A Croácia vive de uma eterna tentativa de resistência aos poderes vizinhos. O território atual já foi controlado por romanos, húngaros, otomanos, austríacos e até Veneza chegou a ter poder sobre a costa croata. No século XX, o país que hoje se apresenta como Croácia fazia parte da Jugoslávia. Esse país formou-se depois da I Guerra Mundial e juntava os territórios que hoje são da Bósnia-Herzegovina, Macedónia, Montenegro, Sérvia, Eslovénia e da Croácia.
Foi nesse período que milhares de pessoas deixaram a região devido às crises económicas e à instabilidade política depois das Guerras Mundiais. Como destino, procuraram principalmente a Austrália, o Brasil, os Estados Unidos da América e o Canadá. Toronto foi uma das cidades que acumulou uma vasta comunidade croata e com isso, naturalmente, cresceu a cultura dos Balcãs na cidade canadiana.
Há décadas que Toronto é uma cidade multicultural e vive da expressão das comunidades que ali se estabeleceram. O desporto é prova disso mesmo. Portugueses, italianos, sérvios e croatas quiseram jogar futebol nesta cidade e rapidamente se organizaram para criar equipas e jogarem entre si. A melhor de todas chegou ao topo de toda a América do Norte. Em 1976, os Toronto Metros-Croatia venceram a North American Soccer League. Eram uma autêntica seleção de croatas, mas o capitão falava português. Eusébio da Silva Ferreira foi — e é ainda — o herói da “seleção croata”, dos portugueses emigrados, de Toronto e do Canadá.
Jogou e marcou golos. Integrou-se na comunidade. Viveu o clube por dentro e até aprendeu o hino croata. Eusébio teve uma passagem curta por Toronto, mas os poucos meses em que pisou relvados nesta cidade canadiana são inesquecíveis para quem viu chegar um dos melhores de sempre a um pequeno clube de bairro.

A Seleção de um país que não existia no mapa
Para compreendermos o que foram os Toronto Metros-Croatia temos primeiro de falar dos Toronto Croatia. Em 1956, um grupo de croatas quis criar uma equipa para competir contra as outras comunidades locais. Os portugueses, os italianos, os húngaros, os judeus e os sérvios estavam a fazer o mesmo.
Com tantas pessoas emigradas era possível criar uma estrutura sustentável e equipas competitivas. Algumas destas equipas tinham jogadores que tinham representado grandes clubes na Europa, mas viajaram para o Canadá à procura de uma melhor vida.
Os Toronto Croatia jogaram inicialmente em várias ligas amadoras contra outras equipas criadas por comunidades imigrantes. A competitividade era muita e começaram a criar-se algumas rivalidades saudáveis. Poucos anos depois da fundação, em 1962, os Toronto Croatia integraram pela primeira vez uma liga profissional — a Canadian National Soccer League (CNSL). No início dos anos 70 já dominavam o campeonato. Tinham os melhores jogadores e apresentavam uma situação financeira saudável, que permitia apontar a outros voos.
Os adeptos, principalmente os croatas, vibravam com esta equipa. Joe Pavicic chegou ao Canadá em 1974. Tinha jogado futebol na Jugoslávia e assim que se ambientou a Toronto decidiu que queria fazer parte deste projeto. Juntou-se à estrutura do clube, que define como “a verdadeira seleção do povo croata nos anos 70”. Joe sentia que fazia parte da equipa que representava o país, que, no papel, não existia. Para além disso, era uma equipa vencedora e isso alimentava uma paixão dos croatas pela equipa que tinha sido criada havia década e meia. “Queríamos mostrar ao resto do mundo quem somos e que não pertencemos à Jugoslávia”, explica Joe.
Foi com este percurso sustentado que surgiu uma oportunidade de ouro em 1975. A equipa de Toronto que jogava no campeonato da América do Norte — A North American Soccer League (NASL) — entrou em dificuldades financeiras. Chamavam-se Toronto Metros e estavam prontos para vender o franchise que tinham nesse campeonato. Os Toronto Croatia decidiram investir e propuseram uma fusão. Tinham apenas duas condições: a equipa tinha de ter “Croatia” no nome e o equipamento tinha de ter as cores da Croácia.
