A pandemia levou a Globo a iniciar uma disputa com a FIFA (Fédération Internationale de Football Association) para renegociar os direitos televisivos que tinha acordado por um preço anual de 90 milhões de dólares de 2015 a 2022. Numa altura em que muitos negócios ficaram pelo caminho, também o principal grupo televisivo brasileiro queria baixar a sua fatura com os direitos do futebol, já na antecâmara do Mundial de 2022, no Qatar, falhando mesmo o pagamento na altura acordada.
O caso chegou à justiça brasileira. A FIFA foi à luta. O acordo entre as partes chegou por via extrajudicial e em 2021. O valor manteve-se inalterado, mas a Globo conseguiu mais tempo para pagar, abrindo mão da exclusividade dos direitos digitais, apesar de manter o exclusivo na transmissão em canais abertos e canais pagos de televisão. A Globo acabou a abrir a porta do galinheiro.
A porta que a Globo deixou escancarada
O Brasil habituou-se a ver os mundiais de futebol na Globo. Desde 1970 que a transmissão televisiva era assegurada, exclusivamente, pela estação carioca fundada por Roberto Marinho. Foi precisamente nesse ano, no México, que o Brasil conseguiu o terceiro título, ao vencer Itália na final. A Globo transmitiu a sua primeira “copa” mundial, a última de Pelé que marcou o primeiro golo do Brasil (que ganhou 4-1).
Já sem Pelé, o Brasil perseguia, em 1974, na Alemanha ocidental o quarto título. Mas ficou-se pelo quarto lugar, tendo caído aos pés da laranja mecânica dos Países Baixos, de Johan Cruyff. A Globo transmitiu o jogo violento que ficou conhecido como a “batalha de Dortmund”.
Quatro anos depois, o Brasil ficava em terceiro, num mundial também ele polémico, conquistado, pela primeira vez, pela Argentina. Em Espanha, em 1982, Zico, Sócrates e Falcão garantiam a eficácia ao Brasil, não o suficiente para conquistar o tetra. A “tragédia de Sarriá” [estádio onde se consumou a eliminação do Brasil], como apelidou a Globo, ainda hoje é vista como um dos maiores jogos da história de mundiais.
México em 1986 e Itália em 1990 tiveram pouca história (e jogos) para o Brasil que voltaria a uma final em 1994, nos Estados Unidos da América. E foi na Globo que os brasileiros viram o tetra ser conquistado, quando Roberto Baggio, jogador italiano, falhou um penálti. Quatro anos depois o Brasil perseguiu o penta, perdendo na final para a anfitriã França por três bolas a zero. A apatia brasileira avolumou teorias de conspiração, que levaram à criação de uma comissão de inquérito no Brasil para analisar os contratos milionários em torno da canarinha. Sem consequências.
O penta chegou quatro anos depois, no Mundial do Japão/Coreia do Sul. Dois golos de Ronaldo na final contra a Alemanha deram a quinta estrela à camisola do Brasil. Até hoje não conseguiu colocar mais nenhuma, tendo passado pela Alemanha (2006) e África do Sul (2010), como uma das favoritas, mas ficando pelo caminho prematuramente.
Chegou 2014 e o campeonato foi disputado em casa. A Globo transmitiu os jogos, entre eles a humilhante derrota por 7-1 contra a Alemanha (nas meias finais) e o 3-0 contra a Holanda (para apurar o terceiro lugar). Na Rússia em 2018 saiu nos quartos de final, tal como em 2022 no Qatar.
Só que aqui já não era a Globo a ter o exclusivo de transmissões e no Mundial de 2026 perdeu mesmo o estatuto de principal emissora.
A FIFA entregou as negociações para encontrar novos operadores da transmissão digital à LiveMode, que acabou a ficar com os direitos, o que resultou em acusações — sem consequências — de conflitos de interesse. O mercado brasileiro mudou a partir de 2022. Os jogos, no Qatar 2022, já não foram um exclusivo da Globo — que acabou mesmo a perder o maior pacote no Mundial deste ano.

Com pais portugueses, Casimiro é o nome que dá origem à Cazé TV
Na mesma altura que Globo e FIFA disputavam os pagamentos dos direitos em tribunal, numa casa do Rio de Janeiro o streamer Casimiro Miguel ganhava fãs. Em plena pandemia, usava a plataforma Twitch para reagir (nas redes sociais são os chamados ‘reacts’) a vários temas, desde culinária, lancheiras, casas milionárias, reality shows, até ao futebol. Tinha começado a sua vocação de “streamer” a transmitir jogos de computador, como o Among Us, FIFA 21, League of Legends.
