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Espaços climatizados, reforços nos serviços e escalas "asseguradas": o plano do Governo para enfrentar o calor em Portugal

Principais autoridades de saúde estimam excesso de mortes nos próximos dias, mas apostam na prevenção e em espaços públicos climatizados para proteger populações mais vulneráveis.

Martim Andrade
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Nos próximos 10 dias, as temperaturas vão ser muito altas durante o dia e muito altas durante a noite. Apesar dos 40ºC de máxima previstos para vários pontos do país durante esta onda de calor, são as noites quentes que acabam por preocupar mais os especialistas — que alertam para unidades de saúde já sob uma “pressão muito alta” e que poderão, nos próximos dias, ter de responder a um aumento da procura. Estamos perante uma “ameaça social, não apenas de saúde”, sublinham.

Esta quarta-feira, o Ministério da Saúde convocou uma conferência de imprensa para abordar a resposta do Governo à vaga de temperaturas elevadas que, antecipa-se, poderá ter um “impacto significativo na mortalidade”. A secretária de Estado da Saúde, Ana Povo — a quem coube a representação do Ministério da Saúde — recusou alarmismo e preferiu pôr a tónica na adoção de comportamentos preventivos. Ao lado, o diretor Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, Fernando Almeida, avisava: as temperaturas esperadas para a próxima semana e meia terão um “impacto significativo na mortalidade” em Portugal.

Nos últimos dias, a Direção-Geral de Saúde tem insistido nas recomendações à população para enfrentar os dias críticos de calor: beber água (mesmo quando não se tem sede), evitar exposição direta ao sol nas horas de maior calor, adaptar a alimentação e o vestuário e evitar atividades físicas no exterior.

Esta quarta-feira, o Ministério da Saúde também reforçou as medidas já anunciadas pela ministra Ana Paula Martins no início da semana: o nível de contingência mais baixo que foi ativado a nível nacional, bem como lançado o alerta para o impacto que o calor terá na mortalidade. Os responsáveis do setor acreditam que esta hipótese se vai confirmar ao longo da próxima semana, através da “descompensação de doenças preexistentes” e da pressão sobre os serviços, “que se costuma notar a partir do terceiro ou quarto dia” da vaga de calor.

As autoridades nacionais de saúde — entre ministério, DGS, Direção-Executiva e INSA — garantem que têm resposta para as temperaturas elevadas através da disponibilização de um grande conjunto de espaços climatizados — em cooperação com as autarquias —, que podem servir como abrigos temporários para as populações mais vulneráveis. Fora dos hospitais, tanto a linha SNS24 com o INEM vão ver reforços nos atendimentos das chamadas da população, de modo a melhor gerir e diminuir a pressão nas unidades locais de saúde.

"É um esforço social pleno, que envolve os municípios e a cooperação com a Proteção Civil. É uma ameaça social, não apenas de saúde"
Ana Povo, secretária de Estado da Saúde

“A resposta não começa no hospital”: Governo promete espaços climatizados e coordenação com municípios

A secretária de Estado da Saúde começou a conferência de imprensa sobre a onda de calor reforçando o alerta para o “risco significativo” que as temperaturas extremas constituem para a saúde pública. Ana Povo lembrou que está em vigor o Plano Nacional de Preparação e Resposta Sazonal em Saúde, que prevê uma “vigilância contínua e sistemática” aos desenvolvimentos associados ao aumento das temperaturas, bem como o ativar de diferentes níveis de contingência nos serviços de Saúde e “medidas graduais de resposta”.

A governante garante que o Governo está “preparado” e “vigilante” para combater a onda de calor, assegurando que o trabalho está em curso em todo o país. Contudo, alerta que a resposta é diferente da assumida no inverno, uma vez que os riscos são distintos, apontando para a transmissão de infeções respiratórias nas unidades de saúde. “A resposta mais eficaz ao calor não começa no hospital, começa muito antes, na prevenção e na proteção ativa dos mais vulneráveis”, afirma Ana Povo.

