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(A) :: Cresce a presença das mulheres na cúpula da Igreja. Papa Leão XIV nomeia freira e economista italiana para chefiar dicastério

Cresce a presença das mulheres na cúpula da Igreja. Papa Leão XIV nomeia freira e economista italiana para chefiar dicastério

Já são três os dicastérios da Cúria Romana chefiados por uma mulher. A freira italiana Alessandra Smerilli, economista de formação, vai liderar o organismo responsável pelo desenvolvimento humano.

João Francisco Gomes
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Dando continuidade a um processo iniciado pelo Papa Francisco, o Papa Leão XIV está a reforçar a presença de mulheres nos mais altos cargos da hierarquia da Igreja Católica, com as nomeações, no espaço de apenas um mês, de duas mulheres para o cargo de prefeitas de dois dicastérios da Cúria Romana.

Esta terça-feira, Leão XIV nomeou a freira italiana Alessandra Smerilli para o cargo de prefeita do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, o organismo da Santa Sé responsável por temas como a justiça e a paz, as migrações, a saúde, as alterações climáticas e outros assuntos relacionados com os direitos humanos.

Alessandra Smerilli, de 51 anos, freira salesiana, é economista e professora universitária em Milão. Doutorada em Economia, tem dedicado a sua vida académica aos temas da justiça social, da economia civil e da inclusão. Até agora, Smerilli era a secretária daquele dicastério — a expressão usada para designar, no governo da Igreja Católica a nível global, aquilo que se poderia equiparar aos ministérios de um governo convencional.

No início do mês, Leão XIV tinha feito história ao nomear a jornalista mexicana Maria Montserrat Alvarado para o cargo de prefeita do Dicastério para a Comunicação, organismo responsável por supervisionar toda a presença mediática da Santa Sé. Aquele dicastério era, até agora, liderado pelo jornalista italiano Paolo Ruffini, que tinha sido nomeado pelo Papa Francisco numa decisão igualmente histórica de escolher, pela primeira vez, um leigo e não um bispo ou cardeal para chefiar um dicastério.

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Smerilli junta-se, agora, a outra religiosa italiana, Simona Brambilla, que o Papa Francisco nomeou em janeiro de 2025 para o cargo de prefeita do Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica. Brambilla foi a primeira mulher na história a ser escolhida para liderar um dicastério da Cúria Romana. São já três os “ministérios” do governo universal da Igreja Católica a ser liderados por mulheres.

Além destas três mulheres, Francisco e Leão XIV colocaram várias outras mulheres em altos cargos e em posições executivas no Vaticano e na Cúria Romana. A freira franciscana Raffaella Petrini foi escolhida em 2025 por Francisco para o cargo de governadora do Estado da Cidade do Vaticano, sendo a primeira mulher a ocupar o cargo. Mais recentemente, Leão XIV nomeou a religiosa Tiziana Merletti para o cargo de secretária do dicastério de Simona Brambilla — organismo que tem agora mulheres nos dois cargos mais elevados.

Outros exemplos incluem a irmã Nathalie Becquart, subsecretária da Secretaria-Geral do Sínodo dos Bispos (cargo que lhe deu o privilégio de ser a primeira mulher com direito de voto naquele organismo), a jurista italiana Francesca Di Giovanni, que é a subsecretária para o Setor Multilateral da Secção para as Relações com os Estados da Secretaria de Estado (o que corresponderia a uma secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros num governo convencional).

As sucessivas nomeações de mulheres para altos cargos da Cúria Romana surgem num contexto de crescente polarização no interior da Igreja Católica. Ao mesmo tempo que, na Alemanha, os bispos católicos têm sido acusados de colocarem a Igreja em risco de cisma devido a posições consideradas ultraprogressistas (incluindo a bênção de casais de pessoas do mesmo sexo, a defesa da possibilidade de os leigos fazerem homilias nas missas), do lado ultraconservador vive-se uma radicalização crescente, que teve como expoente máximo a consumação de um cisma por parte da Fraternidade Sacerdotal de São Pio X, que esta quarta-feira ordenou quatro bispos tradicionalistas sem autorização de Roma.

No contexto desta polarização, o lugar das mulheres na Igreja e a possibilidade de acesso a cargos de liderança tem sido um dos temas mais controversos — particularmente porque a Igreja Católica continua a recusar a possibilidade da ordenação de mulheres. O Papa Francisco ainda ensaiou uma abordagem ao assunto, convocando duas comissões para estudar sob uma perspetiva histórica o papel das mulheres diaconisas nos primeiros séculos do Cristianismo, mas o debate sobre a ordenação diaconal, presbiteral ou episcopal de mulheres parece, para já, encerrado.

Surge, então, outro problema: até que ponto é que o poder para exercer cargos de autoridade na Igreja está ou não ligado ao sacramento da ordem. Até há menos de uma década, a nomeação de bispos ou cardeais para os cargos de topo da Cúria Romana era a regra, uma vez que, na Igreja, o exercício do poder de jurisdição está tradicionalmente associado à ordem episcopal (aos bispos). Foi Francisco que começou a transformar esta realidade — e Leão XIV está a dar continuidade ao processo.

Relativamente ao debate em torno da ordenação de mulheres, o Papa Francisco preferiu sempre outra abordagem: em vez de clericalizar as mulheres, o caminho certo deveria ser o de desligar o poder e a autoridade da condição clerical. Por outras palavras, antes de permitir que as mulheres fossem ordenadas, era preciso deixar de exigir que alguém fosse ordenado para exercer o poder na Igreja Católica.

Contudo, as nomeações de algumas mulheres para cargos de prefeitas de dicastérios significam, na prática, que há mulheres a mandar em bispos. Pense-se, por exemplo, no caso de Simona Brambilla, a prefeita do dicastério responsável por supervisionar as ordens religiosas: ela é a dirigente máxima do dicastério e uma decisão relacionada, por exemplo, com a demissão do estado clerical de um padre ou de um bispo de determinada ordem religiosa teria necessariamente de passar por ela. Isso criaria um problema, uma vez que, teoricamente, essa decisão teria de ser assinada por um bispo.

Muito provavelmente, esta terá sido a razão que levou o Papa Francisco a criar um novo cargo quando nomeou Simona Brambilla prefeita do Dicastério dos Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica: o de “pró-prefeito”, uma espécie de adjunto. Para esse cargo, Francisco nomeou o cardeal Ángel Fernández Artime, que é formalmente um bispo. Não são exatamente claras as razões que levaram Francisco a tomar esta decisão, mas a explicação mais direta é a de que o Papa argentino quis, desde logo, garantir que o complexo debate em torno da jurisdição não seria uma arma de arremesso para os seus opositores virem impugnar decisões da prefeita: basta que o pró-prefeito também assine os documentos para que a autoridade episcopal esteja associada a todas as decisões.

Agora, o Papa Leão XIV fez o mesmo com a nomeação de Alessandra Smerilli, escolhendo o cardeal Fabio Baggio para o cargo de pró-prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral. Os dois vão iniciar as novas funções no dia 1 de setembro.