Há folhas de exame ilegíveis ou em branco (porque a digitalização falhou), composições que ficaram a meio (porque as folhas de continuação desapareceram) e professores de Economia A a receber respostas sobre José Saramago. A correção dos exames nacionais não tem corrido bem e prova disso são os mais de 200 testemunhos que se registaram na plataforma MetaPROF em três dias. Os professores estão preocupados, e por isso os gestores da plataforma disponibilizaram-se para ajudar gratuitamente o EduQA (Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação) e o Júri Nacional de Exame (JNE) a resolver “o caos”. Mas ficaram sem resposta.
O problema começou a 23 de junho, dia em que todos os professores classificadores deviam ter recebido os itens (as respostas dos alunos aos exames) para corrigir. Este ano, todos os exames nacionais foram digitalizados e a correção é feita num género de “linha de montagem”: cada classificador recebe várias respostas para corrigir, sendo que todas são alusivas à mesma pergunta. O problema é que, cerca de dois dias depois da data definida para o início dessa fase do processo, os professores e movimentos como a Missão Escola Pública começaram a alertar para o facto de os corretores ainda não terem tido acesso aos itens que deveriam corrigir.
Menos de uma semana depois, a 28 de junho, foi criado no site da MetaPROF um espaço para que os professores partilhassem relatos da situação por que estão a passar este ano. A plataforma — que é descrita pelos gestores como um “espaço dedicado à divulgação de ações de luta, resistência e reivindicação, criado para e por professores” — reunia até esta quarta-feira, às 16h16, 225 testemunhos.
E as novas queixas não param de cair na plataforma. É que, apesar de alguns docentes terem recebido os itens a corrigir, a seguir depararam-se com inúmeras falhas no sistema, tal como aconteceu no ano passado com o exame de Filosofia, que teria sido usado como base de um projeto-piloto para preparar a correção de exames nacionais deste ano. “Professora do grupo de Português com acesso a grelhas da prova de Geometria Descritiva A”, relatava uma corretora às 18h31 de dia 28 de junho. Pouco depois, alguém que se apresenta como professor colocado numa escola de Setúbal contava: “Dos 84 itens, 16 correspondem a folhas totalmente em branco.”
Os relatos multiplicam-se. Há um professor que conta que a primeira folha de respostas ao exame que lhe foi entregue foi preenchida por um aluno e “a folha de continuação” da prova é de outro aluno. “Percebe-se claramente pela caligrafia e pelo facto de os textos não apresentarem qualquer ligação lógica”, diz. A mesma queixa é feita por outros docentes, muitas vezes alusiva à composição na prova de Português: “No Grupo III do exame 639 [Português] tenho uma composição incompleta, isto é, sem folha de continuação, o que impede a classificação.”
Na plataforma da MetaPROF, uma professora de Lisboa relatava ter sido “convocada para a correção do exame de MACS pela escola do ano letivo passado”. E outra dizia lecionar “2.º e 3.º ciclos há 35 anos”, mas ter sido surpreendida este ano: “Nunca lecionei o secundário e recebi questões para corrigir. O pior é que não consigo aceder às respostas enviadas. Aparecem folhas em branco.” Noutro caso, uma professora dizia ter sido “convocada para corrigir duas provas diferentes em simultâneo”.
Os relatos não ficam por aqui. Um professor de Economia contou que, ao aceder aos itens que tinha por corrigir, se deparou com respostas de Português. “Quando se pede para enunciar a Lei de Engel, o aluno responde com Saramago.” E o contrário também aconteceu: “Professora de Português, recebi folhas de resposta do exame de Economia A. Isto é de uma gravidade imensa.”
Por entre as centenas de testemunhos, houve ainda professores corretores a relatar a total ausência de respostas quando se dirigem ao Júri Nacional de Exames com pedidos de ajuda. “Tenho acesso, na plataforma, a muitas respostas sem folha de continuação e até um caso em que a folha de continuação tem uma caligrafia diferente! Colocamos estas irregularidades no fórum, mas ninguém nos responde!!! É desesperante!!”, escrevia um professor do Algarve às 14h41 de dia 30 de junho.
Há, aliás, referências recorrentes às dificuldades dos corretores para obter apoio — ou sequer resposta — do Júri Nacional de Exames (JNE). De acordo com os docentes, sempre que conseguem chegar à fala com alguém do organismo, ou com elementos do seu próprio agrupamento, a resposta é igual: dizem-lhes para terem “paciência” e “ir tentando” (nos casos em que a plataforma não funciona devidamente).

