O Amália — o assistente multimodal automático de linguagem com inteligência artificial (IA) — foi apresentado esta quarta-feira, após a conclusão da última fase de desenvolvimento.
O modelo de IA desenvolvido em Portugal, a falar português europeu, foi dado como um exemplo de reforço da soberania digital. Apresentado em novembro de 2024, o Amália é agora disponibilizado em código aberto, com casos de uso que vão desde a administração pública até às empresas.
O Amália foi desenvolvido ao longo de 18 meses com um orçamento de 5,5 milhões de euros. Manuel Dias, CTO do Estado e diretor da ARTE — Agência para a Reforma Tecnológica do Estado —, explicou que o modelo entrará agora numa próxima fase.

A evolução do Amália passará pela inclusão de capacidades de agentificação e também pelo reforço dos parâmetros. Os parâmetros são as unidades que permitem medir a dimensão de um modelo de IA — a ideia é que, numa próxima fase, possa chegar aos 22 mil milhões de parâmetros.
Para acompanhar esse reforço de capacidades, a nova fase tem previsto um investimento adicional de 1,5 milhões de euros “para a evolução do modelo e infraestrutura soberana”. A nova fase de evolução do Amália está prevista para 2027.
Enquanto isso não acontece, o Amália será progressivamente integrado em serviços públicos, a começar por assistentes digitais para atendimentos aos cidadãos.
Durante a apresentação do modelo, Manuel Dias revelou que também foi lançado o IA.gov, o portal de IA da administração pública portuguesa. A ideia é que este site possa ser “a porta de entrada para todas as soluções nacionais com IA” — incluindo o Amália.
O site inclui os vários casos de uso do modelo desenvolvido em Portugal. Por exemplo, o assistente virtual no Gov.pt, para responder a questões de cidadãos e empresas, ou a plataforma para explorar museus e monumentos portugueses. Há, para já, provas de uso feitas nas áreas da educação, ciência, cultura e museus, media, turismo e história.
https://observador.pt/especiais/inteligencia-artificial-vai-aprender-portugues-para-que/
O modelo de linguagem Amália foi desenvolvido por mais de 60 investigadores da área da IA, linguística computacional e engenharia informática, da Universidade Nova de Lisboa, Instituto Superior Técnico, Universidade de Coimbra, Universidade do Porto, Universidade do Minho e também da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT).
Amália é “sinal de esperança e confiança” que “alguns diziam ser irrealizável”, disse Montenegro
Coube a Luís Montenegro encerrar a apresentação do Amália, afirmando que a conclusão dos trabalhos do modelo representa “um sinal de esperança e confiança”. “É muito gratificante sentir que, com investigadores portugueses, conhecimento português, fomos capazes de colocar à disposição do país” um modelo de IA “que habilita a podermos enfrentar os próximos tempos e as próximas décadas com maior autonomia, soberania e menos dependência”.
“Alguns diziam que era irrealizável, nomeadamente na questão do timing”, afirmou o primeiro-ministro. Quando foi apresentado, em 2024, foram levantadas questões sobre o horizonte temporal do projeto. Concluída esta fase dos trabalhos, o primeiro-ministro destacou que prevaleceu a “cultura do risco”, afirmando que “quem não arrisca, não petisca”.
Do ponto de vista de Montenegro, há que “discutir menos e fazer mais, discutir o suficiente mas fazer”. O primeiro-ministro considerou que “é mais importante tentar do que adiar” e que “é preciso tentar e eventualmente falhar”.
O primeiro-ministro realçou que a “autonomia estratégica da Europa está hoje talvez mais dependente do que nunca neste tema que é a IA”. Neste momento, os principais desenvolvimentos na área vêm ou dos EUA ou da China. Montenegro declarou que é preciso que “a autonomia europeia” exista para “garantir que não ficamos expostos a tensões que não dependem de nós”.
“Não há como dizer de outra maneira: estamos dependentes”, afirmou. Com o Amália, “estamos a dar um pequeno passo para colmatar” essa dependência. Enumerou os “pequenos passos” na IA que estão a ser dados “na Alemanha, na Suíça, na Polónia, nos Países Baixos, em Espanha, com uma filosofia parecida e convergente com esta”.