Mas foi a comentar quase tudo que se tornou famoso e conseguiu chegar a todos os públicos e é hoje o rosto de vários memes com as punchlines ‘meteu essa?’, ‘que papinho, hein?’ e ‘ih, mané!’. Em 2021 foi a Personalidade do Ano no Prémio eSports Brasil.
Chamado pelos fãs de “Casimito” tornou-se um fenómeno na internet, com muitos milhões de seguidores. Em janeiro de 2022 pôs mais de 500 mil pessoas a acompanhar a sua transmissão a comentar o primeiro episódio do documentário de Neymar na Netflix. Foram noites em claro a fazer emissões de streaming. Ganhou dinheiro, ao ponto de dar aos seus pais, emigrantes portugueses, a “reforma”, e de permitir casar-se com Anna Beatriz Lima que conheceu através de uma página de humor dedicada ao Vasco da Gama, o seu clube de coração (a aliança foi gravada com a Cruz de Malta, símbolo vascaíno, e muitas das músicas associadas ao clube carioca foram cantadas no copo de água).
Dinheiro que lhe permitiu, segundo contou ao UOL, fechar uma sala de cinema para poder assistir com os amigos ao filme Homem-Aranha.
Tudo começou no canal Esporte Interativo, como estagiário, primeiro a gerir redes sociais, depois a participar nas transmissões e criou o canal de humor “De Sola” no Youtube dessa empresa. Pedro Certezas, que partilhada o canal com Casimiro, contou à UOL que tudo começou porque eram “os engraçadinhos” e começaram a falar para um público jovem de modo próprio. Daí passou a comentador no SBT Rio. A Esporte Interativo foi fundada em 2014 por Sérgio Lopes e Edgar Diniz, que começaram a garantir direitos de transmissão de jogos de futebol. O canal cresceu e foi vendido ao grupo americano Turner em 2015, que mais tarde o tornou em TNT Sports. Os dois empresários saíram da empresa e, em 2017, fundaram a LiveMode.
Não esqueceram o estagiário “engraçadinho”. No início de 2022 já estavam, em conjunto, a transmitir jogos do campeonato carioca — Flamengo-Portuguesa, atingiu um pico de 200 mil espetadores simultâneos, e Botafogo-Bangu. Para chegar ao final do ano a transmitir na internet jogos do Mundial de 2022. A LiveMode, responsável por negociar o contrato de direitos digitais em nome da FIFA, acabou a ficar com o negócio e decidiu dar nome ao canal — assim nasceu a Cazé TV.
https://www.youtube.com/watch?v=A4Pbc8E36AQ
“Acho que ele vai ser um dos maiores comunicadores do Brasil nos próximos anos. Ele já é. Mas vai crescer ainda mais. Muito fo… tu conhecer um moleque que era só um nerd e hoje ele molda a opinião brasileira”, tinha declarado, em 2022, Pedro Certezas ao UOL. No mesmo artigo, Maurício Portela, sócio da LiveMode, é citado explicando que tinham conhecido Casimiro há mais de oito anos. “Convivemos juntos no Esporte Interativo e sempre reparámos no talento e na capacidade de manter uma conversa com a linguagem que engaja nas redes sociais. Compartilhamos com ele o sonho de revolucionar as transmissões desportivas para o ambiente digital. Temos convicção que a união do talento do Cazé com a nossa capacidade de levar os direitos desportivos para onde os consumidores estão criará grandes projetos para o futebol e todo o desporto”.
De um início no Qatar até ter todos os jogos do Mundial de 2026
No Qatar 2022 a Cazé TV pôde transmitir vários jogos (um por dia), entre eles todos os da seleção brasileira.
https://twitter.com/Casimiro/status/1588524603877380096
Um pacote de 22 jogos custou à LiveMode 3 milhões de dólares, segundo a imprensa brasileira. O jogo do Brasil contra a Croácia, que ditou a eliminação da canarinha, teve 6,9 milhões de visualizações, estabelecendo, então, um novo recorde nas transmissões em direto no Youtube no Brasil.