O negócio avançou e criaram-se assim os Toronto Metros-Croatia. Este nome levantou problemas. A liga queria evitar afiliações étnicas. Nenhuma equipa de futebol profissional na América do Norte tinha um nome de origem étnica e nenhuma voltou a ter. Apesar da pressão da liga, o nome manteve-se.
A partir daqui, foi preciso fortalecer a equipa. Primeiro, a direção do novo clube procurou recrutar alguns dos melhores jogadores do campeonato canadiano, depois olhou para a Europa e é aí que entra o nome de Eusébio.
Se os EUA têm Pelé, o Canadá precisa de Eusébio
“Nós precisávamos de uma superestrela”, explica Joe Pavicic, que em 1976 fazia parte da estrutura dos Toronto Metros-Croatia. Ao Observador, aponta para um forte apoio da comunidade para que o clube tivesse sucesso: “As pessoas davam doações e os empresários começaram a dar patrocínios, era um novo clube de Toronto e perceberam que tínhamos ambição.”
A entrada dos Toronto Metros-Croatia na principal liga da América do Norte iria colocar a equipa a defrontar alguns dos melhores jogadores do mundo. Pelé, o maior de todos, jogava no Cosmos. Com ele estavam a chegar os melhores do mundo. George Best tinha assinado pelos LA Aztecs. António Simões estava em Boston e preparava a mudança para os San Jose Earthquakes. Giorgio Chinaglia iria também para o Cosmos.
No Canadá, a equipa de Toronto também queria uma superestrela e viram uma oportunidade com Eusébio. O Pantera Negra tinha jogado em Boston em 1975 e tinha-se mudado para o México para jogar no Monterrey. Joe Pavicic conta que os Toronto Metros-Croatia tentaram a sua sorte.
– Naquela altura, o nosso presidente era o Dick Bezich. De alguma forma, ele entrou em contacto com o Eusébio. Eu lembro-me dessa reunião, foi provavelmente no salão croata aqui em Toronto, estavam lá talvez 500 ou 600 pessoas. Quando ele anunciou que podíamos trazer o Eusébio para o clube, toda a gente ficou incrédula. Ninguém acreditou. Eu disse: “Vais trazer mesmo? Isso é possível?”. E ele disse: “Isto é possível se juntarmos 30 mil dólares”. O contrato dele era de apenas 30 mil dólares por temporada. É inacreditável.
– Por 30 mil dólares conseguiu o Eusébio para toda a temporada?
– Trinta mil. Sim, 30 mil por toda a temporada. A temporada aqui era jogada durante todo o verão, por isso podíamos trazer jogadores da Europa, porque eles não jogavam na Europa no verão, era a pausa.
– Mas esgotaram o orçamento?
– Não! O que aconteceu foi que fizemos o negócio com o Eusébio e as pessoas ficaram tão entusiasmadas que começaram a pedir mais jogadores. E vieram mais internacionais para os Toronto Metros-Croatia, como o Ivair, do Brasil.
– Como é que convenceram o Eusébio a viajar para Toronto na primeira vez?
– Fizemos um grande banquete no Salão Croata com cerca de 500 pessoas. Quando promovemos que o Eusébio vinha, foi como um feriado para o nosso povo. Ele era um homem modesto, simplesmente um homem modesto. As pessoas amavam-no como se tivessem crescido com ele.
Um dos reforços desta equipa foi Robert Iarusci, conhecido como Bob Iarusci, tinha 21 anos. Jogava num clube de italianos em Toronto, liderado por Aldo Principe. Este homem passou a integrar a direção dos Toronto Metros-Croatia e com ele trouxe alguns jogadores.

Apesar de ser jovem, Bob Iarusci lutou desde cedo por um lugar no onze titular e conseguiu. Chegou logo no inverno, antes das contratações sonantes do verão. Ao Observador, descreve o dia em que viu Eusébio pela primeira vez.
– Eu não sabia. Estava sentado no balneário, pronto para o treino no Lamport Stadium, um campo de relva artificial no centro de Toronto. De repente, a porta abriu-se, o Aldo Principe entrou e atrás dele vinha este homem bonito e elegante, com óculos de aviador. Ele parecia um deus. Olhei para o meu amigo Carmen e disse: “Meu Deus, é o Eusébio! É verdade?”. Ele foi apresentado à equipa nessa manhã.
– E ele treinou nessa manhã?
