No cenário idílico de uma pequena aldeia dos Alpes Suíços rodeada de imponentes montanhas como o Matterhorn e o Mont Blanc, dois padres franceses, um suíço e um norte-americano vão esta quarta-feira ser ordenados bispos. À primeira vista, isto não seria notícia: anualmente, dezenas de novos bispos católicos são ordenados em cerimónias rotineiras por todo o mundo. Mas Pascal Schreiber, Michael Goldade, Michel Poinsinet de Sivry e Marc Hanappier vão ser ordenados bispos explicitamente contra a vontade do Papa, com pompa e circunstância, numa cerimónia que deverá ter centenas de participantes e ser seguida por milhares de pessoas em todo o mundo através de transmissão televisiva. E vão abrir um cisma com o Vaticano.
As ordenações em Écône, aldeia suíça onde está desde a década de 1970 instalado o seminário da Fraternidade Sacerdotal de São Pio X (FSSPX), histórico grupo ultra-tradicionalista que ao longo das décadas tem desafiado o Vaticano e lutado por uma Igreja Católica à moda antiga, livre das inovações do Concílio Vaticano II, serão o culminar de uma polémica que se arrasta há meses e que o Papa Leão XIV tentou, até ao limite, impedir — publicando, já esta terça-feira, uma carta aberta com um último apelo ao grupo radical para que revertesse a decisão de ordenar bispos sem mandato de Roma, ato cismático punido pela lei eclesiástica com a excomunhão automática.
“Peço-vos e suplico-vos do fundo do coração: reconsiderai”, escreveu Leão XIV na carta que enviou ao líder da FSSPX, chamando a atenção para o facto de a decisão cismática deixar não apenas os clérigos da Fraternidade fora da Igreja Católica, mas também todos os fiéis que recorrem às suas celebrações e comunidades de boa fé. “Exorto-vos a ter em conta, com muita atenção, o bem espiritual dos fiéis, porque a ação cismática que cometeríeis privá-los-ia da receção lícita e, nalguns casos, até mesmo válida dos sacramentos que eles amam e procuram para a sua santificação.”
O Papa Leão XIV diz ainda, na carta em francês, que Roma “está disponível para um caminho de diálogo e de entendimento” com a FSSPX, para que se evite o “pecado de extrema gravidade” que significaria a decisão cismática de “rasgar a túnica” de Cristo. Na véspera da ordenação episcopal não autorizada, é ainda incerto o papel que a carta do Papa norte-americano poderá vir a ter. O que é certo é que os quatro dias de celebrações já arrancaram na segunda-feira, com a ordenação de vários padres da FSSPX — e basta consultar o site do evento criado pela organização para perceber que foi feito um grande investimento nesta celebração histórica. O programa de quatro dias inclui múltiplas celebrações, inscrições obrigatórias, um esquema para a partilha de boleias e alojamentos, uma zona de restauração cashless para o convívio dos participantes e ainda uma caixa de quatro garrafas de vinho especialmente concebidas para o evento, que custa 80 euros e pode ser levantada pelos participantes no recinto do seminário.
A celebração das consagrações episcopais, numa longa cerimónia realizada em latim e segundo o rito antigo, está agendada para as 9h00 de quarta-feira (8h00 de Lisboa) e será o ponto alto destes quatro dias de festividades para a FSSPX — mas será também o momento em que, 38 anos depois, a organização volta a abrir um cisma com a Igreja Católica, deitando por terra os esforços de aproximação feitos ao longo das últimas décadas.
A minoria que rompeu com Roma após o Concílio Vaticano II
Como o Observador explicava em fevereiro, quando a FSSPX anunciou a decisão de levar por diante as ordenações episcopais contra a vontade do Papa, a origem de todo este drama situa-se na década de 1960. Foi nessa altura que, num contexto marcado pelas revoluções do século XX, pelas inovações tecnológicas e pela crescente secularização, o Papa João XXIII convocou o Concílio Vaticano II. Perante uma “grave crise da sociedade”, em que o progresso material não era acompanhado por um “igual progresso no campo moral”, a Igreja, que desde o século XIX vinha tendo uma relação difícil com a modernidade e que começava a sentir uma perda de relevância nas sociedades contemporâneas, precisava de olhar para dentro e perguntar-se: que Igreja para os tempos modernos?