Nesse sentido, a governante destacou múltiplas vezes as recomendações lançadas pela Direção-Geral de Saúde — mencionando os vários guias publicados pela entidade com normas a seguir pela população —, destacando o “papel fundamental” dos municípios e freguesias na proteção das pessoas. Bernardo Gomes, o presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, explica ao Observador que esta vaga de calor não atinge apenas o setor da Saúde. “É um esforço social pleno, que envolve os municípios e a cooperação com a Proteção Civil. É uma ameaça social, não apenas de saúde”, acrescenta.

A resposta à onda de calor será assegurada pela Direção-Geral da Saúde e pela Direção Executiva do SNS, mas a secretária de Estado da Saúde aponta para a ação coordenada dos municípios, que foram instruídos a disponibilizar salas climatizadas para servir de “abrigo temporário” se as condições se reunirem. “Utilizem estas respostas sempre que necessário”, apela Ana Povo. Álvaro Almeida sublinha que a disponibilização de espaços climatizados é “um ponto central do plano sazonal” e que as várias unidades de saúde tomaram as “medidas necessárias” para os assegurar.

A secretária de Estado Ana Povo refere que estes espaços não estão limitados aos hospitais — dando o exemplo de igrejas, hotéis e centros sociais que estão disponíveis, apesar de não conseguir identificar individualmente cada um. “No âmbito dos respetivos Planos Locais, as Unidades Locais de Saúde estão a reforçar a articulação com os municípios, as juntas de freguesia, a proteção civil e os serviços da Segurança Social e as instituições do setor social, identificando locais de abrigo temporário climatizados que poderão ser ativados, sempre que a evolução da situação o justifique, para acolher pessoas em situação de maior vulnerabilidade”, afirmou a governante.

Por isso, os abrigos estão identificados — apesar de não publicamente, tendo de ser consultados junto das autarquias, e ainda não foram ativados. Isto só acontecerá “quando for ativado o nível de contingência dois ou três”.

Autoridades de saúde estimam “impacto significativo na mortalidade”

Para Bernardo Gomes, a principal preocupação vem do facto de existir um grande número sucessivo de dias de calor. “Mais do que os picos, são muitos dias — 8 a 10 dias — em que as temperaturas máximas são altas e as mínimas são perigosamente altas”, diz ao Observador, remetendo para as declarações da secretária de Estado da Saúde, de quem ouviu um discurso “tecnicamente irrepreensível”, que foi “importante para marcar um tom, sem entrar em alarmismo”. “É uma questão de preparação”, sublinha o especialista.

O médico de Saúde Pública refere ainda, fazendo eco às declarações das principais autoridades de saúde nacionais, que “é previsível” que esta onda de calor “tenha um impacto estatístico no excesso de mortalidade, nomeadamente da população mais vulnerável”. Ao longo da conferência de imprensa os representantes do Governo e das diferentes entidades apontaram para a importância do cumprimento das recomendações da DGS, bem como a monitorização e acompanhamento próximo e constante dos mais idosos e doentes crónicos, os grupos de maior risco.

A diretora-geral da Saúde, Rita Sá Machado, revelou esta quarta-feira que a “análise preliminar à última onda de calor indicou um excesso de 60 óbitos”. Isto significa que se em média são esperadas 300 mortes por dia, como exemplifica o especialista consultado pelo Observador, naquele período verificou-se um número superior à média prevista para aquela altura do ano. Rita Sá Machado acrescentou que o valor registado foi, no entanto, “reduzido”, quando comparado com outros países da Europa, como França, que já registou mais de mil mortes associadas à onda de calor no norte do continente.