– Sim, treinou. Foi um sonho. Estar em campo com o Eusébio foi um sonho, porque me lembrava de o ver, quando era miúdo, no Mundial de 66 e nos jogos do Benfica contra o Manchester United na Taça dos Campeões Europeus nos anos 60. Naquela altura, ele era — com o Pelé ou logo a seguir ao Pelé — o melhor jogador do mundo.
– Nesse primeiro treino, percebeu que ele ia fazer a diferença?
– Sim, meu Deus! Até tive dificuldade em concentrar-me, porque ficava só a olhar para ele; queria saber como ele andava, como se movia, como mantinha a cabeça erguida, como se comportava e como falava. Eu estudei tudo sobre ele.
– E no treino? O Bob era defesa, teve de marcar o Eusébio?
– Não. Mas também não teria sido muito agressivo contra ele naquele momento. Mas se fosse ele percebia e era muito amável. Tornámo-nos muito bons amigos. Ele adorava os jovens, adorava Toronto, o Toronto Metros-Croatia e o povo croata. Ele era uma pessoa incrível.
Ivan Markovic, o treinador que tentou sentar Eusébio
O arranque da temporada dos Toronto Metros-Croatia não correu como planeado. Apesar da satisfação da comunidade em ver Eusébio, que contribuía com golos em várias partidas, os resultados eram muitas vezes desanimadores.
“Em 1976, as primeiras oito equipas iam aos playoffs e os Croatia estavam na última posição, em oitavo lugar. O treinador era o Ivan Markovic e ele teve alguns problemas com o Eusébio”, explica Joe Pavicic.
Este treinador croata tinha algumas posições controversas e o plantel começou a desconfiar. Bob Iarusci explica que Eusébio passou a ser um alvo: “Começou num jogo de exibição contra o Glasgow Rangers, num campo terrível de relva artificial. Os escoceses foram muito agressivos e o Eusébio sofreu faltas terríveis. O nosso central, o Cukon, disse-lhe para não se preocupar, que ele resolvia. Não demorou muito até o Cukon ‘resolver’ um deles e o conflito começou. O nosso treinador, Ivan ‘O Terrível’ Markovic, entrou em campo para tentar fazer as pazes, mas acabou por empurrar um fiscal de linha. Ele agarrou na bandeira do fiscal de linha e foi atrás do árbitro principal. O Eusébio tentou pará-lo, mas o mister respondeu-lhe no campo: “Eusébio, és um grande jogador, mas eu sou o treinador. Tens de me ouvir”. O Eusébio disse que ouvia, mas que ele não podia ficar no campo daquela forma, e saíram os dois.”
Este treinador é ainda descrito por Joe e Bob como um homem “particular” e capaz de algumas loucuras. A maior aconteceu no principal jogo da temporada. “Colocou-o no banco. A direção ficou realmente furiosa e disse que isso era impossível”, recorda Joe Pavicic. O treinador conflituoso tomou a decisão que iria mudar o futuro dos Toronto Metros-Croatia. Bob Iarusci estava na equipa.
– Era o jogo contra o Cosmos. O doido do Markovic sentou o Eusébio no jogo contra o Pelé. O Eusébio não jogou nesse jogo.
– E qual foi a vossa reação?
– Não queríamos acreditar. O Markovic não o deixou jogar contra o Pelé. Lembro-me que o Pelé até foi ter com a direção com um livro de cheques e disse que podiam tirar o que quisessem, mas que ele tinha de jogar contra o Eusébio. Perdemos 3-0 e o treinador foi despedido no dia seguinte.
Joe Pavicic, que estava na estrutura dos Toronto Metros-Croatia, confirma a revolta: “Foi uma decisão inaceitável. Despedimos imediatamente o Markovic e contratámos o grande Kapetanovic, um dos melhores treinadores croatas da altura. Ele veio para os playoffs e a equipa ficou 100 vezes melhor.”
Bob Iarusci confirma a evolução da equipa: “Veio o Kapetanovic, da Croácia, que era um homem muito simpático. No primeiro treino, ele disse que tínhamos grandes jogadores e um líder natural, por isso nomeou o Eusébio capitão da equipa. A partir daí, nunca mais perdemos um jogo.”

Um capitão português que cantava o hino croata
Com Eusébio como capitão dos Toronto Metros-Croatia a equipa subiu na tabela e chegou aos playoffs. Foi neste período que o craque português se passou a integrar cada vez mais na comunidade croata. “Ele vivia num hotel a maior parte do tempo e nós pagávamos tudo” explica Joe Pavicic, que se recorda do interesse de Eusébio pela comunidade: “Ele gostava dos portugueses, sim, estava com eles, mas também queria estar connosco”.