O Concílio Vaticano II durou de 1962 a 1965, o que significa que já viria a ser encerrado pelo Papa Paulo VI, e trouxe à Igreja Católica um termo novo, síntese de todas as reformas: o aggiornamento, uma atualização da forma para se tornar capaz de transmitir ao mundo contemporâneo o seu conteúdo de sempre. O Vaticano II foi o grande momento transformador da Igreja Católica do século XX e contou com a participação não só dos bispos de todo o mundo, mas também dos grandes teólogos do seu tempo, incluindo figuras como Joseph Ratzinger ou Karl Rahner, que foram decisivos na definição dos rumos e das decisões finais do Concílio.
Foi daquele difícil tempo de transformações e convulsões, que esteve longe de ser pacífico e consensual, que emergiu a Igreja Católica que conhecemos hoje. A mudança mais visível terá sido a célebre reforma litúrgica: o antigo rito da missa, celebrado em latim e com o padre de costas para o povo, que foi a norma durante séculos, foi substituído pela versão moderna da liturgia, que já pode ser celebrada nas línguas de cada lugar, com o sacerdote voltado para os fiéis e com todos os participantes em torno do altar. A mudança dos livros litúrgicos também levou a mudanças, por exemplo, nas leituras bíblicas ouvidas em cada celebração. A versão antiga do rito manteve-se permitida sob a designação “forma extraordinária”, destinada a ser usada apenas em circunstâncias específicas, e cujo uso foi objeto de grande polémica devido a avanços e recuos nos pontificados de Bento XVI e Francisco.
Mas as transformações do Concílio Vaticano II foram muito além da liturgia. A abertura ao diálogo entre a Igreja e outras confissões cristãs e outras religiões, o reforço da colegialidade dos bispos na tomada de decisões por oposição ao poder absoluto do Papa (foi na sequência do Vaticano II que surgiu, por exemplo, o atual Sínodo dos Bispos) e a própria conceção do lugar da Igreja no mundo contemporâneo passaram a ser vistas de outro modo — o que não agradou a todos. Uma fação minoritária defendia outro tipo de relação entre a Igreja e a modernidade e ficou profundamente descontente com os resultados do Concílio Vaticano II. Dentro desta fação, destacou-se o arcebispo francês Marcel Lefebvre, membro da congregação dos espiritanos, que tinha passado grande parte da sua vida em África como missionário.
Lefebvre tornar-se-ia um dos principais rostos da oposição às reformas do Concílio Vaticano II. Para o francês, o grande espinho do Concílio nem era a questão da liturgia, mas sim o diálogo inter-religioso: admitir o diálogo da Igreja com outras religiões como uma conversa entre iguais era uma inaceitável menorização da Igreja Católica, relativizava a sua importância, reduzia o poder do Papa no mundo e conduziria à irrelevância da Igreja. O abandono do latim e do rito antigo, mais do que o ponto central, era um símbolo desta infiltração do modernismo na Igreja.

“Ele tinha sido missionário, tinha tido um papel importante nos padres espiritanos, na missão em África. Toda a estrutura mental dele era a de que aqueles que não eram batizados iriam para o Inferno e, portanto, era preciso batizá-los à força”, contextualizou ao Observador o padre Peter Stilwell, responsável pelo diálogo inter-religioso no Patriarcado de Lisboa. “Portanto, isto agora de dizer que vale tudo era ir contra a doutrina da Igreja. Fora da Igreja não havia salvação, era preciso dizer isso alto e bom som.”