Foi o que bastou para o passo seguinte. O Mundial de 2026 garantiu à Cazé TV os direitos digitais de todos os jogos do campeonato. Nunca a transmissão de um mundial foi, no Brasil, tão repartida: a Globo e a SBT ficaram com direitos para a televisão aberta; Sportv e N Sports para canais por assintura e Cazé TV para o Youtube — 104 partidas. Em 20 dias, segundo a imprensa brasileira, a Cazé TV vendeu todas as quotas publicitárias (11) amealhando 2 mil milhões de reais (340 milhões de euros), o mesmo conseguido pela Globo. Ambev, Coca-Cola, Itaú, Ifood, Mercado Livre, Vivo, Bet365 foram alguns dos patrocinadores que aceitaram pagar 185 milhões de reais (cerca de 32 milhões de euros) para se associarem às transmissões no Brasil do mundial deste ano.
“Esta Copa do Mundo, com o marco de se poder ver todos os 104 jogos apenas pela CazéTV, fecha um ciclo de quatro anos em que a empresa da LiveMode sai de uma alternativa para um agente forte no setor de transmissões desportivas, disputando com grupos como Globo, Disney e Warner Discovery. Se para a Copa de 2022 o Grupo Globo acreditava que a exclusividade digital não era relevante, passou a ser e custará mais nas próximas negociações”, explica ao Observador Anderson Santos, professor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), que integra a Rede Nordestina de Estudos em Mídia e Esporte e o Observatório das Transmissões de Futebóis.
“Com a CazéTV, a transmissão pelo Youtube virou uma janela importante para público, marcas e campeonatos exibidos“, acrescenta, recordando que, por isso, a Globo reestruturou o seu canal Ge TV para transmitir eventos desportivos, aproveitando “o modelo de linguagem da CazéTV, uma mudança relevante”. Já a Warner também garantiu, no contrato da UEFA para a Liga dos Campeões, a transmissão de alguns jogos no seu canal no Youtube para o Brasil. Ou seja, a CazéTV mudou o panorama televisivo e com isso está a pressionar a resposta dos outros operadores.
Não é por acaso. Anderson Santos indica ao Observador que, com base nos dados anuais da Pesquisa Nacional de Amostragem Domiciliar – Contínua do IBGE, “percebe-se a diminuição do acompanhamento da televisão tradicional e o aumento do uso da internet nos últimos 12 anos”, ainda que “a maior parte da população ainda acompanhe/tem mais a televisão gratuita que assinatura de streaming (cerca de 93% a 44% dos domicílios, respetivamente, em dados de 2025)”. No entanto, “o investimento publicitário passou a equiparar-se nessas duas mídias ao longo deste período, sinalização importante de como o mercado vê o consumo audiovisual”.
Porém, “acredito que, para ‘destronar’, vai depender bastante de o streaming conseguir campeonatos de forma exclusiva”, considerando, mesmo, que “a linguagem mais voltada ao público jovem e a qualidade da internet ainda são barreiras relevantes quando é o mesmo jogo nas duas plataformas”. No Brasil, o atraso na transmissão pela internet, cerca de 30 segundos, também foi um dos temas.
Mas nestas mudanças não há que esquecer que a própria televisão aberta está a adotar novos modelos, caminhando “para um novo cenário convergente, adaptando-se ao modelo dos aplicativos”, acrescenta o mesmo professor.
A Cazé TV tem, atualmente, 39,4 milhões de subscritores no Youtube. Começou com o Mundial no Qatar, expandiu-se no Mundial de 2026, e pelo meio transmitiu Jogos Olímpicos de 2024, Liga Europa e Liga Conferência, Mundial de Futebol Feminimo 2023 e alguns jogos do campeonato brasileiro. Já assegurou o Mundial Feminino de 2027 e manterá a Liga Europa e a Liga Conferência. Detém também os direitos da La Liga por seis temporadas. E terá emissões dos Jogos de Los Angeles 2028.
A entrada em Portugal pelo Mundial
O Brasil foi a rampa de lançamento da Cazé TV, associação entre Casimiro Miguel e a LiveMode. Uma rampa que trouxe o projeto para Portugal. Entrou pela porta grande, pelo campeonato de mundo de futebol coorganizado pelos Estados Unidos, Canadá e México.