Bob Iarusci era um dos grandes amigos de Eusébio em Toronto. Explica que passavam várias horas juntos durante o dia e que “ele era muito social e era famoso”. Bob gostava de andar com Eusébio, sentia-se importante com ele.
– Todos os que gostavam de futebol conheciam o Eusébio. Para se perceber, no estádio, a nossa assistência subiu de uma média de oito mil para 16 mil pessoas por jogo. Onde quer que ele fosse, as pessoas queriam vê-lo.
– Parecia uma estrela de Hollywood?
– Era uma grande estrela e usava sempre aqueles óculos de sol bonitos, o que o tornava uma figura maior do que a vida. No campo, ele era “poesia”, tinha pés muito suaves e corria com passos pequenos, como um passarinho. O nosso treinador dizia que todos devíamos aprender a correr como o Eusébio.
Mas esta ligação com os colegas de equipa e com os adeptos não se ficava pelas aparências nos relvados ou nas ruas movimentadas de Toronto. Bob Iarusci recorda ao Observador um momento que o deixou emocionado.
– Íamos a restaurantes portugueses durante a semana e a restaurantes croatas ao fim de semana. Depois dos jogos, ele estava sempre rodeado de fãs croatas e falava um pouco de inglês, português e até algumas palavras em croata. Ele até aprendeu o hino nacional da Croácia.
– Ele cantava o hino da Croácia?
– Sim! Tínhamos jantares antes dos jogos num restaurante croata em Mississauga e, antes de servirem o jantar, levantávamo-nos todos e cantávamos os hinos do Canadá e da Croácia. O Eusébio e o Ivair Ferreira, um brasileiro chamado “Príncipe do Brasil”, tornaram-se melhores amigos e estávamos sempre os três juntos. E o Eusébio cantava mesmo o hino da Croácia, ele aprendeu a cantar.
– Para vocês isso era importante. Naquela altura, a Croácia fazia parte da Jugoslávia.
– Muito importante. E nós nem nos dávamos conta, mas éramos um símbolo da independência croata. O Toronto Metros-Croatia representava o povo de herança croata da América do Norte. Antes de o Eusébio chegar, em junho, fomos à Austrália em março fazer a pré-época e jogámos em seis cidades com grandes comunidades croatas, tal como acontece no Canadá. Sei que ganhámos um desses torneios de seleções croatas.

Quando Eusébio ia à Casa do Benfica, “era de se ‘bater a pala'”
Não é possível falar de Eusébio sem falar do Benfica e não se pode falar do Benfica sem falar de Eusébio. É assim hoje e era assim em 1976, quando o Pantera Negra ainda não tinha uma estátua no Estádio da Luz.
Em Toronto, nessa altura, a comunidade portuguesa já era uma das mais vibrantes e existiam várias associações que dinamizavam a atividade cultural da região. A Casa do Benfica era uma das maiores. Jorge Ribeiro, que emigrou para o Canadá em 1975, lembra-se da azáfama que existia em torno dessa associação.
– A Casa do Benfica estava localizada na Queen Street. Mas, antes de estar nesse local — que já tinha uma dimensão boa e um salão para entretenimento muito bom —, eles estiveram na College Street e foi aí que fundaram a casa. Logicamente que eu apareci ali e havia um ambiente fantástico. A Casa do Benfica não era famosa na altura por causa do futebol, era famosa pelos bailaricos. Ao fim de semana, nos sábados, havia sempre bailarico. Como eu era jovem e a minha mulher e eu já tínhamos a nossa filha, era o ponto de encontro da juventude. Os casados levavam os filhos e os solteiros procuravam casamento. Era por isso que a casa era famosa nos anos 70 e 80. Muita juventude veio a conhecer-se e a casar-se na Casa do Benfica.
– O Jorge, quando chega cá em 75, vai à Casa do Benfica para ir a um bailarico?