Mas as dificuldades começaram ainda antes da correção das provas. Dois dias depois da suposta data em que teria início essa correção, o JNE garantia, em comunicado, que as provas seriam entretanto distribuídas aos professores. Neste momento, ainda estão por distribuir exames realizados pelos alunos — e a data para conclusão das correções mantém-se, como estava inicialmente calendarizado, para o dia 10 de julho.
De acordo com o levantamento realizado pelo Observador na plataforma da MetaPROF, só neste dia 1 de julho — o mesmo dia em que o ministro Fernando Alexandre foi ouvido numa audição regimental — até às 16h15 havia 56 professores a dizer que ainda não tinham recebido os itens para correção ou não conseguiam aceder à plataforma (pelo que não conseguiam ver se já tinham recebido as provas).
“Recebi a convocatória para corrigir provas de Português no dia 26 [de junho]. Até ao dia de hoje, 11h30, não consegui descarregar as provas. Vou colocar atestado médico. Não aguento esta situação”, escrevia uma professora de Setúbal. Professores de outras regiões como Porto e Braga também escreviam que continuavam sem acesso a provas.
https://observador.pt/2026/07/01/nunca-nenhum-aluno-sera-prejudicado-na-classificacao-dos-exames-nacionais-garante-fernando-alexandre-no-parlamento/
Testemunhos são validados um a um pelos dois professores coordenadores da MetaPROF
Ainda assim, apesar desta situação, o responsável pela pasta da Educação garantiu no Parlamento esta quarta-feira que serão cumpridos os prazos delineados: dia 10 de julho, a correção tem de ser enviada pelos agrupamentos para o JNE e dia 14 de julho as pautas serão afixadas para todos os alunos. Se isto não acontecer, e for necessário alterar o calendário, Fernando Alexandre já tem posição ensaiada: “Obviamente, terá de haver responsabilidades.” E o ministro já terá alvo definido.
Na audição parlamentar, Fernando Alexandre diz ter questionado, “desde a primeira hora”, o EduQA sobre se necessitava “de mais recursos, de apoio técnico” para conseguir dar uma resposta eficaz na correção de exames. “Numa fase inicial, disseram que não. Depois aceitaram. Nós não interferimos nas decisões do EduQA. Quando vimos que os prazos se estavam a tornar mais difíceis de cumprir, insistimos. O presidente [do instituto] comunicou ontem [terça-feira] que conseguia cumprir os prazos”, disse Fernando Alexandre. E acrescentou que no final, “a responsabilidade de cada entidade será avaliada”.
Nesta audição, o governante desvalorizou também todas as queixas feitas pelos professores corretores na internet ou pelos sindicatos e movimentos, dizendo que esses relatos não se verificam — algo que já tinha afirmado na passada segunda-feira, quando prestou pela primeira vez declarações sobre o tema.
O Ministério da Educação pede “sempre ao Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação (EduQA) e ao Júri Nacional de Exames (JNE) que estejam atentos a todas as comunicações que são feitas, para verificar se são verdadeiras ou falsas. A maioria é falsa”, garantiu o ministro. E ainda acrescentou que, quando há anomalias pontuais, “depois são corrigidas”. Já no que toca a erros de convocatória (por exemplo, professores que já não estão numa determinada escola), Fernando Alexandre redefiniu a mira e atirou responsabilidades aos próprios diretores escolares.
Os professores responderam ao ministro. E fizeram-no para desmentir o ministro da Educação, num esclarecimento publicado na plataforma da MetaPROF onde se lê que “nenhum testemunho é publicado sem moderação” dos gestores da página. “Cada relato é revisto por professores do MetaPROF, pode incluir prova documental anexa (convocatórias, capturas de ecrã, comunicações oficiais), e o autor deixa sempre um contacto verificado, nunca publicado”, garantem, explicando que todos os testemunhos são publicados de forma anónima porque existe algum receio de eventuais represálias.
https://observador.pt/2026/07/01/exames-nacionais-professores-desmentem-ministro-sobre-testemunhos-falsos-e-garantem-que-todos-os-relatos-sao-verificados/
Em declarações ao Observador, o coordenador da MetaPROF explica que quando um professor entra na plataforma para partilhar o seu testemunho, “é logo convidado a preencher pontos, como: quem é, que tipo de problema registou, região (distrito) e grupo de recrutamento”, diz Pedro Brito. E depois pode associar uma prova documental (como capturas de ecrã) e, se desejar, o nome.