“As estimativas nacionais atualmente disponíveis, baseadas no Índice ÍCARO, desenvolvido pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, apontam para um potencial aumento da mortalidade nos próximos dias, caso se mantenham as condições meteorológicas previstas”
Ana Povo, secretária de Estado da Saúde

Rita Sá Machado indicou ainda que estas mortes não têm como causalidade direta o calor. Ana Povo diz que “cada país classifica o excesso de mortalidade de forma diferente” e que os valores “nem sempre são comparáveis”, mas Bernardo Gomes esclarece que o aumento das temperaturas potencia problemas respiratórios, cardíacos e renais, mas não é exato que o calor seja a causa direta da morte. “Uma grande parte do bolo de excesso de mortalidade deve-se à descompensação de doenças preexistentes. Perante o calor, um indivíduo com insuficiência cardíaca, insuficiência respiratória ou insuficiência renal tem uma probabilidade muito maior de sofrer complicações”, explica.

“As estimativas nacionais atualmente disponíveis, baseadas no Índice ÍCARO, desenvolvido pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, apontam para um potencial aumento da mortalidade nos próximos dias, caso se mantenham as condições meteorológicas previstas”, confirmou a secretária de Estado da Saúde Ana Povo, apoiada pelo presidente do INSA. Fernando Almeida explicou que os “excessos de mortalidade previstos e estimados só se conseguem registar dois a três dias depois de cada onda de calor”, pelo que o INSA estará a acompanhar os desenvolvimentos diariamente.

Escalas nas urgências estão asseguradas “como habitual” e as linhas SNS24 e INEM serão reforçadas

Álvaro Almeida, o diretor executivo do Serviço Nacional de Saúde, está plenamente confiante de que os planos sazonais de preparação e resposta, que foram revistos a nível regional e local, estão capacitados para responder em conformidade com o cenário de calor que vai atravessar o país nos próximos dias.

Além disso, Luís Goes Pinheiro (o presidente do conselho de administração dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde) e Luís Cabral (presidente do INEM) assumiram que já se começa a registar um ligeiro aumento da procura das respetivas linhas. O responsável pelo SPMS referiu que esta terça-feira a linha SNS24 recebeu 21 mil chamadas.

Ambos garantem que estão preparados para o crescimento do número de contactos nos próximos dias. Nesse sentido, tanto a linha SNS24 e o INEM preveem um reforço dos profissionais de ambos os serviços para “garantir uma resposta adequada nos dias de maior afluência”, durante esta onda de calor.

"Algumas estruturas estão subcapacitadas em termos numéricos, o que estabelece um tom basal de resposta muito ingrato para os médicos na linha da frente. Quando se fala destas medidas ou de planos de contingência, a verdade é que, em alguns locais, já estamos permanentemente em contingência devido à elevada pressão assistencial do dia a dia"
Bernardo Gomes, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública

O diretor executivo do SNS alerta ainda para as dificuldades na definição das escalas das urgências, mas promete que os planos sazonais redigidos “preveem esta dificuldade” e que “não afeta especialmente estas fases de risco elevado”. Questionado sobre se as escalas estão asseguradas até ao fim do verão, o diretor executivo do SNS garante que “as escalas estão asseguradas como habitual no verão”, não referindo medidas concretas de reforço dos recursos humanos nos dias de maior procura.

“Há uma sobrecarga assimétrica na altura de agosto”, destaca o presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública. Bernardo Gomes dá o exemplo do Hospital Amadora-Sintra e da ULS do Tâmega e Sousa como duas unidades “subdimensionadas” cuja pressão habitual “já é muito alta”, que podem vir a manifestar problemas no serviço durante os próximos dias.

“Algumas estruturas estão subcapacitadas em termos numéricos, o que estabelece um tom basal de resposta muito ingrato para os médicos na linha da frente. Quando se fala destas medidas ou de planos de contingência, a verdade é que, em alguns locais, já estamos permanentemente em contingência devido à elevada pressão assistencial do dia a dia”, afirma o especialista ouvido pelo Observador.