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(A) :: "O PS não pode padecer de ansiedade. Precisamos de readquirir confiança dos portugueses"

"O PS não pode padecer de ansiedade. Precisamos de readquirir confiança dos portugueses"

Em entrevista, o deputado socialista André Pinotes Batista defende que o PS deve evitar cair na armadilha de Luís Montenegro e contribuir para a abertura de uma crise política.

Ricardo Conceição
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Vasco Maldonado Correia
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O deputado socialista André Pinotes Batista deixa um alerta a quem, dentro do partido, esteja a sentir a tentação de provocar uma nova crise política: os portugueses não querem eleições e os responsáveis por esse eventual cenário podem acabar por pagar a fatura.

Em entrevista ao Observador, no programa “Sofá do Parlamento”, Pinotes Batista desvaloriza as sondagens que têm consolidado a aparente vantagem do PS sobre PSD e Chega e defende que o partido precisa de “humildade” para reconhecer que alguns eleitores ainda estão a “readquirir a confiança”.

Ainda assim, Pinotes Batista aponta o dedo a Luís Montenegro e acusa o primeiro-ministro de estar ativamente à procura de uma crise política para ir a votos. “A problemática de Luís Montenegro é que percebe a inoperacionalidade do seu Governo, percebe que precisa de alimentar narrativas eleitorais sucessivas, mas não tem uma forma de provocar as eleições que deseja.”

Ouça aqui o “Sofá do Parlamento”, com André Pinotes Batista.

https://observador.pt/programas/o-sof-do-parlamento/montenegro-e-o-unico-lider-partidario-que-quer-eleicoes/

“O Chega é o campeão da instabilidade e do populismo”

Ouvimos José Luís Carneiro clamar vitória nestas duas frentes – na Lei do Trabalho e na PSU. Não faria mais sentido atribuir vitória ao Chega, no chumbo da reforma laboral, e ao Governo, que conseguiu aprovar a Proteção Social Única?
Não é exatamente a interpretação que faço das palavras do secretário-geral do PS. A derrota da contrarreforma laboral foi uma defesa dos trabalhadores. Era o que a sociedade civil portuguesa, não digo na sua totalidade, mas na sua grandíssima maioria, desejava. Mas os progressistas não se querem ficar por aquilo que não acontece. E é importante que as pessoas percebam: mantivemo-nos fiéis aos nossos princípios, mas continuamos um caminho de reconstrução com José Luís Carneiro, que já leva um ano, da confiança dos portugueses, mas que carece de tempo. Não celebramos derrotas do Governo. Quanto à PSU, tivemos a possibilidade de, com a fiabilidade que o PS pode dar ao país, ao contrário do partido da instabilidade, encontrar uma solução. Não quero entregar medalhas de ouro nem taças de campeão do mundo aos campeões da instabilidade e do populismo. As únicas vitórias que o Chega tem são as que celebra sozinho, porque nem tem princípios, nem revela qual é o caminho que quer para o país.

O líder do PS deixou uma mensagem inspirada em Saramago: “Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo”. A pouco tempo da discussão do Orçamento do Estado, o que quer isto dizer?
Neste momento há muita gente que questiona o que é que está na cabeça do secretário-geral do PS, como se fosse difícil de responder esta pergunta. Não é. O PS não pode padecer de ansiedade. Neste momento, estamos a falar com os portugueses, estamos a gostar de falar com os portugueses e os portugueses estão a gostar de falar connosco. José Luís Carneiro é alguém que acorda às cinco da manhã e trabalha até à meia-noite. Ouvimos muitas queixas do Governo, mas também ouvimos pessoas que ainda estão a readquirir a confiança no PS. Partimos desse ponto de humildade. Andamos a privilegiar um tipo de contacto onde escutamos coisas que alguns políticos não gostam de ouvir. Governámos o país durante muito tempo, acertámos muito mais do que errámos, mas temos a consciência de que há uma reconciliação a fazer. E essa frase de Saramago é para ser aplicada em cada dia sobre o processo orçamental. Quando existe bom senso, quando Luís Montenegro não quer andar a baloiçar entre negociatas e namoros de extrema-direita, o PS é garante de estabilidade. Agora, há uma coisa que não vale a pena: o PS não entrega os seus princípios, mas que também não está aqui para aventureirismos. Vamos encarar o processo orçamental recusando que nos venham colocar pressões que não temos de aceitar, mas com sentido de responsabilidade. Já demos provas cabais de poder estar ao lado da estabilidade do país.

