(c) 2023 am|dev

(A) :: Do caminho, como metáfora de uma nação

Do caminho, como metáfora de uma nação

O destino, afinal, não é ali; é sempre mais lá, é sempre mais além.

Fernando Magalhães
text

Muito diversas podem ser as figuras geométricas associadas à História, incluindo a de uma nação. Recta, como sucessão contínua de pontos; com princípio e fim, por definição. Círculo, sugerindo a repetição do que, tendo sido, há de ciclicamente tornar a ser. Espiral, sugerindo a junção do melhor das duas anteriores, no que tem de sucessão, mas em circularidade que não se repete; antes se amplia, ainda que com possibilidade de o fazer de modo ascendente ou descendente. Ou etc.

Facto é que qualquer uma destas figuras, ou de tantas outras que podíamos sugerir para representar a História, aproxima-nos, pelas suas trajectórias gráficas, da noção de caminho. É esta noção que, aqui, hoje, queremos trazer, na celebração preparada dos 900 anos, como metáfora de uma nação. Esta ou outra.

Quem faz o caminho? O que constrói a estrada ou o que a percorre?

O caminho é sempre lugar de viandantes. A nós se os temos como estranhos ou se os queremos como hóspedes.

Nem sempre o caminho é plano. Quantos tiveram de o fazer, nesta história, a salto e quantos a fizeram de assaltos.

O que se guarda são memórias do caminho. As que se escrevem, em literatura de viagem, as que se imortalizam, em épico canto, as que se registam, em diário de letras ou imagens, ou simplesmente as que se calam.

O que conta? O destino? Ou o percurso basta?

São os nómadas que o fazem ou os sedentários que os vêem passar? Quem terá a legitimidade para dizer a história do caminho?

Um caminho fazendo o fora como se fora cá dentro.

Quem levo comigo no caminho? Os de sempre, os leais, os que se vendem, os fortes, os poetas, os edificadores, os ascetas, os mercenários, os que se bastam?… Quem levo?

Aceito espanto e imprevisto no caminho. Eles são condição para ver no caminho o que está para lá dele e ninguém viu. Descoberta e achamento.

Que medos os do caminho? Os do desconhecido, do salteador, do assalto, do engano? Ou o de que nada aconteça, o terrível temor de que nada me aconteça?

Em que albergues me disponho a ficar? Nos que conhecem nome e classe oficial, em número bastante, e que a lei controla? Nas portas que por mãos ignotas se me abrem, em número menor? Ou nas bermas que abundam e não me faltam nunca?

Que peregrinar posso eu fazer se todos os templos no caminho santo que percorro estão de portas fechadas e não posso entrar? De céu sem terra apenas viverei? Ao céu, sem terra, chegarei?

De mapa feito ou livre, à descoberta; com o astro sol no dealbar do dia, no ocaso do seu entardecer ou no pico do seu calor; com os graus que me dizem o lado, o longe e o alto; leio cartas de outros ou sou cartógrafo no caminho que percorro?

Melhor o caminho que se faz no trilho ou fora dele?

E a paisagem? Que lugar tem ela no caminho? É moldura ou parte dele?

Em qualquer caminho, neste ou noutro.

Se o caminho é bom, como posso não convencer outros para o caminho, como posso privar outros do caminho, como posso fazer do caminho só meu?

De encontros e desencontros; disso é feito o caminho; e não é mal.

De onde, onde, por onde, para onde; exigente busca de sentido no caminho.

Caminhar na absoluta dependência dos outros, na certeza de que ninguém se basta.

O que escolho levar para o caminho – obrigatoriamente pouco; é o que me cabe na mochila – não é lição de frugalidade; é antes pergunta pelo essencial; que exercício de verdade; fazer a mochila é, por isso, já caminho!!! Sempre em liberdade, em mais liberdade!

E como dizer que aquele chegou primeiro ao fim do caminho, se os meios dele são diferentes dos seus demais; para que o pódio seja justo, há de ser o da equidade, o da inclusividade.

Fazer-se a caminho… como se tivesse sido uma promessa a ditar o imperativo de partir.

E o milagre na origem? Não é, antes, o caminho lugar de milagres? Não é, antes, o caminho o próprio milagre?

O caminho é conversão da pequenez do lugar em imensidão de tudo.

É caminho também o regresso; a saudade é, afinal, movimento de volta.

A intencional delonga, a demora, a lentidão; que lições do caminho para os dias que correm.

Palavra e silêncio, memória e desejo. Destas alternâncias é feito o equilíbrio do caminho.

Saber que alguém me espera; é de luzes como esta que se faz o caminho.

É no partir, no ir e no chegar que se há de buscar, encontrar e reforçar a identidade: a do que caminha, a do próprio caminho. No caminho, a procura de si, faz-se num si em saída, em caminho.

O destino, afinal, não é ali; é sempre mais lá, é sempre mais além.

Neste e em qualquer caminho. Também no caminho desta nação.

[Os artigos da série Portugal 900 Anos são uma colaboração semanal da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. As opiniões dos autores representam as suas próprias posições.]