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Wagner Moura: “Havia uma época em que as pessoas tinham vergonha de ser racistas, homofóbicas e misóginas. Essa época era ótima”

Em Lisboa para uma peça no CCB esta semana, o ator brasileiro falou de pós-verdade, democracia e eleições presidenciais: “Preocupa-me que Bolsonaro ganhe de novo essa eleição. Seria uma tragédia".

Joana Moreira
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Marisa Cardoso
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O pretexto era o teatro. A peça chama-se Um Julgamento – depois do Inimigo do Povo, estreia-se esta semana em Lisboa e marca o regresso de Wagner Moura aos palcos após quase duas décadas de ausência. Mas, a pouco mais de três meses para as eleições presidenciais brasileiras, a conversa acabou inevitavelmente por sair do palco.

“Preocupa-me que [Flávio] Bolsonaro ganhe de novo essa eleição. Seria uma tragédia para o país”, afirmou Wagner Moura esta quarta-feira, durante a conferência de imprensa de apresentação do espectáculo de Christiane Jatahy, que sobe ao palco do Centro Cultural de Belém.

Quando questionado sobre o que o preocupa no seu país de origem, que vai a votos no próximo dia 4 de outubro, o ator não poupou críticas ao filho mais velho do ex-presidente brasileiro, Flávio Bolsonaro, pré-candidato à presidência: “A prova de que os factos não importam mesmo é que ele mês após mês se envolve num caso de corrupção. Se isso tivesse acontecido há 20 anos ‘acabou a candidatura de um cara desses’. É perigoso”.

O ator brasileiro diz-se “preparado” para o que espera seja uma mobilização massiva da sociedade civil nas eleições presidenciais. “A gente tem de se mobilizar, a sociedade civil brasileira tem de se mobilizar para Lula ganhar essa eleição. Porque a perspetiva de ele ganhar… A minha expectativa é que o apoio de Trump a favor do Bolsonaro saia pela culatra. Como já houve no Brasil… Cada vez que ele interfere na política brasileira o efeito é o contrário. Mas que eles vão entrar com tudo na eleição do Brasil, vão”, sentenciou.

Perante a imprensa portuguesa, o ator, que nos últimos anos alcançou destaque internacional depois de protagonizar os filmes Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, falou repetidamente da erosão do espaço público, da polarização política e da crescente dificuldade em estabelecer uma base comum de factos. Questões não exclusivamente brasileiras, mas fenómenos globais.

“A verdade acabou e isso assusta-me”, disse, referindo-se à peça com ecos da realidade. “Talvez tenha sido uma das coisas que mais me deu vontade de discutir. Esta ideia da pós-verdade, a ideia de que os factos já não importam.” Para Moura, a transformação do debate público nos últimos anos tornou mais difícil qualquer forma de diálogo. “Lembro-me de uma época em que a direita e a esquerda brigavam e discutiam, mas estavam a ver as mesmas coisas. Hoje vivemos em bolhas de realidade. As realidades são outras. Isso dificulta que as pessoas consigam relacionar-se.”

Numa das intervenções mais contundentes, lamentou aquilo que considera ser a normalização de discursos discriminatórios. “Havia uma época em que as pessoas tinham vergonha de ser racistas, de ser homofóbicas, de ser misóginas. Essa época era ótima.”

A preocupação com o estado da democracia atravessou grande parte da conferência de imprensa, onde também estavam presentes Serge Rangoni, diretor artístico do CCB para as Artes Performativas, a encenadora Christiane Jatahy e os atores Danilo Grangheia e Julia Bernat. Moura fez questão de defender o papel do jornalismo num momento em que a informação circula cada vez mais através das redes sociais e de aplicações de mensagens. “O trabalho do jornalista é fundamental”, afirmou. “As pessoas informam-se através das redes sociais, através do WhatsApp. Por muitos problemas que existam, o jornalismo continua a ser um lugar onde as pessoas estudaram para fazer fact-checking, para ouvir os dois lados. Há uma responsabilidade com a verdade.”

Tanto o ator como a encenadora regressaram várias vezes ao tema do diálogo, com Jatahy a lamentar “a ascensão da extrema-direita em Portugal” e os episódios de “violência contra imigrantes”, mas insistiu que o debate democrático exige capacidade de escuta. Tal como Wagner Moura: “Sou uma pessoa de esquerda. Mas há muitas perguntas que uma direita civilizada faz e que eu quero ouvir.”

A defesa da profissão não surgiu por acaso. Não só Wagner estudou jornalismo como um dos protagonistas de Um Julgamento é precisamente um jornalista, ainda que apresentado de forma pouco lisonjeira. Ainda assim, Moura insistiu que o momento exige uma defesa clara do papel dos media. “Hoje vivemos um momento em que é preciso defender o jornalismo”, insistiu, mostrando-se incrédulo com a crescente concentração de poder económico sobre os meios de comunicação, apontando o caso do Washington Post. “Acho uma loucura o Jeff Bezos ser dono do Washington Post e centenas de jornalistas serem despedidos na mesma época em que a Amazon lança um documentário sobre Melania Trump.”

Um tribunal sobre a verdade

Um Julgamento – depois do Inimigo do Povo nasce a partir do clássico de Henrik Ibsen, publicado em 1882, mas não é uma adaptação convencional. “Não é uma adaptação. É um novo texto”, explicou Christiane Jatahy, encenadora que torna a Portugal depois de ter apresentado Depois do Silêncio, em 2024. “É um dos possíveis ‘depois’ de Um Inimigo do Povo. Noventa por cento da peça é texto novo.”