– Exatamente, porque a minha mulher queria ir a um bailarico. Nós sempre gostámos de dançar. Cheguei em 75 e, talvez no mês de dezembro, havia uma festa de fim de ano muito famosa organizada pela Casa do Benfica. Fui lá e um diretor perguntou-me o que eu queria. Eu disse que queria ir ao baile de fim de ano e ele disse: “Olha, faz-te sócio, assim não só te sai mais barato, como ficas já parte da família”. Fiz-me sócio e a partir daí nunca mais parou o meu envolvimento. Vim a ser presidente por “puxões”, porque isto é uma família e eu era jovem.
Antes de ser presidente de uma das maiores casas do Benfica em todo o mundo, Jorge Ribeiro era apenas um sócio que, entre bailaricos, acabou por se cruzar com o melhor jogador da história do clube que ama.
– Era muito agradável. Claro que não víamos o Eusébio todos os dias, porque ele tinha o clube onde estava muito envolvido e isso precisava de muito tempo, naturalmente. Mesmo sendo a Casa do Benfica um clube ligado ao Benfica de Lisboa, havia limitações, mas ele aparecia na Queen Street de vez em quando. Ele chegou a ir à Casa do Benfica algumas vezes quando esteve cá a jogar.
– Como é que era quando ele ia à Casa do Benfica?
– Era uma festa. Era de se “bater a pala”, como se costuma dizer à velha maneira. Ele sempre foi simpático, falava com as pessoas. Todos gostavam de falar com ele e às vezes até exagerávamos nas perguntas sobre como ia fazer isto ou aquilo, ou sobre aquele golo. Lembro-me que o Eusébio marcava golos mesmo aleijado do joelho; marcou um golo de 30 e tal metros quando esteve aqui e foi um sucesso. Sempre houve uma paixão pelo Eusébio.

Bob Iarusci, que passava os dias com o Pantera Negra, confirma a obsessão do jogador português com o clube que o catapultou para os grandes palcos da Europa: “Ele estava sempre com portugueses, estava entre eles, era muito social. Mas o assunto número um para ele era o Benfica — queria sempre saber o calendário de jogos e falava-me imenso sobre o clube.”
Entre os portugueses com quem Eusébio se dava em Toronto estavam José Maria Eustáquio, primo direito de Armando, pai de Stephen Eustáquio, que agora é internacional pela seleção do Canadá. Ao Observador, José Maria recorda os dias que passou com a estrela dos Toronto Metros-Croatia.
– O mundo e a vida têm destas histórias. Em 1976, apareceu cá o Eusébio durante uma única época. O Portuguese Community Center, que foi o primeiro clube português, foi lançado na 722 College. Era um ponto onde todos os portugueses se uniam e o Eusébio começou a aparecer. Nós criámos uma certa amizade. Eu lembro-me, tinha 13 anos. Lembro-me de ir aos jogos.
– A chegada de Eusébio teve impacto na comunidade?
– Ele foi único. Integrou-se na comunidade, aparecia nas casas comunitárias, nos bares e falava com o povo. Era um homem muito humilde, muito perfeito no seu sentimento. Notei que era um homem que tinha um grande orgulho por ter tido a oportunidade de jogar por Portugal e em Portugal. Ele percebeu, nos tempos que esteve aqui em Toronto, que a vida de imigrante não era fácil, e percebeu que os imigrantes eram mesmo puros portugueses. Ele gostava de viver cá. Eu acho que, se ele tivesse de escolher uma cidade para viver fora de Portugal, escolhia Toronto. Ainda há centenas de amigos que adoravam o Eusébio e que contam as histórias que viveram aqui. Ele era muito, muito bom, muito simples e muito humilde.


A comunidade portuguesa, também apaixonada por futebol, juntou-se aos croatas nos jogos do Toronto Metros-Croatia. Os estádios enchiam para os jogos e para os treinos. “Quando ele jogava, não eram só os croatas a ir aos jogos. No Varsity Stadium, com 22 mil lugares, quase todos os jogos estavam esgotados”, explica Joe Pavicic. O clube entrou numa rota vencedora e esse apoio dos adeptos foi importante.
“Fui a dois ou três jogos na altura”, confessa Jorge Ribeiro. “Havia muita gente no estádio, porque os portugueses gostam de futebol e ter uma representação tão boa como o Eusébio era uma alegria. Toda a gente que gostava de futebol ia ver os jogos. Nós portugueses, íamos mais por causa do Eusébio e para ver bom futebol e golos.”