Opondo-se de modo radical ao Concílio, Lefebvre decidiu começar a correr em pista própria. Em 1970, abriu um seminário tradicionalista em Écône, na Suíça. Ali, era como se o Vaticano II nunca tivesse acontecido: tudo era feito à maneira antiga. Lefebvre atraiu muitos jovens seminaristas descontentes com o rumo da Igreja e começou a formar gerações de padres tradicionalistas opositores às formas. Nascia a Fraternidade Sacerdotal de São Pio X, que em alguns anos se transformou na mais importante oposição interna a Roma dentro da Igreja — e começava o caminho da rutura. O seminário tinha sido fundado graças à autorização dada pelo bispo suíço local, mas em 1975 o Vaticano reverteu essa autorização. Apenas cinco anos depois da sua fundação, a FSSPX já começava a funcionar à margem das regras. No ano seguinte, Paulo VI suspendeu Lefebvre, proibindo-o de ordenar novos padres. Lefebvre desobedeceu e continuou a ordenar sacerdotes em Écône, enviando-os para todo o mundo e expandindo a rede de influência da FSSPX. (Em Portugal, por exemplo, a FSSPX está presente com centros de culto em Lisboa, Porto e Fátima, e recentemente até teve de expandir a sua igreja na capital, por falta de espaço para todos os fiéis.)
Durante alguns anos, a FSSPX esteve em situação irregular dentro da Igreja, por desobedecer à suspensão papal, mas ainda assim manteve-se no interior da Igreja Católica. Foi em 1988 que a rutura completa se deu: Lefebvre estava idoso e sabia que não duraria muito mais. Sendo o único bispo da organização, era ele o único que tinha capacidade sacramental para ordenar novos padres. A FSSPX estava, portanto, à beira de uma crise existencial: se Lefebvre morresse sem que houvesse novos bispos, a organização podia acabar. A decisão foi afrontar Roma. No verão de 1988, Lefebvre ordenou quatro bispos sem autorização de Roma. Ordenar um bispo sem mandato pontifício é muito mais grave do que as desobediências anteriores de Lefebvre: põe em causa a tradição da Igreja Católica de considerar os bispos sucessores diretos dos apóstolos (tendo, por isso, de ser escolhidos pelo Papa) e é punida com a excomunhão automática. A ordenação daqueles quatro bispos foi um ato cismático e colocou a FSSPX de fora da Igreja Católica.
O cisma e a excomunhão não abrandaram o ritmo de crescimento da FSSPX. Pelo contrário: fora da comunhão com Roma, a Fraternidade continuou a crescer a grande ritmo, expandindo-se por todo o planeta. De acordo com as estatísticas de 2025, a FSSPX tinha 733 padres e 264 seminaristas, presentes em mais de sessenta países. Estima-se que cerca de 600 mil fiéis estejam associados a comunidades da FSSPX em todo o mundo. A Fraternidade deixou de ser uma pequena seita marginal para se tornar no maior e mais influente grupo oposicionista da Igreja Católica.

Durante décadas, a relação entre Écône e Roma foi de forte tensão. O Papa João Paulo II criou no Vaticano a comissão “Ecclesia Dei”, com o objetivo de acompanhar os fiéis ligados à FSSPX e dialogar com a organização. No contexto do ano jubilar de 2000, Roma e a FSSPX retomaram os contactos e começou a ver-se uma luz ao fundo do túnel. Em 2009, o Papa Bento XVI levantou a excomunhão dos quatro bispos que tinham sido ordenados por Marcel Lefebvre em 1988. O objetivo era que aquele fosse lido como um gesto de boa fé que abrisse espaço para a reconciliação, mas a decisão acabou por aprofundar ainda mais a polémica (sobretudo porque, na altura, foram recuperadas declarações de um dos bispos cismáticos, negacionista do Holocausto). Ao fim da situação de cisma e de excomunhão seguiu-se um novo gesto de Roma: em 2015, a propósito do Jubileu da misericórdia, o Papa Francisco determinou que os padres da FSSPX passavam a ter a faculdade de ouvir confissões de forma válida, e a exceção foi depois prorrogada sem limite. Dois anos depois, em 2017, Francisco determinou que os casamentos celebrados por padres da FSSPX seriam válidos na Igreja Católica.