"Governámos o país durante muito tempo, acertámos muito mais do que errámos, mas temos a consciência de que há uma reconciliação a fazer"

“A última coisa que a sociedade portuguesa quer são eleições”

A ideia é esperar para ver? Quando se fala em não ter pressa, a ideia é esperar para ver o que é que o Governo vai fazer na época dos incêndios e em relação a um período que normalmente é de maior pressão nas urgências para depois atacar?
O facto de o PS estar a agregar um conjunto de boas sondagens, e de José Luís Carneiro aparecer até acima dessas sondagens, vai levar a que cada vez mais exista a tentação de perguntar ao PS se está à espera de um determinado momento. Sobre esperar pela questão dos incêndios, vou responder diretamente: absolutamente não. Mas a pergunta sobre o Orçamento vai colocar-se sucessivamente, seja sobre o Orçamento, sobre algum episódio climático, sobre algum episódio sanitário, sobre questões do apagamento da economia portuguesa… Aquilo que constatamos é que quanto mais Luís Montenegro falha, mais se pergunta ao PS qual é o tempo em que quer eleições. Não estamos centrados nisso.

Mas esse debate não existe no PS? Haverá quem se deixe inspirar pelo bom momento de forma que o PS atravessa e possa estar mais interessado em provocar uma crise política, o derrube do Governo.
Diria que tal como ‘sempre’ é muito tempo, ‘alguém’ também não será difícil de encontrar. Existirá com certeza alguém.

Não subscreve essa ideia.
Não, não só não subscrevo, como de forma convicta tentarei explicar aos meus camaradas que pensem de uma forma diferente da minha que, apesar de este Governo parecer estar em falhanço há uma década, Luís Montenegro só governa há dois anos. Aliás, Luís Montenegro pediu para trabalhar, teve esse mote de campanha. Quanto mais trabalha mais parece próximo de ser despedido.

E até quando é que isso é aceitável?
Diria que, sem estabelecer linhas vermelhas, o Governo não pode andar em total falhanço ad aeternum. Mas se há no PS quem pense que é condição suficiente para voltarmos ao poder, então também existirá uma precipitação. Os portugueses acho que têm bastante presente que quem se apresenta para chegar à cadeira do poder, queimando o caminho, paga rapidamente uma fatura. Tive uma discussão em certo momento com o agora ministro Paulo Rangel, na SIC Notícias, em que lhe dizia que os casos e casinhos, os desgastes governativos, não são exclusivos do PS. Era uma acumulação de oito anos e meio, onde acertámos muito, mas também falhámos. E este Governo, como alicerçou a sua entrada falando de coisas que eram circunstanciais, e como mentiu à entrada, tem a fatura que lhe é apresentada muito mais cedo. Mas a última coisa que a sociedade portuguesa quer são eleições. O que as pessoas querem é que o Governo quebre esta redoma de insensibilidade e que comece a cumprir a palavra que deu.

"Luís Montenegro está a preparar-se para eleições, mas diria que também nunca fez outra coisa. A problemática de Luís Montenegro é que percebe a inoperacionalidade do seu Governo, percebe que precisa de alimentar narrativas eleitorais sucessivas, mas não tem uma forma de provocar as eleições que deseja. Temo pelo país, não por Luís Montenegro, que, enfim, acaba por ficar preso no labirinto que ele próprio criou"

“Montenegro está preso no labirinto que ele próprio criou”

Acha que o Governo está a preparar-se para o cenário de eleições?
Neste momento, a leitura que faço é que Luís Montenegro é o único líder partidário que deseja eleições, mas não sabe como é que as há de provocar. Existe um desalento profundo das pessoas com Luís Montenegro, que querendo mimetizar aquilo que Aníbal Cavaco Silva fez, esquece, primeiro, que não é Aníbal Cavaco Silva, segundo, que os tempos são outros, e, terceiro, que não é mimetizável o que aconteceu noutras décadas para a realidade parlamentar e política que temos hoje. Luís Montenegro está a preparar-se para eleições, mas diria que também nunca fez outra coisa. A problemática de Luís Montenegro é que percebe a inoperacionalidade do seu Governo, percebe que precisa de alimentar narrativas eleitorais sucessivas, mas não tem uma forma de provocar as eleições que deseja. Temo pelo país, não por Luís Montenegro, que, enfim, acaba por ficar preso no labirinto que ele próprio criou.

O novo porta-voz do PSD, Sebastião Bugalho, anunciou que o partido vai pedir a audição parlamentar de antigos governantes socialistas, como o próprio José Luís Carneiro, para apurar se o anterior executivo sabia ou não do aumento populacional que foi tornado público na semana passada pelo INE. O PS estava a par destes números? E considera que eles têm consequência para a maneira como se deve pensar nas políticas do país?
Antes de mais desejar a Sebastião Bugalho, que se queixou que em Bruxelas ninguém o reconhecia e ninguém o identificava, que seja bem regressado às lides que tanta falta lhe faziam. De qualquer forma, chamar o secretário-geral do PS para ir ao Parlamento, quando José Luís Carneiro é parlamentar e participa regularmente nos debates, nunca esconde a cara, é de facto uma defesa da honra que é fora do regimento. O PS trabalha com os dados que são oficiais e respeita as instituições, o INE e o Eurostat. Por vezes identificamos nas metodologias algumas matérias que podem ser calibradas, mas aquilo que se pede a uma autarquia, a um governo, a uma CCDR ou a uma instância europeia é que confie nas entidades estatísticas. É mesmo uma demagogia, não há mais nada a dizer sobre isso.