A festa dos primeiros “canadianos” campeões da América: “Tenho uma foto do Eusébio a deitar champanhe na minha boca”
Embalados pelo apoio das comunidades e pela liderança de Kapetanovic, os Toronto Metros-Croatia enfrentaram os play-offs com uma mentalidade desafiadora. Eram vistos como underdogs, até porque estavam a cumprir o primeiro ano na National American Soccer League.
Na conferência atlântica ficaram em 2º lugar e por isso jogaram contra a equipa que ficou em 3º nessa mesma conferência, os Rochester Lancers. Quem vencesse teria um lugar na fase seguinte. Os Toronto Metros-Croatia venceram por 2-1 a jogar em casa. Vieram os Chicago Sting e os Toronto seguiram novamente em frente depois de um desempate nas grandes penalidades. Com este resultado, estavam na final da conferência leste, frente aos campeões da NASL no ano anterior, o Tampa Bay Rowdies, que tinham o português Francisco Marcos como principal gestor.
Bob Iarusci lembra-se perfeitamente do que motivou os Toronto Metros-Croatia nesse jogo em Tampa: tinham cerca de 45 mil pessoas no estádio. “Eles estavam a promover a oferta de bilhetes para a final em Seattle antes de jogarem connosco. Já imaginaste isto? Nós ainda não estávamos a jogar e no aquecimento eles já estavam a oferecer bilhetes aos adeptos para a final.” Foi combustível para a turma croata. “Vencemos 2-0 com golos de Eusébio e Ivair. Tivemos de ir de Tampa diretamente para Seattle e nem tínhamos roupa mudada; tivemos de ir comprar camisas e casacos para o jantar oficial da liga.”
O que começou por ser um pequeno clube croata dos bairros de Toronto, tornou-se num campeão de conferência da NASL, que teria oportunidade de discutir a Soccer Bowl.
A final jogou-se a 28 de agosto de 1976, em Seattle. Os Toronto Metros-Croatia mediram forças com os Minnesota Kicks. Vinte e cinco mil adeptos nas bancadas para assistirem ao duelo. Eusébio era a maior estrela naquele estádio, mas entrou no balneário combalido: “Antes da final em Seattle, tiveram de lhe dar uma injeção de cortisona no joelho esquerdo, porque ele estava a coxear no balneário e nem sabíamos se ia jogar”, explica Bob Iarusci.
Eusébio jogou. Marcou um golo de livre direto e assistiu para outro. Os Toronto Metros-Croatia venceram com golos de Eusébio, Lukačević e Ivair Ferreira. Foi a primeira vez que uma equipa canadiana conquistou a NASL. Eusébio terminou essa época com 16 golos e 4 assistências em 21 jogos. Bob Iarusci, o grande amigo, foi o único jogador dessa equipa que participou em todos os minutos dos 24 jogos da temporada.

A festa começou ainda no estádio e Joe Pavicic conta que foram os adversários a ajudar: “Os Minnesota achavam que iam ganhar facilmente e trouxeram champanhe para depois do jogo. Nós batemo-los por três a zero e, depois de o jogo acabar, os jogadores do Minnesota Kicks trouxeram todo o champanhe que tinham e deram-no à nossa equipa, porque, disseram, ‘Vocês merecem e vocês é que têm de celebrar isto'”.
Bob Iarusci confirma que bebeu com prazer o champanhe que era destinado aos adversários: “O capitão do Minnesota Kicks entrou no nosso balneário com uma caixa de champanhe, que era para eles celebrarem. Foi muito simpático. Tenho uma foto no meu telemóvel do Eusébio a deitar champanhe na minha boca.”

Os bairros das comunidades imigrantes em Toronto ficaram radiantes. “A festa foi no clube croata na Dupont Street e estava apinhado”, explica Joe Pavicic, “o salão levava algumas centenas de pessoas, mas milhares estavam lá fora à espera. Quando os jogadores e o Eusébio saíram, toda a gente os agarrava. Foi incrível.”
A equipa foi também recebida na Câmara Municipal e Bob Iarusci diz que os jogadores fizeram questão de colocar Eusébio no centro: “Fomos recebidos, sim, e deram-nos a chave da cidade. Foi o Eusébio que a carregou. Ele foi tratado como a realeza que era.”