Todas estes gestos não serviram, contudo, para resolver o grande impasse: a FSSPX continua sem aceitar as conclusões do Concílio Vaticano II e, por isso, a comunhão com o Papa, com Roma e com o resto da Igreja Católica continua ameaçada. Encontrar um lugar regular para a FSSPX dentro da Igreja Católica (por exemplo, através da figura jurídica da prelatura pessoal, uma espécie de diocese sem território, hoje aplicada apenas ao Opus Dei) continua a depender de um entendimento teológico inexistente. A questão não se prende com as missas em latim — há vários grupos dentro da Igreja Católica que celebram a missa no rito antigo e que estão em comunhão com Roma, incluindo, por exemplo, a Fraternidade Sacerdotal de São Pedro. A divisão é mais profunda e vai além do simples rito litúrgico: a FSSPX mantém-se em combate contra aquilo que acredita ser uma “nova religião” infiel ao verdadeiro Catolicismo.
A história repete-se
Quase quatro décadas depois das quatro ordenações episcopais que abriram o cisma e lançaram a FSSPX na excomunhão, a história repete-se. O grupo tradicionalista vê-se, novamente, à beira de uma crise existencial devido à falta de bispos. Dos quatro ordenados em 1988, já só restam dois. Um deles (Bernard Fellay) já foi o líder da FSSPX no passado e, segundo a imprensa francesa, é mal visto internamente pela ala mais anti-Roma da FSSPX, por ter trabalhado com o Vaticano nos esforços de aproximação. Terá sido essa reputação que levou a FSSPX a escolher como superior geral o padre italiano Davide Pagliarani, visto como um representante da linha dura da FSSPX, mais resistente a acordos com Roma. Mas, com apenas dois bispos a caminho dos 70 anos de idade, a FSSPX vê-se novamente perante o dilema da continuidade: sem bispos que possam garantir a administração dos sacramentos (e a ortodoxia neste âmbito é um ponto de honra para a Fraternidade), o grupo enfrenta de novo o risco da extinção.
Foi neste contexto que, em fevereiro deste ano, a FSSPX anunciou num comunicado que, dentro de cinco meses, no dia 1 de julho, seriam ordenados quatro novos bispos tradicionalistas. A reedição das polémicas ordenações de 1988 fez soar os alarmes em Roma: depois de décadas de tentativas de reaproximação, a ameaça de cisma era de novo real. Sucedeu-se um esforço urgente para tentar evitar o caos. O cardeal Víctor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé — o organismo do Vaticano responsável pela salvaguarda da doutrina católica — chamou o padre Davide Pagliarani para uma reunião de emergência em Roma. No encontro, Fernández recordou a Pagliarani que a ordenação de bispos sem autorização papal teria como resultado inescapável a excomunhão automática e abriu a porta a memorando de entendimento que permitisse a criação de um diálogo teológico estruturado entre Roma e a FSSPX. O diálogo, destinado a encontrar caminhos de entendimento no futuro, tinha uma condição: as ordenações de julho teriam de ser suspensas.
Pagliarani regressou a Écône para refletir com o resto da cúpula da FSSPX e a resposta chegou poucos dias depois: não. Numa carta de várias páginas, a Fraternidade disse que o diálogo já começava torto, pelo que seria inútil como todas as tentativas do passado: Roma partiria para o diálogo já com a premissa de que o Concílio Vaticano II tem de ser aceite pelos católicos, incluindo na reforma litúrgica, no diálogo inter-religioso e na abertura da Igreja ao mundo contemporâneo. Os tradicionalistas não aceitavam cruzar essa linha vermelha e, por isso, não viam condições para o diálogo. Rejeitando a ideia de que pretendem romper com Roma, mas apenas manter-se fiéis à tradição e garantir a subsistência da sua organização, a FSSPX rejeitou a proposta de diálogo do Vaticano.
Para reconstituir o que aconteceu na reunião de emergência em Roma em fevereiro, é preciso ler os comunicados divulgados por ambas as partes. De acordo com o Vaticano, um dos tópicos mais controversos da reunião foi “a questão da vontade divina relativamente à pluralidade de religiões” — ou seja, a grande resistência da FSSPX à aceitação do diálogo inter-religioso. O Vaticano garante ter proposto à FSSPX um “percurso de diálogo especificamente teológico, com uma metodologia precisa, sobre assuntos que ainda não foram suficiente clarificados, como: a diferença entre ato de fé e ‘submissão religiosa da mente e da vontade’ ou os diferentes graus de adesão exigidos pelos vários textos do Concílio Vaticano II e a sua interpretação”.