A LiveModeTV assegurou um total de 34 jogos, um jogo por dia, entre eles todos os da seleção portuguesa. Conforme prometido pela empresa, “além do jogo do dia de cada jornada, terá várias horas de programação dedicada ao Campeonato do Mundo 2026, contando com cerca de 8 horas diárias”. Gratuitamente. A LiveMode ainda fez um acordo com a Prime Video, que coloca na sua oferta as transmissões que correm no Youtube, mas não se sabe também o valor deste acordo. Hoje tem 915 mil subscritores no Youtube.
As emissões têm tido a participação de ex-jogadores como Ricardo Quaresma e Ricardinho, os streamers Diogo da Silva, conhecido como MoveMind, e Os Primos (dupla de Iuri Pina e Rui Costa) e comentadores externos convidados como Tomás da Cunha e Mário Cagica. Todo o ambiente de transmissão é distinto do que acontece nos canais de televisão tradicionais.
Diogo da Silva, ou MoveMind, que já tinha o seu público como streamer, sonhava, em miúdo, relatar jogos de futebol. Começou em 2017 no Twitch com os jogos profissionais de portugueses de FIFA (jogo de computador). Do mundo virtual passou para o real quando a Sport TV o convidou para relatar um jogo da liga italiana. Até chegar à LiveMode TV, onde esteve com a equipa da empresa que esteve nos Estados Unidos a acompanhar a seleção portuguesa. A famosa peruca com que se apresenta até foi “roubada” pelo “amigo” João Félix num dos golos de Portugal.
Luigi Mesquita e Luana do Bem são outros dos nomes que ocupam a emissão da LiveMode TV neste mundial.
Ao Observador, a empresa recusou dar o número de pessoas a trabalhar para a LiveMode durante este mundial, não especificando inclusive quantos jornalistas.
No site que reúne os jornalistas no ativo da Comissão da Carteira de Jornalistas encontra-se inscrito, por exemplo, Mário Cagica de Oliveira, fundador do Bola na Rede, mas que está apenas no canal apenas como comentador externo convidado, não fazendo parte da equipa de informação.
A LiveMode limita-se a indicar ao Observador que a sua operação para o Mundial “envolve uma equipa multidisciplinar, ajustada a um projeto digital e multiplataforma”, pelo que “os intervenientes são essencialmente produtores e criadores de conteúdo, comentadores e convidados, num formato que assenta em entretenimento desportivo, comentário informal e interação com a comunidade”. Ao Eco indicou que em Portugal tem cerca de 50 pessoas, “pelo menos uns 30 funcionários e depois pessoas contratadas para este projeto específico, durante o Mundial — que é um projeto mais curto e exige muito mais mão de obra do que vamos ter depois”.
Afinal o que que serviço dá a LiveMode? A disputa com a ERC
Na interação com a ERC, a LiveMode iniciou o pedido de registo como web tv, o que exigiria determinados requisitos, como um responsável de informação com carteira profissional. Mais tarde a LiveMode alterou o projeto, de forma a que o regulador da comunicação social considerou que se tratava de um serviço audiovisual a pedido, para o qual era exigido registo.
“As características do modelo atual enquadram-no juridicamente como serviço audiovisual a pedido, sustentado por publicidade (Advertising Video On demand- AVOD), através de plataformas de terceiros (OTT – over the top)”, tendo sido tornados públicos contratos com vários patrocinadores — associando-se a marcas como BPI, Coca-Cola, Vichy, EDP, Bwin, Betclic, Sagres e McDonald’s, dizia a ERC, numa deliberação de 22 de junho, na qual dava 72 horas para a LiveMode apresentar os elementos exigidos.
A empresa garante que o fez, ainda que continuando a não concordar com o enquadramento que a ERC pretende dar ao serviço. “A LiveModeTV irá apresentar a documentação detalhada à ERC sobre o modelo atual do seu projeto, demonstrando que a sua atividade não se enquadra na categoria de serviço audiovisual a pedido. A empresa fá-lo confiante de que, tal como aconteceu com a classificação como serviço de televisão web, a análise destes elementos levará a ERC a concluir que a LiveModeTV não se enquadra nessa categoria”.
A LiveMode considera que faz “a mera disponibilização de conteúdos numa plataforma de partilha de vídeos”. “Na sua configuração atual, a LiveModeTV consiste numa operação digital de disponibilização de conteúdos audiovisuais relacionados com eventos desportivos específicos (…) através de plataformas digitais de terceiros, às quais os utilizadores acedem individualmente, por sua própria iniciativa”, declarou à ERC, assumindo que a sua atividade “não tem caráter permanente, estrutural ou contíguo. É temporária, circunscrita ao período de duração do torneio e dependente, em cada momento, dos direitos de transmissão disponíveis e das condições das plataformas utilizadas”. Também não terá uma grelha de programação nem “uma lógica de canal editorial permanente”.
