Entre os seus 5 mil metros quadrados, diversas salas de depósito e espaços expositivos, o CACE Centro, localizado em Alcabideche, quer ser uma “porta de entrada” para quem quiser conhecer os bastidores da Coleção de Arte Contemporânea do Estado, mas também uma “porta de saída” que irá levar muitas destas obras em itinerância nacional e internacional. Num pavilhão amplo, onde no passado funcionou a Fundação Elipse, estão agora cerca de 1300 obras que ali poderão ser visitadas por marcação ou em momentos de entrada livre que fazem parte da agenda de programação. Trata-se de um modelo híbrido entre local de trabalho e reservas visitáveis, onde também se irá desenvolver um serviço educativo, programas de conferências e outros momentos de diálogo em torno das práticas artísticas. Acima de tudo será, como nos aponta a sua responsável, a curadora Sandra Vieira Jürgens, uma “plataforma de descentralização”, fixando assim o desígnio de um acervo que se quer móvel, transparente e democrático no seu acesso ao público.
Na sala principal deste complexo, onde se vislumbram algumas das aquisições recentes, ultimam-se os preparativos para a inauguração, que acontece esta quarta-feira, dia 1 de julho. Não querendo ser concorrente de nenhuma outra instituição – nem “mais um museu” a orbitar na região de Lisboa ou um ponto de atração turística –, o foco está em mostrar o funcionamento diário e a gestão de uma coleção pública. Tendo como exemplos o Schaulager, na Suíça, ou o Depot Boijmans Van Beuningen, nos Países Baixos, o CACE Centro acompanha uma tendência internacional onde se abre o outro lado das coleções de arte, muitas vezes vastas e, por isso, nem sempre disponíveis para quem as quer conhecer.

“O facto de as reservas se abrirem responde a uma perspetiva de transparência, onde mostramos como cuidamos das obras. Ou seja, mostramos aquilo que normalmente fica nos bastidores e expomos esta retaguarda. E esta retaguarda não tem só a ver com o armazenamento, mas também com a forma como irradiamos a atividade da coleção para a sua descentralização”, sintetiza a curadora ao Observador.
Para esta abertura será inaugurada a exposição Dual Sim, patente até outubro, com curadoria de Filipa da Rocha Nunes e Sofia Montanha, na qual se reúnem 23 obras integradas na coleção a partir dos programas anuais de aquisição de arte contemporânea, que tiveram início em 2019. No mesmo dia será igualmente apresentada uma performance da Companhia Nacional de Bailado, concebida especialmente para esta ocasião. Na mostra de obras de vários artistas, o movimento dos bailarinos associa-se às peças de arte, dando o mote para arrancar o projeto deste centro aprovado em Conselho de Ministros, em dezembro de 2025, e que permitiu “dotar esta coleção pública de arte contemporânea de um espaço de acervo centralizado, representando um ganho significativo em termos de organização, gestão e conservação”.
Uma reserva feita para ser vista
Entre as várias salas de reserva encontram-se diferentes tipologias de obras: uma sala de escultura e de pintura de escala mais reduzida, uma inteiramente dedicada à fotografia, outra para obras instalativas e escultóricas de grande escala e ainda outra mais híbrida, onde se cruzam a fotografia, a pintura e os trabalhos que recorrem ao papel como suporte. Visitamos ainda uma sala dedicada à conservação e armazenamento, uma black box dedicada à apresentação de obras multimédia, além de vários locais de passagem por onde entram e saem as obras devidamente acomodadas. A temperatura mais baixa e controlada nalguns casos, a iluminação ajustada noutros e o mobiliário móvel para suporte das obras são necessidades colmatadas pelo centro, que encontra aqui uma forma de reunir o seu acervo.
“[Este espaço] permite-nos ter uma organização muito mais fácil das próprias dinâmicas de trabalho. O projeto foi pensado para aliar essa dimensão prática de reunir o acervo ao conceito de transparência. Queremos que seja um espaço de fruição da nossa coleção, tornando-o visitável e dotando-o de bastante atividade, seja através do serviço educativo ou de formação em áreas mais técnicas. Não estamos por isso a pensar em visitas guiadas tradicionais, mas sim em propostas diferentes, mais práticas, que combinem a fruição artística com o conhecimento sobre como a coleção é gerida e como se olha para as obras que a compõem”, explica Sandra Vieira Jürgens.