Como o nascimento da Croácia enquanto país levou ao fim dos Toronto Metros-Croatia
A histórica temporada de 1976 foi a única em que Eusébio esteve no Canadá. Voltou algumas vezes para visitar velhos amigos, mas não voltou a jogar por equipas canadianas. Assim que saiu dos Toronto Metros-Croatia assinou pelo Beira-Mar, mas nesse ano de 1977 ainda voltou à América do Norte para jogar pelos Las Vegas Quicksilvers. No ano seguinte, em 1978, cumpriu a última época da carreira e dividiu-se novamente entre Portugal e os EUA. Jogou no União de Tomar e nos New Jersey Americans.
Já Bob Iarusci tinha uma carreira de futebolista pela frente — e que carreira teve. Em 1977 foi transferido para o New York Cosmos. “Fui vendido pelo valor que o Metros-Croatia devia ao Cosmos, que era uma percentagem das receitas, por causa das assistências que o Pelé gerava. Todos os clubes tinham de pagar isso e o Toronto Metros-Croatia tinha ficado em dívida. Eu servi para pagar. No Cosmos joguei com o Pelé no seu último ano, depois joguei com o Beckenbauer e com o Carlos Alberto. Eu tinha 22 anos e sentia-me beijado por Deus. Depois, fui vendido ao Washington Diplomats e joguei com o Johan Cruyff em 1980.”
Bob Iarusci foi internacional pelo Canadá e esteve na equipa que conseguiu a primeira qualificação para um Mundial, em 1986. Acabou por não participar na competição, por ter pedido ao treinador para regressar ao clube durante um estágio com jogos amigáveis: “Era o clube que me pagava o salário, a seleção só me pagava um dólar e meio por dia, o que podia fazer? O selecionador ficou chateado. Podia ter estado nesse Mundial”.

Quem hoje procura por Toronto Croatia encontra mais referências ao jogo dos 16 avos de final do Mundial de 2026 do que à equipa que colocou a cidade canadiana no mapa do futebol norte-americano. Encontrar os Toronto Metros-Croatia não é fácil, e podemos dizer que o clube já não existe. Depois do ano histórico de 1976 a equipa foi desaparecendo aos poucos explica Joe Pavicic.
– As despesas eram tremendas, principalmente com as viagens, e não tínhamos o nosso próprio estádio nem instalações. Quando os Blizzard apareceram, os empresários disseram “OK, vamos vender”. Havia muita pressão, porque uma equipa com um nome étnico como “Toronto Croatia” ganhou o campeonato da América do Norte. Na altura, li em muitos jornais que isso era errado e que não devia acontecer. Houve pressão de todo o lado. E por isso as pessoas decidiram vender a equipa. Mas ninguém perdeu dinheiro; todos os que emprestaram dinheiro e investiram no clube receberam-no de volta.
– Ninguém perdeu dinheiro?
– Ninguém. Eu estava na gerência e sobraram cerca de 120 mil dólares depois de pagarmos todas as contas.
– Mas o Toronto Croatia continuou…
– Vendemos a empresa Toronto Metros-Croatia, mas o nome fundamental continuou sob outra empresa. Estabelecemos a equipa novamente na liga nacional do Canadá e todos ficaram felizes por o Toronto Croatia voltar a jogar. Eu geri a equipa de 2006 a 2019, durante 13 anos. Ganhámos o campeonato quatro vezes e fomos sete vezes às finais. Eu financiava cerca de 80% da equipa pessoalmente, apenas para garantir que a equipa existisse. Quando a Croácia se tornou independente, o interesse pelo futebol aqui diminuiu e eu decidi reformar-me. Mudei-me para a Croácia em 2020-2021.

Joe Pavicic é um dos grandes responsáveis pela equipa ter resistido tanto tempo. Profissionalmente, criou em 1980 a Likro Precision Ltd. — uma empresa que produz e distribui peças feitas com precisão para as indústrias de aviação, espacial e de defesa. Enriqueceu com este negócio e com isso conseguiu ajudar a manter viva a história dos Toronto Croatia.
Foi também ele que batalhou para que esta histórica equipa nunca fosse esquecida por quem gere o futebol canadiano. Agora, passados 50 anos da conquista de 76, garante que voltaria a fazer tudo de novo.
– Tenho pele de galinha. Trabalhei nisso durante muito tempo, com as pessoas do Hall of Fame, e eles aceitaram em 2010. Foi a maior coisa que alcancei com a equipa. Agora podes ler que uma das melhores equipas da História do Canadá foi o Toronto Metros-Croatia, liderados pelo grande Eusébio.