A LiveMode garantiu ainda à ERC não tencionar operar em Portugal como operador televisivo, nem órgão de comunicação social, não tendo, assumidamente, informação jornalística ou envolvendo jornalistas. Por outro lado alega que uma vez que transmite através de plataformas terceiras não tem qualquer controlo editorial ou técnico sobre a difusão.
O caso ainda não encerrou. Ao Observador a empresa garante que “tem mantido diálogo com a ERC”, e que “apresentou os elementos solicitados – por razões cautelares e face ao prazo apertado fixado pelo regulador -, e tem procurado manter uma postura de colaboração com o mesmo”, dizendo pautar-se por uma conduta de “total transparência e cooperação”. E assume que a “LiveModeTV continua a ser o mesmo projeto desde o início do Mundial: uma experiência digital, multiplataforma, participativa e centrada no entretenimento desportivo”. A transmitir em plataforma de terceiros, assumindo a LiveMode que se serve do Youtube conforme as condições aplicáveis aos criadores de conteúdos, ou seja, ganhando pelas visualizações, mas nada do acordo é revelado.
A LiveMode diz ao Observador que, “como qualquer projeto digital, disponibiliza os seus conteúdos através de plataformas tecnológicas de terceiros, incluindo o Youtube, em conformidade com os termos e condições aplicáveis. Essa utilização faz parte da operação normal de um projeto digital e multiplataforma, cujo foco é assegurar que os conteúdos chegam à comunidade de forma estável, acessível e participativa”. Contactado pelo Observador, o Youtube também nada revela sobre a ligação, mas admite haver uma parceria. “Temos orgulho em estabelecer uma parceria com a LiveModeTV para levar experiências emocionantes de streaming desportivo aos espectadores do Youtube. Embora os detalhes do nosso acordo de licenciamento permaneçam confidenciais, o nosso foco em comum é oferecer transmissões acessíveis e de alta qualidade aos fãs de desporto”.
Um projeto digital que entrou pelo campeonato dos grandes e a FIFA gostou
A LiveModeTV “é, acima de tudo, um projeto digital de entretenimento desportivo. O formato combina acompanhamento de eventos – por via das lives ou por via de conteúdos para as redes sociais -, com comentário informal, que é feito por criadores de conteúdos, ex-jogadores, convidados e pela interação da comunidade, numa experiência pensada para plataformas digitais. Em suma, somos, e queremos continuar a ser, uma nova forma de viver e acompanhar o futebol em ambiente digital”.
A declaração ao Observador mostra como a empresa quer distinguir-se dos tradicionais operadores de televisão que transmitem os jogos de futebol e os eventos desportivos. A Globo abriu a porta à LiveMode/Cazé, que se virou, agora, para a Europa, entrando por Portugal. E a FIFA gostou.
Para os mundiais, a poderosa FIFA abre concursos para entregar os direitos televisivos. Ao Observador, o organismo assume que “as plataformas digitais não são apenas complementares à transmissão televisiva tradicional. São uma parte importante da forma como os adeptos descobrem, experienciam e interagem com o campeonato do Mundo da FIFA”, e, por isso, “o nosso objetivo é servir os adeptos onde quer que escolham consumir conteúdo, preservando, ao mesmo tempo, o valor e o alcance dos nossos parceiros oficiais de media”.
Em respostas escritas ao Observador, através do gabinete de imprensa, a FIFA diz acreditar que, para este mundial, “construímos o que provavelmente é o ecossistema de mídia mais diversificado da história do torneio, combinando emissoras líderes, serviços de streaming, plataformas sociais, criadores de conteúdo e novas experiências imersivas. Em mais de 220 territórios, a nossa estratégia foi concebida para maximizar a acessibilidade, aprofundar o engajamento e aproximar o torneio dos torcedores de maneiras que não eram possíveis há poucos anos”. E claro, o encaixe financeiro, que a FIFA não assume como objetivo, não revelando também os valores.