“Como ver do avesso”, sustenta a curadora, o CACE Centro quer ajudar a compreender os cuidados implícitos na gestão e conservação de obras de arte, sobretudo tendo em conta as suas múltiplas tipologias. Uma coleção é, defende, não apenas uma “acumulação de obras”, mas também um gesto feito de intenções curatoriais e artísticas que vai mudando ao longo dos tempos – e, por isso, nem sempre devidamente compreendida por quem olha de fora. Ainda assim, explica, esta será sempre uma forma de mostrar peças que, noutras condições, estariam possivelmente fechadas, longe do olhar do público. “Deixamo-las aqui à sua fruição pública”, completa.
Uma coleção com 50 anos de história
Um aspeto crucial deste novo espaço é o facto de ele se traduzir num marco histórico, ao fixar um percurso de 50 anos. Aquilo que hoje se designa por Coleção de Arte Contemporânea do Estado foi criado em 1976 para apoiar os artistas nacionais e a sua produção, sendo inicialmente gerida pela Secretaria de Estado da Cultura. Mais tarde, passou para a esfera da Direção-Geral da Ação Cultural, concretamente no âmbito da Divisão de Artes Plásticas, onde colaborava o pintor Fernando Calhau, grande impulsionador e dinamizador da coleção.

Seguiram-se períodos longos sem aquisições ou uma orientação curatorial definida. A coleção só ganhou novo fôlego em 2019, quando foi criada uma comissão de aquisições pela então ministra da Cultura, Graça Fonseca. A recuperação de peças desaparecidas, o foco em novas compras e um orçamento anual de 300 mil euros – que logo passou para 600 mil e, a seguir, para 800 mil euros – foram os passos recentes que ditaram o crescimento da CACE. Entretanto institucionalizada, a coleção funciona hoje sob a tutela da empresa pública Museus e Monumentos de Portugal.
Apesar do crescimento financeiro, a política de compras não tem estado imune ao escrutínio. Sobre as polémicas recentes em torno dos critérios e valores de certas aquisições — que ganharam tração pública após a contestação da compra da instalação The Tearoom, da dupla João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, adquirida por 79.950 euros —, Sandra Vieira Jürgens assegura que o processo da Comissão para a Aquisição de Arte Contemporânea (CAAC) “se tem pautado pela transparência e pela fundamentação técnica”.
A curadora explica que a seleção cabe a um júri independente de cinco peritos externos (curadores, académicos e artistas) que muda a cada dois anos, garantindo a diversidade de géneros e contextos. Após a seleção de um criador, é pedido um portfólio com um mínimo de 8 e um máximo de 12 obras que reflitam vários períodos do seu percurso. “O contacto é sempre feito inicialmente com o artista ou os representantes legais, sendo pedido que informem se a representação é em nome individual ou por galeria”, detalha. É com base nesses documentos, que devem indicar o preço base e o respetivo IVA, que se extrai a proposta.
“É necessário destacar também que a CAAC foi criada para desenvolver uma política pública de aquisição de arte contemporânea que valorize, dignifique, preserve e estimule a criação artística. Por isso, as compras são feitas de acordo com os valores de mercado e não abaixo destes, até porque a função da CAAC é selecionar as obras e não entrar num processo negocial que desvalorize os artistas”, justifica Sandra Vieira Jürgens, sublinhando que o relatório final é validado pela administração da Museus e Monumentos de Portugal seguindo as regras da contratação pública. Para a responsável, trata-se de um modelo “transparente e participado” que tem servido de inspiração a outros programas e que representa o envolvimento ativo da comunidade nas políticas públicas para a cultura.
Para a sua história sublinha-se ainda a incorporação, através de aquisição, de acervos vindos de bancos falidos, como o BPN (cinco milhões de euros, em 2019) ou os célebres Miró, hoje num núcleo próprio depositado no Museu de Serralves. Mais recentemente, em 2022, a CACE foi integrada por aquisições do Estado da Coleção BPP (4,76 milhões de euros) e da Coleção Ellipse (30,1 milhões de euros) – pertencente ao antigo banqueiro João Rendeiro –, que dotaram o acervo de uma importância que até então não tinha.
O espaço que agora abre portas está instalado, aliás, num edifício antes pertencente à Fundação Ellipse (de onde provém a coleção homónima), adquirido pelo Estado por 3,45 milhões de euros, no âmbito do processo de insolvência da instituição financeira. É nesta soma de espólios que a CACE passa hoje a concentrar um conjunto relevante com mais de 3200 obras. Uma parte permanece noutros depositários, como acontece com a coleção do BPP, em Serralves, ou com a do BPN, atualmente afeta ao Centro de Arte Contemporânea de Coimbra (CACC). No caso da Ellipse, existe um protocolo de comodato com o MAC/CCB, em Lisboa, que lhe garante 50 obras na sua exposição permanente, mantendo-se o acordo de poder aceder a mais 200 obras para a programação anual.