“O desenvolvimento da plataforma é da minha responsabilidade” e de outra colega, revela. São ambos professores e criaram a MetaPROF nos seus “tempos livres”. Agora, são também os responsáveis por validar e aceitar — a um e um — cada testemunho recebido.
Pedro Brito explica que na plataforma interna, onde são registadas todas as queixas, têm os testemunhos divididos entre “pendentes, aprovados, rejeitados e total”. “Temos muitos rejeitados, porque apesar de aquela ser a expressão do que os professores sentem, não sentimos a solidez necessária” naqueles testemunhos para os publicar, diz, dando como exemplo o uso de emails “estranhos” que “não correspondem à formulação necessária”.
Depois, o passo seguinte é cruzar informação. “Há colegas que às vezes colocam referências que nos permitem cruzar dados e concluir que é verosímil e que devemos publicar o testemunho.” A lógica é simples: “Se o testemunho for robusto, publicamos.” Além disso, como “muitos têm documentos agregados (prints), torna tudo mais sólido”, salienta o coordenador da plataforma.
MetaPROF disponibiliza-se a ajudar EduQA e JNE “perante o caos”
Apesar de esta quarta-feira o ministro ter desvalorizado as queixas dos docentes, na noite anterior o EduQA enviava uma mensagem interna a todos os professores corretores na qual assumia problemas e elencava algumas orientações a seguir nesses casos, entre as quais ligar diretamente ao presidente do Júri Nacional de Exame.
“Cientes de que nem todos os problemas estarão resolvidos, deverão ser seguidas as orientações seguintes:
• Proceder ao levantamento dos problemas que possam subsistir, nomeadamente ausência de itens atribuídos, ausência e/ou troca de folhas de continuação, folhas em branco, itens que integram provas de outros códigos;
• Identificar o item em que se coloca o problema e o número da resposta antecedido de cardinal;
• Enviar todas essas ocorrências, com a indicação do número de classificador, para [email].
O presidente do Júri Nacional de Exames solicita que, caso seja identificada alguma desconformidade no que se refere aos constrangimentos ou à pontuação atribuída aos itens (níveis ou total), lhe telefonem”, conclui a mensagem do EduQA.
https://observador.pt/especiais/exames-de-filosofia-podem-estar-mal-corrigidos-professores-receberam-respostas-trocadas-e-cortadas-a-meio-iave-nao-deu-apoio/
A comunicação interna, a que o Observador teve acesso, levou a que esta quarta-feira, já depois da audição de Fernando Alexandre no Parlamento, a MetaPROF tivesse enviado um comunicado a disponibilizar-se para assistir o EduQA e o JNE. “Perante o caos reportado por centenas de professores classificadores em todo o país, a MetaPROF vem, por este meio, colocar à disposição a sua experiência técnica e operacional para ajudar a resolver uma crise que, manifestamente, estas entidades não estão a conseguir solucionar”, lê-se no longo documento.
“Sabemos que pode soar invulgar: um movimento cívico — sem orçamento, contratos públicos ou consórcios de universidades — disponibilizar-se para ajudar entidades contratadas pelo Estado para garantir a classificação rigorosa e atempada de 160 mil provas. Mas a realidade dos factos não deixa margem para dúvidas… A MetaPROF construiu, em poucas horas e com recursos próprios, uma plataforma pública de recolha, validação e visualização de testemunhos, equipada com painel de moderação, analítica própria e cronologia documentada do processo”, escrevem os gestores desta plataforma.
A ajuda oferecida reparte-se por três frentes: os gestores da MetaPROF propõem-se a disponibilizar um “canal estruturado de reporte de incidentes, substituindo o atual sistema de ‘telefone ao presidente’ por um processo auditável, transparente e rastreável”; a apoiar no processo de “sistematização e categorização dos erros, permitindo uma resposta coordenada e célere”; e, por último, a partilhar a sua própria “experiência no tratamento de dados, assegurando o respeito integral pela confidencialidade e pelas normas de proteção de dados aplicáveis.”
Contudo, até ao momento — e à semelhança do que os responsáveis da MetaPROF garantem ter acontecido de cada vez que esta plataforma partilha dados com o Ministério da Educação —, não receberam “resposta de ninguém”, garante Pedro Brito ao Observador.