Podia, portanto, concluir-se que o Vaticano estaria disponível para admitir que algumas conclusões do Concílio poderiam não ser aceites por todos os católicos? A dúvida permaneceu, sobretudo porque, de acordo com o comunicado da FSSPX, o objetivo do grupo tradicionalista em Roma não era o de obter uma reconciliação total, mas o de que o Vaticano permitisse, “consideradas as circunstâncias de todo particulares em que se encontra a santa Igreja”, que a FSSPX pudesse “continuar a operar na sua situação atual, excepcional e temporária, para bem das almas que a procuram”. O grande objetivo era manter o status quo de uma situação irregular, uma vez que não há condições para a reconciliação. O problema? Se Roma aceitasse isto, estaria a aprovar tacitamente a atuação da FSSPX. Os comunicados de ambos os lados são, de resto, claros ao afirmar que as duas partes saíram da reunião com o mesmo grau de discórdia com que entraram.
Durante alguns dias, o Vaticano alimentou a esperança de que a FSSPX pudesse aceitar, pelo menos, começar o diálogo — e suspendesse as ordenações. Mas a resposta, que chegou ainda em fevereiro, parece ter fechado a porta. “Não vejo como é que o processo conjunto de diálogo poderia culminar em chegar a acordo sobre o que constituiria ‘os requisitos mínimos para a comunhão plena com a Igreja Católica’ já que, como o senhor recordou com franqueza, os textos do Concílio não podem ser corrigidos, nem a legitimidade da reforma litúrgica pode ser posta em causa”, escreveu o líder da FSSPX, Davide Pagliarani. Por outras palavras: o diálogo seria inútil, uma vez que o Vaticano insiste na ideia de que qualquer conversa terá de partir da premissa de que o Concílio Vaticano II não está aberto “à livre interpretação”.
O líder da FSSPX também lamentou que o Vaticano só se tenha mostrado disponível para o diálogo quando a organização anunciou as ordenações episcopais e acusou Roma de ter ignorado os pedidos anteriores de aproximação. “No reconhecimento partilhado de que não podemos chegar a acordo na doutrina, parece-me que o único ponto em que podemos concordar é o da caridade em relação às almas e à Igreja”, termina a carta, que pede a Roma que deixe a FSSPX continuar a fazer o seu trabalho de acompanhamento espiritual e sacramental dos seus fiéis.
Últimos apelos do Papa ainda não surtiram efeito
Com a justificação do “estado de necessidade” em que a FSSPX se encontra e com a urgência de salvar as almas dos fiéis que recorrem às celebrações do grupo tradicionalista, a Fraternidade avançou mesmo com o grande evento, que arrancou na segunda-feira e terá o seu auge esta quarta-feira com as ordenações episcopais. O teólogo italiano Massimo Faggioli dizia recentemente à Associated Press que o grau de organização do evento e o investimento feito pela FSSPX mostra que, na verdade, “eles nunca ponderaram recuar”. Para a FSSPX, considera Faggioli, isto é também uma questão de identidade: apesar de tradicionalistas (e à semelhança do que tem acontecido, por exemplo, com os partidos da direita radical), estes grupos têm sido hábeis a dominar a comunicação digital e as redes sociais, atraindo cada vez mais jovens num ambiente de nova radicalização e de ressurgimento católico entre as novas gerações.
“O objetivo deles não é regressar ao grupo tradicional, mas reconquistar o monopólio dessa identidade ultra-tradicionalista”, considera Faggioli, descrevendo a FSSPX como uma espécie de “tradicionalismo 2.0” que não se importa de estar à margem da Igreja. Pelo contrário, o grupo parece estar a assumir cada vez mais a sua identidade cismática, antimoderna, contracultural — endurecendo os seus posicionamentos e rejeitando a ideia de regressar à comunhão total com Roma, preferindo retratar-se como ponta-de-lança da identidade tradicionalista. Apesar de a FSSPX negar formalmente a ideia de querer fundar uma hierarquia paralela a Roma, todos os sinais apontam nesse sentido.
