâneo excecionalmente quente. Dados do Copernicus Marine mostram que, no final de junho, as anomalias da temperatura da superfície do mar chegaram a cerca de 6ºC em partes do Mediterrâneo ocidental, sobretudo no Golfo de Lyon e nos mares da Ligúria e Tirreno. Um mar mais quente não cria sozinho uma onda de calor em Portugal, mas ajuda a manter a atmosfera mais quente durante mais tempo, dificulta o arrefecimento noturno e fornece mais energia ao sistema climático.
Para Carlos da Câmara, o aquecimento excecional do Atlântico e do Mediterrâneo é um dos fatores que ajudam a alimentar estes bloqueios atmosféricos. “Temos um Oceano Atlântico extremamente quente e um Mediterrâneo extremamente quente. Temos aqui uma forma de forçar este tipo de ondas estacionárias.”
Ao mesmo tempo, os solos chegam a julho já muito secos. Ricardo Trigo, climatologista e investigador do Instituto Dom Luiz, explicou ao Observador que estes fenómenos devem ser vistos em conjunto. “Há uma forma relativamente recente de olhar para os extremos climáticos chamada compound extreme events. No verão temos com muita frequência eventos compostos: secas, ondas de calor e incêndios florestais. Isso é um evento composto típico”, explicou.
O investigador lembrou que alguns destes fenómenos se alimentam mutuamente. “Se há uma onda de calor na primavera, isso ajuda a secar os solos. E quando aparece uma nova onda de calor em junho, a temperatura ainda é mais elevada porque já não há água para evaporar.” Ora, com menos água disponível perde-se um importante mecanismo natural de arrefecimento da superfície.
“Uma segunda onda de calor está a atuar sobre um solo que já sofreu o impacto da anterior e está muito seco”, explica por sua vez Carlos da Câmara. “É como a areia da praia: a areia seca fica a escaldar porque não tem água para absorver a radiação.”
Porque é que o risco de incêndio é tão elevado?
Calor extremo, noites quentes, vegetação sob stress, baixa humidade e possibilidade de vento de leste criam condições favoráveis à propagação de incêndios. A ANEPC alertou para perigo de incêndio rural “muito elevado a máximo” em praticamente todo o território continental e o dispositivo de combate aos incêndios foi reforçado para a sua capacidade máxima.
O Estado de Prontidão Especial subiu para nível 3 e o ministro da Administração Interna, Luís Neves, deixou um aviso particularmente duro: “Vêm aí dias absolutamente terríveis. Quarenta e sete graus, com ventos de 70 a 80 quilómetros por hora e baixos índices de humidade, são as condições terríveis para termos um barril de pólvora aqui”, afirmou. Carlos da Câmara admite especial preocupação com as noites tropicais e tórridas. “Se tivermos incêndios, não há janelas de oportunidade para os combater.”
O ministro apelou à proibição de comportamentos de risco, incluindo queimadas, queimas, churrascos, utilização de máquinas suscetíveis de provocar faíscas, abandono de cigarros ou estacionamento de veículos sobre vegetação.
O país está preparado?
As autoridades de saúde e de proteção civil admitem que esta nova onda de calor poderá ter consequências significativas. O Ministério da Saúde convocou uma conferência de imprensa extraordinária para garantir que o país está preparado para enfrentar entre oito e dez dias de temperaturas muito elevadas, mas reconheceu que o episódio poderá ter um impacto importante na mortalidade, sobretudo entre idosos, pessoas com doenças crónicas e outros grupos vulneráveis.
O SNS, o INEM e a linha SNS24 preveem reforços de meios e as Unidades Locais de Saúde estão a articular-se com municípios e juntas de freguesia. A Direção-Geral da Saúde divulgou recomendações específicas para os municípios, defendendo que as alterações climáticas estão a aumentar a frequência, a intensidade e a duração das ondas de calor em Portugal e na Europa.
As autarquias foram aconselhadas a identificar pessoas mais vulneráveis, abrir espaços climatizados, disponibilizar água potável e reforçar medidas de proteção junto das populações mais frágeis.
Também o Presidente da República, António José Seguro, apelou aos portugueses para que sigam “todas as instruções” das autoridades e tenham “muito cuidado” na prevenção de incêndios, defendendo uma atitude de responsabilidade coletiva perante a “ofensiva desta onda de calor”.
Isto vai tornar-se mais frequente?
Para Filipe Duarte Santos, a resposta é clara. “Vamos continuar a ter ondas de calor cada vez mais frequentes e mais intensas, com temperaturas mais altas.” O climatologista considera que atribuir este episódio apenas ao regresso do El Niño é insuficiente. O problema de fundo é outro: a temperatura média global continua a aumentar e as mesmas situações meteorológicas que há algumas décadas produziam calor típico de verão conseguem hoje gerar episódios extremos. “Mais tarde ou mais cedo, provavelmente daqui a um ou dois anos, vamos bater novamente recordes, porque o problema não está resolvido”, afirma.
“O pano de fundo é ar mais quente e mais húmido”, diz Carlos da Câmara. “Este motor é alimentado por uma gasolina com mais octanas.”
A oitava onda de calor do ano instala-se, assim, sobre um território que já vem de vários meses de temperaturas excecionalmente elevadas, com solos mais secos, um Mediterrâneo muito mais quente que nunca e um risco de incêndio muito elevado. Para os climatólogos, esta sucessão de episódios ajuda a perceber que as ondas de calor deixaram de ser acontecimentos raros e passaram a ser um dos riscos climáticos mais importantes do sul da Europa.
Como resume Carlos da Câmara, “o problema não é o evento em si, é a continuidade. As estatísticas são óbvias. Estamos a ter sequências de ondas de calor muitíssimo mais sérias do que antigamente”. O mecanismo atmosférico continua a ser o de um verão mediterrânico relativamente típico. O ambiente climático em que ele ocorre é que está cada vez mais quente e mais contínuo. O “forno ibérico” está a ficar no máximo.