Perante os diversos debates que se foram gerando ao longo dos últimos anos sobre estes protocolos, Sandra Vieira Jürgens sustenta que foi importante atualizar alguns destes acordos, com vista a “formalizar e tornar legais todas as situações de empréstimo” com as várias entidades depositárias. A CACE, acrescenta, no seu todo, deve estar ao serviço dos vários museus tutelados pela MMP, assegurando igualmente que a articulação entre instituições tem corrido sem problemas. “Mesmo em relação ao MAC/CCB houve sempre uma articulação muito tranquila. Aquelas 50 obras estão em depósito, mas se precisarmos de alguma, comunicamos, verificamos a disponibilidade e articulamos o processo, tal como fazemos com as restantes peças do núcleo Ellipse. As coisas têm funcionado bastante bem”, salienta.
Pela itinerância e pela internacionalização
Resolvido um problema de espaço com cinco décadas e clarificados os protocolos existentes com várias instituições, o CACE Centro quer manter uma programação livre. Para o efeito, o centro conta com um orçamento de 125 mil euros destinados à programação, cuja estratégia passa por exposições onde curadores externos são convidados a trabalhar, de forma inusitada (como acontece na mostra de abertura), num modelo de diálogo direto com as obras do acervo. A aposta no serviço educativo será outra das dimensões determinantes na identidade deste espaço.
“A ideia é termos sempre algumas obras expostas e trabalhar com academias ou com escolas. Vamos trabalhar muito esse modelo que alia o serviço educativo à reflexão sobre o que pode ser uma coleção e às leituras que as pessoas que nos visitam podem fazer a partir dela. Vamos ter pequenas maquetes para trabalhar conceitos como a seleção e a conservação, porque o objetivo é mostrar a dimensão técnica deste trabalho. Nem tudo se resume à área expositiva. Muitas vezes há essa associação de que a arte é apenas a exposição, mas há muito mais para lá do produto final, e nós queremos valorizar a conservação e o estudo de uma coleção. Este espaço e o seu serviço educativo vão servir, acreditamos, para produzir conhecimento, oferecendo a estudantes e investigadores a possibilidade de contactarem com obras, algumas delas pouco expostas”, detalha Sandra Vieira Jürgens.
É ali que se encontram obras antigas, como Abismos, tela de 1949 de Jorge de Oliveira, mas também criações recentes. Na exposição Dual Sim, são disso exemplo as peças de artistas como Ana Cardoso, Belén Uriel, Diogo Evangelista, Eugénia Mussa, Gabriel Abrantes, Inês Zenha, Joana Escoval, Leonor Antunes, Mané Pacheco, Nikolai Nekh, Paulo Mendes, Sara Graça, Susanne S. D. Themlitz e Von Calhau. O CACE Centro move-se entre esse passado, por vezes até bastante desconhecido atualmente, e o presente de artistas cuja prática está ainda em pleno desenvolvimento.
É também a contar com esta premissa que a comissão de aquisição manterá o seu desígnio no futuro. Quanto à CACE, diz Sandra Vieira Jürgens, o objetivo passa por manter a tónica da descentralização. “Continua a ser a nossa marca identitária e iremos continuar a desenvolvê-la com a presença e visibilidade no território nacional e internacional”, explica a curadora. Desde 2023, a coleção foi mostrada sob diferentes ângulos em 16 exposições, das quais 11 em Portugal e cinco no estrangeiro, passando por cidades como Madrid, Berlim, Roma e Xangai.

Ao longo deste ano e até 2028, esse percurso itinerante continua a desenhar-se no Centro de Artes de Sines (11 de julho), no Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas da Ribeira Grande, nos Açores (25 de julho), e em Viseu, no Museu Nacional Grão Vasco, com uma mostra a inaugurar a 14 de novembro. A estes momentos seguem-se, em 2027, exposições em Évora, no Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo – no âmbito da Capital Europeia da Cultura –, no MUDAS – Museu de Arte Contemporânea da Madeira, no Funchal, e, internacionalmente, em Paris, na Fundação Fiminco.
Com esta rota delineada, o novo espaço de Alcabideche quer provar que os bastidores de uma coleção não têm de ser sinónimo de esquecimento. “As reservas eram muitas vezes vistas como arquivos estagnados e estáticos, mas nós queremos mostrar exatamente o contrário: que são lugares com muita dinâmica, onde as pessoas podem ver a própria equipa a trabalhar ao vivo e perceber as dimensões desse trabalho contínuo”, defende Sandra Vieira Jürgens. Será ali e a partir dali que funcionará, assim o esperam, como motor de arranque para uma nova era da coleção.