A encenadora brasileira, uma das figuras mais reconhecidas do teatro contemporâneo internacional, revelou como o projeto começou a ganhar forma a partir de uma pergunta lançada a Wagner Moura. “O que é que do mundo te está a atravessar agora? O que é que queres falar? O que é que queres dizer?”. O ator devolveu-lhe a questão. “O que é que estás a ler?”, perguntou-lhe. A partir desse diálogo iniciou-se um processo criativo que durou cerca de dois anos.

Jatahy admitiu que inicialmente resistiu à ideia de trabalhar sobre o texto de Ibsen. O que a atraía eram outros temas: a família, a relação entre irmãos, a ideia de duplo. “Como é que a polarização pode romper uma família?”, recordou. Mas acabou por reconhecer que o texto, que há muito apaixonava Wagner Moura, continha precisamente as perguntas que procurava. “Não me interessava trazer respostas. Interessavam-me as perguntas que ele convoca.”

A peça recupera a figura de Thomas Stockmann, o médico que denuncia a contaminação das águas da sua cidade e acaba isolado pela comunidade. Quase um século e meio depois da obra original, a história é usada para discutir a crise da verdade, a polarização política, a questão ambiental, a dependência económica de determinados setores, a manipulação da informação e o avanço de discursos autoritários. “A questão climática é fundamental e não está na pauta do mundo”, observou Moura.

Ao mesmo tempo, a peça questiona algo que atravessa muitas democracias contemporâneas: o que acontece quando alguém acredita que a sua convicção moral deve prevalecer sobre as consequências sociais das suas ações? Uma das perguntas colocadas regularmente pelos jurados ao protagonista resume esse dilema: “Porque acha que o seu imperativo moral é mais importante do que a vida das pessoas que podem ficar sem trabalho?”

Moura reconheceu que se trata de uma questão desconfortável, sobretudo para setores progressistas. “É um dos calcanhares de Aquiles da esquerda”, afirmou, referindo-se à dificuldade de comunicar com setores populares sem cair numa postura de superioridade moral. Tanto o ator como a encenadora regressaram várias vezes ao tema do diálogo, com Jatahy a lamentar “a ascensão da extrema-direita em Portugal” e os episódios de “violência contra imigrantes”, mas insistiu que o debate democrático exige capacidade de escuta. Tal como Wagner Moura: “Sou uma pessoa de esquerda. Mas há muitas perguntas que uma direita civilizada faz e que eu quero ouvir.”

Onze espectadores decidem o fim da peça

A grande originalidade do espetáculo está, porém, na forma. Em cada apresentação, onze espectadores são escolhidos para integrar um júri que decide o destino da personagem interpretada por Wagner Moura.

A ideia surgiu da vontade de transformar o teatro num espaço de julgamento público. “Um pouco como acontece hoje nas redes sociais”, observou Jatahy, “onde toda a gente é juiz.” Antes de entrarem na sala, dezenas de espectadores recebem pulseiras que os tornam elegíveis para integrar o júri. Mais tarde, os nomes são sorteados de forma aleatória. “Distribuímos mais pulseiras do que o número de jurados que vão subir ao palco”, explicou o ator. “Depois fazemos um sorteio aleatório que pode ser auditado.”

Os jurados acompanham o espetáculo a partir do palco, podem formular perguntas por escrito e participam na deliberação final. O resultado muda de noite para noite. “Consenso nunca há”, garantiu o ator. Tal como tem acontecido em cada local em que a peça é levada à cena, há um coordenador do júri local: em Portugal será a atriz Cleo Tavares.

É a imprevisibilidade do júri que interessa particularmente a Jatahy, cuja obra tem explorado repetidamente as fronteiras entre teatro, cinema e participação do público. “A quarta parede caiu há muito tempo”, afirmou. “A questão agora é perceber o que fazemos com um espectador que está tão presente.”

O espetáculo combina representação ao vivo e imagem filmada, outra das marcas da encenadora. Em palco estão Wagner Moura, Danilo Grangheia e Julia Bernat. Nas projeções surgem Marjorie Estiano, Jonas Bloch e Salvador Moura.

Wagner Moura: “Quando volto ao teatro é como se houvesse um reboot no meu ADN”

A apresentação serviu também para assinalar um regresso particularmente significativo para Wagner Moura. Apesar do reconhecimento internacional alcançado nos últimos anos através do cinema e da televisão, Moura continua a definir-se, antes de mais, como um homem de teatro. “Considero-me um ator de teatro”, disse, recordando a formação em Salvador da Bahia e os obstáculos encontrados no início da carreira. “Havia muito preconceito com atores nordestinos. Um ator nordestino era frequentemente relegado para papéis periféricos.”

A última vez que tinha subido ao palco foi em 2009, numa produção de Hamlet, experiência que descreveu como “muito potente”. Por isso, o reencontro com o teatro teve um significado especial. “O teatro é um compromisso muito importante e sagrado para mim. Eu só faço quando aquilo me mobiliza muito.”

E acrescentou: “Quando volto ao teatro é como se houvesse um reboot no meu ADN. É uma ligação muito forte à natureza daquilo que é ser ator.” O reencontro com Christiane Jatahy ajudou a tornar esse regresso inevitável e o resultado chega agora a Lisboa, com récitas há muito esgotadas.