O Papa Leão XIV não se encontrou pessoalmente com os responsáveis da FSSPX, mas ao longo dos últimos meses tem-se posicionado abertamente sobre o assunto. Há duas semanas, falando aos jornalistas, Leão XIV admitiu que o Vaticano estava a considerar lançar um novo apelo à FSSPX para que revertesse a decisão de ordenar bispos. “Mas a escolha é deles”, afirmou de seguida. “É preciso ter consciência do que isso significa para eles e para a Igreja. Certamente, a divisão entre os cristãos é sempre um ponto doloroso, mas eles recusam aceitar alguns elementos fundamentais da Igreja, começando por diversos pontos do Concílio Vaticano II. Se fizerem essa escolha, lamento, mas devemos seguir em frente.”
Esta segunda-feira, dia em que os católicos celebraram o dia de São Pedro e São Paulo — informalmente conhecido como o dia do Papa —, Leão XIV aproveitou a oração do Angelus para frisar que “talvez Pedro e Paulo não pudessem ter sido mais diversos um do outro”, mas que, “colégio dos apóstolos, Pedro e Paulo não foram adversários”. “Pelo contrário, tornaram-se quase o símbolo de muitas outras diversidades que o único Espírito compõe em unidade”, acrescentou Leão XIV, sem mencionar diretamente a FSSPX, mas deixando um apelo a que os católicos saibam “apreciar cada vez mais a catolicidade da Igreja”, ou seja a sua universalidade e diversidade, “reconhecer o seu valor ao serviço do encontro fraterno entre as pessoas e os povos, evitar tudo o que desgasta ou prejudica a comunhão, e perseverar no caminho ecuménico e no diálogo atento e franco com todos”.

A menos de 24 horas do início das ordenações episcopais, Leão XIV publicou o prometido último apelo, numa carta aberta dirigida a Davide Pagliarani. “A Igreja reconhece o apreço pela vida litúrgica, o empenho na formação sacerdotal, o zelo apostólico e o desejo de fidelidade à Tradição que caracterizam muitas pessoas e comunidades vinculadas a essa Fraternidade. Tudo isto motivou a atenção e a benevolência que os meus Predecessores vos manifestaram constantemente”, escreveu Leão XIV. “Neste espírito, e repleto de afeto cristão, peço-vos e suplico-vos do fundo do coração: reconsiderai! Exorto-vos a ter em conta, com muita atenção, o bem espiritual dos fiéis, porque a ação cismática que cometeríeis privá-los-ia da recepção lícita e, nalguns casos, até mesmo válida dos Sacramentos que eles amam e procuram para a sua santificação. A Igreja está disponível a um caminho de diálogo e de entendimento, que o Espírito Santo pode tornar possível e fecundo.”
“Rezo por vós, pois rasgar a Túnica inconsútil de Cristo é um pecado de extrema gravidade. Que o Senhor ilumine as vossas consciências e toque os vossos corações. Pela autoridade que recebi de Cristo, com o coração entristecido, mas ainda cheio de esperança, sinto o dever de vos pedir para desistirdes do vosso propósito, confiando estas intenções ao Coração Imaculado de Maria, Mãe do Bom Conselho”, terminou o Papa Leão XIV.
Na manhã desta quarta-feira, os dois bispos sobreviventes da FSSPX, Bernard Fellay e Alfonso de Galarreta, vão ordenar quatro novos bispos numa cerimónia que, como a própria FSSPX reconhece no livreto já publicado, teve de ser adaptada porque há pelo menos dois aspetos do ritual que vão ter de ser ignorados: a leitura do mandato do Papa (que não existe) e a obrigatoriedade da presença de três bispos (uma vez que a FSSPX já só tem dois). “Ao realizarem esta cerimónia, os bispos consagradores excluem em absoluto qualquer tentativa de usurpação da jurisdição do Soberano Pontífice”, lê-se no livreto. A menos que haja um recuo de última hora, a FSSPX deverá voltar esta quarta-feira à marginalidade em relação à Igreja Católica — arrastando com ela mais de meio milhão de fiéis por todo o mundo.