Platónov, de Tchecov, encenação de Peter Stein
Teatro Joaquim Benite, Almada, 5 e 6 de julho
Aos 89 anos, o encenador alemão Peter Stein regressa ao festival com Platónov, a monumental obra de juventude de Anton Tchekhov, escrita por volta de 1880 e deixada inacabada. Considerado um mestre da encenação rigorosa e profundamente humanista, Stein volta a demonstrar a sua capacidade de reler os clássicos à luz do presente, explorando a figura de um homem talentoso e carismático, mas incapaz de encontrar o seu lugar num mundo em transformação.

Mais do que um espetáculo, Platónov surge como um verdadeiro acontecimento teatral: uma maratona cénica de cerca de cinco horas, com intervalo, que mergulha o público na extraordinária galeria de personagens criada por Tchekhov, entre desejos frustrados, conflitos afetivos e uma sociedade em declínio. Interpretada em italiano, com legendas em português, a produção do Tieffe Teatro Menotti convida a uma rara experiência de imersão num dos textos mais ricos e ambiciosos do repertório dramático europeu. Em virtude da extensão da peça, ambas as sessões começam às 16h.
Variedades, de Fernando Heitor e Flávio Gil
Teatro Variedades, Lisboa, 9, 10, 11, 15, 16, 17 de julho
A par da forte presença internacional, o Festival de Almada continua a reservar um lugar de destaque à criação portuguesa. É o caso de Variedades, musical que assinala os 100 anos do histórico teatro lisboeta e revisita a memória do Parque Mayer através de dez personagens emblemáticas do seu imaginário popular: da varina ao ardina, do cauteleiro à costureira.

Entre realidade e fantasia, a peça — com texto de Fernando Heitor e Flávio Gil — é uma celebração do teatro de revista e dos seus protagonistas anónimos, transformando canções, histórias e recordações num retrato de uma comunidade unida pela resistência, pela amizade e pelo amor ao palco e ao género que continua a marcar a identidade teatral portuguesa.
Brel, de Anne Teresa De Keersmaeker e Solal Mariotte
Centro Cultural de Belém, Lisboa, 11 e 12 de julho
Partindo do universo de Jacques Brel, figura maior da canção francófona do século XX, a coreógrafa belga Anne Teresa De Keersmaeker (Bélgica, 1960) junta-se ao jovem bailarino e coreógrafo Solal Mariotte (França, 2001) para criar um espetáculo que propõe uma releitura física e contemporânea do repertório do cantor. A dança faz-se também com a projeção de letras de canções, revelando-se a força poética, a revolta e a ironia que atravessam o cancioneiro de Brel.

Apresentado na última edição do Festival de Avignon num cenário singular — uma pedreira a céu aberto —, o espetáculo chega agora ao Centro Cultural de Belém, o que nos desafia a imaginar como essa mesma energia se reinventará num espaço fechado.
La Lettre, de Milo Rau
Palco Grande da Escola D. António da Costa, Almada, 12 de julho
La Lettre, criação de Milo Rau que se estreou na última edição do Festival d’Avignon, foi concebido como um espetáculo itinerante e adaptável a diferentes espaços. O projeto inspira-se na tradição do teatro popular e assume-se como uma reflexão acessível, bem-humorada e inclusiva sobre o papel do teatro na contemporaneidade.

Em palco estão dois atores: Arne De Tremerie e Olga Mouak. Ele deseja encenar A Gaivota, de Tchecov, em homenagem à avó, admiradora da peça. Ela tem uma história familiar marcada pela esquizofrenia da avó e pelo fascínio pela figura de Joana d’Arc. A partir destes dois perfis, Rau constrói uma narrativa que parte de histórias pessoais para se tornar num manifesto sobre a força agregadora do teatro. É o regresso do encenador e dramaturgo suíço a Portugal depois de, no ano passado, ter levado The Pelicot Trial ao Panteão Nacional.
Israel & Mohamed, de Mohamed El Khatib & Israel Galván
Palco Grande da Escola D. António da Costa, Almada, 14 de julho
À primeira vista, Israel & Mohamed parece um título carregado de significado político, mas, para o bailarino espanhol Israel Galván e o encenador francês Mohamed El Khatib, são apenas os nomes que os pais lhes deram. São precisamente essas figuras paternas que ocupam o centro deste encontro entre flamenco e teatro, um dos pontos altos da última edição do Festival d’Avignon.
O pai de Mohamed sonhava para o filho uma “profissão a sério”, o de Israel, célebre bailarino de flamenco, queria vê-lo seguir os seus passos. Em palco, os dois artistas revisitam as heranças e expectativas que moldaram os seus percursos, revelando também uma inesperada paixão comum pelo futebol (Galván passou pelas camadas jovens do Betis de Sevilha e El Khatib jogou no PSG). Essas experiências moldaram a forma como ambos entendem o corpo, o movimento e o sentimento de pertença a uma comunidade.

Israel & Mohamed, que se mostra numa única récita em Almada, é um espetáculo de grande sensibilidade que cruza histórias familiares e cultura popular, aproximando duas figuras que encontraram no corpo — seja no palco, seja no campo de futebol — uma forma de construir a própria identidade. No fundo, é uma reflexão sobre herança e liberdade e a difícil negociação entre aquilo que somos e aquilo que os nossos pais imaginaram para nós.
Le Sommet, de Christoph Marthaler
Teatro Joaquim Benite, Almada, 17 e 18 de julho
É mais um espetáculo saído da última edição do Festival de Avignon. Seis pessoas estão numa gigantesca caixa de madeira. Será uma casa na montanha? Um abrigo improvisado? Um bunker? O que é certo é que, pese embora estejam lado a lado, pouco se entendem. Falam italiano, alemão, francês e inglês da Escócia, trocam gestos e silêncios, sem que a comunicação pareça alguma vez plenamente possível.

É neste espaço fechado, simultaneamente concreto e alegórico, que o encenador suíço Christoph Marthaler constrói uma reflexão tão melancólica quanto cómica sobre a dificuldade de entendimento entre os seres humanos. Em palco, testemunhamos um microcosmo que ecoa as fragilidades da Europa contemporânea: um lugar onde todos coexistem, mas onde compreender o outro pode ser o maior dos desafios.