Há uma sigla na política portuguesa que, intencionalmente ou não, acabou por se ajustar à sua própria conduta histórica: o PS tornou-se um verdadeiro Post Scriptum. Vem sempre depois. Na gramática política nacional, o Partido Socialista aperfeiçoou uma arte curiosa: as suas decisões têm sempre autor na hora do aplauso, mas as consequências parecem nascer órfãs.
Em Portugal, a memória política é extraordinariamente curta. Bastam escassos anos na oposição para que quem governou o país durante quase uma década passe subitamente a comportar-se como um mero comentador da atualidade, despido de qualquer responsabilidade pelo estado em que deixou o edifício público. Sempre que os efeitos de uma opção política começam finalmente a revelar-se na sua plenitude, a narrativa muda. De repente, a decisão já não lhes pertence, a culpa passa a ser de quem governa no momento exato em que os problemas rebentam.
Vimo-lo no passado com a crise financeira. Pouco tempo após a queda do executivo de José Sócrates, o antigo primeiro-ministro passou a ser tratado como uma figura distante, quase desligada da identidade do próprio partido. Anos mais tarde, a máquina de propaganda conseguiu convencer muitos portugueses de que a austeridade tinha surgido por culpa de Pedro Passos Coelho, transferindo a culpa inteira para quem teve de executar o resgate financeiro e absolvendo quem conduziu o país até à bancarrota.
Hoje, assistimos exatamente ao mesmo fenómeno noutra matéria estrutural: a imigração. As profundas alterações à legislação da imigração e da nacionalidade, a extinção do SEF e o subsequente modelo administrativo, que revelou fragilidades sistémicas gravíssimas, foram decisões soberanas, conscientes e aplaudidas de governos socialistas. No entanto, à medida que a pressão migratória, os atrasos crónicos na regularização e os desafios na gestão de fronteiras se tornam evidentes, instala-se o revisionismo. O caos atual é apresentado como se fosse responsabilidade exclusiva de quem herdou este quadro legal. É a quadratura do círculo socialista: colher os louros ideológicos da reforma na véspera e entregar a fatura da realidade no dia seguinte.
Mas o grande truque de magia dos anos dourados de António Costa e Mário Centeno não se esgotou na narrativa política, estendeu-se à própria contabilidade nacional. Durante anos, fomos alimentados a pão e propaganda. Enquanto Costa exibia o seu otimismo crónico e Centeno era aplaudido na Europa como o “Ronaldo das Finanças”, a tese oficial parecia inabalável: Portugal estava a crescer acima da média e a convergir aceleradamente com os níveis de vida europeus.
O problema dos truques de magia é que, mais tarde ou mais cedo, alguém acende as luzes do palco. E as luzes acenderam-se agora com a revisão dos dados demográficos pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). Afinal, a tão propalada convergência nunca existiu. Foi uma miragem matemática sustentada, precisamente, pela opacidade da política migratória.
Para desmascarar a ilusão, basta recorrer a uma conta elementar de divisão. O indicador padrão que mede o nível de vida de um país é o PIB per capita: divide-se a riqueza produzida pelo número de habitantes. O que a dupla Costa-Centeno fez foi manter deliberadamente uma estimativa populacional desatualizada, ignorando a verdadeira magnitude do fluxo imigratório gerado pelo fim do SEF e pela transição caótica para a AIMA. No papel, éramos menos de 11 milhões. Com uma população artificialmente baixa, a riqueza dividida por cada residente parecia maior, permitindo à Comissão Europeia colocar Portugal nuns confortáveis 81,3% da média europeia.
A verdade demográfica reposta pelo INE veio desfazer o castelo de cartas. Portugal tem, na realidade, 11,4 milhões de residentes. Há mais meio milhão de pessoas a partilhar o mesmo bolo económico. Quando se refaz a conta com os dados reais, o nosso nível de vida real afunda para os 77,0% da média da União Europeia. Comparando com o ano pré-pandemia de 2019 (onde estávamos nos 77,2%), a conclusão é devastadora: Portugal não convergiu absolutamente nada. Divergiu. Regredimos e perdemos quatro posições no ranking europeu.
Mário Centeno orgulhava-se do seu brilhantismo técnico, mas o modelo económico que desenhou em parceria com António Costa baseou-se na sobrevivência através de mão-de-obra barata e de baixa qualificação. A imigração em massa atraída para o país não foi canalizada para setores de tecnologia, inovação ou valor acrescentado, mas sim para subsidiar indústrias estagnadas e assentes em baixos salários, como o turismo de massas. Pior: o desfasamento brutal entre o fluxo de pessoas e a capacidade de absorção da dinâmica económica empurrou uma massa gigantesca de cidadãos para a economia paralela, que um estudo recente da Faculdade de Economia do Porto (FEP) estimou representar uns assustadores 35% do PIB.
Enquanto os nossos governantes colecionavam elogios internacionais, a Roménia, outrora o parente pobre da Europa, ultrapassou Portugal em nível de vida (77,9% contra os nossos 77,0%). Fomos ultrapassados pelas economias de Leste porque estas souberam aplicar os fundos comunitários na indústria e na produtividade, enquanto nós os derretemos em consumo, clientelismos e funcionalismo público.
O legado económico deste socialismo resume-se a factos: somos hoje a 6.ª pior economia da União Europeia, com projeções que indicam que seremos ultrapassados pela Hungria em 2027, caindo para o 23.º lugar. O crescimento de que se gabavam era fumo estatístico. Descontada a inflação, o nível de vida real dos portugueses cresceu uns humilhantes 0,3% ao ano entre 2019 e 2025. Toda a “bazuca” e o PRR foram devorados pelo aumento brutal do custo de vida.
Uma democracia madura não pode viver de amnésias seletivas nem de malabarismos estatísticos. Quem governa tem o direito de defender as suas opções, mas tem o dever imperativo de responder pelas suas consequências. António Costa e Mário Centeno não nos entregaram um país mais rico, entregaram um país viciado em anestesia política, especializado em salários baixos e que expulsa os seus jovens mais qualificados por total falta de perspetivas. É hora de exigir responsabilidade a quem passou anos a vender-nos um oásis que, afinal, era apenas um deserto mal medido.