Para a FIFA, os adeptos “transitam cada vez mais com fluidez entre televisão, streaming, redes sociais e conteúdo de criadores ao longo do dia. O nosso papel é garantir que o Mundial esteja presente em toda essa jornada”. O streaming, acrescenta, “tornou-se uma das formas preferidas de muitas pessoas acompanharem o desporto, e estamos particularmente satisfeitos com os resultados alcançados pela LiveMode no Brasil e, mais recentemente, em Portugal”. Mas como cada mercado é diferente, nomeadamente em termos de regulamentações, infraestrutura, acessibilidade e hábitos do público, a FIFA não aplica um modelo universal. “Analisamos cada mercado individualmente e decidimos pela abordagem que melhor atende tanto à competição quanto aos adeptos” na venda de direitos televisivos e de streaming.
“As emissoras continuam a ser a base da cobertura do Mundial da FIFA”, uma vez que “oferecem a experiência da partida ao vivo, a qualidade de produção, a expertise jornalística e o alcance em larga escala que permanecem essenciais para o sucesso do torneio”. Mas, ao mesmo tempo, “os criadores de conteúdo consolidaram-se como poderosos contadores de histórias que engajam o público de maneiras diferentes, muitas vezes alcançando comunidades e faixas demográficas mais jovens que consomem conteúdo desportivo de forma distinta”.
Para a FIFA o objetivo “é ajudar esses mundos a trabalharem juntos”.
Em Portugal, os direitos para canais fechados para o Mundial foram garantidos, para os 104 jogos, pela Sport TV — que assim acaba a ter 20 em cotransmissão com os canais abertos e LiveMode e mais 14 com o streaming. Os direitos abertos foram entregues aos três canais — RTP, SIC e TVI — que foram forçando os valores envolvidos e acabaram a perder o streaming, que a FIFA viu como mais uma oportunidade. Essa fatia foi garantida pela LiveMode. Não se conhecendo o valor que a LiveMode pagou (nem a Sport TV), sabe-se apenas que pelos 20 jogos, SIC, TVI e RTP pagaram 5,6 milhões de euros.
A nível global, a FIFA projetou arrecadar perto de 4,3 mil milhões de euros com a venda dos direitos de transmissão do Mundial 2026.
https://observador.pt/especiais/o-tortuoso-e-exorbitante-caminho-para-comprar-bilhetes-para-mundial-e-o-risco-de-estadios-meio-cheios/
“A entrada do modelo LiveMode provoca alterações profundas no mercado das transmissões desportivas ao oferecer emissões digitais gratuitas em plataformas como o YouTube. Focaliza comunidades digitais e utiliza uma linguagem mais informal e próxima dos criadores de conteúdos. Não elimina os direitos da televisão tradicional, mas retira o monopólio da exclusividade”, realça ao Observador Mário Teixeira, professor de Gestão do Desporto da Universidade de Évora, para quem, “face à nova realidade, os canais de televisão precisam de se adaptar e repensar a oferta”.
Para este professor, “a partir daqui nada será como antes”. “Os novos modelos de transmissão televisiva em formato digital constituem uma excelente oportunidade para públicos, media, empresas e promotores de megaeventos desportivos como o Mundial FIFA ou os Jogos Olímpicos, entre outros. Permitem uma experiência de visualização inovadora num ecossistema interativo, digital e maioritariamente gratuito”.
As mudanças no valor dos direitos desportivos
Apesar dos números relativos aos direitos desportivos estarem quase sempre envoltos em secretismo, não se sabendo, por exemplo, quanto custou à LiveMode ou à SportTV os direitos do Mundial, Mário Teixeira admite que, “tendencialmente, o valor de mercado dos direitos desportivos aumentará globalmente devido à maior fragmentação e redistribuição das janelas de transmissão”.
Acredita que “as entidades desportivas (FIFA e IOC) optarão por substituir a venda dos direitos a um único canal de TV por um valor astronómico e exclusivo pela venda mais vantajosa a múltiplas plataformas em simultâneo como a TV aberta, canais fechados de subscrição (Sport TV e DAZN) e plataformas de streaming digital”, o que leva Mário Teixeira a concluir que “os novos modelos complementam e acrescentam, gerando ainda mais valor à indústria do desporto em mudança acelerada pela revolução tecnológica”.
Ao Eco, o diretor geral da LiveMode Portugal acredita que não é a empresa que está a inflacionar direitos desportivos em Portugal que, diz, “já está altamente inflacionado há um bom tempo. Acho que o nosso impacto é completamente marginal”.
A LiveMode entrou, em Portugal, pelo Mundial, mas já garantiu a transmissão em Portugal de 25 partidas do Mundial feminino de 2027. E a LiveMode vai também emitir o primeiro jogo do Benfica no Estádio da Luz nesta época. A segunda pré-eliminatória da Liga Europa vai ser disputada com os suíços do St. Gallen, com a segunda mão, em casa, a acontecer a 30 de julho às 20 horas. E terá transmissão na BTV, SIC e LiveMode. É a primeira incursão da LiveMode em Portugal com um clube nacional, numa altura em que se prepara a centralização de direitos televisivos, a partir da época 2028/2029.

Novos investidores para estes projetos… e CR7
Há vários fatores a contribuir para aumentar o bolo das receitas ligadas às transmissões. Mário Teixeira apontam pelo menos três: “o maior alcance ao atrairmos novos públicos de faixas etárias mais jovens e a um volume de espetadores muito superior; a monetização publicitária inovadora ao substituirmos a dependência da exclusividade ou subscrições (paywall) por patrocínios em massa, publicidade integrada e parcerias com marcas; e a aposta dos investidores ao reconhecerem o potencial deste mercado acabam por elevar a valorização e a expansão destas empresas, com envolvimento financeiro de grandes investidores globais e figuras do desporto”.
Já aconteceu. A LiveMode em Portugal garantiu como acionista o jogador português Cristiano Ronaldo. O braço brasileiro que tem como sócio Casimiro Miguel (que trocou os seus 49% na CazéTV por uma posição na holding) e os fundos XP Investimentos e General Atlantic.
A LiveModeTV Portugal “integra o ecossistema global da LiveMode, estando a sua estrutura societária refletida e atualizada nos registos competentes”. Uma consulta ao Portal da Justiça revela que a LiveMode é uma sociedade unipessoal por quotas, constando como gerente Bashir Karim Vakil que, ao Observador, explica que enquanto elementos de uma sociedade de advogados “ajudámos na constituição da empresa”. Indica que foi “gerente interino e, como é pratica em casos semelhantes, fui substituído pelo gerente de facto, estando o registo pendente”. Tem um capital social de mil euros e foi constituída em outubro do ano passado com o nome Dinusaurdecade, tendo alterado a designação para LiveMode Portugal já este ano. A empresa diz ao Observador, apenas, que, “enquanto sociedade unipessoal por quotas, a LiveMode Portugal dispõe de um gerente, nos termos da lei”.
Criada em 2017, a LiveMode começou a internacionalização por Portugal e nada melhor do que garantir como sócio Cristiano Ronaldo. Foi em maio que se anunciou a entrada do português no capital da LiveMode, não se indicando o valor da compra nem a percentagem de participação. O comunicado referia apenas Cristiano Ronaldo como “sócio estratégico e acionista da empresa”, que deterá uma “participação relevante”.
“Em conjunto, Cristiano Ronaldo e a LiveModeTV pretendem ampliar o alcance do desporto, aproximando-se das audiências através do canal de Youtube e das redes sociais da LiveModeTV, de uma forma cada vez mais social, interativa e integrada”, lê-se na nota divulgada. Aliás, a participação de Cristiano Ronaldo neste universo empresarial foi aproveitada por dois dos rostos mais mediáticos da LiveMode TV junto da seleção portuguesa nos Estados Unidos — Luana do Bem e Tiago Almeida, quando, numa oportunidade de o entrevistar, pediram aumentos salariais.
João Mesquita, diretor geral da LiveModeTV em Portugal (e que passou parte da sua carreira no Brasil), ao Eco salientou que Cristiano Ronaldo “é um sócio de referência que nos agrega um elemento muito importante, poucas pessoas entenderão melhor a dimensão global de medias sociais e a forma de falar de desporto, e com jovens, como o nosso sócio consegue fazer”, e admite que “adoraria ver uma participação maior, até no longo prazo, no próprio desenvolvimento do negócio. Há um valor agregado que ele e a sua equipa podem trazer no desenvolvimento do nosso negócio pela Europa, por exemplo”.
Os números da LiveMode do Mundial
Seja pelo fator gratuito, seja pela forma como se apresentam os conteúdos, as transmissões da LiveMode reúnem milhões. No Brasil, nos Jogos Olímpicos de 2024, o comentador (também surfista) Pedro Scooby tentou declarações de concorrentes brasileiros dentro de água. Teve uma reprimenda do Comité Olímpico.
“Ele quebrou todos os protocolos. O Comité Olímpico nos disse que não podíamos fazer aquilo, mas que foi muito legal”, declarou Casimiro Miguel à Exame.
No Mundial de clubes em 2025, apareceu na CazéTV um comentador vestido de ketchup, no Fluminense-Inter de Milão. Casimiro Miguel diz à mesma reportagem que “não queremos fazer nada proibido, mas acreditamos que algumas coisas podem ser repensadas. Isso aproxima o público das equipas, dos jogadores, e aproxima os jogadores do público. Não precisamos ser amigos dos jogadores, mas eles entendem que estão num ambiente seguro para falar”.
As entrevistas, a própria forma como o jogo é transmitindo, em que se vê sempre em várias janelas a reação dos comentadores marcam a diferença. Há quem goste, há quem não goste. Uma coisa é certa, capta novos públicos.
Em Portugal, a LiveModeTV “tem chegado sobretudo a espectadores interessados em futebol, entretenimento desportivo e formatos digitais mais interativos. O conceito que usamos muitas vezes é o de público ‘jovem de espírito’, que gosta de ver futebol de forma mais divertida, leve, participativa e próxima”, diz ao Observador a empresa em respostas escritas, recusando dar uma entrevista presencial.
De acordo com dados fornecidos pela empresa, considerando informações até ao último jogo dos oitavos-de-final do Mundial FIFA 2026, 71% da audiência da LiveModeTV pertenceu à faixa etária dos 18 aos 44 anos, tendo a plataforma alcançado 91% da população portuguesa nesse segmento. Ao longo da competição, as transmissões chegaram a mais de 4,3 milhões de dispositivos únicos, “um resultado que demonstra a capacidade do modelo digital da LiveModeTV para envolver uma audiência ampla e altamente interativa”. A empresa diz mesmo que “mais do que assistir aos jogos, os espectadores interagem em direto, participam nas polls, comentam e acompanham a transmissão como uma experiência coletiva. É precisamente essa combinação entre futebol, entretenimento e participação que tem permitido à LiveModeTV criar uma relação muito próxima com a sua comunidade”.
É por isso que o delay de uma transmissão na internet acaba por não ser valorizado por esses espectadores. Admitindo que uma transmissão em direto em plataformas digitais “pode envolver naturalmente um ligeiro atraso técnico, como acontece em muitos serviços online”, a LiveMode TV acredita, no entanto, que “com base no feedback que temos recebido, um possível delay não altera a experiência do utilizador em direto: a comunidade acompanha o jogo em tempo real no ambiente digital, reage, comenta e interage durante a transmissão. O foco da LiveModeTV é precisamente proporcionar essa experiência coletiva e participativa em torno do evento”.
O tempo médio de visualização por espetador nas lives dos jogos dos playoffs foi de 1h05, tendo o jogo Brasil x Noruega sido a partida com maior alcance (1,4 milhões de dispositivos únicos) e o maior pico de audiência (855 mil dispositivos em simultâneo), seguido pelo Brasil-Japão com 603.966 dispositivos e pelo Argentina- Cabo Verde com 465.995.
Nunca se assumindo como substituto dos canais de televisão, a LiveMode definiu-se ao Eco como “complemento” e até sugeriu à SportTV comprar uma quota de patrocínio na LiveMode, “porque nós somos a ‘boca do funil’. (…) Somos o melhor lugar onde um segmento novo de clientes – que tem estado afastado do mundo da TV paga e até da TV aberta, que tem uma linguagem própria, gosta de desporto, mas não tinha encontrado o lugar ideal para recomeçar a assistir – pode ser encontrado”.
As estações de televisão não estão tão otimistas. Vêem no horizonte alguma transferência do mercado publicitário, ainda para mais quando os limites da publicidade impostos às televisão não se aplicam às transmissões na internet. “Eles podem fazer aquilo que querem, nós não podemos fazer nem um décimo. (…) Temos de repensar e redefinir o que é a intervenção regulatória, do Estado e das instituições europeias. Há uma necessidade premente de corrigir as assimetrias regulatórias. Se não o fizermos rapidamente, as consequências podem ser muito complicadas”, alertou, no congresso da APDC, Francisco Pedro Balsemão, presidente da Impresa, dona da SIC.